O amor, o sexo, a relação, o diálogo e a negociação


O amor, o sexo, a relação, o diálogo e a negociação

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À conversa com…
Júlio Machado Vaz

Data
4 de dezembro de 2016

Entrevista
Isabel Freire

Júlio Machado Vaz – psiquiatra, sexólogo e uma voz histórica (televisiva, radiofónica e editorial) na visibilização e ‘destabuização’ dos afetos e sexualidades, nas últimas décadas em Portugal – acredita que o medo de ficar “sozinho”, o medo da intimidade, da entrega e do compromisso, se infiltram recorrentemente nas vivências globalizadas da nossa época.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – Existe consenso relativamente ao que deve ser incondicional no sexo (consentimento e segurança). E no amor? Haverá algo de incondicional no amor entre pessoas do mesmo sexo ou sexo diferente?

Júlio Machado Vaz – Para o amor ser tranquilo só me ocorrem duas palavras: confiança e diálogo.

SPSC – Por que motivo se fala tão pouco do lado negro do amor?

JMV – E qual é o lado negro do amor?

SPSC – O amor que violenta, física ou psicologicamente…

JMV – Quando violentamos, há raiva, posse, ajuste de contas, eu sei lá! Mas o amor já fugiu, horrorizado e firmemente decidido a não servir de álibi a tais atos.

SPSC – Duas pessoas amam-se. Fazem vida juntas. Separam-se. A relação transforma-se um inferno. Resta um ódio visceral. À semelhança de certas doenças o amor pode ser degenerativo? Se sim, é possível apontar uma(s) ‘célula(s)’/’tecido(s)’ que tendencialmente desperte(m) essa degeneração?

JMV – Se após uma separação resta um ódio visceral – e duradouro… – o prognóstico não é bom – deixaram de estar juntos, mas uma terrível forma de dependência se mantém, o ódio não nos deixa livres para seguir em frente. Quanto ao tecido, gostamos de acreditar que é o cardíaco a estar envolvido. E no entanto são os neurónios que dão tilt

O sexo deve ter a importância que cada um de nós lhe dá, mas “a partir de dentro” e não pelo receio de não corresponder a “normalidades culturais”.

SPSC – O fim de um relacionamento (namoro, casamento, união de facto) é ainda visto na nossa cultura (nomeadamente pelas famílias) como um infortúnio, um desaire, uma fatalidade?

JMV – Ainda existem famílias que cultivam a imagem “entre nós ninguém se separa”, é verdade. Mas uma ligação que pressupunha um projeto de futuro acaba sempre com um travo amargo, as coisas não correram como desejávamos. É tempo de evitar fugas para a frente, fazer o luto e acolher a vida e a pessoa seguinte sem pedras no sapato.

SPSC – Quando um casal se ama… e um desses elementos morre, como pode esse amor devir?

JMV – O amor não depende da presença física, ao longo de quarenta anos de clínica ouvi algumas pessoas dizerem-me com a maior simplicidade que aquele amor não permitira o aparecimento de outro. Ou pode tornar-se numa grata recordação que não impediu um novo enamoramento.

SPSC – Recentemente, num encontro sobre educação sexual que teve lugar numa escola secundária, escutei dos adolescentes (idades entre 15 e 18 anos) duas questões que gostaria de lhe colocar. A primeira: “Mas o sexo é tão importante assim?”

JMV – O sexo deve ter a importância que cada um de nós lhe dá, mas “a partir de dentro” e não pelo receio de não corresponder a “normalidades culturais”.

SPSC – A segunda questão colocada por estes jovens: “Algo pode afetar quando praticamos o ato sexual pela primeira vez sem sentimentos?”.

JMV – Não necessariamente, se houve liberdade e informação. Mas se nem carinho existiu, convenhamos que foi um início pouco prometedor da vida sexual…
SPSC – É possível identificar fatores que contribuam para uma certa (co)incidência na frequência do desejo sexual no quotidiano de um casal?

JMV – Não, há muito de acaso envolvido. Por exemplo, alguém poderá preferir sexo matinal e outro vespertino e isso não significa desejar menos o outro. O sexo é apenas parte de uma relação,  por isso está sujeito à constante negociação sem a qual ela corre o risco de petrificar.

SPSC – Temos como adquirido que certos relacionamentos persistem na ausência de sexo, graças ao amor. Mas vislumbramos mais dificilmente que os relacionamentos possam sobreviver à falta de amor, apenas por via da satisfação sexual…

JMV – É mais raro, efetivamente, embora aconteça. É complicado fazer durar uma relação que não se alimenta de livros, discos, humor e um afago no cabelo ao chegar a casa.

SPSC – A pessoa X ama profundamente a pessoa Y, mas sente-se atraída sexualmente pela pessoa Z. No poliamor esta ‘fórmula’ é vivida sem conflitos pessoais e interpessoais. Numa relação monogâmica que dúvidas desencadeia e como podemos ajudar a desconstruí-las?

JMV – No poliamor é vivida sem consequências…, às vezes, a teoria nem sempre se traduz na prática, com frequência somos animais possessivos e inseguros. Numa relação entendida como monogâmica será preciso verificar a dimensão dos danos e decidir se alguém parte, fica ou é mandado embora. Nenhuma das hipóteses garante contra arrependimento ulterior…

SPSC – Ao longo da história da sexualidade na humanidade, o medo foi um componente muito presente (pelas represálias morais, pelos interditos religiosos, pelos riscos de gravidez, pelos riscos de morte no parto, pelos abusos e violações, pelas infecções sexualmente transmissíveis, etc.). Que novos medos se infiltram hoje em dia no nosso corpo/mente, em termos sexuais?

JMV – Na época da globalização ouço muito falar do medo de ficar só. Outras vezes de “apenas” ficar sozinho… Mas na outra face da moeda mora amiúde um enorme receio da intimidade, da entrega e do compromisso.

SPSC – No contexto nacional português coexistem culturas diversas. Povos africanos influenciaram e foram influenciados pela nossa cultura, desde há centenas de anos. Sabemos alguma coisa sobre a forma como os afrodescendentes vivem os afetos, as sexualidades e os relacionamentos aqui e agora?

JMV – Não sou um especialista em diferenças culturais, em termos, por exemplo, de tradições, interditos, etc… No que ao afeto puro e duro diz  respeito gosto de pensar que todos procuramos as mesmas coisas, sejamos afrodescendentes, judeus, celtas, etc… Como escreveu Bautista – amar e ser amados e não morrermos depois dos nossos filhos.