“Muitas dúvidas dos jovens não estão nos livros, na Internet ou nas conversas com os amigos”

Data da Notícia: Outubro 4, 2016

“Muitas dúvidas dos jovens não estão nos livros, na Internet ou nas conversas com os amigos”

À conversa com…
Ana Beato, coordenadora da pós-graduação em terapia sexual da SPSC

Data
4 de Outubro 2016

Entrevista
Isabel Freire

Ana Beato, psicóloga clínica, terapeuta sexual e coordenadora da Consulta de Sexualidade Adolescente do Centro de Desenvolvimento PIN – Progresso Infantil (Paço de Arcos) reflete acerca das preocupações de jovens e pais que passam por este atendimento.

“Admirável”, mas “paradoxal”, é assim o mundo em que hoje vivemos, em matéria de informação e exposição sobre sexualidade, concretamente se pensarmos em adolescentes à procura de perguntas e respostas, no mundo real e virtual, e do seu lugar no meio deles.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – Gerações anteriores foram profundamente marcadas por uma educação sexual silenciadora e repressiva. O que marca genericamente a educação sexual das crianças/jovens na atualidade?
Ana Beato Um paradoxo! O “admirável mundo novo” do acesso a muita informação e a conteúdos sexuais, por um lado, e a dificuldade em realmente educar para a sexualidade e a intimidade, por outro. O desenvolvimento tecnológico e a internet abriram janelas nunca antes abertas. Embora hoje tenhamos oportunidade de saber mais sobre sexualidade, é questionável a validade, rigor e adequação da informação. Há um contrassenso entre a quantidade de material sobre sexo acessível e aquilo que realmente capacita e educa as crianças/jovens para a vivência de uma intimidade e sexualidade adaptativa. Muitas dúvidas dos jovens são complexas. Não estão nos livros, na internet ou nas conversas com os amigos. Quando uma rapariga nos pergunta como convencer o namorado a usar preservativo (sem que ele se zangue), entramos na esfera dos afetos, das escolhas, da capacidade de agir com base no saber pensar, saber sentir, saber agir, saber ser.

SPSC – Enquanto pais, há ideias essenciais em torno da sexualidade, que devo preocupar-me em fazer chegar à minha filha/filho, durante a sua infância?
AB Educar para a sexualidade/intimidade não é tarefa fácil para a maioria dos pais. É importante que os pais respondam de forma franca e sincera às dúvidas das crianças, sem evitamentos. As crianças mais novas são habitualmente mais curiosas – pode ser um desafio para os pais, mas também um facilitador da conversa.
Passar mensagens que ajudem a criança a ter noção de regras e normas sociais, dos limites e do direito à privacidade, do bom/mau segredo, do bom/mau toque, parecem-me aspetos cruciais. Por exemplo: não tocar em zonas privadas dos outros, não deixar que pessoas adultas brinquem com partes do corpo da criança e vice-versa, não mostrar partes privadas do corpo em público. Existem sites na internet que fornecem guiões de conversa para estes temas.
Os pais podem também fomentar conversas sobre questões relacionadas com a sexualidade a partir de notícias, histórias passadas com pessoas amigas, temáticas lecionadas na escola, acontecimentos do quotidiano (por exemplo, a gata lá de casa teve gatinhos). Acima de tudo, os pais devem transmitir que estão interessados e disponíveis para conversar sobre sexualidade quando os filhos necessitarem.

SPSC – Quando a minha filha tinha 4 anos, numa consulta médica de rotina a pediatra abordou espontaneamente o tema do abuso sexual: “Já tens namorado? Ter namorado pode ser uma coisa boa, mas atenção, as crianças só podem namorar com crianças e os adultos com adultos”. Como vê esta iniciativa?
AB O papel do médico é tratar, cuidar e prevenir problemas de saúde, mas também promover o bem-estar e saúde (física, psicológica, sexual) das pessoas. A pediatra provavelmente também terá alertado para a importância de lavar os dentes, de tomar um bom pequeno-almoço, entre outros conselhos. A melhor forma de intervenção é a prevenção. Se essa funcionar, não é necessário remediar. Não alertar ou silenciar o tema do abuso sexual infantil é aumentar o risco de ele ocorrer. Quebrar o silêncio é responsabilidade de todos, desde a família à comunidade em geral.

