Muitas pessoas LGBT ainda sofrem de uma “violência de não existir”


Muitas pessoas LGBT ainda sofrem de uma “violência de não existir”

À conversa com…
Nuno Carneiro (nunoscarneiro@gmail.com)

Data
4 de Janeiro 2017

Entrevista

Isabel Freire

A expressão “violência de não existir” é de Nuno Santos Carneiro. Usa-a para designar a discriminação, o sofrimento e a desumanização que sentem ainda muitas pessoas LGBT (ou outras que não se identificam com normas sexuais e de género) no nosso país. Psicoterapeuta, professor e investigador da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, lembra que fazer ciência é tomar posição, refletir de forma crítica sobre o papel que pretendemos ter (ou não) na ajuda à dignificação do outro. Em 2007, Nuno Santos Carneiro concluiu a tese de doutoramento sobre construção da identidade homossexual, redes de apoio e participação comunitária. Nesta entrevista salienta lugares comuns que temos ainda relativamente às realidades LGBT. Exemplo? Não são só os jovens que se debatem com a ‘saída do armário’.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – Nos anos 1950, em Portugal, o beijo na boca em público era escandaloso e os seus praticantes insultados. Como é visto o beijo ou outras manifestações afetuosas se praticadas entre pessoas do mesmo sexo, no espaço público, hoje, em Portugal (70 anos depois)?
Nuno Santos Carneiro – Durante o Estado Novo a homossexualidade era alvo de criminalização. Só deixa de o ser com a revisão constitucional de 1982. Mais do que insultados, os homossexuais eram perseguidos, condenados. E muitos deles isolados, devido a uma intenção higienista – o Albergue da Mitra foi durante muito tempo o campo de concentração ‘à portuguesa’ para aqueles que praticassem o ‘crime homossexual’ e merecessem ‘castigo’.
Hoje dispomos de mecanismos constitucionais de combate à discriminação com base na orientação sexual. Em meados da década 1990 ganhámos um nome coletivo inexistente até à emergência politizada das associações de defesa dos direitos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e trans). Atualmente damo-nos conta de uma crescente visibilidade de práticas e desejos. Mas a discriminação social persiste. O legal não se fez acompanhar do social. O beijo entre pessoas do mesmo sexo prossegue como algo que faz cutucar cotovelos. Gera receios. É potencialmente motivo de injúria e de violência. Ainda é inscrito como ‘outro tipo’ de beijo. Têm de se escolher lugares seguros. Mas pensemos na persistente falácia – essa sim, perversa – que enaltece o beijo entre pessoas heterossexuais” como manifestação de felicidade e de consolidação relacional, em contraste com a tão frequente ideia de que pessoas do mesmo sexo que se beijam ou trocam publicamente afetos, expõem vergonhosamente a sua intimidade. “Até se podem fazer essas coisas, desde que seja dentro de casa”. E o beijo não se solta. Cala-se ou dissimula-se na maioria das vezes. Um espaço público sem diversidades afetivas livremente vividas e exprimidas, não é um espaço pulsante de cidadania.

SPSC – Muitos jovens (gays e lésbicas) enfrentam ainda contextos familiares e escolares profundamente homofóbicos. É possível alguém viver sem medo de se descobrir a si próprio, mesmo que viva num contexto de medo de ser descoberto p’lo outro?
NSC – O medo de si é uma inevitável e compreensível marca da discriminação. Continua a sê-lo. Descobrir-se como alvo de inferiorização nunca pode ser um processo destemido. Ressalte-se também que não é apenas em relação a jovens que tal sucede. Pessoas de todas as idades ainda se debatem com “contar” (ou não) a orientação sexual que escapa à norma. Ponderam se, quando, como e onde ‘sair do armário’. Muita gente se mantém ainda precisamente aí, num (ou até em mais do que um) armário, quando os contextos mesclam diferentes motivos de discriminação – por exemplo, o género, a precaridade, a etnia, a localização geográfica. Nunca é possível saber com certeza que reações merecerá a afirmação de si como não-heterossexual. Menos ainda hoje, num mundo saturado de discursos e práticas que em nada promovem a tão proclamada (mas tão pouco celebrada) diversidade humana. A diferença está, sim, nestas mesmas reações. Mas não está, a priori, em nós. Não reconhecer isto é culpar quem continua sendo vítima da marginalização.

