“Tecnologias e internet permitem-nos tornar perto o que está longe”


“Tecnologias e internet permitem-nos tornar perto o que está longe”

À conversa com…
Manuela Moura, Psicóloga Clínica, Terapeuta Sexual e Psicodramatista, Membro da Direção da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e da APF

 

Data
4 de Maio de 2017

 

Entrevista

Isabel Freire

Manuela Moura, psicóloga clínica e terapeuta sexual com mais de 20 anos de experiência no âmbito da saúde sexual e reprodutiva (nomeadamente ao nível da educação sexual), pensa as questões afetivas e sexuais na relação com as tecnologias e a internet. Em muitas situações vem tornar próximo o que estava distante. E noutras tornar público o que era privado. Manuela Moura diz que nos tornámos uma sociedade voyeurista e narcisista, com uma constante necessidade de ser ‘gostado’, aprovado e reconhecido, numa dimensão relacional que é virtual.

 

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – As tecnologias e a internet estão a ‘mexer’ na noção de privacidade…

Manuela Moura – A tecnologia e internet potenciam um novo mundo que evolui diariamente. São parte integrante nas relações sociais, do trabalho ao lazer. Muitas vezes sem nos apercebermos dessa interferência. Já ninguém consegue imaginar-se a sair de casa sem o seu smartphone. Passámos a viver num mundo sem fronteiras geográficas. Pelo anonimato, acessibilidade e oportunidade, as tecnologias permitem o acesso às mais diversas formas de atividade sexual, permitem uma hiperespecialização dos interesses sexuais.

SPSC – Que problemáticas chegam ao consultório do terapeuta sexual, decorrentes da interferência das tecnologias de informação/comunicação no domínio dos afetos e das sexualidades?

MM – Na prática clínica deparamo-nos facilmente com o problema da procura na internet de uma rede social de relações que não existe num mundo real, e com a procura de conteúdos e interações de cunho mais sexual. Surgem pedidos de ajuda porque existe um outro na relação do casal. Um dos elementos descobre uma vivência paralela por parte do/a parceiro/a. É menos frequente ser o próprio a fazer o pedido de ajuda, por sentir desconforto e mal-estar com o seu comportamento.

SPSC – A noção de público e privado mudou muito…

MM – Hoje, temos centenas de amigos no facebook, instagram ou tweeter. Na sua maioria não os conhecemos. Não são próximos afetivamente. Apesar disso, sabemos os seus gostos, com quem estão e o que fazem a cada momento. Tudo isto quase ao minuto. O que fazia parte da esfera privada (da pessoa e do casal) passou a ser público. Tornámo-nos numa sociedade voyeurista, mas também narcisista, com uma constante necessidade de aprovação e reconhecimento do outro, que é medido pela quantidade de likes. Esta ausência de fronteiras leva para o domínio público a própria vivência dos relacionamentos e da sua intimidade. Nas redes sociais, a pessoa permite-se mandar mensagens sobre sentimentos, dos mais apaixonados aos mais desiludidos. Iniciam-se relações amorosas (mas também se terminam relações).

SPSC – O que o cibersexo pode trazer de novo (positivo e negativo) na forma de pensar e sentir o prazer sexual?

MM – As novas tecnologias e a internet trazem-nos um “admirável mundo novo”. Permitem-nos tornar perto o que está longe. Fantasiar e explorar vivências sexuais que nalguns casos talvez não fossem possíveis de outra forma. A webcam veio reforçar a interação. E atualmente já existem aplicações de telemóveis que possibilitam interação com recurso a objetos sexuais como vibradores, masturbadores ou roupa íntima. O Fundawear é um projeto da Durex interessante. Trata-se da criação de uma linha de roupa interior vibratória, com uma aplicação para smartphone, que permite estimular o/a parceiro/a à distância. A utilização da tecnologia ao serviço do prazer sexual é hoje uma realidade. Existem apps para todos os gostos. Para procurar um encontro sexual casual. Para concretizar a prática de swing. Para realizar determinados fetiches. Podemos ver nesta tecnologia um contributo para aproximar as pessoas (ajudando a elaborar a fantasia e a aumentar o desejo e gratificação sexual) ou pensar na facilidade com que individualiza o ato sexual.

SPSC – Que práticas cabem na ideia de cibersexo?

