Eu, tu e o vírus

Data da Notícia: Janeiro 12, 2018

Eu, tu e o vírus

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Uma reflexão de…
Gonçalo Lobo, presidente da ABRAÇO, psicólogo clínico e sexólogo.

 

Percursos…
É licenciado em psicologia, com especialidade em psicologia clínica e da saúde e subespecialidade em sexologia. É pós-graduado em psicopatologia da infância e da adolescência, em neurociências e técnica de Rorschach e encontra-se, atualmente, a finalizar a sua especialidade em psicoterapia existencial.

 

Data
12 de janeiro de 2018

Já assisti, e vivi na primeira pessoa, a vários inícios de relações amorosas, por isso falo com conhecimento de causa. Aliás, creio que muitos de nós sabem o que é viver o início e o fim de uma relação. Já vi relações nascerem de uma noite de sexo, do tradicional “só no terceiro encontro é que há beijinhos e no quinto é que vamos para a cama”, assim como, dos eternos amigos que se tornam um casal. Seja no jantar de amigos, seja nas redes sociais ou num bar qualquer, hoje em dia, onde nos conhecemos já não é assim tão importante, mas sim o que se faz depois com a relação.

No entanto parece, empiricamente falando, haver um zeitgeist que paira sobre nós. O receio e medo de nos entregarmos, de genuinamente entregarmo-nos ao outro e de sermos magoados. Aliás, creio que esse é um dos grandes males contemporâneos. Fugimos da dor, da frustração e da entrega ao outro. Há que reconhecer que é difícil e já todos nós pensámos ou verbalizámos um, dois ou mais do que dois “não estou para isto”. Parece que é difícil haver um chão de entendimento comum quando ambas (ou mais) partes envolvidas estão neste processo de fuga ou de aparente proteção. Teorias de vinculação à parte, a verdade é que dói, que machuca, que angustia, que nos deixa ansiosos e completamente fora de nós e que nos faz pensar, quando já temos uma idade mais adulta, se vamos nestes disparates das relações ou se ficamos no nosso cantinho, seguros e sem grandes chatices.

Quando trabalhamos com casais serodiscordantes, isto é, quando um dos elementos do casal vive com a infeção pelo VIH e o outro não, há, para além de todos os outros fatores anteriormente enunciados, um sentimento de vergonha e de culpa, e uma sobre preocupação relativamente ao ato sexual. Vergonha porque não soubemos tomar conta de nós, porque permitimos que um outro nos infetasse. Apesar da revolta inicial ser frequentemente dirigida ao outro, muitas das vezes pelo sentimento de injustiça e do “porquê é que tinha que ser eu”, ao longo do tempo, este sentimento de agressão transforma-se em responsabilidade. Em autorresponsabilidade pela preservação do nosso próprio bem-estar e saúde e é aqui que se instaura a vergonha. Vergonha por termos sido irresponsáveis, por termos sido ingénuos, vergonha até por termos confiado e termos sido cegados pelo desejo, pela tesão ou pelo amor. Aqui a raiva já não é dirigida a um outro, mas contra nós próprios. Com esta posição de autorresponsabilidade vem a culpa, pois ninguém se pode sentir culpado se se retirar da equação. Porém, parece que este sentimento é constante na vida das pessoas que vivem com VIH (PVVIH). É como se a toma de uma medicação diária, e o constante receio de nas relações sexuais haver a ínfima e mais remota possibilidade de vir a infetar o outro, reavivassem constantemente a memória de um comportamento passado que é desaprovado ou repudiado segundo os padrões de valores e princípios de cada um (que bons neuróticos que nós somos).

Aqui gostaria de abrir um parêntesis para recordar a importância de quem trabalha no âmbito das infeções sexualmente transmissíveis (IST), de abordar a questão das emoções e fazer um trabalho emocional de fundo referente à vivência da sexualidade. Durante décadas, tanto os profissionais de saúde, como a comunidade científica abordou, maioritariamente, a questão das IST na base do racional: dos conhecimentos e se sabemos utilizar adequadamente os métodos de prevenção. Claro que considero este trabalho importante, mas na verdade trabalhar no âmbito das IST é trabalhar com a sexualidade e fazer sexo é uma questão muito emocional e se fosse racional já não seria sexo, seria outra coisa.

Voltando à questão da culpa. No casal serodiscordante, a PVVIH, vive com o receio de infetar o(s) seu(s) parceiro(s) e não conseguiria sobreviver na relação com o sentimento de culpa por tal ato, por isso, assistimos à restrição ou coartação da vida sexual. A contaminação da vida sexual por tais sentimentos, produz efeitos de diminuição da líbido e do desejo e prazer sexual. Trabalhar no âmbito das IST é por isso um trabalho no âmbito da corporalidade, da intimidade, da comunicação entre o casal, da finitude, da dependência, da parentalidade e das emoções. No entanto, existe atualmente uma mensagem que está a empoderar as pessoas que vivem com o VIH que se resume à equação U=U em inglês, ou i=i em português, isto é… indetetável igual a intransmissível, ou seja, se a pessoa que vive com o VIH tem uma carga vírica indetetável, não há possibilidade de transmitir a infeção ao seu parceiro. Por isso está na altura de dizermos: eu, tu e o vírus: sim eu quero!