Poliamor(es) e diversidade no espetro das relações íntimas

Data da Notícia: Maio 3, 2017

Poliamor(es) e diversidade no espetro das relações íntimas

A reflexão de…
Daniel Cardoso, Doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. Professor Assistente na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. ECATI-ULHT / FCSH-UNL

 

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Data
4 de Maio de 2017

Começando pelo mais simples: poliamor é a “suposição [assumption] de que é possível, válido e valioso [worthwhile] manter relações íntimas, sexuais e/ou amorosas com mais do que uma pessoa”, com o consentimento informado de todas as partes envolvidas na situação.[i]

Esta frase, tão simples, precisa de ser desmontada nas suas várias componentes. A partir do fim, então, percebe-se que existem muitas práticas de não-monogamia que ficam de fora da definição de poliamor, na medida em que não constituem casos de consentimento informado (ou seja, situações em que o ‘consentimento’ é obtido sob condições pessoais ou estruturais de coerção, e situações em que o consentimento é obtido na ausência da totalidade dos elementos que todas as pessoas consideram relevantes para se sentirem devidamente informadas).

Outro elemento importante, e fonte de grande confusão, prende-se com o tipo de ligação que constituiria a base de uma relação poliamorosa. Aqui, a presença de “amor” na própria palavra pode confundir, uma vez que a nossa sociedade se habituou a falar de amor no sentido estritamente romântico. Porém, a definição mostra que existem outras formas de considerar o assunto: a ideia de “intimidade” pode abarcar várias experiências emocionais subjetivas que não sejam necessariamente românticas, da mesma forma que não têm de ser necessariamente sexuais também. De facto, muito trabalho tem sido feito em torno da reflexão sobre o que é que intimidade quer dizer, e como ela pode ser vista ao nível subjectivo mas também cultural.[ii]

O poliamor, enquanto neologismo e enquanto identidade, surgiu no princípio dos anos 90 do século XX. Isto não quer dizer, claro, que só aí tenham surgido formas de relacionamento em não-monogamia consensual. Quer apenas dizer que estamos aqui perante uma configuração social específica, e perante a gestação de uma identidade que começa já a ter contornos de movimento social em vários países, com uma pauta reivindicativa crescente.[iii]

Outro detalhe fundamental: apesar de muito do discurso mediático circular nesse sentido, é incorreto olhar para o poliamor como um “estilo de vida”, da mesma maneira que seria incorreto olhar para a monogamia como um “estilo de vida”. Isto quer dizer que tanto uma como a outra podem constituir-se como orientações relacionais. Da mesma forma que muitas pessoas reportam ter preferências claras sobre o género de quem escolhem para práticas íntimas e sexuais (vulgo orientação sexual), também muitas pessoas têm preferências claras sobre a estrutura relacional em que se querem inserir, e orientam-se para construir essa mesma estrutura. Isso quer dizer, por analogia, que existem pessoas para quem a orientação relacional é uma parte estruturante das suas vivências afectivas e de como constroem a sua identidade sexualizada para si mesmas e para outras pessoas.

No entanto, fica a ressalva que não existe qualquer ligação entre ambas estas orientações. Apesar de, a partir dos dados internacionais que existem, se saber que existe uma clara maioria de pessoas não-heterossexuais por entre as que se identificam como poliamorosas[iv], não há qualquer causalidade entre elas; da mesma forma que, segundo esse estudo, o género com maior representação percentual é o feminino.

Infelizmente, a quantidade de informação disponível sobre poliamor – e outras formas de não-monogamia consensual (NMC) – é ainda muito pequena, e não reflete as experiências do que se estima serem cerca de 5% da população[v]. Na medida em que as vivências de pessoas poliamorosas estão rodeadas de estigma a nível pessoal e social, é fundamental que exista uma rede de apoio profissional capaz e competente para lidar com o assunto. Porém, a investigação existente parece apontar na direção oposta: as pessoas que trabalham na área da saúde mental e sexual tendem a considerar que a presença de sexo fora de uma relação diádica significa que esta tem necessariamente problemas, e a usar “fidelidade” como sinónimo de exclusividade sexual.[vi]

Assim, é ao olhar para algumas das experiências de pessoas poliamorosas e para as formas como o conhecimento de senso comum se estabelece sobre a suposta superioridade da monogamia (ou seja, sobre como a sociedade ocidental contemporânea é hetero-mono-normativa) que podemos compreender mais facilmente como profissionais de saúde de várias áreas podem e devem intervir reativamente e proativamente.

Alguns dos estereótipos mais comuns e mais danosos, que se encontram tanto na rua, com em casa e até no gabinete, e que a investigação tem vindo a desmentir: que as pessoas poliamorosas o são porque têm mais dificuldade ou medo em se comprometer; que as pessoas poliamorosas têm maior propensão para contrair Infeções Sexualmente Transmissíveis; que as pessoas poliamorosas têm problemas psicológicos ou marcadores de co-morbilidade, assim como indicadores de perturbação de personalidade ou falta de ajustamento significativamente diferentes do geral da população; que as relações poliamorosas são intrinsecamente menos bem sucedidas do que relações monogâmicas (sem geralmente se clarificar o que constitui uma relação ‘bem sucedida’); que as relações monogâmicas são intrinsecamente mais saudáveis; que só as relações monogâmicas fornecem um contexto adequado para a educação de crianças; que as relações de NMC são intrinsecamente abusivas do ponto de vista psicológico ou mesmo financeiro. E, claro, a principal: que as relações poliamorosas não existem porque é supostamente impossível amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo.[vii]

Todas estas ideias – e talvez em particular a última – afetam a vida de pessoas poliamorosas no seu quotidiano, e em contexto de saúde. Numa nota mais pessoal, já me foram relatadas histórias várias de cenas em contexto clínico que reflectem muito do acima; já me confessaram o quão cansativo ou ansiogénico é ter de educar a pessoa que está a apoiar a nossa saúde sobre questões importantes como esta, temendo ao mesmo tempo uma reação negativa.

