“É preciso destapar a violência sexual conjugal”

Data da Notícia: Junho 30, 2018

“É preciso destapar a violência sexual conjugal”

À conversa com…
Manuel Lisboa, sociólogo, co-coordenador do Doutoramento em Estudos de Género (Consórcio entre o ISCSP UL, a NOVA FCSH e a FD UNL) e Diretor do Observatório Nacional de Violência e Género (CICS.NOVA)

 

Percurso
Professor Catedrático na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Diretor do Grupo de Trabalho “Desigualdades Sociais e Acção Pública” e membro da Direcção do CICS.NOVA. Perito internacional na área da Violência de Género do Instituto Europeu para a Igualdade de Género. Perito europeu para o Intercâmbio Brasil-União Europeia sobre Programa de Combate à Violência Doméstica. Coordenador do Mestrado em Estudos sobre as Mulheres. As Mulheres na Sociedade e na Cultura da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

 

Data
30 de junho de 2018

Entrevista
Isabel Freire

Manuel Lisboa, sociólogo, leva cerca de 25 anos a estudar a violência baseada em desigualdades de género, em Portugal. Estas são desigualdades que considera um problema estrutural. Para o Diretor do Observatório Nacional de Violência e Género (CICS.NOVA) há hoje maior intolerância social em relação à violência física, mas a violência psicológica e a sexual são ainda insuficientemente ‘vistas’. Nesta conversa chama à atenção para o drama da violência psicológica, para os processos de desvalorização, isolamento, culpabilização e afetação da autoestima da vítima. E considera que é preciso “destapar a violência sexual conjugal”, as violações que ocorrem no contexto familiar – “as vítimas têm vergonha de falar sobre isto”.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – No conceito de violência com base na desigualdade de género inscrevem-se distintas situações de agressão física, psicológica, sexual… de que atos estamos a falar?

Manuel Lisboa – É uma lista longa que tem sido utilizada em vários estudos: 23 atos de violência psicológica, 14 de violência física, 11 de violência sexual e 13 de violência sociocultural. Há uma heterogeneidade muito grande.

SPSC – Estas formas de violência intersetam-se?

ML – A violência sexual tem muitas vezes uma componente física e quase sempre uma componente psicológica. A violência física tem uma componente psicológica. E as vítimas de violência psicológica sofrem muitos problemas de ordem física (nomeadamente em termos de somatização).

SPSC Pensamos pouco sobre as violências que não deixam nódoa negra. O que está contido nesta representação social da violência, que parece só ganhar relevância quando deixa pegada?

ML – O registo físico da violência é mais facilmente mobilizável do ponto de vista da prova jurídica. Na violência psicológica, o registo da prova não é tão fácil, tão imediato. E há uma relativa desvalorização do ponto de vista social, em relação à violência psicológica. É importante diferenciarmos crime e violência. Um ato de violência é uma representação da vítima ou de coletivos internacionais e nacionais (por exemplo, da ONU, da OMS, do Conselho da Europa, da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género). Quem tem de dizer se se trata de uma transgressão contra a sua vontade, é a pessoa que é objeto desse ato. Em última instância, interessa a posição da pessoa. Independentemente da representação da vítima, os Estados podem dizer: achamos que isto é inaceitável e vamos criminalizar estes atos. O crime é definido pela lei (e precisa ser legitimado no tribunal com uma sentença). Quando uma mulher era agredida fisicamente pelo marido antes do 25 de Abril de 1974, esse era um ato violento, mas não era crime. Ao longo das últimas décadas fomos percebendo que o que está por detrás da violência são fundamentalmente desigualdades de género. Assimetrias de poder entre homem e mulher. Uma ideia da masculinidade com mais poder e da feminilidade com menos poder. Apercebemo-nos que se trata de um fenómeno estrutural. Hoje quando falamos de violência contra as mulheres, referimo-nos já a uma violência baseada em desigualdades de género.

SPSC – Que atos se incluem na tipologia da violência sexual?