SPSC – Há ainda pessoas a viverem a sua identidade homossexual ‘clandestinamente’, de forma prolongada no tempo e num regime de intolerância sem exceção ao nível dos seus círculos sociais. Que traços inevitáveis tem esta identidade vivida em segredo, na clandestinidade?
NSC – Antes até da assunção de uma identidade, devemos reconhecer a existência de práticas e desejos, entre as chamadas pessoas do mesmo sexo, sem que isso represente, necessariamente, um sentido de si como lésbica, gay ou bissexual. A identidade tem uma história recente, que esconde ou faz esquecer muitas destas vontades e/ou formas de relacionamento. Porque pressupõe que todos/as tenhamos que construir identidades pautadas pelas sexualidades, o que muitas vezes não acontece. A constante ostracização (tanto de práticas e desejos, quanto de identidades) causa inevitavelmente danos. Ideações e tentativas de suicídio. Processos depressivos e ansiosos. Isolamento social. Não integração (e abandono) escolar e profissional. Abuso de substâncias. Dificuldades de relação social e/ou amorosa. Desesperante insatisfação com as intimidades e/ou com as sexualidades, quando não a total incapacidade para a sua construção. Afinal, modalidades de profundo sofrimento que qualquer pessoa experiência, se for sujeita à discriminação, e se votada ao pior dos segredos, o segredo forçado de si mesmo, que é o fingimento imposto de nós próprios.
E as incitações ao ódio estão aí, bem à vista. Por todo o lado. De tantas maneiras. Quando alguém se encontra consigo e com outrem nesse reconhecimento (e só através de tal encontro), pode ir desvanecendo ‚a violência de não existir‘, como costumo chamar a estes modos de fazer sofrer e desumanizar pela rejeição.

SPSC – Enquanto psicoterapeuta, que trabalho faz com os pacientes quando a homossexualidade é vivida em conflito interno, e com angústia?
NSC – Trabalho com um espectro amplo de pessoas. Não só com aquelas que se auto-identificam como homossexuais, gays, lésbicas, bissexuais. Trabalho com possibilidades humanas. E com o que ensombra estas possibilidades: as dúvidas, as insatisfações, os sofrimentos, as necessidades de resistência aos múltiplos contextos de rejeição. Contrariamente a discursos absurdos recentemente tornados públicos em Portugal, relativos a uma perigosíssima pseudo-psicologia que promete mudar orientações sexuais, deve deixar-se muito bem claro que fazer psicoterapia no campo das diversidades sexuais e de género é ajudar a afirmar as relações da pessoa consigo mesma e com os contextos de rejeição dessa diversidade. Não o fazer, é reproduzir no espaço psicoterapêutico os horrores (mais do que bastantes) do mundo discriminatório em que vivemos. Mais de quatro décadas passadas desde a despatologização de lésbicas e gays, estas posições moralistas e abjetas, são obsoletas, ineficientes, patológicas, contrárias aos propósitos da psicoterapia e seriamente agravantes do desespero que motiva a procura de ajuda. O que faço na psicoterapia é o que me cabe fazer: estar com (e não contra) quem me procura.

SPSC – Há grupos de maior vulnerabilidade, dentro do contexto social das vivências homossexuais? Quais e que riscos acrescidos sofrem?
NSC – Há sempre vulnerabilidades mais profundas do que outras. Pensemos numa pessoa lésbica, bissexual, gay ou não identificada com as práticas e os desejos sexuais ou relacionais tomados como normativos, sem recursos pessoais e/ou materiais para a mudança, excluída porque é “velha”, sujeita à discriminação racial, vivendo contextos de perseguição férrea da “diferença”. Não estamos a falar de ninguém profundamente distante. Estamos a falar de tanta gente que está ao nosso lado, sem que possamos reconhecer, a maior parte das vezes, estas múltiplas discriminações. Porque a vulnerabilidade é isso: a produção de camadas diferenciadas de invisibilidade e de não reconhecimento de outrem. Os riscos são os de continuarmos a fazer com que algumas pessoas sejam ainda menos reconhecidas como humanas. Os riscos são os do agravamento da condição sempre bárbara de não se existir, de não se ser sequer pensável, de estar para lá dos limites da exclusão, porque até esta tem requisitos para ser identificada. Os riscos são os da total negação da pessoa, pelo que tudo pode acontecer.

