Pensar a sexualidade sem mitos


Pensar a sexualidade sem mitos

A opinião de…
Sandra Vilarinho, terapeuta Sexual e presidente da SPSC

Data
4 setembro 2016

Porque a lenta transformação das mentalidades é um fenómeno transcultural e internacional que diz respeito a todas as pessoas, a Associação Mundial para a Saúde Sexual (WAS) lançou o desafio de refletirmos este ano sobre o tema “Saúde sexual: eliminemos os mitos!” na comemoração do Dia Mundial da Saúde Sexual, que se celebra hoje, 4 de setembro. Pretende-se com a iniciativa focar os mitos que condicionam a saúde sexual e contribuir para a sua eliminação, com informação correta, rigorosa, cientificamente fundamentada e baseada em direitos sexuais. Como parceira da WAS, a Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica abraça este desafio, iniciando hoje – um dia especial para a sexualidade aqui e no mundo – uma longa caminhada de reflexão sobre alguns dos mitos que ameaçam a nossa saúde sexual, como sejam mitos sexuais em torno da idade, género, deficiência, doença, desempenho sexual, fisiologia, resposta sexual ou direitos sexuais.

É comum julgar-se que estamos hoje em condições de viver plenamente a sexualidade, que a nossa liberdade individual é incomparavelmente superior ao passado. No contexto português, foi-se rompendo progressivamente – nas últimas décadas – com tabus e silêncios ancestrais, repressivos e castradores de uma vivência da sexualidade livre e plural. Sobretudo a partir da Revolução dos Cravos, têm vindo a ser reclamados, com maior ou menor nível de sucesso, muitos direitos sexuais, transversais em idade, género, orientação sexual, etnias. A lei portuguesa acompanhou muitas das reivindicações e evoluções de mentalidades. As nossas ciências médicas estão mais atentas e responsivas. Considera-se hoje a sexualidade das pessoas com deficiência ou com condições de doença física e mental. As ciências sociais entendem a vida íntima e privada como um objeto de estudo legítimo. São muitas e muito positivas as mudanças operadas em matéria de sexualidades no nosso país, mesmo que a transformação tenha sido lenta.

Hoje, falamos cada vez mais, com menos eufemismos, sobre sexo e sexualidade. Mas será que falamos e pensamos sem ideias equívocas, preconceituosas e mitómanas acerca das mais diversas sexualidades, mesmo as mais convencionais e maioritárias? Ou será que aquilo que pensamos e falamos sobre a sexualidade – nas nossas esferas privadas, nas nossas redes sociais, e até nos media de grande alcance – está ainda eivado de muitas idealizações e efabulações, sem fundamento científico e radicalmente distanciadas da realidade?

 

Que mitos são estes que persistem ainda,
sem qualquer fundamento científico, de forma mais ou menos camuflada, na nossa sociedade?
Que presença e força têm no nosso imaginário pessoal e social?

 

 

É sobre estas crenças que assentam em padrões condicionados, seja ele o do desempenho, da beleza, da idade, do género e tantos outros, que queremos pensar. Mitos alimentados por mensagens “fast pleasure”, que ditam receitas para o melhor orgasmo, a genitália perfeita, a frequência ideal do prazer, a duração e a dose certa de prazer, tornando a nossa liberdade de ser, sentir e agir, num simples padrão-obrigação. Estas crenças são sugeridas e reforçadas na cultura popular, em filmes, séries televisivas, livros, jornais, revistas e anúncios publicitários, que normatizam, e portanto ‚deseducam’, afastando os corpos e as práticas da sua liberdade subjetiva. Existem cada vez menos tabus, mas persistem ainda muitos mitos no que respeita ao sexo e à sexualidade em geral.

A Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica vai seguir este trilho de desmistificação. Ao longo do próximo ano, até ao dia 4 de Setembro de 2017, o dia 4 de cada mês assinalará um tema em torno dos mitos. No site da SPSC será lançado mensalmente um desafio com um breve questionário de participação anónima e voluntária, acompanhado de informação que visa contribuir para desconstruir crenças erróneas e infundadas.
 Participe, divulgue e faça parte deste desafio para uma sexualidade mais livre, saudável e plural. Pense a sua sexualidade connosco! Sem mitos…