Caixa de sugestões #1 – Maria Madalena penitente, de Francesco Furini

Data da Notícia: Outubro 28, 2018

Caixa de sugestões #1 – Maria Madalena penitente, de Francesco Furini

Francesco Furini (1603 – 1646)

Maria Madalena penitente

c.1634

Óleo sobre tela

168 x 150,5 cm

Kunsthistorisches Museum Wien, Gemäldegalerie

A sugestão de…

José Alberto Seabra Carvalho, Historiador de Arte, conservador e Diretor Adjunto do Museu Nacional de Arte Antiga. Comissário de exposições e autor de vários estudos em domínios da história da pintura portuguesa dos séculos XV a XIX.

Se a exposição “Explícita, arte proibida?”, acabada de encerrar no Museu Nacional de Arte Antiga, não fosse constituída apenas por peças das colecções e reservas do museu, esta poderia ser uma das pinturas que mais me agradaria ter exposto na sala cujas paredes “forrámos” com 70 obras de vários tipo (pinturas, desenhos, gravuras, cerâmicas, etc.), todas elas figurando nus, femininos e masculinos, e algumas cenas de sexo ou de sedução. Apesar da sua aparente profanidade, a pintura teria de estar incluída no capítulo “arte religiosa” da mostra (ao qual demos o nome de “Amores sagrados”) já que a sua iconografia referencia a penitência, no ermo, de Maria Madalena, célebre e discutida figura do hagiológio cristão que encarna, como é dito no Jornal da exposição (ainda disponível), o chamado “nu místico”, figura de beleza e mortificação, de pecado e arrependimento.

Não conhecia a pintura. Vi-a, em Viena, poucos dias antes da abertura da exposição e, talvez pela circunstância (vemos melhor o que o nosso espírito desperto reclama), tive diante dela uma sensação que já conheço, uma espécie de breve curto-circuito mental e emotivo que é a maior recompensa do visitante errático num museu.

Um padre que pinta o corpo nu, e voluptuoso, de uma santa em expressão mística, tendo porventura utilizado um modelo vivo

A atmosfera azul nocturna do lugar e a pose branca de Madalena são extraordinariamente belas e perturbantes, tudo se impregnando de um idealismo sofisticado que conduzem a representação a um inesperado grau de erotização da figura. O tema sempre se prestou a tais cometimentos, mas creio que dificilmente encontramos noutras Madalenas da história da pintura europeia uma tal perfeição representativa a sublimar a eterna ambiguidade deste tipo de imagens.

E o pintor? Um italiano que praticamente desconhecia, Francesco Furini, nascido e falecido em Florença na primeira metade do século XVII, um século de contra-reforma, de uma efervescente e controlada política de produção de imagens religiosas, um século atento ao “decoro” e à censura das pinturas de altar que pudessem ser consideradas “indecorosas”. Uma representação improvável num tal contexto? Por certo que não, tanto mais que nada sabemos sobre o destino original da obra (igreja ou palácio?) e que as interpretações simplistas sobre as normas emanadas pelo Concílio de Trento quanto às imagens já tiveram a sua moda historiográfica. Curiosamente, Furini abraçou o sacerdócio em 1633, sem abandonar a arte da pintura – um ano antes da datação que o Museu de Viena atribui a esta “Madalena penitente”…

Agradam-me estas situações algo intrigantes. Um padre que pinta o corpo nu, e voluptuoso, de uma santa em expressão mística, tendo porventura utilizado um modelo vivo. Vale a pena descobrir Furini.