“As conversas mais profundas e abertas que tive sobre sexualidade foram com pessoas assexuais”

Data da Notícia: Novembro 3, 2016

“As conversas mais profundas e abertas que tive sobre sexualidade foram com pessoas assexuais”

À conversa com…
Rita Alcaire

Data
4 de Novembro 2016

Entrevista
Isabel Freire

Antropóloga e documentarista, Rita Alcaire desenvolve atualmente na Universidade de Coimbra uma investigação de doutoramento intitulada “A revolução assexual: discutindo a assexualidade através da lente dos direitos humanos“. Num momento em que o assunto parece ter entrado na agenda pública (e mediática) da cidadania da intimidade, a SPSC pergunta pelas linhas gerais desta orientação sexual e pela disponibilidade da sociedade dos nossos dias em aceitá-la. Nas entrevistas que realizou para o seu estudo, Rita Alcaire encontrou pessoas com um percurso de reflexão profundo, carregado de clareza em torno da própria intimidade.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica: Como podemos definir a assexualidade, em termos gerais?

Rita Alcaire – Assexualidade é um termo chapéu que engloba uma realidade muito ampla e complexa (de identidades, experiências, comportamentos e orientações românticas), em que existe uma característica comum: assexual é uma pessoa que não sente atração sexual por outras pessoas, independentemente do seu género, e que pode ou não ter desejo ou interesse em atividade sexual.

SPSC – O mundo está ‘preparado’ para aceitar que existem pessoas assexuais ou a tendência é para ver ainda nelas seres disfuncionais (traumatizados, doentes), que precisam ajuda terapêutica para pôr a sua sexualidade a funcionar?

RA – A tendência é sempre a de se integrar algo que surge como novo naquilo que já se conhece. Neste caso, no modelo vigente de sexualidade. O que não cabe nesse modelo é ainda questionado e patologizado. Com a assexualidade não é diferente.

Felizmente, muitos são os relatos que recolhi (de profissionais de saúde, famílias, sociedade em geral) que mostram abertura para conhecer a diversidade sexual humana e estou confiante de que paulatinamente haverá mais abertura nesse sentido – o contributo do ativismo tem sido essencial.

SPSC – Ao nível internacional pode falar-se já de uma comunidade assexual ativa, cooperante, reivindicativa dos seus direitos?

RA – Sem dúvida. Existe uma comunidade internacional assexual forte e um conjunto de coletivos e associações em diferentes países (europeus e americanos), que se fazem representar em eventos públicos, que promovem iniciativas de educação e visibilidade para a assexualidade, e que usam a internet como uma das principais plataformas para espalhar a mensagem, promover debates e organizar conferências.

SPSC – Que reivindicam os assexuais em concreto?

RA – As reivindicações são comuns em várias partes do mundo e centram-se essencialmente no direito à não discriminação, luta pelo reconhecimento como uma orientação sexual válida – embora nem sempre sejam formuladas dessa forma, não são muito distantes das reivindicações gerais por direitos sexuais e reprodutivos.

SPSC – E em Portugal… há uma comunidade formada ou em formação?

RA – Em Portugal as pessoas que se identificam como assexuais estão ainda a encontrar-se, maioritariamente pela internet. Isso não impede que haja já pessoas a organizar-se e muito motivadas para levar a efeito iniciativas que promovam o conhecimento sobre a diversidade sexual humana, pela promoção da educação e visibilidade assexual e pela promoção dos direitos humanos em geral. Algumas delas estão a organizar-se em grupos e a fazer ativismo significativo e informado como é o caso do GAAP –Grupo Sexual e Arromântico Português.

SPSC – Pode dar certo um relacionamento em que apenas um dos elementos é assexual?

RA – Há pessoas que estabelecem relações afetivas com outras pessoas assexuais. Há também quem esteja numa relação com pessoas que não são assexuais (referidas pela comunidade como allosexuais). E existem pessoas que não desejam envolver-se em relações. Dentro das relações, a presença de relações sexuais e de quaisquer outras questões são negociadas, faladas, integradas (ou não) de acordo com aquilo que faz sentido para aquelas pessoas. Comunicação e consentimento são palavras-chave.

SPSC – No seio das famílias a assexualidade é complicada de entender e aceitar? O que é que em geral os pais ‘veem’ no filho/filha assexual?

RA – Existem situações distintas de família para família. Há alguns casos em que os pais acham que se trata de uma fase. Querem saber se ainda vão ser avós. Acham que é uma coisa da idade. Mas depende sempre do contexto da família, das informações que os pais e outros familiares têm sobre sexualidade, do tipo de relação que têm com os filhos. Encontrei histórias muito positivas de compreensão da assexualidade como mais ‘uma possibilidade de se ser’.

SPSC – Homens e mulheres assexuais lutam genericamente contra os mesmos preconceitos sociais ou algum deles precisa derrubar um muro mais alto? Qual e porquê?

RA – É mais complicado para um homem identificar-se publicamente como assexual dada a sociedade em que vivemos: o poder, o sucesso, o prazer e tudo aquilo que é entendido como ‘ser homem’ é muito associado ao sexo (heterossexual, coital, orgástico e com a maior frequência possível). Nas minhas entrevistas percebi que os homens são habitualmente equacionados como sendo gays, porque um homem que não sente atração sexual é tido como inconcebível.

SPSC – Para si, como investigadora (e entrevistadora), que aspeto da assexualidade foi mais complexo de compreender ou ‘encaixar’?

RA – Aspetos difíceis de compreender ou de encaixar, não diria. Houve sim muitos momentos desconcertantes. Estamos a falar de pessoas que refletiram muito sobre si mesmas e sobre os contextos que as rodeiam, sobre a sua identidade, intimidade, as relações que estabeleceram e a sua relação com o mundo. Por terem esse percurso de reflexão, têm uma maneira muito clara e muito rica de comunicar a sua experiência. Assim, as conversas mais profundas e abertas que tive sobre sexualidade foram com pessoas assexuais, o que não estava à espera. Isto é algo que não surge com pessoas que, por uma razão ou outra, nunca saíram do guião que está estabelecido como sendo a norma. E isso é algo que me marcou profundamente.

SPSC – Nas narrativas das pessoas assexuais que entrevistou é mais forte a afirmação da sua assexualidade ou a negação da sexualidade, como um valor?

RA – Na verdade, é difícil pôr a questão nesses termos. Recuperando um pouco do que acabei de dizer, e salvaguardando sempre a grande diversidade que há dentro das pessoas assexuais e dentro do conjunto de pessoas que entrevistei, as pessoas que conheci são, regra geral, sex-positive e feministas. Não existe aversão ao sexo ou a genitais e as relações sexuais podem ser integradas no seu repertório íntimo. O sexo e a sexualidade não é algo que seja negado, mas não lhe atribuem o papel central, chamam a atenção para as estruturas de poder a que ele está associado e apelam para a compreensão da diversidade.