A controversa origem do mundo

Data da Notícia: Outubro 4, 2016

A controversa origem do mundo

A opinião de…
Patrícia Pascoal, terapeuta sexual e vice-presidente da SPSC

Data
4 Outubro 2016

Foto de Laila Torres

image6A pintura denominada A Origem do Mundo, da autoria do pintor Gustave Courbet, datada de 1866, continua a ser uma das poucas representações amplamente difundidas da zona genital feminina. Esta obra é, desde 1995, ponto de destaque do Museu d’Orsay em Paris. Curiosamente, o quadro ganhou ainda maior celebridade mundial quando a rede social Facebook o baniu por ter sido denunciada como imagem imprópria. O que pode levar a que tantas pessoas se sintam chocadas e incomodadas com a representação dos genitais femininos? Afinal o quadro apenas representa, como o título sugere, a zona do corpo por onde a maioria das pessoas nasce. Contudo, apesar de cerca de metade da população ter uma vulva, uma púbis e uma vagina, o conhecimento acerca das características anatómicas dos genitais femininos é escasso. Esta realidade aparece de forma evidente nas consultas de terapia sexual ou psicoterapia quando se questionam mulheres e seus/suas companheiros/as: Sabe qual a parte da vulva e dos órgãos genitais que, quando estimulada, causa mais prazer? Invariavelmente surge a confusão entre vulva e vagina (convido-vos a procurar a definição dos conceitos) e um conjunto de ideias que na maioria dos casos pouco ajudam à exploração plena do prazer genital (por exemplo, a de que as vulvas são todas iguais). Esta situação foi ilustrada de forma bem-disposta por um vídeo divulgado no jornal The Guardian (pode vê-lo aqui, mas atenção, que tem imagens e linguagem explícita), onde se mostra o quão pouco se conhece acerca da anatomia genital feminina.

Não temos todo/as de gostar de ver vulvas, ou de nos sentir confortáveis com a exposição de uma zona do corpo que para a maioria das pessoas é do foro privado e íntimo, contudo a questão coloca-se, entre outros, ao nível do bem-estar sexual: o desconhecimento e tabu à volta da imagem dos genitais femininos salvaguarda homens e mulheres de quê? Ou então: não estará o conhecimento e familiarização com os genitais femininos associada a níveis altos de bem-estar sexual? Num estudo muito recente, que consistia em mostrar fotos de diferentes vulvas a mulheres jovens, foi demonstrado que este procedimento teve um impacto positivo, nomeadamente ajudando estas jovens a pensar de forma mais positiva acerca da sua própria vulva. Pergunto-me se este estudo fosse desenvolvido com mulheres que têm repulsa ou nojo dos genitais femininos ou mesmo nojo e repulsa dos seus próprios genitais apenas, se nesses casos não se correria o risco de acentuar esse sentimento aversivo? Pergunto-me, ainda, de que forma podemos nós ajudar homens e mulheres a pacificarem-se com a representação dos genitais, aumentando o conhecimento, o bem-estar, e aceitando a diversidade das formas e aparência física.

Esta reflexão acerca das imagens da vulva surge ancorada, ou atrelada, a uma outra: a da flexibilização dos costumes. A censura aplicada pelo Facebook ao quadro de Coubert complexifica a crença de que à medida que o tempo passa se ultrapassam os tabus e atitudes negativas face à sexualidade. Há flexibilização inegável de muitas atitudes e comportamentos, mas também há retrocessos e polarização de discursos e a sexualidade e expressão da sexualidade feminina continua em muitos aspetos a causar incómodo. De que outra forma se pode explicar que uma obra de arte de mérito e interesse reconhecidos internacionalmente não sobreviva ao escrutínio moralizante da maior rede social do mundo?