História da cultura visual da medicina em Portugal


História da cultura visual da medicina em Portugal

À conversa com…
Fernando Cascais

Data
Agosto 2016

Entrevista
Isabel Freire

Fernando Cascais, investigador da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, e coordenador do Projeto História da Cultura Visual da Medicina em Portugal (financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia)  fala sobre o alcance desta pesquisa pioneira, que recolheu e estudou mais de dez mil imagens produzidas no contexto médico português entre as últimas décadas do século XIX e a primeiras do século XX. Anatomia normal e patológica, violação, estupro, sodomia, hermafroditismo, intersexualidade, prostituição e  sífilis são os assuntos mais visados nos espólios visuais relativos ao tema da sexualidade.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica: Enquanto coordenador deste projeto, que impressão tem do interesse da medicina portuguesa pelo seu passado?

Fernando Cascais: O interesse é muito escasso. É frequentemente oportunista, pois serve propósitos circunstanciais do presente (por exemplo, a legitimação “historicizante” de qualquer facto ou prática atual por intermédio da invocação de um nome célebre ou de um evento, ou de um avanço científico passado), muito mais do que valoriza os factos históricos por si mesmos. Assenta mais numa curiosidade diletante do que em projetos rigorosamente concebidos e metodologicamente refletidos. As muito raras e muito notáveis exceções confirmam a regra.

SPSC: O projeto História da Cultura Visual da Medicina em Portugal teve início em 2008. Em que momento se encontra atualmente?

FC: Formalmente, a pesquisa está encerrada; informalmente, prossegue em questões delimitadas. Os produtos, nomeadamente os livros, continuam a ser publicados. O próximo será: Hospital Miguel Bombarda 1968. Fotografias de José Fontes, organização de António Fernando Cascais e Margarida Medeiros, Documenta, 2016. Seguem-se artigos em revistas científicas sobre a fotografia psiquiátrica no Hospital Miguel Bombarda e sobre a fotografia da microcefalia; mais tarde, um livro sobre a História da Cultura Visual da Medicina, com múltiplos exemplos portugueses.

SPSC: O projeto incide sobre que período de produção de imagens médicas e antropométricas?

FC: O projeto incide sobretudo sobre a época de ouro da produção de imagens médicas, que é a da introdução da fotografia na medicina, sensivelmente nas últimas décadas do século XIX e décadas iniciais do século XX, mas inclui imagens impressas e objetos visuais (peças anatómicas, ceroplastias, diafanizações, etc.) de todas as épocas.

SPSC: Os espólios visuais encontrados superaram as expectativas da equipa em termos de quantidade e qualidade? Em que medida?

FC: Superaram de longe. Temos espólios riquíssimos nos Museus de Medicina, nas secções museológicas das Faculdades de Medicina e dos Hospitais, bem como dos Institutos de Medicina Legal e em outras bibliotecas. As coleções são, em regra, extensas, e documentam exaustivamente as áreas disciplinares a que respeitam. Infelizmente, o estado de conservação dos espólios é genericamente mau, devido em parte a prolongada desatenção e negligência institucional, subfinanciamento, desinteresse pela pesquisa e ignorância do real valor dos espólios.

SPSC: Da pesquisa já efetuada, que domínios da medicina produziram maior espólio fotográfico entre o final do século XIX e o século XX? E como se explica esse maior interesse de representação visual?

FC: De salientar as coleções de imagiologia médica, dermatologia, oncologia, anatomia normal e patológica, medicina legal e psiquiatria forense e, evidentemente, as coleções dos hospitais psiquiátricos. Esse facto deve-se essencialmente à democratização do acesso à câmara fotográfica, incomparavelmente menos dispendiosa do que a ilustração impressa, o que em parte explica, por exemplo, a penúria de tratados de anatomia de origem portuguesa, com a exceção, já muito tardia na História da Medicina, da muito rica escola anatómica portuguesa de Henrique de Vilhena.

SPSC: Genericamente, como foi o trabalho de recolha dos materiais visuais nos museus e arquivos? Facilitado pela organização e catalogação prévia ou procuraram muitas agulhas no palheiro?

FC: Sobretudo agulhas no palheiro. Confrontámo-nos sistematicamente com o facto de sermos os primeiros a pesquisar coleções e espólios, muitos deles simplesmente não musealizados e até mesmo esquecidos em salas fechadas. O acolhimento institucional foi, em regra, de uma abertura e amabilidade extrema, tendo nomeadamente em conta a precariedade da situação em que se encontravam inúmeros espécimes e as deficientes condições de trabalho de técnicos e bibliotecários sobrecarregados e dispersos por múltiplas tarefas e a sós, sem verdadeiras equipas indispensáveis à simples manutenção dos espólios. Mesmo assim, existem pelo menos dois grandes projetos museológicos nacionais de excelente qualidade abertos ao público e com produção impressa notável, além de outros menores. Num ou noutro caso, absolutamente excecional, não pudemos deixar de estranhar o mais completo fechamento e recusa obstinada de acesso, por parte de um ou outro responsável, ao arrepio dos princípios fundadores das próprias instituições.

SPSC: É possível aceder a diversas imagens no site do projeto. Este espólio online é apenas uma pequena parte?

FC: Embora qualitativamente representativa, é uma ínfima parte de um conjunto recolhido de cerca de dez mil imagens.