MM – Os primeiros estudos sobre comportamentos sexuais na internet são da década de 1980/90. A tecnologia estava muito no seu início. Predominavam as salas de chat. O cibersexo definia-se pela procura de envolvimento em conversas e atos sexuais online, em tempo real. Hoje, este conceito é mais abrangente. Trata-se de uma atividade sexual e/ou a exploração de conteúdos erótico-sexuais, com vista a proporcionar excitação sexual, recorrendo às diversas tecnologias disponíveis online. Estamos a falar de interações sexuais com partilha de linguagem sexual, fantasias, fetiches, seja em modelo de texting ou usando webcam, mas também a exploração de conteúdos sexuais, pornografia ou software multimédia.

SPSC – Que riscos e problemas estão mais associados aos cibersexo?

MM – O uso da internet pode facilmente passar de recreativo a problemático e daí a um comportamento aditivo. Facilmente se perde a noção do tempo quando se está online. A web em um elemento de constante novidade e imprevisibilidade. Facilita conteúdos previamente inacessíveis (alguns ilegais). Muitos investigadores consideram o cibersexo potencialmente aditivo. Veem-no como uma das mais crescentes adições da atualidade, à semelhança do jogo.

Quando a pessoa que se encontra numa relação afetiva, desenvolve um comportamento aditivo de cibersexo, é frequente que esconda o seu comportamento. É frequente que o excesso de horas passadas online se reflita numa perda substancial das horas de sono, afetando a dimensão laboral, familiar e relacional (menor investimento num parceiro sexual na vida real). Além disso, a perceção do anonimato que a internet propícia é simultaneamente libertadora e facilitadora da expressividade sexual, mas desconhece-se quem pode estar do outro lado, bem como as sua intenções.

SPSC – Atualmente, os jovens têm muito o hábito de pedir nudes (imagens ou vídeos de teor erótico ou sexual) uns aos outros. Como podemos ler esta interação sexual mediada pela tecnologia?

MM – Não só os jovens. Também os adultos das mais variadas faixas etárias. O sexting está muito generalizado. Começou com mensagens escritas de conteúdo sexual, depois passou a incluir a partilha de imagem (partes do corpo ou práticas sexuais) no smartphone, tablet ou PC. A exposição do corpo é cada vez maior. O meu corpo (aquilo que faço na minha intimidade) entra num domínio público, sem que haja uma noção crítica desse gesto. Muitos jovens relativizam esta exposição do corpo: “todos os fazem”, “não tenho vergonha”. Outros falam de uma necessidade de aprovação: “gosto de me sentir desejada/o”, “quero que digam que sou bonito/a, que tenho um bom corpo”. A mediação das relações é feita através do corpo e muito pouco elaborada do ponto de vista emocional. Além disso, para a grande maioria dos jovens, é muito difusa a perceção do que é uma interação consentida e uma interação coerciva.

SPSC – Não raramente, estas nudes – que foram cedidas num registo privado – são partilhadas sem consentimento nas redes sociais, originando problemas graves. Como prevenir e combater este problema?

MM – Com trabalho de equipa entre a escola, a família, a comunicação social, a comunidade em geral. A prevenção de comportamentos de riscos, e mesmo a minimização dos danos, faz-se recorrendo aos meios tecnológicos usados por estas gerações. Aos pais, cabe acompanhar, estar atento, balizar o que é ético e seguro. Para pais que não dominam as tecnologias, trata-se de um verdadeiro desafio (senão uma missão impossível). Pela primeira vez na história assistimos a um fenómeno em que as gerações mais novas detêm maior conhecimento e poder do que as gerações mais velhas. Temos hoje na sociedade grupos geracionais diferentes: os que nasceram antes da internet e das tecnologias (antes dos anos 1980); os que nasceram em plena revolução tecnológica e cresceram com ela (anos 1980/90); e os que nasceram em plena era digital (depois dos anos 1990) e se encontram intimamente ligados à expansão exponencial da internet e da tecnologia. Estes grupos geracionais têm uma linguagem e conceções diferentes do que é a comunicação, do que são relacionamentos, amizades, intimidade, privado/público. Combater riscos e problemas associados à internet, implica ter noção destas diferença geracionais. A promoção e educação para a saúde passa por incentivar momentos reais de vida saudável, de interações gratificantes e facilitadoras da expressividade emocional.