As Infeções de Transmissão Sexual estão a aumentar

Data da Notícia: Março 6, 2017

As Infeções de Transmissão Sexual estão a aumentar

À conversa com…
Maria do Céus Santo, ginecologista, obstetra, com competência em Sexologia Clínica (pela Ordem dos Médicos), e coordenadora do Núcleo de Medicina Sexual da Sociedade Portuguesa de Ginecologia
ceusanto@gmail.com

 

Data
6 de Março de 2017

 

Entrevista

Isabel Freire

Maria do Céu Santo é coordenadora do Núcleo de Medicina Sexual da Sociedade Portuguesa de Ginecologia. Nesta entrevista à SPSC salienta a importância de novas campanhas de sensibilização para o uso do preservativo. É preciso alertar para os riscos das infeções de transmissão sexual, cujo contágio aumentou entre a população. Ginecologista e obstetra (no Hospital de Santa Maria e no Hospital da Luz), Maria do Céu Santo esclarece também as dificuldades (físicas e psicológicas) decorrentes do crescente adiamento da maternidade. Atualmente, muitas portuguesas recorrem já a bancos de esperma para engravidar quando chegam sem companheiro a uma idade avançada, e outras optam pela criopreservação dos ovócitos para salvaguardar a possibilidade de dar à luz, mais tarde.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – Como definiria ‘isso’, a que chamamos ‘relógio biológico’?

MCS – O “relógio biológico” é o desejo que a mulher sente para ser mãe. A idade em que é sentido varia. Algumas referem este desejo logo aos 20 anos. Aos 37/38 anos o relógio vira despertador. E com o avançar dos anos (sobretudo a partir dos 40) o alarme toca cada vez mais alto. A mulher sente pressão para engravidar espontaneamente – os óvulos têm prazo de validade e a sua qualidade vai diminuindo à medida que o tempo passa.

SPSC – Os homens também o sentem?

MCS – Os homens podem sentir o relógio biológico, mas não o despertador, pois produzem espermatozoides durante a vida toda (refira-se no entanto que a vitalidade dos espermatozoides também diminui com a passagem dos anos).

A partir dos 40 anos os homens sentem a pressão social. Preocupam-se por assumirem a paternidade demasiado tarde. Acentua-se a preocupação com a dificuldade geracional para educar.

SPSC – Na década de 1960, a idade média das mães no nascimento do primeiro filho era de 25 anos. Atualmente essa idade subiu para os 30 anos (Fonte Pordata). Que dificuldades reprodutivas podem acompanhar este adiamento da maternidade?

MCS – O aumento da idade média da maternidade para os 30 anos ainda não levanta problemas, porque só se considera que uma gravidez é de risco acima dos 35 anos. Porém, o organismo feminino vai ter de se adaptar às exigências da gravidez e em idades mais avançadas é mais frequente surgir diabetes e hipertensão, para além dos problemas genéticos. Aconselha-se as dadoras de ovócitos a fazem-no até à idade de 30 anos devido à qualidade dos mesmos. Recentemente uma grávida perguntou-me se eu fazia consulta de gravidez geriátrica, pois tinha 44 anos.

SPSC – Que dificuldades psicológicas estão associadas à gravidez tendencialmente mais tardia? 

MCS – Ansiedade para engravidar. Ansiedade e insegurança. Pressão nos relacionamentos. Quem não tem um parceiro estável (ou acabou uma relação nesta idade), vive focada na busca de parceiro para uma relação estável, tendo por objetivo a gravidez. Esta pressão pode tornar muito menos exigente a seleção do parceiro. E pode ter o efeito contrário. Pode levar o parceiro a afastar-se por se sentir pressionado para ser pai a curto prazo. Atualmente, muitas mulheres (algumas até por razões profissionais) recorrem a bancos de esperma ou a criopreservação dos ovócitos (para poderem adiar a maternidade).

SPSC – Nos anos 1970 era importante trazer o planeamento para a sexualidade. Será que agora é preciso trazer a sexualidade para o planeamento? Porquê?

MCS – A sociedade mudou com o aparecimento da pílula em 1962. Provocou a grande revolução sexual. Porque a pílula (anovolatórios) impede a ovulação. Permite ter relações sexuais sem gravidez. Além disso implicou uma melhor qualidade de vida: melhora a dismenorreia (dores durante a menstruação) e, geralmente, a TPM (Tensão Pré-Menstrual). Com o aparecimento de técnicas de reprodução medicamente assistidas, tornou-se possível engravidar sem sexo. A gravidez tornou-se possível para casais inférteis e casais homossexuais. Passámos a ter sexo sem gravidez e gravidez sem sexo.

SPSC – Que angústias e/ou que dificuldade sexuais são mais frequentes durante o recurso às técnicas de fertilização?

MCS – As situações são diversas. Medo de não atingir o objetivo. Angústia por aguardar o resultado, na data em que é suposto surgir a menstruação. O investimento físico e emocional é grande e a psicoterapia é fundamental. Por vezes, gastos do ponto de vista financeiro também podem representar um esforço significativo para os recursos do casal ou da mulher.

SPSC – Um casal que passou um determinado tempo a tentar engravidar, recorrendo a técnicas de reprodução assistida, pode ter dificuldade em recuperar uma sexualidade lúdica e espontânea?

MCS – Sim. O sexo passa a ser uma terapêutica com dias e horas marcados – sem espontaneidade – retirando à relação o lado romântico. E pode durar meses ou anos. A sexualidade fica associada a um fim específico (a gravidez), desfocando-se do prazer. Voltar à sexualidade lúdica e espontânea é por vezes difícil, necessitando frequentemente de psicoterapia.

SPSC – Nos anos 1970, Bertina Sousa Gomes encontrou ainda bem viva, em discursos femininos, numa aldeia da região de Viseu, a ideia de “uma mulher só engravida quanto tem prazer”. A ciência sabe a importância que pode ter (ou não) o prazer sexual para a fecundação?

MCS – Alguns estudos referem que durante o orgasmo feminino as contrações vaginais facilitam a motilidade dos espermatozoides até ao colo do útero.

SPSC – Em finais da década de 1970, a Comissão da Condição Feminina desenvolveu junto da população portuguesa, um importante projeto de informação sobre planeamento familiar, que teve o apoio das Nações Unidas. Na altura a ignorância era ampla e profunda. Hoje em dia, que campanha(s) de sensibilização estamos a precisar fazer?

MCS – As campanhas de sensibilização têm sido muito eficazes. A gravidez na adolescência (dos 10 aos 19 anos) passou de 152.071 casos em 1981, para 85.500 em 2015. (F.Pordata). A IVG (Interrupção Voluntária da Gravidez) também sofreu uma diminuição. Em 2013 foram registados 15.366 casos e em 2015 fizeram-se 14.469 (Pordata). Mas as infeções de transmissão sexual (ITS) têm aumentado. Penso que é urgente promover campanhas de sensibilização nesta área. É fundamental alertar para o uso do preservativo, único método que as previne. Atualmente existem preservativos sem látex (para quem tem alergias), com mais ou menos lubrificantes, com espessuras variáveis, permitindo uma escolha ajustada ao casal e à situação. As adolescentes bem informadas estão mais prevenidas para os riscos da gravidez não desejada e para o risco de contrair infeções de transmissão sexual. “Não usar preservativo não é uma prova de amor”.