“A sexualidade não é uma coisa em si, é qualquer coisa em nós“

Data da Notícia: Novembro 3, 2016

“A sexualidade não é uma coisa em si, é qualquer coisa em nós“

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À conversa com…
M. Joana Almeida

Data
4 de Novembro 2016

Entrevista
Isabel Freire

M. Joana Almeida é psicóloga clínica. No consultório privado, e no Diferenças – um espaço que conta com peritos de diferentes áreas para acompanhar crianças, jovens e adultos com perturbações do desenvolvimento e/ou dificuldades de aprendizagem – faz terapia e aconselhamento sexual. À conversa com esta especialista, pensamos as funcionalidades e disfuncionalidades da sexualidade, uma vertente da nossa existência que se equilibra/desequilibra numa relação de interdependência entre a mente, o corpo e a cultura.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – Uma sexualidade saudável tem problemas ocasionais, percalços, insatisfações?

Joana Almeida – A sexualidade cresce connosco e nenhum equilíbrio nasce sem desequilíbrios. A sexualidade não é uma coisa em si, é qualquer coisa em nós: acontece no nosso corpo, na nossa mente, na nossa casa, nas ruas, na comunidade, na cultura e até no tempo. Pontualmente, progressivamente, decididamente, todos passamos ou podemos vir a passar por fases em que nos sentimos mais (in)satisfeitos. Acredito na capacidade humana da criatividade para dar saltos em frente, para encontrarmos e criarmos novas fases, soluções ou mudanças, mas com percalços e insatisfações.

SPSC – Os terapeutas sexuais nunca precisam de terapia sexual?

MJA – As pessoas que me procuram e com quem lido em intervenções clínicas (e na vida!) ensinaram-me a humildade de sentir que as dificuldades psicológicas e sexuais não acontecem só aos outros. Uma relação pode estar invertida por alguma razão ou sem razão uma. Penso muitas vezes nesta questão. Sem dúvida que os terapeutas sexuais também podem precisar de ajuda. Sem dúvida que posso precisar, porquê pensar que não precisei já, ou virei a precisar no futuro? Procurar ajuda não é um passo fácil e cada pessoa terá as suas razões para o adiar, para contemplar fazê-lo e a seu tempo dar esse passo. Nós, os terapeutas, teremos as nossas emoções para mastigar antes de o fazer. Espero ter essa coragem se precisar dela.

SPSC – As pessoas tendem a aceitar mais pacificamente uma causa fisiológica ou uma causa psicológica para os seus problemas?

MJA – Depende da pessoa, do seu contexto… mas penso que a influência e preponderância do modelo médico ainda é muito forte no modo como pensamos a nossa saúde e vida mental, por isso uma causa fisiológica tende a ser vista como mais digna, mais forte, justificando melhor as dificuldades na sexualidade, nas relações. Oiço muito a frase “isto é só da minha cabeça”, como se a influência do nosso cérebro (da nossa mente) não tivesse consequências tão fortes como a do nosso corpo. Como se o corpo não fosse a casa da nossa mente, e a nossa vida mental não vivesse no nosso corpo. Mesmo que haja uma causa fisiológica identificada e óbvia para dificuldades na sexualidade e na vida sexual, a nossa mente também vai sofrer com tais dificuldades e a resposta e aceitação de tais dificuldades (que podem ter começado no corpo, na idade, no funcionamento dos órgãos) vai depender muito das nossas emoções, dos nossos comportamentos e do que pensamos e interpretamos sobre o que estamos a passar.

SPSC – Em que problemáticas sexuais as fronteiras entre corpo e mente se imiscuem mais facilmente, exigindo tratamentos combinados de médicos (psiquiatras, urologistas, ginecologistas) e psicólogos?

MJA – Em toda e qualquer dificuldade sexual deve haver avaliação médica e psicológica. Uma não deve excluir a outra e penso que raros serão os casos em que há separação cristalina das águas.

SPSC – As infeções sexualmente transmissíveis (nomeadamente o HIV-Sida) trazem pessoas à sua consulta?  Com que ‘dilemas’ psicológicos?

