Seremos nós as relações que temos? Porventura seremos

Data da Notícia: Novembro 6, 2017

Seremos nós as relações que temos? Porventura seremos

Uma reflexão de…

Sofia Neves, docente e investigadora do Instituto Universitário da Maia (ISMAI), membro do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género (CIEG – ISCSP, ULisboa) e Presidente da Direção da Associação Plano i.

 

Percursos…
Licenciada em Psicologia (1999) e doutorada em Psicologia Social (2005). Integra os grupos de trabalho da Violência Doméstica e de Género, da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, e da Intervenção do Psicólogo com pessoas LGBT, da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É autora de vários artigos em revistas da especialidade nacionais e internacionais, assim como de capítulos de livros e de livros, dos quais se destacam Amor, Poder e Violências na Intimidade: os caminhos entrecruzados do pessoal e do político (2008), Vitimologia: Ciência e Ativismo (2010), Género e Ciências Sociais (2011), Intervenção psicológica e social com vítimas (Volumes 1 e 2) (2012) e Violências na Contemporaneidade no Brasil e em Portugal (2015).

 

Data
6 de Novembro de 2017

Há quem diga que somos as relações que temos. Porventura seremos. Se a nossa identidade é relacional e socialmente construída (e.g., Gergen, 2009) seremos, de forma mais ou menos explícita, o reflexo das relações que vamos tendo ao longo da vida. A sua qualidade determina, em parte, a nossa saúde e esta, em larga medida, o nosso bem-estar físico, psicológico, sexual e social.

As relações que estabelecemos com pessoas significativas parecem ser aquelas que mais nos influenciam no curso do nosso desenvolvimento, quer positiva, quer negativamente. Relações seguras, emocionalmente investidas e nutridas por afetos, promovem habitualmente estabilidade, confiança, sentido de eficiência e motivação para a autossuperação, ao passo que relações inseguras, rejeitantes, hostis ou violentas geram, não raras vezes, mal-estar, inadaptação, sofrimento e desesperança. Vários estudos (e.g., Hale Ma, Hannum, & Espelage, 2010; Holt-Lunstad Smith & Layton, 2010) sugerem que as pessoas cujas relações sociais são inexistentes ou de reduzida qualidade estão em maior risco de desenvolver sintomatologia psicopatológica, doenças físicas ou morrer prematuramente, quando comparadas com outras cujas relações sociais são satisfatórias e gratificantes. Por outro lado, pessoas que desenvolvem vínculos sociais decorrentes de relações de qualidade têm melhores indicadores de saúde, envolvem-se menos em comportamentos de risco e estão mais orientadas para o sucesso (e.g., Minayo, Hartz, & Buss, 2000; Uchino, Bowen, Carlisle, & Birmingham, 2012). São, em suma, mais felizes.

Dentre as relações significativas que vamos estabelecendo, as de intimidade afiguram-se como especialmente determinantes na nossa saúde e no nosso bem-estar. A vivência da intimidade pressupõe, quando adequada, a assunção de uma pertença afetiva securizante. Saber-se parte integrante de uma relação de intimidade que se constitui como fonte de suporte, e que é responsiva sempre que convocada, é essencial na perceção do eu e da relação do eu com os outros. Quando disfuncional, pelo contrário, a vivência da intimidade pode afetar a visão que elaboramos a respeito de nós mesmos/as e dos outros, comprometendo o nosso autoconceito, a nossa autoestima e a nossa autoeficácia e constrangendo a nossa disponibilidade de nos entregarmos aos outros emocional e socialmente.

A educação para a cidadania íntima, aqui entendida como o conjunto de processos, práticas e discursos que regula e molda o exercício da agência na intimidade […] pode ser, por isso, parte da solução para o problema da ausência de democratização nas relações sociais de género

A investigação (e.g., Rudman & Glick, 2012) também sugere que embora homens e mulheres beneficiem daquilo que as relações de intimidade lhes podem proporcionar, estas assumem, em função do sexo, significados diferenciados. Tais evidências parecem estar relacionadas com as expectativas sociais que uns e outras criam em torno dessas relações, por um lado e, por outro, com a valoração que socialmente é atribuída à intimidade de acordo com o sexo de quem a vivencia. Assim, as mulheres tendem a reconhecer, mais do que os homens, a centralidade das relações de intimidade nas suas vidas, razão pela qual parecem envolver-se mais ativamente na sua procura e retirar delas, quando positivas, maior satisfação. Vários autores/as (e.g., Carol Gilligan) defendem mesmo a ideia de que, no caso das mulheres, a intimidade e a identidade são processos fusionais, não sendo possível determinar onde começa um e termina o outro.