Temos espólios riquíssimos nos Museus de Medicina, nas secções museológicas das Faculdades de Medicina e dos Hospitais, bem como dos Institutos de Medicina Legal e em outras bibliotecas. As coleções são, em regra, extensas, e documentam exaustivamente as áreas disciplinares a que respeitam

 

Colóquio_Um_Olhar_Sobre_a_História_da_Cultura_Visual_da_Medicina (1)

Cartaz do colóquio realizado em 2012 no âmbito do projeto

SPSC:  Ao nível da sexualidade, que domínios da medicina geraram maior produção de imagens? Que leitura faz dela?

FC: De longe, a Medicina Legal e a Psiquiatria Forense, sobretudo as imagens respeitantes à violação e ao estupro, bem como à sodomia. Existem também imagens de anatomia normal e patológica sobre o aparelho reprodutor, tanto masculino como feminino, em áreas como a urologia e a ginecologia. De notar igualmente as imagens referentes ao hermafroditismo ou pseudo-hermafroditismo, às hipospadias e à intersexualidade. Na Medicina Legal, encontram-se imagens de homens homossexuais (as mulheres são absolutamente excecionais), designadamente recolhidas para identificação policial e prisional pelo método do bertillonage. A prostituição suscitou imensa atenção na área da então denominada Higiene Social, mas a produção de imagens é escassa. Idem para a sífilis, mas sobre a qual existem espólios absolutamente fabulosos de ceroplastias (modelos em cera) – sobretudo o do antigo Hospital do Desterro – que representam as espetaculares lesões dos estádios avançados da doença.

SPSC: Que tipo de imagética encontraram em torno da homossexualidade e do transgénero, e o que nos diz este espólio acerca da forma como a medicina se cruzava com as vivências homossexuais e as interpretava?

FC: Na sequência do que já foi indicado na resposta anterior, a Medicina interceta a homossexualidade no cruzamento com o Direito e a Psiquiatria. Na História da Cultura Visual da Medicina em Portugal, a homossexualidade é exclusivamente uma patologia psiquiátrica com eventuais incidências criminais. Não há exceções. Percebe-se que o silêncio dos saberes médicos portugueses acerca da homossexualidade se explica, a partir de determinada época, pela obsolescência devida à evolução da tolerância social, provavelmente mais do que a uma revisão das conceções psiquiátricas pelos médicos portugueses.

SPSC: A avaliar pelo site do projeto, “estupro e violação” é também um tema com significativa produção de imagens. Como se interpreta esta produção?

FC: Na verdade, o grosso dessa produção deve-se a Asdrúbal António de Aguiar, a um tempo diretor do Instituto de Medicina Legal de Lisboa. As razões prendem-se essencialmente com o elevado número de perícias legais solicitadas desde sempre ao Instituto. Note-se, no entanto, que outras pessoas ligadas ao Instituto, como Azevedo Neves e Francisco Ferraz de Macedo, foram dos maiores colecionadores de imagens e objetos visuais da Medicina nacional.

SPSC: Há outros temas em torno da sexualidade que tenham merecido a atenção do projeto?

FC: Essencialmente, as imagens do hermafroditismo e intersexualidade, da homossexualidade e da prostituição, cuja investigação continua ainda de maneira informal, mas sistematicamente, e de que deverão sair publicações. A intenção de retomar o projeto em áreas mais especializadas mantém-se.

Olhares_sobre_cultura_visual_medicina_ebook

Livro editado no âmbito do projeto.

SPSC: A norte-americana Janice Irvine defende que em certos contextos académicos a sexualidade é ainda vista como um objeto de estudo “menor”, como «trabalho sujo». Esta caracterização faz algum sentido no contexto das ciências sociais em Portugal?

FC: Infelizmente, faz todo o sentido. Ela advém de um viés originário, que tem a ver com o facto de se identificar sexualidade com sexo e práticas sexuais (a cujo respeito se acredita que a psicologia, a psiquiatria e o direito já disseram sempre tudo e que o que há para saber e dizer não é mais do que o senso-comum sempre disse acerca do assunto), ignorando a própria construção do “facto” sexualidade, a história das práticas discursivas e não-discursivas que o constituíram historicamente, a produção moderna dos seres sexuais que somos, das nossas subjetividades modernas inteiramente referidas à categoria médica da sexualidade, que assim moldam as relações sociais e do indivíduo consigo próprio, a construção social binária da masculinidade e da feminilidade, bem como da oposição entre homossexualidade e sexualidade, etc. Consequentemente, da abordagem científica e académica de algo como a “sexualidade” acredita-se que nada pode advir de verdadeiramente fulcral ou universalmente relevante e produtivo para quaisquer outras áreas de estudo. “Sexualidade” é encarada como “mau objeto” e os seus pesquisadores como pessoas votadas a uma mediocridade e marginalidade insuperáveis, devidas à natureza do próprio objeto, por outro lado comprometedor para uma carreira académica com pretensões de ser levada a sério. Mais, quando por vezes se percebe de que é que efetivamente se trata quando se pesquisa a sexualidade, percebe-se que essa pesquisa é de molde a pôr em causa conceções adquiridas e pressupostos tidos como certezas inabaláveis em que longamente assentou o prestígio científico de certas disciplinas, e então aí a reação é verdadeiramente traumática e defensiva.