ML – Entre os 11 atos já referidos anteriormente, podem contar-se o envio de mensagens escritas, emails, SMS, com propósito de assédio sexual. A invocação de frases de duplo sentido ou obscenidades com propósito de assédio sexual. A tentativa ou concretização de contacto físico com conotação sexual (apalpões, beijos forçados, etc.). A exibição forçada de fotos, filmes ou revistas de cariz sexual que a pessoa considere ofensivos. A exibição de órgãos sexuais, sem consentimento, levando a pessoa a sentir-se ofendida. A coação de atos sexuais em troca de dinheiro ou favores, seja em contexto de trabalho, ou relacional. A tentativa ou a concretização de um ato sexual forçado, usando força e/ou ameaças diretas ou indiretas. A reprodução forçada com a pessoa, de práticas ou situações representadas em filmes, revistas ou contextos pornográficos. A coação a ter relações sexuais sem proteção. A realização não consentida de atos de sodomia ou relações sexuais sadomasoquistas. A exposição em redes sociais, de fotos ou filmes (de nu/a, em ato sexual), sem consentimento da pessoa. A interrupção forçada de uma gravidez ou a prossecução forçada de uma gravidez não desejada.

Uma das maiores expressões desta violência continua a não ser visível. Não acontece no espaço público. Muitas violações ocorrem dentro das famílias, que têm uma determinada lógica e estrutura de poder (sobretudo patriarcal). Ainda prevalecem resíduos da ideia de que a mulher deve estar ali, ao serviço do homem.

A tendência tem de ser pensar fora do binarismo de género. É preciso integrar (progressivamente) nas políticas públicas, sinais de um continuum de possibilidades. Pensar também fora da caixa do binarismo. O poder político já deu passos muito grandes em relação à igualdade de género, nos últimos 30 anos. Mas em relação à pluralidade de géneros não sei se deu tantos passos como isso. Esta diversidade de género obriga a romper com as instituições que re/produzem esse binarismo.

SPSC – Uma ideia de propriedade sobre o corpo feminino?

ML – Antes do 25 de Abril de 1974 o débito conjugal era tido em consideração nos julgamentos em tribunal. Hoje estamos num ponto diferente. Mas há ainda um pano de fundo. Por isso dizemos que as desigualdades de género são um problema estrutural.

A nossa hipótese [da equipa do Observatório Nacional da Violência e Género] passa um pouco por esta ideia: grande parte das violações não acontece no espaço público, mas sim no espaço da casa e da família. Há um tipo de relação (mais próximo das relações tradicionais, de um determinado modelo de família e da conjugalidade) que legitima de certo modo este tipo de comportamento do ponto de vista da interação sexual. As vítimas têm vergonha de falar sobre isto.

SPSC – Falta consciência de que o consentimento é a pedra basilar de toda e qualquer relação sexual, mesmo dentro da conjugalidade?

ML – Estas mulheres, mesmo que sintam que não lhes apetece ter um contacto sexual, sentem uma certa obrigação, uma certa resignação. Às vezes encontram mecanismos de fuga (pela inação, pela não oposição explícita). As relações que se afastam do modelo tradicional do amor romântico, e se aproximam do amor confluente (como diria Anthony Giddens), são provavelmente ainda minoritárias na nossa sociedade. Admitimos também como hipótese, que nestas relações, quando ‘não dá’, as pessoas ‘saltam’. A ideia (ou ideal) do amor romântico (monogâmico, heterossexual, baseado num tipo de estrutura familiar) é, explicita ou implicitamente, o mainstream. Ainda assim, com menos tolerância ao nível das desigualdades de género, do que há 60 anos. Vai demorar a mudar estas mentalidades. Se não fizermos nada hoje (de forma continuada) demorará ainda mais.

SPSC – A Igreja católica, prevalecente no nosso país, continua a ser intolerante ao divórcio. Uma situação de violência doméstica no contexto de um casal católico, complexifica-se?

ML – Há um lado humanista da Igreja Católica (como há noutras religiões), que é sensível a esta questão. Há outro mais institucional, mais centrado na defesa da instituição família. Em setores mais progressistas considera-se que a defesa da família não se deve sobrepor a valores humanistas. Infelizmente, o que vemos muitas vezes é uma vontade de segurar uma instituição [a família] que teve um determinado papel, uma função social, mas que tem muitas deficiências e lacunas, particularmente nos contextos de violência. Em muitas situações a família mais não é do que um elemento de ocultação da violência. É um fator agravante dos atos de violência. Em nome de um determinado modelo de família (piramidal e assimétrico do ponto de vista do poder), e da manutenção dos papéis de género de que temos vindo a falar, obrigam-se as pessoas que estão numa posição de subalternidade a aceitar o que não querem. Uma “aceitação” forçada. É uma transgressão em relação à vontade das pessoas. E esta é uma questão fundamental. A Convenção de Istambul ajudou a trazer alterações significativas, mas durante muito tempo ainda se tentavam ações de reconciliação, depois de a violência ter lugar. Conciliar para quê? Para manter uma família, que era ela própria a causa e muitas vezes fator de encobrimento, de reprodução e manutenção dessa mesma violência? Diga-se também que há estruturas da própria Igreja Católica envolvidas na luta contra a violência. Se for a outros países com outras matrizes religiosas (muçulmana, por exemplo) também encontra coisas deste género. E veja a Mutilação Genital Feminina… o que está aqui em causa é uma matriz social. Não é a religiosa. São sociedades tradicionais que têm um conjunto de práticas de uma violência extrema em relação a meninas, que não têm qualquer capacidade de dizer quero ou não quero. É a própria família que as leva.

