O tratamento de parafilias

Data da Notícia: Fevereiro 4, 2017

O tratamento de parafilias

A opinião de…
Afonso de Albuquerque, psiquiatra, terapeuta sexual, fundador da SPSC

Data
4 de Fevereiro de 2017

Aquilo que mais distingue as “parafilias”, ou seja as preferências por estímulos sexuais pouco usuais – aos olhos da opinião pública e da própria lei – é o facto de alguns parafílicos, sobretudo os pedófilos, os exibicionistas e os violadores, serem agressores sexuais de vítimas indefesas. Assim, justifica-se separar as parafilias em dois grandes grupos e tratá-los de forma diferente: as parafilias predominantemente agressivas e as não-agressivas. Esta separação parece-me de resto essencial para permitir que os recursos da sociedade se dirijam prioritariamente ao estudo, prevenção e eventual punição e tratamento daqueles parafílicos que cometem crimes.

No que diz respeito ao tratamento, convém desde logo esclarecer que a maioria dos parafílicos não pede ajuda terapêutica e aqueles que o fazem são em regra pressionados pela lei, pelas famílias ou pelas instituições em que estão inseridos. Esta circunstância ajuda a explicar porque se torna tão difícil um tratamento com sucesso. Para o terapeuta, o dilema ético entre servir o cliente e/ou servir a sociedade esta sempre presente. É claro que um parafílico sob ameaça de prisão, mesmo que considere que não há nada de errado com ele, acabará por aceitar que eventualmente a eficácia de um tratamento o pode livrar da cadeia ou salvar o seu casamento. Estará também altamente motivado para simular uma melhoria terapêutica que na realidade não existe. Deve dar-se mais ênfase ao tratamento dos parafílicos mais jovens, se possível logo na adolescência.

O tratamento deve incluir sempre uma psicoterapia baseada nas teorias do condicionamento e da aprendizagem (TCC) associado ao tratamento farmacológico (ISRR), que tem vindo a mostrar-se cada vez mais importante para qualquer tipo de parafilia, pois tem ainda uma vantagem suplementar, uma vez que permite tratar simultaneamente a parafilia e outras perturbações psicológicas que estão frequentemente associadas, como por exemplo a depressão a obsessividade e a ansiedade.

Alguns autores têm vindo a desenvolver o conceito de natureza compulsiva de alguns parafílicos, designadas como “perturbações do controlo do impulso” partindo de uma perspetiva diferente – qualquer comportamento sexual pode tornar-se compulsivo, à semelhança de outras adições, com o jogo. Tratar-se-ia assim de uma nova entidade patológica, designada como “comportamento sexual compulsivo” que indica um comportamento ou cognições sexuais excessivas, que provocam sofrimento emocional ou perturbação social ou ocupacional. Este quadro pode incluir comportamento parafílico e não parafílico, como por exemplo a promiscuidade, a masturbação, o sexo compulsivo com o/a parceiro. Estas conceções têm em comum o caráter compulsivo do comportamento parafílico, que estaria assim relacionado com a redução da ansiedade que o parafílico sente “quando passa ao ato” as suas obsessões parafílicas. As expectativas de que todos os atos sexuais produzem prazer é errado – o prazer é fisiológico, mas pode coexistir com um nível significativo de ansiedade.

  1. Tratamento de casos de grau ligeiro – terapia cognitiva e comportamental (TCC);
  2. Tratamento de casos de gravidade e de culpabilidade moderadas – terapia cognitiva e comportamental (ISRR) + (TCC);
  3. As hormonas (anti-androgénicas) mantém-se como o tratamento de primeira escolha para os parafílicos violentos e reincidentes;
  4. A combinação 1+2 pode ter algumas vantagens, em especial se existem diminuição dos desejos parafílicos e a aprendizagem das aptidões que lhe permitem manter a abstinência (não passagem ao acto parafílico);

Nota Final – Nesta área a quase total falta de coordenação entre o sistema Judiciário e o de Saúde não permitem ainda a implementação de protocolos de intervenção médico-legal (na avaliação, no tratamento e na reinserção sócio-familiar dos parafílicos) existentes já noutros países da Europa e da América do Norte (EUA e Canadá).