SPSC – A comunidade LGBTQ é uma família funcional? Uma família muito unida? Outro tipo de família?
NSC – ão creio que em Portugal tenhamos uma comunidade LGBTQ. Temos representantes da luta contra a discriminação e pessoas que se envolvem, com diferentes intenções. Mas uma comunidade implica um sentido continuado e sólido de pertença, uma partilha de identificações face a essa luta e também de ‘desidentificações’ face ao que não nos representa. Não sinto que essa inexistência de uma comunidade seja em si mesma boa ou má. O que há que perceber é que diferentes pessoas/coletivos têm lutado por causas e por reconhecimentos diferentes, com formas de atuação diferenciadas, com discordâncias que entendo mais como proveitosas do que como indesejáveis. O que não podemos nunca é deixar que determinados discursos de entendimento das necessidades das pessoas LGBTQ se sobreponham a outros, e alimentem a invisiblização acrescida das pessoas invisibilizadas. À semelhança de outros países, temos visto esta luta muito centrada e investida precisamente numa ideia específica e sobrevalorizada de família e de formas relacionais, de que o casamento e a adoção entre pessoas do mesmo sexo têm sido o corolário. Mas somos muito mais do que isso e até possivelmente nada disso. Somos gentes de todos os tamanhos e feitios, de todas as vontades, de todos os desejos, ou não seríamos gente, mas sim ilustrações vivas de formas hegemónicas de viver/entender as nossas relações. Podemos até nem nos espelharmos em nenhuma das letras desta sigla. Só a diversidade de posições na luta pelas questões LGBT me parece fazer jus à amplitude do humano.

SPSC – Há pessoas que se definem como straight queer. O que é que esta ideia nos diz do ponto de vista da identidade, da pertença e da participação nos nossos dias?
NSC – Esta é uma definição sem sentido, incongruente. Uma definição desconhecedora do que implica cada uma das duas expressões usadas. Repare-se que o queer é não definível. Representa um fazer-se, e não um ser-se. Representa a subversiva reapropriação e transformação do insulto, numa assunção intencional da marginalização, do abjeto, do não querer estar nem ficar em qualquer norma. Queer representa, por isso, um querer e um viver diametralmente oposto ao straight. E é preciso dizer que ninguém é straight, assim como ninguém é queer, ainda que muitas pessoas se definam como tal. Ninguém é estanque, ninguém vive sem desvios face a si, face a outrem, face a todas as expectativas que se jogam sobre todas/os nós.

SPSC – Qual é a grande questão – a mais ‘desfragmentante’ ou fraturante – do ponto de vista das vivências identitárias e da sexualidade, que se coloca à humanidade nos nossos dias?
NSC – A grande questão é continuarmos a fazer destas vivências questões fraturantes. O que é fraturante é a criação cultural, social, política, ideológica dessa ideia de fratura. Todos somos sujeitos de desfragmentação e de fratura, seja no domínio das sexualidades, seja em qualquer outro domínio do que se percebe como humano.