MJA – Claro. Felizmente os tratamentos do VIH/Sida são hoje muito mais eficazes em prolongar a vida de pessoas, mas o estigma ainda persiste, com consequências nas relações e vivências. Tenho contactado com pessoas que sentem o VIH com medo. Como um fantasma a assombrar uma potencial satisfação sexual. Pessoas que estão apaixonadas por pessoas seropositivas (mas temem iniciar uma relação e ter relações sexuais mesmo que tão seguras quanto possível). Mas também contacto com pessoas que têm comportamentos de risco. Não conseguem viver com prazer seguindo comportamentos seguros (pela utilização de preservativo ou outras práticas).

O VIH veio reavivar perspetivas conservadoras (repressivas de uma sexualidade orientada para o prazer) e generalizou-se um discurso médico de prevenção de doenças (que foi sem dúvida necessário!). Porém, hoje, já podíamos ter uma visão mais integrada, menos medicalizada da sexualidade, menos sanitária e que não tivesse tanto pudor em falar e promover o prazer.

SPSC – Há pessoas solteiras que procuram terapia para facilitar a busca de parceiro(a)? Que angústias trazem associadas?

MJA – Não diria que há pessoas que começam uma terapia para facilitar a procura de parceiro/a, mas há quem procure apoio, pelo medo da intimidade de uma relação, de se entregar, e de descobrir como vivê-la. A maior liberdade de escolher acabar uma relação, a maior independência individual e financeira, permitem também que muitas pessoas troquem de parceiro/a frequentemente. Nalguns casos não sabem como ficar numa relação, como encontrar o seu conforto e satisfação em estar com alguém para além da novidade e da paixão, nos momentos em que o tempo pode também trazer aborrecimentos, chatices, contratempos.

No contexto da comunidade LGBT pode também haver maior isolamento, maiores dificuldades em conhecer novas pessoas e potenciais parceiros/as – se em Lisboa e Porto há já circuitos seguros de socialização, nas zonas mais pequenas e menos urbanas tal ainda não acontece.

Noto também uma pressão para a vida em casal. Para se estar em relação com alguém. E uma desvalorização da vida a sós, como se essa situação fosse necessariamente um problema ou defeito.

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SPSC – Que problemáticas sexuais – na lógica do casal – lhe surgem mais recorrentemente?

MLA – Nos casais que eu encontro surgem muitas vezes as diferenças no desejo para ter relações sexuais. Se no caso das mulheres o diagnóstico deixou de se chamar hipoativo para se falar de perturbação do desejo e excitação, no caso dos homens ainda falta estudar melhor como funciona o seu desejo. E porque ainda lhe chamamos hipoativo. Ou seja, por que motivo ainda lhe impomos uma norma de quantidade/intensidade? Estas discrepâncias de desejo no casal podem causar dificuldades na relação.

Na consulta surgem-me também dificuldade já antigas: diferenças nos papéis de género, na gestão da parentalidade e de uma vida de casal nova depois de haver filhos.

Sendo uma minoria, os casais ou grupos poliamorosos são bastante interessantes, pela ética com que refletem a vida de casal. Penso que o casal tradicional (monogâmico exclusivo) tem bastante a aprender com estes movimentos pouco visíveis, mas que desenvolvem uma ética (um respeito pelo próprio e pelo outro e pelas relações) muito interessante.

No caso dos casais de lésbicas ou gays aparecem questões ligadas à homofobia no seio das famílias de origem – por vezes até sem se reconhecer como pesam e custam a carregar. A socialização e cultura em que nos desenvolvemos é bastante heterossexista. Construir uma relação com uma pessoa do mesmo sexo encontra obstáculos. Pode haver diferentes coming-out dentro do casal ou medo de discriminações homofóbicas que restringem a liberdade individual e a satisfação com as relações.

