Uma mulher pioneira no desempenho da terapia sexual em Portugal

Data da Notícia: Agosto 5, 2017

Uma mulher pioneira no desempenho da terapia sexual em Portugal

À conversa com…
Maria Fernanda Silva Mendes

 

Percursos…
Sócia fundadora e presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica entre 1994 e 1995. Psiquiatra e terapeuta sexual, publicou em 2014 o livro Sexualidade Redonda e Circular. Em 2006 apresentou doze programas sobre Sexualidade na RTP-Açores. Foi deputada à Assembleia Legislativa Regional dos Açores (VI, VII e VIII Legislaturas) e Vice-Presidente da Assembleia Legislativa Regional dos Açores.

 

Data
5 de agosto de 2017

 

Entrevista

Isabel Freire

 

Maria Fernanda Silva Mendes foi o elemento feminino de uma equipa pioneira na intervenção em sexologia clínica em Portugal, nos anos 1970. Com o psiquiatra Allen Gomes fez avançar a “Consulta de Ginecologia Psicossomática e Sexologia” dos Hospitais da Universidade de Coimbra, em 1975. Juntos tentavam então aplicar o protocolo de Masters e Johnson, que recomendava a existência de uma equipa mista (masculino e feminino) de co-terapeutas, para tratamento do que então se considerava “o casal” (à época genericamente entendido como apenas heterossexual). Psiquiatra e terapeuta sexual, Maria Fernanda revê nesta conversa algumas representações da sexualidade (e da sexologia), em Portugal, dos anos 1960 aos nossos dias.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – Tanto quanto sei, foi a primeira médica a trabalhar em Portugal numa equipa de terapia sexual (anos 1970, Hospitais da Universidade de Coimbra, em parceria com Allen Gomes). Como sentiu/viveu esse momento?

Maria Fernanda Silva Mendes – Penso que sim, que terei sido a primeira mulher a trabalhar em terapia sexual. Essas intervenções terapêuticas realizadas no Serviço de Psiquiatria (do antigo Hospital da Universidade de Coimbra) foram efetuadas em 1975. De início desempenhei o papel de co-terapeuta do Dr. Allen Gomes. Nesses primeiros casos tentou-se aplicar ipsis verbis o protocolo de Masters e Johnson, que referia ser fundamental a existência de uma equipa de terapeutas (homem e mulher), para tratar um casal (subentendia-se à época que um casal se tratava de um homem e de uma mulher). Esta experiência foi mais um desafio na minha aprendizagem. Eu era uma jovem médica policlínica, monitora de psiquiatra, à espera de fazer o serviço médico à periferia, para ingressar no internato de especialidade. Neste período da minha vida profissional a aprendizagem era tudo. Em Portugal vivia-se ainda sob o efeito revolucionário do 25 de Abril de 1974. Não só ao nível político (institucional), mas também social e cultural. Descobrir e fazer o novo era uma força motriz bem presente. Aceitei o desafio lançado pelo Dr. Allen: estudar os protocolos para de seguida ouvir, compreender, e ajudar pessoas em relação às questões da sua intimidade sexual. Esta experiência tornou-me, sem qualquer dúvida, melhor médica e melhor pessoa.

SPSC – O que se pensava e se dizia entre a comunidade médica relativamente a esta consulta de sexologia pioneira, mas também em relação a haver uma mulher na equipa clínica?

