“Retrocesso social e político em relação ao respeito às diferentes expressões e minorias sexuais”

Data da Notícia: Outubro 30, 2018

“Retrocesso social e político em relação ao respeito às diferentes expressões e minorias sexuais”

À conversa com…
Jaqueline Brendler (Brasil), ginecologista, terapeuta sexual e Presidente da Federação Latino Americana das Sociedades de Sexologia e Educação Sexual (FLASSES).

 

Percurso 
Coordena a celebração do Dia Mundial de Saúde Sexual no Brasil desde 2010 e pertence ao Comité Executivo da Associação Mundial para Saúde Sexual (WAS). Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana (SBRASH). Participou do Comité de Violência contra a mulher (FEBRASGO) e de várias Comissões Nacionais de Sexologia (FEBRASGO).

 

Entrevista
Isabel Freire

 

Data
27 de Outubro de 2018

Jaqueline Brendler é médica ginecologista, atuando há mais de 20 anos em sexologia clínica, no Brasil. Nesta entrevista (realizada antes da eleição de Jair Bolsonaro para Presidente do Brasil) reconhece um movimento conservador em a toda América Latina (com excepção da Argentina), repressivo da igualdade e diversidade sexual e de género. Acerca do Brasil – “país que o mundo vê como ‘liberal’ em relação ao corpo e à sexualidade” – diz que a realidade é outra, para a maioria. Muitos pais não falam de sexualidade com os filhos. Nas escolas a educação sexual praticamente não existe. Na formação dos profissionais de saúde o tema está ainda demasiado ausente. E são raros os hospitais que possuem ambulatório com equipa multidisciplinar para o atendimento de problemas ou dificuldades sexuais.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – No contexto político e social do Brasil, aqui e agora, quais são as suas preocupações maiores, em matéria de saúde e direitos sexuais?

Jaqueline Brendler – O Brasil é conhecido internacionalmente pelo seu Carnaval e praias. Isso confere-lhe um rótulo de país “liberal” em relação ao corpo e à sexualidade. Mas isso não é realidade para a maioria das pessoas. A educação sexual é repressora em relação à mulher. Ainda muito machista. Incentiva o homem a demonstrar o seu desejo sexual constantemente, a ter um maior número de mulheres e a desrespeitar as pessoas (exceptuando outros homens hetero).
Em relação ao aqui e agora no Brasil… após todos os desvios de dinheiro público averiguados nos escândalos de corrupção, o investimento em várias áreas essenciais diminuiu (nomeadamente na segurança pública, verificando-se aumento da violência), o que cria uma desesperança em relação ao futuro. Nesta situação, é fácil os menos críticos serem seduzidos por discursos conservadores, relativos a proteger e dar segurança à família de padrão heterossexual e aos seus filhos. Como consequência, há um retrocesso social e político em relação ao respeito às diferentes expressões e minorias sexuais. Dependendo dos candidatos que venham a ser eleitos para os governos dos estados e para o cargo da presidência da república, esta situação (que já não é boa) pode ainda piorar. A promoção da saúde sexual e dos direitos sexuais não consta na plataforma de nenhum político. E há candidato que é contra a equidade de género (declarando que mulher deve ganhar menos que o homem). Contra qualquer educação sexual nas escolas. Contra os direitos sexuais das minorias.

SPSC – Estas são problemáticas que vê também refletidas num contexto mais alargado da América Latina?

JB – Sim. Há um movimento conservador em toda América Latina. A excepção penso ser a Argentina, que está mais próxima do respeito do direitos sexuais das pessoas.

SPSC – Como descreveria o acesso dos brasileiros ao tratamento de problemas ou dificuldades sexuais, no sistema de saúde público?

JB – São raros os hospitais que possuem ambulatório com equipa multidisciplinar para o atendimento de problemas ou dificuldades sexuais. Os seguros de saúde não pagam o tratamento de problemas sexuais, que é realizado a título particular entre paciente e profissional da saúde.

SPSC – Há algum projeto ou serviço desenvolvido no contexto da saúde sexual, que lhe pareça meritório e vanguardista pelo trabalho que desenvolve, no Brasil?

JB – Não, no sentido amplo do conceito de saúde sexual (que envolve não somente a ausência de doença, assédio, coerção ou disfunção sexual, mas inclui a presença do prazer sexual). O governo tem programas estabelecidos para tratar situações que são pontuais como a violência sexual, o HIV e o tratamento multidisciplinar para pessoas trans.

SPSC – A sua longa experiência terapêutica, permitiu-lhe perceber que a violência sexual…


JB – Teve como base o patriarcado e continua sendo reforçado pela cultura machista que desrespeita todas as pessoas que não são homens heterossexuais, o que inclui todas as mulheres, gays, bissexuais, pessoas trans, travestis, etc.

SPSC – Com que profundidade/superficialidade julga que penetraram as questões da violência sexual na agenda de discussão pública, no Brasil?