SPSC – Que livros sobre sexualidade recomenda para leitura conjunta, entre pais e filhos pequenos?
AB –
Há uma enorme heterogeneidade de livros. Correndo o risco de me estar esquecer de alguns, destaco, entre as edições em português:

– Coleção A Minha Sexualidade, de Jocelyne Robert;

– O que é um Homem Sexual?, de Ilda Taborda e Gémeo Luís;

– O Guia da Vida Sexual da Malta Nova, de Hélène Bruller;

A Viagem de Peludim, de Vânia Beliz e Sara Rodi;

O que me Acontece na Puberdade, de Mariela Castro Espín;

Sou um Adolescente / Sou uma Adolescente, de Núria Roca;

Pontos nos Is, da Associação para o Planeamento da Família, organização que também disponibiliza uma agenda útil e didática dirigida a jovens (a Agenda APF).

Cada um destes livros dirige-se a crianças e jovens de idades distintas. Também em português do Brasil existem algumas referências:

Mamãe, como eu Nasci?, de Marcos Ribeiro;

– Uma Vivência de Amor: Falando de Sexo dos 6 anos 9 anos, Gilbert Tordjman e Claude Morand.

No caso dos mais novos, a leitura e reflexão conjunta com os pais ou em família e amigos pode ser uma boa sugestão. Com adolescentes, é importante avaliar a disponibilidade e motivação deles para explorar estes recursos com os outros.

Acima de tudo, os pais devem transmitir que estão interessados e disponíveis para conversar sobre sexualidade quando os filhos necessitarem.

SPSC – Que assuntos preocupam os jovens que procuram na Consulta de Sexualidade Adolescente do centro de desenvolvimento PIN – Progresso Infantil?
AB – A Consulta é procurada por jovens, mas também por pais, técnicos e professores/educadores. Em alguns casos, as queixas estão associadas a comportamentos sexuais considerados impróprios (tendo em conta a idade e o contexto da criança), disfuncionais ou de risco (para o próprio ou para os outros). Vejamos então que queixas, em concreto, surgem na consulta: questões relativamente normativas relacionadas com a adaptação à sexualidade e intimidade em diferentes fases de vida; dificuldades dos jovens com a vivência da sua orientação sexual e escolhas sexuais; dinâmicas dos relacionamentos amorosos e/ou sexuais e com a identidade de género; necessidade de integração e ajustamento após experiências sexuais traumáticas ou negativas; dificuldades ou perturbações sexuais (mais raramente). Como a consulta se insere num centro de desenvolvimento, são muitas vezes encaminhados casos em que o funcionamento sexual ou afetivo pode estar comprometido por problemas de saúde ou por perturbações psicológicas (frequentemente perturbações do neurodesenvolvimento).

SPSC – E os pais que procuram ajuda no PIN?
AB – Mais do que crianças ou jovens, são os pais que procuram a Consulta de Sexualidade. As preocupações são variadas: orientação sexual dos filhos (e a sua desorientação enquanto cuidadores perante essa evidência); disforia de género dos filhos (e a sua necessidade que lhes garantirmos que os miúdos não irão fazer nenhum disparate); comportamentos inapropriados na escola (e um pedido de ajuda para que eles se extingam); contactos sexualizados considerados desajustados estabelecidos com pessoas mais novas, da mesma idade ou mais velhas, online ou na vida real. Enfim, a lista estender-se-ia a muitas outras temáticas.

SPSC – Recentemente, uma amiga falava-me das suas preocupações centrais, quando a filha de 16 anos teve o primeiro namorado: que a jovem se fotografasse/deixasse fotografar (nua ou situações sexuais), e que essas imagens chegassem às redes sociais. Fenómenos como o “sexting” (mensagens com fotos/vídeos de conteúdo sexual), o “aftersex” (fotos tiradas após as relações sexuais, e expostas nas redes sociais), o “revenge porn” (upload de fotografias/vídeos sexuais, como vingança face ao fim de um relacionamento) são hoje preocupações centrais de quem trabalha em torno das questões da  sexualidade, junto de jovens?
AB – Cada vez mais. Entre o que os jovens sabem que deviam fazer e o que fazem, há uma distância que importa compreender. A adolescência caracteriza-se por uma vivência do entusiasmo no imediato, sem antecipação das consequências. Há uma minimização dos riscos – “toda a gente o faz”, “eu confio naquela pessoa, ela nunca seria capaz de me fazer mal”, “não estava a fazer nada de mal” –, que acaba por justificar o envolvimento neste tipo de trocas de dados e conversações. Quase todos os adolescentes que acompanho (e que têm ou tiveram relações amorosas ou “amigos coloridos”) já o fizeram. Na verdade, este é fenómeno muito difícil de controlar. É fundamental incentivar os jovens a pensarem sobre os riscos antes de agirem. Como ouvi alguém dizer recentemente, ajuda fazer a pergunta: “isto é algo que a minha avó pudesse ver?”. Na eventualidade de haver partilhas indesejadas, é necessário estar preparado. Com base no que tenho visto, o risco é maior quanto mais explícito for o conteúdo (por exemplo, imagens, vídeos ou conversações que exponham partes privadas do corpo e atividades sexuais como a masturbação).

