A questão da sexualidade na deficiência


A questão da sexualidade na deficiência

A opinião de…
Luísa Beltrão, diretora da associação Pais-em-Rede

Data
Agosto 2016

A Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica convidou Luísa Beltrão, presidente da Associação Pais-em-Rede para abrir um ciclo de reflexões em torno de um tema da maior importância: a sexualidade e a deficiência. Conheça a opinião desta especialista!

A sexualidade continua a ser uma pedra no sapato dos pais que querem educar os filhos o melhor possível. A nossa própria sexualidade, na maioria dos casos, continua a não ser a melhor possível, e vamo-nos resolvendo no aqui e agora, sem levantar muitas ondas.

Ó mãe, o Joãozinho meteu as mãos nos meus jeans e eu gostei – a Ritinha demonstra um espírito aberto, pouco vulgar nas crianças europeias.

A mãe sente um soco no estômago, o que responder à filha de cinco anos, como falar sobre o prazer, sobre o que é lícito ou ilícito, sobre o que se tem de fazer sozinho, não porque é feio mas porque é íntimo, e continuar a atender aos porquês que as explicações mais ou menos atamancadas provocam na Ritinha que nesta idade ainda tem um espírito mais ou menos limpo de preconceitos, embora já cheio de conteúdos difíceis que vai esquecendo.

Há os meninos como a Ritinha que falam com os pais naturalmente até serem travados. Há os meninos que não falam porque têm vergonha, mas vão falando com os amiguinhos à socapa, com muitos risinhos cúmplices, interpretando as coisas proibidas ao sabor das imagens e das frases que lhes chegam. Há ainda os meninos que não falam com ninguém. Por fim, há os meninos que não podem falar com ninguém porque não têm oportunidade de o fazer e sobretudo não têm capacidade para pensar sobre si, e cujos pais se sentem desnorteados perante este filho diferente dos outros e anteveem um futuro hipotecado a ajudas externas que não abundam e são inadequadas.

Agora pensem, mães e pais que me estão a ler, como se sentirão os pais destes meninos que vão crescer e tornar-se adultos. Os problemas que se lhes apresentam desde o início são tão graves que nem lhes passa pela cabeça preocuparem-se com os pormenores mais delicados como, por exemplo, a sua sexualidade. Isso só virá depois, por alturas da adolescência. E nessa altura já os pais estão virados do avesso.

Quase todos os pais sentem um pequeno aperto quando o filho ou a filha começa a evidenciar sinais como os pelos púbicos, ou quando, de repente, o rapazinho se masturbou na cama. Ter um filho criança é muito mais fácil porque se julga ter um domínio sobre ele, a criança é dependente. Os medos acodem uns atrás dos outros, se aos onze anos a menina quer ir a uma festa de garagem.

Aos onze anos? Ela furiosa, julga que eu não cresço?

Ou como dizia um garoto à mãe que o abraçava, aproveite enquanto pode.

Agora pensem nos pais que veem os corpos dos filhos transformarem-se. Pensem na angústia insuportável que eles não aguentam e por isso continuam a tratá-los, os seus filhos adolescentes ou adultos, como se tivessem cinco anos. Mas a angústia não os larga. E lá por terem uma deficiência, os filhos não deixam de ser pessoas com direitos.

Se a sexualidade é uma pedra no sapato de todos nós, a sexualidade das pessoas com deficiência é um problema muito difícil e não devemos escamoteá-lo. Talvez se procurarmos refletir sobre esse problema que nos pertence um bocadinho por sermos humanos, através dele nos apareçam novas ideias e novos caminhos para resolver os nossos.

A Associação Pais-em-Rede, com núcleos em quase todos os distritos, procura lutar pela inclusão das pessoas com deficiência e suas famílias. Venha colaborar connosco.