SPSC – O estudo das identidades homossexuais é “muito bem recebido”, “bem recebido”, “menos bem recebido” ou “mal recebido” nos contextos de investigação académica em psicologia, em Portugal?
NSC – O estudo das identidades denominadas como “minoritárias” é algo “não recebido”. Falo dos programas curriculares que raramente tocam nestas temáticas (ou que quando o fazem, tomam muitas vezes posições reprodutoras da discriminação). Há exceções. Mas elas são isso… exceções, quer no que respeita à contemplação cuidada, crítica, culturalmente conhecedora das realidades LGBTQ, quer na capacidade de não reproduzir estereótipos e de, assim, se contribuir para a transformação social. Isso sabe-se quando se conversa com colegas, quando se faz o exercício da docência e da formação nestas temáticas, inclusive junto de públicos que há muito investigam e/ou desenvolvem práticas profissionais, nomeadamente as da psicoterapia (e de quem se esperaria um conhecimento cuidado sobre os temas em causa). Por muito que disponhamos já de muito boas investigações, elas são claramente insuficientes e muitas vezes desnecessárias (porque nada trazem de novo) ou nocivas, pelo desrespeito à sensibilidade necessária e aos cuidados deontológicos que requerem. Não é o mesmo fazermos investigação com sujeitos que não têm de esconder-se. Que não vivem o sofrimento decorrente dos constrangimentos contextuais e políticos. Deveríamos investigar em conformidade com as recomendações de cuidados acrescidos, quando se estudam pessoas socialmente discriminadas. Sente-se também que a investigação de domínios das identidades, subjetividades, sexualidades, práticas e desejos apelidados de “minoritários”, é muitas vezes votada ao desinvestimento, às dificuldades de publicação (inter)nacional, ao silenciamento, à reticência de serem entendidos como científicos. A academia ainda constrói e estabelece como “minoritários” o conhecimento, a investigação e a formação sobre “minorias”. Não admira que pouco se relativize e pouco se vá transformando a noção de “minoria”, em si mesma perigosa e inferiorizante.

SPSC – Ira Reiss – sociólogo norte-americano que lutou desde os anos 1950 pela credibilização da investigação sobre sexualidade nas ciências sociais – defende que a posição do cientista deve ser a de participação e envolvimento face aos problemas sociais que investiga. Considera aliás importante a existência formal de grupos de lobby nas ciências sociais. Outros cientistas defendem que só devemos defender causas enquanto cidadãos e não enquanto investigadores. Onde se situa neste debate?
NSC – A não implicação não existe. Fazer ciência é ter de tomar posição. É fazer escolhas relativamente ao que se estuda, como se estuda, para quê se estuda. É ter necessariamente de perceber que nenhuma destas temáticas está desprovida de revestimentos ideológicos e políticos. Porque as vidas nunca são vividas em vazios políticos. Mesmo quando não são sequer (re)conhecidas! São sempre políticas as (im)possibilidades de (re)conhecê-las. O que diferencia formas e intenções de fazer ciência (de conhecer o mundo que construímos através de filtros que são sempre os nossos) é assumirmos (ou não) que não é possível distanciarmo-nos do que investigamos, estabelecermos uma fronteira entre nós e os sujeitos que devemos escutar e ‘des-silenciar’. Se o lobby se reportar a um esforço concertado para a escuta e afirmação de quem precisa de voz e de visibilidade, então sim, que exista.  Situo-me, portanto, na necessidade de explicitamente dizermos onde e como nos situamos, bem como da reflexão constante (e profundamente crítica) sobre o papel que verdadeiramente queremos ter (ou não) na ajuda à dignificação do outro.

SPSC – Se o presidente da república entregasse a medalha da liberdade a um gay ou lésbica, pelo seu contributo para a ‘cidadania do amor’ em Portugal, quem acha que seria merecedor de tal reconhecimento?
NSC – Teriam de ser tantas medalhas quantas as pessoas que, mesmo sob as mais austeras adversidades, conseguem fazer o heróico percurso de uma vida com o menor medo possível. Mas também tantas quantas as pessoas que ficam pelo caminho, quando o mundo sonega e violenta as possibilidades de existirem. Premiar quem sai “dos armários” quando isso já é confortável ou nada ameaçador é um nada. Não é essa a condição habitual de quem vive na discriminação. Não são as lésbicas e os gays com privilégios que merecem medalhas. São todas/os os outros. E são uma imensidão, a que se juntam as pessoas que nem sequer sabemos que existem. Façamos real a utopia de não haver necessidade de medalhas.