SPSC – Entre os anos 1960 e 1970, foi muito importante afirmar a ideia de que o privado era público. Estamos agora em contraciclo, precisando afirmar a ideia que o íntimo é afinal privado?
AB – O ser humano tem uma curiosidade natural pelo que é privado e sabe-se que à medida que os limites dessa privacidade se alargam, a curiosidade diminui. O acesso fácil que temos à nudez, enquanto veículo para chamar a atenção de consumidores na publicidade, as mensagens de cariz sexual em qualquer capa de revista, os pop ups que se abrem constantemente no nosso ecrã e que redirecionam para sites de pornografia, tornaram o sexo tão banal como invasivo. Não digo a partir de um ponto de vista moralista ou tradicional, de todo… simplesmente acredito que acontecem vários movimentos. A dessensibilização em relação aos estímulos sexuais, a objetificação do corpo, a imagem deturpada do que é a sexualidade a partir de filmes pornográficos, a facilidade de obtenção de gratificação imediata, são apenas alguns exemplos de trajetórias sociais que parecem estar a suceder atualmente. Recordo-me de ter lido há uns meses atrás que um do reality show de uma televisão privada acabou mais cedo do que previsto por falta de audiências. O público queixou-se que havia exposição do corpo e atividades sexuais com demasiada frequência e facilidade, aborrecendo e cansando quem gosta de apreciar os jogos de atração habituais deste tipo de programa e que mantêm o suspense dos espetadores. Talvez sim, estejamos a passar do “deixa-me espreitar” para o “guarda isso para ti”.

SPSC – O que pensa sobre a possibilidade de pais controlarem conteúdos e conversas de filhos menores em redes sociais ou aplicações como o WhatsApp, o Instagram, o Snapchat, o Facebook,  por exemplo?
AB – O tema do controlo parental é sensível e merece bom senso na hora de agir. Permite bloquear websites e outros dados que tenham conteúdo inapropriado para os filhos (pornografia, violência, sexting, cybersex). O controlo também é ajustado ao nível de desenvolvimento da criança, sendo mais restritivo em crianças mais novas. Porém, o recurso a este tipo de software pode aumentar a tensão e conflito entre pais e filhos, e os pais podem confiar tanto nele que acabam por colocar em segundo plano o seu papel ativo na educação sexual dos filhos, nomeadamente em orientar a pesquisa de informação adequada. Muitos pais também se queixam que os filhos descobrem formas alternativas de aceder a estes conteúdos (usando o telemóvel de um amigo) ou que a rapidez com que estes conteúdos surgem no ecrã é tal que o programa pode não conseguir ser eficaz na hora de restringir o acesso aos mesmos. Só bloquear conteúdos não chega. Comunicar, estar disponível e atento é fundamental na prevenção de riscos a que todos estamos sujeitos no momento atual.

SPSC – Quais são os direitos de cidadania da intimidade (ou sexualidade) que devem ser considerados na educação para a sexualidade nos nossos dias?
AB – Partindo da premissa basilar de que a sexualidade é uma parte integrante da personalidade e desenvolvimento saudável do ser humano, é importante promover um ambiente favorável à vivência de uma sexualidade saudável, sem repressão, discriminação, culpa, vergonha ou silêncios. Que direitos promover? O direito à igualdade, à liberdade e proteção, para que jovens não sejam discriminados com base nas suas manifestações sexuais, género ou sexualidade. O direito a que diferentes expressões tenham uma voz ativa na sociedade, sem serem oprimidas ou silenciadas. Que a sua privacidade seja respeitada sem interferências e exposição pública. Que haja acesso a cuidados médicos e psicológicos para a prevenção, diagnóstico e tratamento de problemas, perturbações, doenças e outras questões relacionadas com a sexualidade. Que a sexualidade de quem não é maioria seja encarada como uma componente natural do desenvolvimento humano, quer se tenha deficiência física, motora ou doença crónica. Que tenham direito a não ceder à pressão dos outros, sem que se sintam coagidos a seguir a norma sem que isso lhes faça sentido. Que tenham direito a sentir desejo e prazer, mas que também possam optar por não o ter, caso seja essa a sua escolha.