Em política, que linha separa a vida pública da vida privada?


Em política, que linha separa a vida pública da vida privada?

A opinião de…
Patrícia Pascoal, terapeuta sexual e vice-presidente da SPSC

Data
4 Novembro 2016

Foto de Laila Torres

A banda feminista russa Pussy Riot – conhecida por as mulheres que a compõem terem sido presas na sequência de um concerto que fizeram numa igreja russa – lançou um novo vídeo. Neste clip, ao celebrar a vagina assumem uma posição política. Alegam que pode ser uma resposta às observações feitas pelo candidato à presidência dos Estados Unidos da América, Donald Trump, em que este partilhava que quando conhecia uma mulher que o atraia sexualmente a agarrava na zona genital (no original: ”grab her by the pussy”). O vídeo da banda russa é apenas o culminar de uma série de declarações e manifestações oriundas de diversos setores que se têm rebelado contra a misoginia do candidato americano. Curiosamente, ao referir-se às suas afirmações, Trump aproveita para evocar o escândalo sexual que envolveu Bill Clinton e assim hostilizar a sua opositora Hillary Clinton, argumentando que a própria atacou no passado as mulheres alegadamente abusadas pelo marido. Política e sexo. No seu pior.

Esta campanha é um bom exemplo, entre tantos outros, de como as posições acerca da saúde sexual e reprodutiva, assim como a vida sexual de candidato/a, são uma arma propagandística poderosa. Como sexualidade e política não estão separados.

As campanhas eleitorais anteriores nos Estados Unidos estiveram escudadas de grandes abalos nesta área, foram disputadas entre “bons homens de família”. Tudo tranquilo. Menos tranquilo quando se falou de política e saúde sexual e reprodutiva, e o candidato, e posteriormente presidente Barack Obama, tal como a atual candidata Hillary Clinton, se posicionou favoravelmente aos direitos sexuais e reprodutivos, o que tem repercussões nas políticas de saúde, mas também na garantia de direitos, como por exemplo o do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Mas não são estas as temáticas sexuais que têm ganho maior visibilidade quer na campanha em curso quer na sua cobertura.

A sexualidade serve para construir uma imagem do/a política e ser um dos fatores que quando jogados no espaço mediático podem moldar e mudar intenções de voto. A este nível, esta é das campanhas presidenciais mais interessantes. Para já porque as pessoas que se candidatam são elas próprias figuras mediáticas fora do campo político: Trump por ser um multimilionário que chegou a ter o seu próprio programa de televisão, Hillary pela visibilidade que ganhou quando o seu marido, Bill Clinton, se viu envolvido num escândalo sexual, e também pelos rumores persistentes acerca da sua sexualidade que duram há mais de duas décadas.

Donald Trump é habitualmente acusado de objetificar sexualmente as mulheres, quer explicitamente em eventos públicos, quer em alegados abusos e agressões sexuais. O número de personalidades políticas oriundas do seu partido, o Republicano, que lhe retiraram o apoio publicamente, que lhe pediram que se retirasse, ou que declararam publicamente o seu apoio a Hillary Clinton, não para de crescer. A sua misoginia poderá vir a ser o fator mais importante para a sua eventual derrota.

Quando se pretende fragilizar Hillary Clinton, a sexualidade é também a grande arma de arremesso. Ora é a sua conivência, ou não, com as relações extraconjugais do marido, ora é a sua bissexualidade, o seu lesbianismo ‘armariado’, ou os seus inúmeros casos com outras mulheres, culminando na tese de que entre Hillary e Bill Clinton existe um pacto político e um casamento de fachada, que permite que cada um usufrua das liberdades sexuais a que têm direito.

Será que o escrutínio das qualidades morais e do caráter do/as representantes dos cidadãos se deve estender ao domínio do que é habitualmente considerado a esfera privada? O facto de um/a político/a ter relações extraconjugais, ser lésbica ou bissexual, ter preferências sexuais consideradas minoritárias, é matéria relevante para a avaliação da sua competência para o cargo que se propõe ocupar? E se houver discrepância entre as posições que toma politicamente e a sua própria conduta? Nesse caso, a informação acerca da vida privada serve para avaliar retidão moral? Em absoluto, poderemos dizer que há uma separação clara entre a vida pública e a vida privada? Caso se admita que há, esta separação é mais ou menos rígida quando falamos das pessoas que vão ocupar o cargo político mais importante de uma nação?

Estas questões só têm significado por ainda haver um grupo grande de pessoas que se veem privadas dos direitos sexuais e reprodutivos plenos. A defesa dos direitos sexuais e reprodutivos (e.g., o direito ao acesso ao planeamento familiar, o acesso à interrupção voluntária da gravidez, o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, entre outros) são áreas onde o/as políticas se posicionam, mostrando uma orientação mais ou menos liberal, o que lhes vai granjear mais ou menos apoiantes em fações do eleitorado que são sensíveis ao apelo emocional destas temáticas. E são áreas onde pode haver transformação social efetiva. Já relativamente à construção da credibilidade moral de um/a candidata através da inspeção e exposição da sua conduta sexual, esta só é possível por ainda haver construções sociais rígidas acerca do que é uma sexualidade aceitável: a da conjugalidade heterossexual.