Famílias muito modernas? Estamos confortáveis com a diferença?

Data da Notícia: Janeiro 9, 2017

Famílias muito modernas? Estamos confortáveis com a diferença?

A opinião de…
Patrícia Pascoal, terapeuta sexual e vice-presidente da SPSC

Data
4 Janeiro 2017

Foto de Laila Torres

A série de comédia televisiva Uma Família Muito Moderna, cuja oitava temporada está atualmente a passar em Portugal na televisão por cabo, apresenta desde 2009 o retrato de uma constelação familiar onde se inclui um casal de homens: Cameron e Mitchell. Tal como as restantes personagens, estes são apresentados de uma forma caricatural e rígida, correspondendo a um estereótipo cultural dominante: o gay afeminado e o gay desconfortável com a sua orientação que inibe maneirismos e tenta ser discreto. Ambos vivem com a sua filha adotada, Lily.

A popularidade da série é enorme, e há quem considere que o apoio evidente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo aumentou nos Estados Unidos e no mundo graças ao impacto positivo que a série teve junto da população em geral.

Mas de que forma é representado este casal? “Normalmente”: são orientados para a vida conjugal, com preocupações parentais e ligados à família de origem. Mitch e Cameron são engraçados, discutem, preocupam-se coma filha, são muito pouco sexuais. Há claro contraste entre as características físicas e psicológicas dos dois membros do casal. Cameron é efusivo, exuberante, temperamental, intenso, teatral, tem características histriónicas e tem muitos maneirismos. Mitchell é contido, especialmente em contextos sociais, orientado para a tarefa e tem uma carreira. Podiam ser um casal heterossexual, aliás, podiam ser a caricatura de um casal heterossexual normal. É nesta valoração da “normalidade” que se pode colocar o seguinte conjunto de questões: a conjugalidade entre pessoas do mesmo género é aceitável desde que seja semelhante ao que se idealiza acerca da conjugalidade heterossexual? Poderá a série a contribuir para a afirmação de estereótipos sociais do que é um casal gay, mas também do que é um casal heterossexual? E poderá estar, consequentemente, a reforçar ideias polarizadas do que é o feminino e o masculino, do que é co-parentalidade adequada, e do que deve ser uma relação? Estamos confortáveis com a diferença, desde que ela seja o mais semelhante possível ao que pensamos ser a norma?