Arte e sexo explícito? Sim, mas não tanto!


Arte e sexo explícito? Sim, mas não tanto!

A opinião de…
Luís Herberto, pintor e professor na Universidade da Beira Interior

Data
4 Novembro 2016

Website do autor
www.luisherberto.com

Pan e Diana, de Gian Giacomo Caraglio, Museu Nacional de Arte de Copenhaga

Quando juntamos arte e sexo explícito, entramos de imediato na esfera da controvérsia. Em conjunto, configuram-se como dois campos culturais que permitem tantas afinidades como colisões. E nesta situação, consentem leituras muito variadas, dificultando um entendimento claro para o que viabilize definir uma relação consensual. Podem permitir uma leitura artística, sobretudo quando as relações formais e técnicas se aproximam de certos níveis de realismo, como os que Courbet anunciou, ou são facilmente lançadas para o campo da pornografia e do que esta representa, como é visível na obra fotográfica de Jeff Koons ou Natacha Merrit. A questão da aproximação à pornografia permite ainda alguma discussão, já que o termo tem algumas variações históricas no que representa, sem beliscar a atual leitura.
De qualquer modo, as representações artísticas sexualmente explícitas que vamos tendo a oportunidade de fruir, são errada e frequentemente associadas ao obsceno e caracterizadas como vulgares. Restam as resistentes exceções e as leituras atentas do Foucault, que passou ao papel a História de parte desta ideia de repressão do sexo, o que muito nos ajuda no entendimento destas questões.

Na sociedade portuguesa, realidade que determina grande parte do meu trabalho plástico, são muito reduzidas as manifestações artísticas de relevo e em espaços públicos, estando muitas outras disponíveis a nível privado e no paradoxo público da internet. Como um inegável exemplo de resistência à beatificação instalada, a pintura de Barahona Possollo, na exposição All We Can Eat, de 2013, sendo a sua primeira apresentação dedicada inteiramente à temática, explorando códigos e rituais comuns à pornografia. É uma pintura realizada para consumo privado e a sua exposição pública demonstrou que poderia ter ficado por aí, apesar de todos os elogios às questões técnicas e estilísticas. De qualquer modo, esta temática picante não teve qualquer efeito negativo na sua imagem pública, já que foi o escolhido para a realização do retrato presidencial do anterior Chefe de Estado.

No feminino, encontramos uma artista quase desconhecida do grande público e que produziu, sobretudo nos anos 90, obra muito reflexiva, em evidentes citações artísticas, mas erradamente adornada como proto porn. Refiro-me a Acácia Maria Thiele, que propõe um contexto intimista próximo das primeiras representações eróticas na Pintura, como a icónica Vénus que Tiziano pinta para um colecionador privado. A sua obra não é apenas orientada para o espaço público, como na verdade, também lhe passa ao lado. A autorrepresentação que apresenta também lhe ditou a exclusão, talvez pela associação a uma carga subversiva, em conjunto com a condição feminina.

acacia

Maya Yo, de Acácia Maria Thiele (1995)

Neste sentido, o enquadramento geográfico e cultural em que nos movemos, o mesmo que possibilitou importantes revoluções sociais, com particular relevância a partir da década de 1960 e com especial atenção para questões da sexualidade, permite ainda, de um modo geral, a fusão entre arte e sexo como demasiado incómoda, configurando nas relações sociais, um recatado cofre-forte para a ausência do pudor, aberto apenas em ocasiões íntimas e em privado.

Refletindo um pouco no que a cultura Ocidental nos oferece nesta temática, encontramos na História das Artes, deliciosas manifestações artísticas que se fundem a sensações de prazer visual e intelectual e quem sabe, como possíveis catalisadores de e para o desejo. Um dos exemplos mais mediáticos está disponível em Pompeia, uma cidade que albergava na sua estrutura decorativa uma verdadeira ementa de prazeres carnais e que permitiu posteriormente, leituras de rejeição, construídas à volta de uma mitificação do pecado, que surge como consequência e exemplo da sua destruição, ajudando na estruturação do pudor atual. É precisamente nesta construção ideológica, que se definem alguns valores morais ainda em uso e que permitem discussões intermináveis à volta das representações sexualmente explícitas. São muitas as referências visuais e literárias que nos mostram esta discussão.

Como um exemplo significativo e que poderia mesmo ser atual, na Renascença Italiana, os Sonnetti Lussuriosi que Pietro Aretino escreveu, em conjunto com os I Modi, as gravuras sexualmente explícitas de Marcantonio Raimondi para ilustrar tais palavras atrevidas. Esta parceria protagonizou um dos escândalos mais irreversíveis e de proporções inimagináveis para o futuro das artes visuais com conteúdos indecorosos. A título de curiosidade, Raimondi era discípulo de Giulio Pippi, autor dos desenhos originais. Este, por sua vez, era um perfeito homem da Renascença e assistente privilegiado de Rafael, o que lhe confere de imediato uma aura respeitável. Os desenhos são encomendados pelo Marquês de Mântua, Federico Gonzaga, conhecido colecionador de pintura ‘não-religiosa’, desafiando o consenso da época. Quanto a Raimondi, foi preso pela execução das gravuras e todas as cópias foram confiscadas, de acordo com as narrativas de Vasari. Melhor sorte teve o seu discípulo, Gian Caraglio, também conhecido como Giovanni C., que produziu a série de gravuras com o convincente título ‘Os Amores dos Deuses’, uma das duas séries de gravuras sexualmente explícitas mais conhecidas na época, que originaram uma grande procura, até porque estão já consolidados meios significativos de reprodução gráfica. Ao contrário da realidade direta dos I Modi, que mostrava sem pudor, um bom catálogo de posições sexuais, estas imagens são sustentadas nas memórias mitológicas e clássicas dos amores dos deuses, fornecendo um meio oportuno para a representação de histórias sexualmente sugestivas, mas na verdade, não explícitas, apesar de alguma genitália acentuada.

Por sua vez, Aretino, amigo íntimo de Tiziano, detém na sua obra literária, fortes críticas à hipocrisia moral da sua época e protagoniza uma inesperada situação, ao enviar uma polémica carta a denunciar a indecência das imagens no Juízo Final, na Capela Sistina. Este enquadramento moral e religioso obriga posteriormente Danielle de Volterra, discípulo de Michelangelo e após a morte do seu mentor, a pintar véus de pudor sobre os nus mais provocantes da Sistina. Por causa desta incumbência e ordem direta de Paulo IV, conseguiu ficar conhecido para a história com o apelido de ‘braghettone’ (o ‘calcinhas’). Executa o trabalho contrariado, repartindo com alguma moderação os censórios panejamentos, levando futuramente a nova empresa púdica, sem mesmo ter sido excluída a hipótese da sua destruição.

E o que mudou nas mentalidades no presente, no que diz respeito às artes licenciosas? De um modo geral, muito pouco. A construção dos códigos morais e sociais estabelecidos nas sociedades ocidentais, solidifica as relações que privilegiam o confronto entre bem e mal. Especificamente, entre virtudes e pecados.