[…] durante muito tempo ainda se tentavam ações de reconciliação, depois de a violência [doméstica] ter lugar. Conciliar para quê? Para manter uma família, que era ela própria a causa e muitas vezes fator de encobrimento, de reprodução e manutenção dessa mesma violência?

SPSC – Os discursos sobre desigualdades de género ainda são frequentemente interpretados como discursos ‘feministas’?

ML – Vale a pena fazer um pouco de história, em termos conceptuais. Houve um primeiro momento em que algumas correntes feministas torceram um pouco o nariz a substituir o conceito de mulher pelo conceito de género. Hoje começa a ser muito mais pacífico. Os movimentos LGBT tiveram um papel importantíssimo. Vêm trazer uma nova dimensão. A Judith Butler vem trazer a dimensão performativa do género (retirá-lo desta dimensão binária do masculino e feminino). O caminho é falarmos em pessoas. Mas há muitos feminismos. Apesar das suas variações, têm em comum a luta contra as desigualdades de que as mulheres são vítimas. E há outro discurso, de uma certa masculinidade, de um certo machismo, que diz, quando se fala em igualdade de género: Ah, lá estão as feministas! É ainda um longo caminho a percorrer. Mas há cada vez mais homens feministas. Em 2008, no dia seguinte à publicação de um artigo em que me reconhecia feminista, fui nitidamente alvo de gozo por parte de colegas. Hoje as coisas estão diferentes. Isto tem de ser também uma questão dos homens. Quando as desigualdades deixarem de existir, então não fará sentido ser feminista. Mas se calhar ainda teremos de ser feministas durante muitos anos.

SPSC – Há hoje muitas pessoas indignadas com a afirmação social de ‘novos politicamente incorretos’. Pessoas que sentem a sua liberdade de expressão ameaçada por estas novas fronteiras.

ML – Pode dar um exemplo?

SPSC – Dar nome (visibilidade) ao género feminino nos discursos, quando falamos em geral. Ou mesmo a polémica resultante dos movimentos de denúncia e intolerância ao assédio sexual (nomeadamente #MeToo).

ML – Há duas formas de olhar essas expressões. Por um lado, as sociedades tendem a adotar modas, sobretudo as sociedades de consumo e do espetáculo em que vivemos. E as modas muitas vezes transformam-se em perversões, às vezes totalitárias. Criam uma nova norma. E quem se desvia dela, passa a ser penalizado. Depois há uma outra dimensão, que é o quebrar com o que está normalizado e que é assimétrico e representa uma desigualdade social. Infelizmente a nossa língua não é inclusiva, é muito binária. Pessoalmente, utilizo muito o feminino/masculino no discurso. Há que fazê-lo. Estamos a tentar desfazer desigualdades, que se expressavam ao nível das interações, codificadas com um determinado tipo de normas, e de regras. Em relação à questão do assédio, é preciso perguntar: Qual a fronteira entre o assédio sexual e a sedução? Tem a ver com a resposta, com os primeiros sinais que vierem do outro lado. Atualmente, estamos numa fase de transição. Se calhar nestes momentos de transição é-se mais imperativo, do que se poderá eventualmente ser noutro momento.

SPSC – Falávamos de consentimento há dez anos?

ML – Não. Falávamos pouco. Porque esta assimetria não tinha sido tão equacionada como uma assimetria de poder, como uma forma de certas pessoas exercerem poder face às outras (no trabalho ou noutros contextos). As desigualdades de género têm expressão nas permissões e não-permissões, no que um e outro têm e podem fazer. Tudo isto resulta de um processo de socialização que vem desde a infância. A inscrição destes valores (consentimentos e não consentimentos) vai-se fazendo não tanto por via racional. Vai-se fazendo pelas expressões faciais, pelos tons de voz, pelas pausas (o que se valoriza e desvaloriza). Quando a pessoa chega à adolescência e à fase adulta, é resultado de um processo emocional, a que nem sempre tem acesso do ponto de vista racional. Muitas vezes são mais tarde os psicólogos que ajudam a ‘escavar’, porque aquilo foi-se inscrevendo, foi-se naturalizando. É como se tudo tenha sido naturalizado ao longo do tempo.