MFSM – Apesar da formação científica, a comunidade médica (à semelhança de muitas outras) refletia aspetos socioculturais das suas origens. Maioritariamente, era uma comunidade conservadora, designadamente no que respeitava às questões da sexualidade, embora existissem focos ‘subversivos’: médicos/as ligados aos cuidados em Planeamento Familiar, no âmbito da Ginecologia. Historicamente, em Coimbra, a Sexologia Clínica e o Planeamento Familiar estiveram desde o seu início, de mãos dadas – foi aliás nas instalações da Consulta Externa do Serviço de Ginecologia, que se instalou a “Consulta de Ginecologia Psicossomática e Sexologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra” (serviço que à época era dos que tinha mais mulheres). Talvez por isso, o facto de ser mulher tenha sido irrelevante. A equipa da consulta de Sexologia era composta pelo Dr. Allen Gomes (psiquiatra), pela Drª Isabel Araújo, (Ginecologista) e por mim. Num contexto mais geral, não era bem assim. Em 1979, quando no I Simpósio Internacional sobre Ansiedade, no Porto, apresentei a comunicação “Abordagem das Disfunções Eréteis em Homens Solteiros” (Maria Fernanda Mendes e Francisco Allen Gomes), o comentário de um participante (psiquiatra mais velho), para o colega ao lado foi o seguinte: “uma mulher não devia saber tanto de sexo”.

SPSC – Que ideias erróneas do desempenho sexual feminino se combatia então – meados dos anos 1970 – em termos clínicos?

MFSM – Os conhecimentos derivados das investigações de Masters e Johnson foram publicados em Portugal, em 1972. Eram portanto muito recentes. Com a entrada da pílula no mercado português (em 1962), e a consequente separação das componentes erótica e procriativa da relação sexual, passaram a estar reunidos os fatores fundamentais para se dar início à mudança do paradigma da função sexual humana, matéria diversa a ser trabalhada nas consultas.
A ignorância de tudo o que dizia respeito à sexualidade era enorme. Raras mulheres conheciam os seus genitais. Explicar o papel do clitóris no prazer e no orgasmo feminino (as dificuldades e as disfunções orgásticas eram a maioria), e dar a conhecer a variedade da resposta feminina, era parte fundamental da consulta.

Por isso, no meu livro Sexualidade Redonda e Circular senti necessidade de escrever um texto sobre a vulva, tentando desconstruir a sua imagem negativa. Designei-o por A TUA FLOR [Sob a prisão do recolhimento]: “[…] porque não a posso admirar, ver os seus contornos, como o os do teu rosto; o seu rubor, como o das maçãs das tuas faces; e o carmim dos seus, como dos teus lábios; […] Encantei-me quando, deixando de lado qualquer hesitação, a ela me dirigi, de olhos, mãos e lábios virgens, e com dedos em pinça abri-a para poder antever, ligeiramente recolhido sob o seu habitual manto, o botão por abrir; deslumbrado, apercebi-me da sua beleza e fragilidade e, ao mesmo tempo, da sua imponente força na consagração dos segredos do deleite do meu amor.”

Em 1979, […] no Simpósio Internacional sobre Ansiedade, no Porto, quando apresentei uma comunicação, […] o comentário de um psiquiatra, mais velho, foi o seguinte: “uma mulher não devia saber tanto de sexo”.

SPSC – E em termos do desempenho sexual masculino?

MFSM – O homem aparecia nas consultas, na sua grande maioria, por queixas relacionadas com a ereção. Disfunções eréteis (grande parte secundárias e circunstanciais) de causas psicogénicas. Predominava na sexualidade em geral, e na masculina em particular, o mesmo grau de desinformação que na mulher. O mito da ‘prontidão’, e da apetência constante, e o achar que o desempenho sexual da parceira era decalcada da sua, obrigava também a uma intervenção psicopedagógica incisiva e constante. O temor do desempenho era, nesses casos, uma componente fundamental. Também trato o tema no meu livro (acima citado): “[…] Sei que sofres a dor da ausência, da fuga da força maiúscula do teu corpo, esmagada pelo desejo e pelos masculinos temores; desencantado, tudo repetes em rotinas falidas à procura de ti e da tua prontidão […] um dia hás de esquecer, seja lá o que for que te leva à paralisação. E, nesse dia, numa tarde de morna paisagem e sem destino aflito, irás despertar e verás que a força da tua natureza nascerá da fraqueza de te entregares, sem medo, à revolução que a própria tormenta encerra; e, nesse momento em que o teu controle nada acode, nem aprisiona, nascerá do teu peito a força que se encerra no teu ventre, abaixo do teu perdão”.

