“A educação sexual é o parente pobre da educação para a saúde”

Data da Notícia: Outubro 5, 2016

“A educação sexual é o parente pobre da educação para a saúde”

vania-beliz

À conversa com…
Vânia Beliz

Data
5 de Outubro 2016

Entrevista
Isabel Freire

CAPA_sem cintaA Viagem de Peludim é um livro sobre educação sexual para crianças dos 3 aos 8 anos, que foi feito a seis mãos: Vânia Beliz, psicóloga clínica e sexóloga, Sara Rodi, argumentista, e Célia Fernandes, ilustradora.

Cronista e consultora dos media na área da sexualidade, Vânia Beliz fala sobre o projeto, sobre a sua caminhada na divulgação do livro e sobre a relevância da educação sexual junto da infância. Para muitos pais este é ainda um assunto “desnecessário” e “imprudente”.

 

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – O que é que A Viagem de Peludim lhe fez descobrir sobre si?

Vânia Beliz – Que era urgente mudar o rumo do meu trabalho, que era importante aprofundar os meus conhecimentos. Levou-me ao doutoramento. Irei investigar a área da educação sexual no ensino pré-escolar. Fez-me perceber a pertinência de começar cedo a intervir nesta temática.

SPSC – E sobre a educação sexual na infância?

VB – Que existem muitos tabus e preconceitos, que as famílias não conseguem perceber como influenciamos a felicidade das nossas crianças através da forma desigual como educamos meninos e meninas, de como ignoramos a importância destas temáticas para prevenção da violência sexual e de
género. Ensinou-me a não desistir de desmistificar o conceito de sexualidade e nem de mostrar a importância destas temáticas para a felicidade e bem-estar das crianças e futuros adultos.

SPSC – Nas deambulações que vem fazendo para divulgar o livro e promover a educação sexual na infância, que disponibilidades e humores tem encontrado em pais e profissionais, relativamente à importância deste tema na vida das crianças?

VB – Pais inseguros e professores desmotivados. A educação sexual é o parente pobre da educação para a saúde. Algo que ainda se discute se cabe à família, escola e saúde, e que poucos compreendem que cabe a todos. Somos todos educadores sexuais num mundo em mudança que já não podemos ignorar.

SPSC – A ideia de que as crianças têm sexualidade é ainda para certas pessoas uma ideia extraterrestre? O que pensam?

VB – Prazer na infância? Satisfação? Vulva? Pénis? Que disparate… Muitos acham desnecessário e imprudente: “lá para a puberdade logo se fala do assunto”! Até lá as crianças não tem sexualidade, aliás ninguém tem… porque os pais aparentemente também não fazem sexo e os avós também não! Ainda
estamos muito presos ao conservadorismo, sobretudo nas questões de género.

SPSC – Peludim teve sorte… poderia ter encontrado uma família com caraterísticas muito diferentes: desigualdade de género, desrespeito pela identidade de cada um, abuso sexual. Faria sentido uma nova edição, em que Peludim conhecesse uma família disfuncional, desigual, abusiva?

VB – Peludim ajuda a refletir sobre a identidade de cada um, aprende coisas simples e importantes como conhecer o corpo e protegê-lo, como nos reproduzimos e como nascemos. Ajuda a que cada criança viaje dentro de si e reflita porque se é menino/menina, porque gostamos de brincar e vestir de determinada forma, ajuda a refletir sobre as dinâmicas familiares relacionadas com a distribuição de tarefas e género (por exemplo os afazeres domésticos). Mas onde  Peludim foi mais afortunado, foi em encontrar dois irmãos tão esclarecidos, situação pouco comum nas crianças que nos conhecem, que ainda acham que vêm de sementinhas que se compram no Continente ou graças a um beijinho.

SPSC – Há alguma questão ou assunto da sexualidade que hoje acrescentaria ao argumento do livro, tendo em conta o percurso que Peludim lhe fez fazer até aqui?

VB – Acreditamos que Peludim é uma ferramenta em educação sexual. Gostava que a partir dele surgisse material de apoio que pudesse ser usado na escola.
Quisemos que este livro fosse importante para o esclarecimento e proteção das crianças.  Quisemos que fosse uma história com muitas outras dentro. Sara Rodi, a outra autora, consegui-o muito bem. Faríamos tudo igual. As ilustrações da Célia Fernandes são cativantes e têm sido um sucesso, a personagem é muito acarinhada nas escolas. Gostava de o ver em mais escolas, em mais casas, e que fosse traduzido para chegar a outros destinos…