SPSC – Há situações de violência baseada no género em que tenhamos uma percentagem elevada conhecida de vítimas do género masculino?

ML – O primeiro estudo feito em Portugal (2007), que comparava a violência contra os homens e a violência contra as mulheres, revelou-nos que os homens eram mais vítimas, em termos dos atos em si. Mas quando analisamos o tipo de violência, percebemos as diferenças. Os homens eram mais vítimas no espaço público. As mulheres nos espaços privados. A probabilidade de uma mulher ser vítima de violência no espaço da casa e da família, era 3 vezes superior. Na violência contra as mulheres, maridos, ex-maridos e namorados eram fundamentalmente os agressores. Na violência contra os homens entre os agressores estavam os amigos e os desconhecidos. As mulheres eram maioritariamente agredidas por homens. Os homens idem. A violência contra as mulheres é ainda fundamentalmente uma violência de género. Em 2017, fizemos um estudo, em Lisboa, e verificámos a prevalência deste padrão, que vem do estudo de 2007. Na violência psicológica os homens eram sobretudo vítimas de outros homens em relações de poder, como o trabalho, e dentro de casa, na relação com os pais. Só na violência sexual (em que predomina o assédio) é que os homens eram vítimas fundamentalmente de mulheres. E na nossa sociedade machista, um homem ser assediado por uma mulher não é visto propriamente como uma agressão. É visto como o contrário.

Em 2008, no dia seguinte à publicação de um artigo em que me reconhecia feminista, fui nitidamente alvo de gozo por parte de colegas. Hoje as coisas estão diferentes. Isto tem de ser também uma questão dos homens. Quando as desigualdades deixarem de existir, então não fará sentido ser feminista. Mas se calhar ainda teremos de ser feministas durante muitos anos

SPSC – Existem hoje organizações a chamar à atenção para o estigma associado à violência sexual contra os homens. Se desaparecesse o duplo padrão na forma de entender a sexualidade, haveria mais homens a reconhecerem-se como vítimas?

ML – Podemos perguntar: será que uma sociedade que tende a valorizar a dimensão dominadora, performativa, da masculinidade, não contribui para uma relativa ocultação/inibição quando o homem é vítima de violência (sexual ou de outra)? Sim. Mas temos de fazer outra pergunta a seguir: nesta sociedade, será este um fator de ocultação maior do que os fatores que influenciam as mulheres a não denunciarem a violência que sofrem? Fatores como a vergonha, a culpa, a pressão para se ser boa esposa e boa mulher. Fatores de pressão familiar: vê lá, olha que ele é o pai dos teus filhos, etc., etc., etc.. Eu estou em crer que não.

SPSC – Este padrão de género binário é, ele próprio, gerador de ambientes sociais favorecedores das agressões?

ML – Claro. A tendência tem de ser pensar fora do binarismo de género. É preciso integrar (progressivamente) nas políticas públicas, sinais de um continuum de possibilidades. Pensar também fora da caixa do binarismo. O poder político já deu passos muito grandes em relação à igualdade de género, nos últimos 30 anos. Mas em relação à pluralidade de géneros não sei se deu tantos passos como isso. Esta diversidade de género obriga a romper com as instituições que re/produzem esse binarismo.

SPSC – Li há uns anos na imprensa inglesa um artigo de um defensor da autodeterminação de género. Não me recordo no nome do autor. Deixava questões ‘práticas’. Uma pessoa detida numa prisão masculina, se mudasse de nome e do género, passaria para uma prisão feminina?

ML – Toda a sociedade está organizada em função desse binarismo! E agora vou ser mais provocador. Qual é o tempo para esta identidade de género? Um ano? Dois anos? Porque é que de manhã não posso ser uma coisa e à tarde ser outra? Ou nenhuma. Gostaria de viver numa sociedade que não tivesse nenhum tipo de amarras, a este nível. Mas tenho consciência que isto significa fazer uma revolução, nas suas estruturas fundamentais, nomeadamente em relação às questões da intimidade. Se calhar antes de chegarmos aí, temos que passar por um tempo em que pelo menos não sejam maltratadas e estigmatizadas as pessoas que não se reconhecem naquele modelo binário de género.