SPSC – Lembra-se do primeiro caso e de como o pensaram?

MFSM – Tratava-se de um jovem casal de namorados (estudantes universitários), que tinha decidido iniciar relações sexuais. Tiveram diversas dificuldades, instalando-se, por essa razão, uma incapacidade orgástica situacional (classificação de Helen Kaplan) ou circunstancial (classificação de Masters e Johnson). Este caso clínico foi apresentado numa reunião de Ginecologia, como uma espécie de caso padrão, para dar a conhecer à comunidade médica, as consultas de Sexologia (ver BOL. Soc. Port. Ginecool., 1977, 2, 115). Tratava-se de uma disfunção sexual feminina, de pouca duração, o que facilitava a análise das causas. Mostrava que uma disfunção pode surgir por falta de informação sexual e contingências negativas na primeira relação. Espelhava como o temor de desempenho pode funcionar como fator de manutenção da disfunção. Escolhemo-lo porque foi um dos casos em que se seguiu rigorosamente o protocolo de Masters e Johnson, e por se tratar de um caso assético e escorreito, por isso de fácil aceitação da matéria sexualidade, por parte da comunidade médica.

SPSC – Há alguma história da sua experiência terapêutica da sexualidade, que guarde como uma ‚pérola’?

MFSM – Aconteceu no âmbito consulta de Sexologia do Hospital de Ponta Delgada, na década de 1990. Um homem (de sessenta anos) é enviado à consulta pelo seu médico, por disfunção erétil secundária após doença do foro pulmonar. Feita a primeira consulta, e para poder dar início à terapia de casal, pedi-lhe que regressasse, dali a duas semanas, depois de terminar os seus tratamentos médicos, e que viesse acompanhado pela esposa. Tratava-se de uma família numerosa, rural, de literacia mínima, com filhos solteiros adultos. Chegado o dia da consulta, fez-se acompanhar por uma mulher decidida, e fisicamente encorpada. Comecei por lhe explicar porque tinha pedido a sua presença, ao que, de prontidão, me respondeu com voz enérgica e sonante, que não mais voltaria à consulta porque o marido só não tinha relações sexuais porque não queria. Acrescentando que, uns dias atrás, tinha tido relações sexuais por três vezes, no mesmo dia, mais ou menos seguidas. Entretanto, venho a saber que a melhoria (súbita e inesperada), tinha sido causada por uma cassete. Por engano, o paciente colocara no leitor de vídeo um filme do filho, que passava coisas que não imaginava. “Aquilo mexeu comigo”, explicou. “Enquanto via ‘aquilo’ senti a minha ‘pombinha’ ficar dura, e muita vontade de ter relações com a minha esposa”. Assim se fez um tratamento rápido e sem custos médicos. Ficou demonstrado o papel das fantasias sexuais no desempenho sexual.

SPSC – Que questões são hoje mais intrigantes para si, em termos da sexualidade humana?

MFSM – O que se passará no desenvolvimento ontogénico e filogénico dos seres humanos, para haver a diversidade sexual que hoje começa a ser reconhecida, estudada e aceite? Na evolução da espécie humana o aparecimento da resposta prazenteira no desempenho sexual não ocorreu certamente ao mesmo tempo e de igual modo para todos os humanos. Porquê impor-se um padrão/modelo, definível do que deve ser um indivíduo biológica e psicologicamente bem sucedido sexualmente? Não será isso uma falácia?

SPSC – Como definiria um bom terapeuta sexual?

