Abstraindo # 4 – Educação de pares para trabalhadores/as do sexo

Data da Notícia: Março 29, 2019

Abstraindo # 4 – Educação de pares para trabalhadores/as do sexo

Abstraindo é uma rubrica que apresenta de forma resumida a investigação em sexologia que se faz em Portugal.

Projeto: “Implementação, desenvolvimento e avaliação de um modelo de educação de pares para trabalhadores/as do sexo (Fase I e II)”

Parceiros: GAT – Grupo de Ativistas em tratamentos, APDES – Agência Piaget para o Desenvolvimento, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, da Universidade do Porto, e um grupo de profissionais do sexo;

Localidade: Lisboa;

Alexandra Oliveira analisa o Projeto, num capítulo de um livro da Routledge, que compila investigação desenvolvida no mundo em torno da Indústria do Sexo.

Referência bibliográfica:

Oliveira, A. (2019). An action research project with sex worker peer educators in Lisbon, Portugal. Collaboration as a key issue for empowerment (pp. 80-89). In S. Dewey, I. Crowhurst & C. Izugbara (Eds.) Routledge Handbook of sex industry research. Abingdon, UK: Routledge.

Alexandra Oliveira é professora da Universidade do Porto, na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação. Doutorada em Psicologia na Universidade do Porto com uma investigação sobre prostituição de rua que deu origem à publicação “Andar na vida: prostituição de rua e reacção social” (2011, Almedina – Menção Honrosa do Prémio Maria Lamas 2011). Atualmente é membro da equipa do projeto “Comparing the taxation of prostitution in Europe: experiences and negotiations with laws and fiscal arrangements”, financiado pela Independent Social Research Foundation (UK).
Aliada do movimento internacional de trabalhador@s do sexo, sendo ativista nesta área. Em Portugal, é membro da Rede sobre Trabalho Sexual.

A metodologia de investigação-ação participativa na área do trabalho sexual é um método de investigação que implica a colaboração de profissionais do sexo para que a pesquisa seja realizada “com eles” e não apenas “sobre eles” e tem sido considerada uma boa prática metodológica em projetos com esta população. Este capítulo publicado no “Handbook of sex industry research” descreve e discute um projeto inovador de investigação-ação realizado com educadores pares trabalhadores do sexo que foi implementado em Lisboa: “Implementação, desenvolvimento e avaliação de um modelos de educação de pares para trabalhadores/as do sexo (Fase I e II)”.

A educação de pares é uma estratégia de intervenção comunitária na qual os membros de uma comunidade recebem formação sobre conhecimentos relacionados com a saúde e competências de comunicação para promover comportamentos saudáveis ​​entre pares, e é uma estratégia com eficácia comprovada na mudança de comportamento em grupos de difícil acesso.

Com este projeto, pela primeira vez em Portugal, uma ONG promoveu um curso de formação para profissionais do sexo com o objetivo de os integrar como educadores de pares em projetos de redução de riscos e/ou de promoção da saúde. O projeto também pretendeu a capacitação dos/das profissionais do sexo para o ativismo político. Assim, se o treino de educadores/as de pares era o objetivo mais óbvio e imediato, o projeto focou-se igualmente na importância de promover o ativismo e a militância dos/das profissionais do sexo.

O projeto consistiu no desenvolvimento e teste de um modelo e, por isso, tinha uma natureza investigativa, sendo que a metodologia qualitativa de investigação-ação participativa se mostrou a mais adequada. Assim, foi estabelecida uma articulação entre a entidade promotora do projeto (o GAT – Grupo de Ativistas em tratamentos, uma organização dedicada à prevenção e tratamento do VIH/SIDA), a organização formadora (a APDES – Agência Piaget para o Desenvolvimento, uma ONG que trabalha com utilizadores de drogas ilícitas e profissionais do sexo e que havia implementado previamente um programa de educação de pares para consumidores de drogas), a equipa de investigação da Universidade do Porto – Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação – e um grupo de profissionais do sexo de forma a implementar o projeto.

Com este projeto, pela primeira vez em Portugal, uma ONG promoveu um curso de formação para profissionais do sexo com o objetivo de os integrar como educadores de pares em projetos de redução de riscos e/ou de promoção da saúde. O projeto também pretendeu a capacitação dos/das profissionais do sexo para o ativismo político

O projeto, que foi sendo alvo de negociações e introdução de reformulações a fim de produzir melhorias no seu design, compreendeu duas fases que envolveram quinze profissionais do sexo com diversas características e experiências, abrangendo nove mulheres cisgénero, cinco homens cisgénero e uma mulher trans. Os/as participantes incluíam profissionais do sexo nascidos em Portugal, bem como migrantes, a trabalhar tanto na rua como em contexto de interior em várias partes do país.

Além da formação dos profissionais do sexo como educadores de pares e da sua integração em organizações parceiras, para alcançar o seu empoderamento e ativismo político, foram estabelecidos vários objetivos, incluindo o fortalecimento do sentimento de pertença e identificação com o grupo, a consciencialização sobre a importância do ativismo como forma de alcançar mudanças sociais e políticas, o incentivo à militância pelos direitos dos/das profissionais do sexo e a facilitação do seu envolvimento em ações conjuntas e em diferentes tarefas. Para isso, conduzimos diversos grupos focais que resultaram na organização de várias atividades, que incluíram, entre outras, a participação com um poster numa conferência internacional e a preparação e participação numa manifestação pública. Todas as ações exigiram o envolvimento do grupo em tarefas específicas para a organização de um projeto comum e isso implicou empoderamento grupal. Sabemos que participar em atividades e organizações comunitárias tem sido consistentemente associado ao empoderamento, nomeadamente ao empoderamento psicológico. Isso ficou óbvio quando os/as profissionais do sexo assumiram publicamente a sua atividade, se tornaram visíveis em vez de se esconderem, tiveram voz e validaram as suas experiências. Acresce que esses ganhos foram além do espaço da formação e estenderam-se a outros contextos e atividades.

Ouvir os/as profissionais do sexo e colaborar com eles/elas é devolver-lhes a voz que lhes tem sido negada, é colocá-los no centro e combater a exclusão e é, ao mesmo tempo, salientar as suas reais necessidades. Assim, podemos concluir que este exercício proporcionou uma aprendizagem em metodologias de mudança social e desafiou a forma como tradicionalmente concebemos a pesquisa. Acima de tudo, a relevância deste projeto reside na compreensão das contribuições da abordagem metodológica participativa para o campo do trabalho sexual.