SPSC – O que é que está na raiz da violência doméstica? Certamente muitas coisas, mas o que destacaria?

ML – Numa relação heterossexual do tipo marido-mulher, companheiro-companheira, namorado-namorada, o que está na base da violência é uma assimetria de poder, que em última instância tem a ver com a construção de um determinado tipo de família. Dizem-nos muitos/as historiadores/as que este tipo de família foi muito reforçada na Europa Ocidental com as revoluções burguesas. Na esfera pública, a grande instituição da construção de uma nova classe (burguesia) foi a empresa. Na esfera privada, foi a família, lugar onde a mulher era relativamente valorizada. Vivia numa gaiola dourada. Mas numa gaiola! A família hipervalorizada (que começa a afirmar-se em finais do século XVIII) está hoje completamente disseminada, mesmo entre as camadas populares. O modelo é este. Ulrich Beck (autor de O Normal Caos do Amor) defende que a família e o casamento, são cada vez mais, categorias zombies nas sociedades ocidentais. Hoje as pessoas começam a perceber que já não funcionam. Há 60 anos os noivos casavam-se achando que era para toda a vida. Agora, sabem que não é para toda a vida, mas sentem que não têm alternativa do ponto de vista social.

SPSC – Mas em Portugal, nos últimos anos, muita gente opta por não casar (pelo civil e pela Igreja) [dados do Pordata, indicam que em 2001 havia 381.120 em união de facto, e em 2011 esse número aumentou para 729.832].

ML – Sim. Além disso, o número de pessoas que se divorcia é hoje superior ao número de pessoas que se mantém no casamento. E o tempo entre o casamento e o divórcio tem vindo a diminuir. O grau de intolerância começa a aumentar. E tem havido algumas experiências interessantes (os coletivos hippies, o poliamor, a anarquia relacional). Há pessoas que estão a procurar outras configurações. Não sei se serão generalizadas ou não…

Muitas violações ocorrem dentro das famílias, que têm uma determinada lógica e estrutura de poder (sobretudo patriarcal). Ainda prevalecem resíduos da ideia de que a mulher deve estar ali, ao serviço do homem

SPSC – Às vezes as pessoas são obrigadas a coabitar apesar de estarem já separadas, porque não têm condições financeiras para se tornarem autónomas uma da outra, pessoas de extratos sociais mais desfavorecidos. Se compararmos os nossos índices de violência doméstica com países com melhores condições de vida, a violência doméstica é menor nestas sociedades?

ML – O estudo que permite uma comparação a esse nível, foi desenvolvido pela Fundamental Rights Association (FRA) há 5 anos. Considera todos os países da UE. Uma das conclusões é que os países nórdicos, ao contrário do que se estava à espera, têm valores elevadíssimos. Porquê? Na esfera pública há avanços muito significativos nestes países. Mas ao nível das relações de intimidade o problema mantém-se. Ou pelo menos mudou muito menos do que gostariam que tivesse mudado. Vem ao encontro de uma conclusão que tínhamos tirado em 1995, numa escala nacional: a probabilidade de se ser vítima é transversal do ponto de vista social. De qualquer modo, as condições de vulnerabilidade social e financeira podem acentuar as violências. O desemprego deixa as pessoas em casa, em contacto umas com as outras. A probabilidade de haver conflito é maior. A possibilidade de haver agressões aumenta. No verão, nos fins de semana, há mais violência.

SPSC – O ciúme foi estudado sociologicamente em Portugal? Que interesse tem essa pesquisa?

ML – O ciúme deveria ser mais estudado. É um fator legitimador da posse, que vem embrulhado (com boas intenções) em muitos tipos de amor (quase todos). A racionalidade é uma forma de o combater, controlar. Quando falávamos há pouco de um novo tipo de sociedade, se calhar essa sociedade também tem de… não ter ciúme, não ter posse. Ninguém é de ninguém.

SPSC – “Eu tenho ciúmes porque tu me traíste”…

ML – O que é traição? Há uns anos dizia-se em alguns vilarejos, na Andaluzia (em Espanha), uma coisa horrível: “aqui matam-se mulheres como se matam toiros”, referindo-se aos chamados crimes de honra (por motivos de adultério). Vejamos as avaliações sociais diferentes em relação a esta questão da traição. Se um homem for “traído” pela mulher (“traído” com muitas aspas, com todas as aspas possíveis e imaginárias), e não fizer nada, é um frouxo. Não lavou a honra com sangue (do amante e se for caso disso, da mulher). Mas vejamos a situação ao contrário. Ele “traiu” a mulher (com as mesmas aspas, com todas as aspas possíveis e imaginárias). Como é que a mulher mostra que é forte?