Existem várias coisas que profissionais de saúde podem fazer para melhorar esta situação:

  1. Procurar informação sobre o tema; neste aspeto, a National Coalition for Sexual Freedom, dos EUA, tem um pequeno panfleto que dá uma visão geral do tema, focado na área da psicologia;[viii]
  2. Normalizar a existência de relações de não-monogamia consensual; isto implica tratá-las como equivalentes a relações monogâmicas ou a qualquer outro tipo de estrutura relacional, ao invés de um sintoma ou de um problema em si;
  3. Contribuir para a desnormalização da monogamia; não pressupondo que nenhum relato de um relacionamento seja, a priori e salvo indicação em contrário, o relato de uma relação monogâmica;
  4. Não presumir a estrutura relacional de pessoas concretas a partir da sua orientação relacional; o mesmo é dizer que, da mesma forma que se vive monogamia numa miríade de formas diferentes, igualmente se vive poliamor de formas muito diferentes, porque uma orientação relacional não é o mesmo que a configuração de uma relação específica (não existe um poliamor, existem poliamores);
  5. Prestar atenção à diversidade emocional de pessoas em relações de NMC; incluindo-se aqui a criação de novas palavras (como “compersão”, que pretende descrever a felicidade sentida por ver alguém que se ama feliz com outra pessoa) para descrever fenómenos psicoemocionais precludidos pela mononormatividade;
  6. Levar a sério a possibilidade de que a nãomonogamia consensual possa ser uma resposta possível mesmo para quem nunca o imaginou; contrariando assim a tendência em contexto clínico para sugerir a pessoas poliamorosas que ‘regressem’ à monogamia, e pensando que a monogamia normativa também pode ser lesiva para quem busca apoio ao nível da saúde sexual;
  7. Aproveitar as ferramentas e reflexões sobre comunicação, consentimento, gestão emocional e interpessoal que vêm das pessoas em NMCs; reconhecendo assim que existem competências transversais para o estabelecimento de relações de qualquer tipo, e que os questionamentos trazidos pelas NMCs podem auxiliar mesmo quem quer construir relações monogâmicas mais éticas.

Através destes passos – e de outros cujo limite de palavras não permite contemplar! – poderemos criar uma cultura de relações mais informada, consensual e crítica, em que as relações são pensadas não apenas enquanto constructos pessoais mas também culturais, e em que o papel do estigma e da norma são levados a sério dentro do consultório e fora dele.

[i] Jin Haritaworn, Chin-ju Lin, e Christian Klesse, «Poly/logue: A Critical Introduction to Polyamory», Sexualities 9, n. 5 (Dezembro de 2006): 518.

[ii] Daniel Cardoso, «Del amor a la amistad: la política de las relaciones», em (h)amor2, ed. Sandra Cendal, trad. Matilde Pérez (Madrid: Continta Me Tienes, 2015), 53–66.

[iii] Hadar Aviram e Gwendolyn Leachman, «The Future of Polyamorous Marriage: Lessons from the Marriage Equality Struggle», Harvard Journal of Law & Gender 38 (1 de Janeiro de 2015): 269–336; Edward Ashbee, «Polyamory, Social Conservatism and the Same-Sex Marriage Debate in the US», Politics 27, n. 2 (Junho de 2007): 101–7, doi:10.1111/j.1467-9256.2007.00285.x.

[iv] Derrell W. Cox II, Jim Fleckenstein, e Curtis R. Bergstrand, «What Do Polys Want?: An Overview of the 2012 Loving More Survey», Loving More Magazine, 21 de Junho de 2012, http://www.lovemore.com/polyamory-articles/2012-lovingmore-polyamory-survey/.

[v] https://www.psychologytoday.com/blog/strictly-casual/201404/whos-really-interested-in-alternate-relationships

[vi] Terri D. Conley et al., «The Fewer the Merrier?: Assessing Stigma Surrounding Consensually Non-Monogamous Romantic Relationships», Analyses of Social Issues and Public Policy 13, n. 1 (Dezembro de 2013): 1–30, doi:10.1111/j.1530-2415.2012.01286.x.

[vii] Terri D. Conley et al., «A Critical Examination of Popular Assumptions About the Benefits and Outcomes of Monogamous Relationships», Personality and Social Psychology Review 17, n. 2 (Maio de 2013): 124–41, doi:10.1177/1088868312467087.

[viii] Geri D. Weitzman, «What Psychology Professionals Should Know About Polyamory», acedido 24 de Outubro de 2008, http://www.polyamory.org/~joe/polypaper.htm.