MFSM – É aquele que munido de um vasto arsenal de conhecimentos relativos à sexualidade, seus problemas e abordagens terapêutica, é capaz, de uma forma humana e com uma atitude empática e tolerante, compreender o problema, dificuldade ou disfunção do sujeito paciente ou do casal, como algo específico e único. É alguém capaz de conceptualizar as queixas, informar e atuar como catalisador da comunicação entre o casal, desfazendo ideias erróneas, mas não impondo valores pessoais e não utilizando atitudes paternalistas. A interação, se for caso disso, deve ser entre o casal, e não entre estes e o terapeuta (como é referido no artigo “A Relação terapêutica em Sexologia”, de Francisco Allen Gomes, Maria Fernanda Mendes, e Maria Isabel Araújo, publicado em Psquiatria Clínica, 1, Supl. (1),pp. 157-160,1980).

[Um terapeuta sexual deve ser] alguém capaz de conceptualizar as queixas, informar e atuar como catalisador da comunicação entre o casal, desfazendo ideias erróneas, mas não impondo valores pessoais e não utilizando atitudes paternalistas. A interação, se for caso disso, deve ser entre o casal, e não entre estes e o terapeuta

SPSC – Que ideias erróneas é preciso combater ainda nos nossos dias, em termos do desempenho sexual masculino?

MFSM – É necessário continuar a combater a ideias de que não há espaço para o mau desempenho. Tanto assim é que o consumo, sem indicação médica, dos comprimidos vasoativos (do espetro “dos azuis…”) é elevado entre homens adultos jovens. Para melhoria destes aspetos é necessário trabalhar, através dos diferentes os meios de comunicação, a diminuição do foco sexual masculino na genitalidade, na sua vertente coito, e alargá-lo ao vasto campo da sensualidade.

SPSC – E do desempenho sexual feminino?

MFSM – Em relação aos anos setenta, podemos dizer que o fiel da balança mudou, pendendo na atualidade para a questão da diminuição do desejo. Por isso, importa fazer a distinção entre desejo e excitação, porque se por um lado o desejo leva invariavelmente à excitação e respetiva lubrificação, a excitação pode surgir na sequência do estímulo sexual, mesmo na ausência de desejo, levando do mesmo modo à interação sexual. “Disponibilidade” deverá ser a palavra-chave para homens e mulheres interagirem sexualmente. “Prazer” a segunda palavra. E tudo o resto deveria pertencer ao âmbito do extraordinário – não tem de acontecer sempre.

SPSC – Faz sentido continuarmos a diferenciar, tão marcadamente, o desempenho sexual por dois géneros?

MFSM – Não faz sentido, porque a diversidade é a razão de se ser humano em toda as suas vertentes, onde obviamente a sexualidade e as suas expressões se incluem, constituindo uma matéria, por excelência, do interesse e do estudo em Sexologia. No entanto, tendo em conta a prevalência das questões, problemas e disfunções sexuais nas nossas sociedades ocidentais, faz algum sentido continuar a diferenciar o desempenho sexual tendo em conta os dois géneros.

SPSC – Qual o último discurso nocivo da saúde sexual, que viu ou escutou por aí (seja na literatura, na música, no cinema, nas telenovelas, nos media…)?

MFSM – É a constante tentativa, nos mais diversos discursos, de idealização do sexo (de forma direta ou subliminar), quase em contraponto à anterior funesta idealização do amor romântico. A tentativa de uma padronização superficial e em constante mutação, para que sejam consumidos os produtos que ajudarão a estar-se em conformidade social sexual. Não importa se é um filme, um qualquer estilo de roupa, um instrumento de submissão e dominação, uma receita para o corpo ideal sexual, o restaurante para o jantar romântico. O que me chama a atenção (e me preocupa) não são os produtos em si, mas a mensagem de norma e de modernidade colocados no efémero. Assim encurralada, a sexualidade é levada a categoria de um nicho de mercado, transformando-a num produto, numa coisa, num objeto a ser consumido para se estar na norma, e na moda. Com isto, a pessoa humana tem grandes dificuldades em ultrapassar a instabilidade e ansiedade próprias do seu desenvolvimento, quando ainda anda à procura do seu modo sexual de ser e estar, em função das suas características individuais e das melhores escolhas para o seu equilíbrio psicossexual.