SPSC – Mantendo-se impávida e serena, no contexto conjugal, lavando as camisas, com a mesma dedicação, preferencialmente em silêncio. Eram estes os discursos que líamos na imprensa nos anos 1950.

ML – Aí está a questão de género. O ato é o mesmo. Só mudam os protagonistas. É um jogo de construção e manutenção de poderes e não de partilha. O controlo do outro. A posse do outro. O ciúme é uma construção social. Ainda hoje é visto como um fator de legitimação da própria violência, nomeadamente por parte das vítimas. Ele fez ‘isto’ [violentar] porque tem ciúmes. Ele tem ciúmes porque gosta de mim. Ele fez ‘isto’ porque gosta de mim. As famílias que têm para si como legítimo o ciúme (se não se tem ciúme é porque não se gosta) vão educar as suas crianças neste sentido. Em que contextos podemos começar a trabalhar a questão? É muito difícil. Mas acho que temos de começar a trabalhar desde a infância. Em relação aos adultos, que se disponham, há que criar espaços coletivos, grupos, com determinadas afinidades (a somaterapia, praticada no Brasil, tem algumas propostas).

O ciúme deveria ser mais estudado. É um fator legitimador da posse, que vem embrulhado (com boas intenções) em muitos tipos de amor (quase todos). […] Há uns anos dizia-se em alguns vilarejos, na Andaluzia (em Espanha), uma coisa horrível: “aqui matam-se mulheres como se matam toiros”, referindo-se aos chamados crimes de honra (por motivos de adultério).

SPSC – Se pudesse destacar um dos elementos da violência de género, um que lhe pareça mais grave no contexto português, qual escolheria?

ML – Os estudos revelam que a violência psicológica tem um peso muito grande. Há um elemento terrível… a desvalorização constante, que conduz ao isolamento. É corrosiva. Promove a culpabilização. Algumas vítimas dizem: para ele me fazer isto, alguma coisa devo ter feito. É horrível. Estas mulheres foram vítimas e ainda se sentem culpadas. Há toda uma afetação da autoestima. Rouba a identidade à outra pessoa. Controla-a. E há outra dimensão no espaço doméstico: a violência sexual. Não está suficientemente destapada. É difícil de destapar. Entre homens e mulheres, mas também de adultos sobre crianças. Além disso, há ainda a interseccionalidade nas violências. Se juntar ao facto de alguém ser mulher, o facto de ser negra, imigrante, pobre, lésbica ou trans… as desigualdades, que têm por base a hierarquização dos poderes em relação às diferenças podem tornar-se explosivas.

SPSC – Que violências de género sente que são ainda aceites, toleradas, compreendidas, socialmente, no nosso país?

ML – A tolerância em relação à violência física é talvez hoje menor. Relativamente a algumas formas de violência psicológica e sexual, a intolerância não será tão grande.

SPSC – Conhece experiências de prevenção pública da violência? Intervir antes de acontecer?

ML – Há uns anos atrás procurou-se perceber se havia uma dimensão de patologia psicológica nos agressores. Fizeram-se vários estudos, nomeadamente através dos dados que chegavam por via do Instituto de Medicina Legal. E chegou-se à conclusão que não. São pessoas perfeitamente ‘normais’. Estão aqui ao nosso lado, insuspeitas. A questão fulcral é a da relação de poder. Em muitos casos, a violência surge quando aquele que vai ser o agressor sente que lhe está a faltar o controlo da situação. Deve haver todo um trabalho de consciencialização e reflexão a este nível. Ou seja, a prevenção tem de ser feita em todos os espaços sociais (escolas, associações…) e ao longo do tempo, incluindo as gerações futuras. É preciso continuar e reforçar o que já se vem fazendo a este nível.

SPSC – Estamos a fazer o nosso melhor para semear os direitos sexuais e de género, na educação das gerações mais novas?

ML – Pelo que me tem chegado, acho que houve um grande avanço numa determinada altura, mas parece que se parou um pouco. Há saltos que têm de se dar. Há que sair de uma lógica das questões meramente reprodutivas, para uma saúde sexual baseada no prazer. O eros. Isso vai mexer com muita gente. Com muitas mentalidades.