Não posso deixar de lembrar que nas consultas que faço no espaço DIFERENÇAS com jovens com perturbações neurodesenvolvimentais (principalmente trissomia 21, perturbação do espetro do autismo, entre outras) a problemática é sobretudo a falta de oportunidades de socializar, de se apaixonar, de vir a formar casal. Penso que depois da integração nas escolas, falta-nos ainda o respeito e apoios para uma vida independente, que venha a permitir paixões, namoros e até a formação de casais.

SPSC – As primeiras consultas de sexologia surgiram no nosso país em 1975. Estas novas possibilidades terapêuticas começaram a ser faladas em alguns media, sobretudo pró-feminismo. Informavam-se os leitores que os problemas sexuais podiam afinal curar-se, e atribuem-se causas psíquicas (insegurança e medos, resultantes de pressões sociais) a muitas das disfunções. Que pressões sociais escuta hoje em dia, com mais frequência, dos seus pacientes em terapia sexual?

MJA – As pressões sociais que oiço dos meus pacientes assumem a forma de expectativas, mitos, crenças e discriminações (mais ou menos veladas). Há uma pressão enorme de performance na sexualidade em geral (de transbordar sensualidade e desejo), que convive com uma cultura ainda de preconceitos, de moralidades de uma suposta sexualidade aceitável, ainda limitada aos fins reprodutivos.

Como faço clínica com pessoas lésbicas gay, bissexuais e transgéneros contacto também com bastantes preconceitos homofóbicos e transfóbicos, que causam pressões e um sofrimento grande. Apesar de uma igualdade de direitos nas leis que regem a vida de pessoas LGBT, a aceitação de si próprio e pelos outros ainda não ultrapassou as barreiras sociais, as pressões para uma heterossexualidade hegemónica. Por outro lado, é curioso (e irónico) ser nesta altura de estímulos e expectativas de uma sexualidade (hiper) ativa, que surjam movimentos como o da assexualidade, que dá visibilidade a pessoas que não se enquadram nem se revêm nesta hiper estimulação.

SPSC – Lembra-se de narrativas públicas (mediáticas, publicitárias, outras) que lhe pareçam prejudiciais à sexualidade?

MJA – A pressão para uma performance sexual extraordinária alimenta-se de narrativas de sensualidade e erotismo constantes e transbordantes. Somos inundados de nudez, de receitas pré-formatadas para se ter muito sexo, muito desejo, muitos orgasmos, muitos parceiros e parceiras. A publicidade, por exemplo, abusa da sensualidade para nos vender carros, champôs ou detergentes para a roupa, como se a sexualidade fosse uma moeda forte, sem inflação e com muita especulação. Os media também têm o seu papel – positivo na divulgação e clarificação de questões chave da sexualidade -, mas com um lado mais cinzento, na divulgação de ideias feitas, receitas a replicar, que colocam as pessoas sob a pressão de não conseguirem aplicar em si o que se apregoa resultar com toda a gente. Além disso, hoje em dia vivemos muito e saciamos a nossa sede nas redes sociais: esse meio de informação e formação que mostra o melhor (ou o pior) de nós, que nos maquilha a vida privada na praça pública e transforma também as nossas relações. Será interessante saber no futuro o que a investigação em sexologia dirá das mudanças e evoluções das nossas relações e dos nossos amores com esta vida paralela online.

SPSC – Atualmente, o debate sobre o que é mais importante para a definição da nossa sexualidade – natureza ou cultura – ainda persiste?

MJA – Sim e está bem vivo! Nos debates sobre sexualidade continua viva a luta entre as visões mais biológicas, evolucionistas, e as mais construtivistas (sociológicas). Nos ringues da academia e da investigação em sexologia continua a debater-se ardentemente se ganha o corpo ou a mente como o mais importante. É sempre difícil vermos a realidade pelos olhos dos outros, mas nas questões da sexologia, procurar equilíbrios entre a natureza e a cultura (com peso e medida) nos pode informar e formar melhor a todos. Na sexologia é fundamental dialogar e integrar conhecimentos de várias áreas. Precisamos de uma mesa redonda em que as várias perspetivas se encontrem.