JB – O Brasil investiu nessa área. Na maioria das capitais e em muitas cidades existem centros de referência com equipes multidisciplinares para o atendimento das vítimas de violência sexual e para prevenção dos agravos consequentes dessa violência. Também linha telefónica para denúncias anónimas. A Lei Maria da Penha confere direitos e proteção à mulher vítima de violência doméstica e psicológica. Como somos um país de cultura machista, os indicadores destas problemáticas são elevados. Há ainda muito a fazer para consciencialização sobre os vários tipos de violência sexual e sobre os direitos sexuais. Esse trabalho poderia ser incentivado pelo governo através de debates científicos, nos diferentes média, mas ainda não acontece.

SPSC – O que é que a educação sexual no Brasil tem de melhor? E de pior?


JB – A educação sexual praticamente não existe. A maioria dos pais não fala de sexualidade com os filhos. No ensino fundamental (médio e universidades da área da saúde) as aulas são apenas sobre reprodução, contracepção e sexo seguro. A várias expressões que envolvem a sexualidade, a saúde sexual (segundo o conceito da Organização Mundial de Saúde) e o prazer sexual não são discutidos. Sou professora convidada numa Especialização de Psiquiatria e dou aulas numa pós-graduação, mas isto é a excepção. Eventualmente posso ser convidada por chefes de serviço da ginecologia para dar formação aos residentes no hospital, mas é extra-curricular. Não está no programa oficial da residência de ginecologia no Brasil.

SPSC – Em que direção lhe parece que a investigação e a formação em sexologia precisam caminhar, neste momento, no contexto do Brasil e no contexto geral da América Latina?

JB – Os sexólogos são uma óptima exceção no Brasil e na América Latina, pois a maioria possui uma formação adequada. O que é preciso melhorar é a educação dos profissionais de saúde que não são sexólogos e não possuem formação sobre sexualidade (na universidade, na residência médica ou pós-graduação). Por isso mesmo, não valorizam as queixas sexuais. E retardam o início do tratamento dos problemas ou dificuldades. Isto significa um prejuízo na qualidade de vida das pessoas. Inserir aulas de sexualidade e/ou saúde sexual no currículo de formação dos profissionais da área da saúde é fundamental. Até porque os estudos apontam maior incidência de dificuldade sexuais do que de outros problemas ensinados nas universidades e pós-graduações (por exemplo a hipertensão arterial, a diabetes, etc.).


SPSC – Quer destacar um benefício (e um malefício) que venha identificando nas narrativas que escuta dos pacientes na clínica, referentes à influência das plataformas digitais (redes sociais) nas visões ou vivências afetivas, sexuais, relacionais?

JB – As plataformas digitais do passado eram mais baseadas em afinidades (e no que era dito) do que em imagens. Isso facilitou a aproximação de pessoas que estavam longe geograficamente. Após o surgimento de apps para namoro ou sexo, ouço inúmeras reclamações sobre o rápido convite para sexo casual. Há aplicativos para jovens, para maiores de 50 anos, para judeus, para obesos, para ser infiel etc.. A questão central é que muitas mulheres insistem em procurar romance através de uma tecnologia que os homens usam para obter sexo rápido e fácil. Claro que há homens no Brasil procurando romance em aplicativos, mas é a excepção. A maioria deseja sexo.

SPSC – Qual foi o último caso clínico que lhe provocou espanto ou dúvida? 


JB – Com o surgimento de apps para namoro e/ou sexo, aumentou no Brasil o número de homens com grande número de parceiras sexuais por semana. A repetição desta situação ao longo de anos, condiciona fortemente a sexualidade masculina. Estudos indicam que as novidades sexuais ativam áreas cerebrais ligadas à dopamina e à recompensa, o que é um forte motivador do desejo. Sou procurada como médica sexóloga por homens no momento em que deixam de usar estes aplicativos. Alguns estão em relacionamento sério (por exemplo, há 6 meses) e queixam-se de falta de libido, por vezes de dificuldades de ereção. A parceira é agora fixa. A memória positiva gerada pelos encontros sexuais não é tão forte, comparada com a época em que tinham sexo com várias mulheres diferentes, por semana. Outro problema que também aumentou entre estes homens é a ejaculação retardada. O homem sente dificuldade de ejacular (numa relação intra-vaginal), pois condicionou-se a tentar ser “um amante perfeito”. Preocupou-se demasiado em ajudar a mulher a ter prazer, colocando-se em segundo plano. Na curva ascendente do prazer, adia a ejaculação e “passa do ponto ideal”. Repetidamente, isto pode levar a ejaculação retardada. Após a popularização destas app, alguns homens alteraram o seu estilo sexual para “muita variedade sexual” e/ou “foco excessivo na mulher” o que contribui para o surgimento de futuras dificuldades sexuais.

SPSC – Há alguma questão/problema na sexualidade humana, que continue sem conseguir compreender?


JB – Eu entendo e respeito que uma pessoa possa amar outra e não desejar ter relações sexuais, embora o amor e o desejo sexual tenham sobreposições em áreas cerebrais, mas a vontade de um relacionamento sem sexo é um dos motivos da auto identificação como pessoa “assexuada”. Muitas dessas pessoas assexuadas declaram que se masturbam e tem vida sexual ativa com outras pessoas, então penso que o nome não expressa representa a realidade sobre a vida sexual delas.