Na realidade, as prescrições de género empurram as mulheres para a esfera da emoção, reservando para os homens a esfera da racionalidade (Amâncio, 1994). Elas querem-se afetos, eles querem-se razão. Invocando-se o argumento da natureza e da respetiva condição biológica de cada um dos sexos, a construção da identidade das mulheres foi estando, ao longo da História, subordinada à competência do cuidar-proteger (sobretudo no contexto da família), estando a dos homens subordinada à do fazer-produzir (predominantemente no espaço público) (Burleson, 2003; Torres, 2004). O investimento nas relações de intimidade não tem sido, como daqui se depreende, aquilo que mais se tem esperado dos homens. Por contraste, é quase tudo o que se tem esperado das mulheres. Refira-se, a título ilustrativo, a reprovação social que pende, ainda hoje, sobre as mulheres que escolhem não constituir família ou, escolhendo fazê-lo, decidem não ter filhos/as. Complementarmente, a desvalorização social que sofrem os homens que chamam a si a responsabilidade familiar, deixando para segundo plano o desempenho profissional. Em qualquer um dos grupos, as prescrições de género têm funcionado como barreiras à autodeterminação, fixando como normativos certo tipos de comportamentos, pensamentos e sentimentos e como desviantes aqueles que os desafiam. O campo da intimidade não constitui exceção a esta regra (e.g., Prentice & Carranza, 2002).

Resultados de vários estudos (e.g., Petersen & Hyde, 2010) indicam, por exemplo, que os homens despertam mais cedo para a atividade sexual do que as mulheres, tendo inclusivamente mais parceiras/os ao longo da vida, por terem aparentemente menos necessidade do que elas de se envolverem em relações de intimidade, relações estas que exigem mais conhecimento mútuo e confiança. Se para as mulheres estes fatores parecem servir de substrato para a atividade sexual, para os homens não necessariamente, podendo ser a intimidade e a sexualidade faces de uma moeda diferente. Com efeito, a sexualidade desvinculada de relações de intimidade convencionais e socialmente reconhecidas, como é exemplo mor o casamento, tem sido negada às mulheres, como se a sua honra fosse proporcional à sua resistência celibatária fora do espaço matrimonial. Esta visão restritiva da sexualidade feminina, cujos fins seriam essencialmente os de procriar é, ainda hoje, espartilho de muitas mulheres que a experimentam com se ela fosse pecado. As amarras à sexualidade feminina têm sido um dos redutos da liberdade das mulheres, privando-as da expressão sem culpa do desejo e do prazer (e.g., Tolman & Tolman, 2009).

A vivência das relações em geral, e das relações de intimidade em particular, é pois, socialmente regulada e é-o em função do sexo, a par de outras características, como é o caso da idade, da etnia, da orientação sexual, entre outras, de quem a experimenta. Qualquer análise que lhes seja dirigida não pode, por isso, fazer-se sem um enquadramento interseccional (Crenshaw, 1991), isto é, sem considerar a forma como diferentes pertenças identitárias se entrecruzam. As histórias de intimidade são um recurso importante de aquisição, manutenção e reconfiguração das identidades interseccionais (Wilkins, 2012), dependendo dos lugares de privilégio e de opressão ocupados por cada um/a. Partindo do princípio que as mulheres ocupam mais do que os homens lugares de opressão, inclusivamente nas suas relações de intimidade, antecipa-se que a suas identidades sejam, mais do que as deles, marcadas pela ausência de poder.

A educação para a cidadania íntima, aqui entendida como o conjunto de processos, práticas e discursos que regula e molda o exercício da agência na intimidade (Roseneil, Crowhurst, Hellesund, Santos, & Stoilova, 2011) pode ser, por isso, parte da solução para o problema da ausência de democratização nas relações sociais de género.

É tempo, pois, de reconfigurar expectativas sociais e de desfazer prescrições de género, sendo aquilo que quisermos ser nas relações que quisermos ter.