A Metáfora dos óculos cor-de-Rosa


A Metáfora dos óculos cor-de-Rosa

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Uma reflexão de…
Marta Crawford, Psicóloga clínica, terapeuta sexual, terapeuta familiar, autora e apresentadora de televisão.

 

Percursos…
É autora do projeto Sex& Museu Pedagógico e Interativo da Sexualidade. Apresentou os programas de televisão AB Sexo (TVI), Aqui há Sexo (TVI24) 100 Tabus (SIC Mulher) e 5 Para a Meia Noite (RTP1). É autora dos livros Sexo Sem Tabus; Viver o Sexo com Prazer – Guia da Sexualidade Feminina; Diário Sexual e Conjugal de um Casal, editados pela Esfera dos Livros. Pertenceu à equipa de aconselhamento e encaminhamento da linha SOS Dificuldades Sexuais. Colaborou no acompanhamento psicológico no Serviço de Psicoterapia Comportamental do Hospital Júlio de Matos. Foi professora na Universidade Lusófona.

 

Data
7 de Novembro de 2017

Artur queixava-se frequentemente da Rosa, criticando-a nas suas competências e habilidades. Nunca a elogiava, nem mesmo quando ela se sentia bonita com aquele vestido especial. A Rosa ouvia o Artur com tristeza e, regra geral, antecipava o que ele ia dizer. Por vezes, interiorizava as críticas, outras vezes, nem ouvia o seu conteúdo. Esta des-conversa era comum e, dia após dia, a Rosa ouvia sempre algo desagradável do “seu” Artur. O Artur continuava a dizer as mesmas coisas porque achava que ela não o ouvia. E, por isso, repetia até sentir que as suas palavras tinham algum impacto nela. As lágrimas dela, por vezes, faziam-no parar. Não gostava de a ver chorar, fazia-lhe sentir-se mal. Mas, ao mesmo tempo, chateava-lhe profundamente que ela não respondesse, ou então, que respondesse com aquelas palavras todas, gritadas sem sentido. Ele continuava a dizer o que dizia, da forma como o fazia, à espera que ela o entendesse. A Rosa não percebia porque é que ele insistia, porque é que ele não a entendia. Será que já não a amava? Com o tempo começou a criar desamor ao “seu” Artur. Como era possível dizer-lhe aquelas coisas todas e, ao mesmo tempo, amá-la? “Se ele não percebe como me sinto é por que não gosta de mim”, pensava ela todas as noites ao encostar a cabeça no travesseiro.

A Rosa não se queixava do Artur, mas, lentamente, começou a criticá-lo – naquele dia em que ele se esqueceu de levar o lixo para o contentor, depois, por causa das nódoas no casaco. Pouco a pouco, a suave Rosa passou a ver o “seu” Artur como um homem que não se cuidava, que era desastrado, incompetente, porco. O Artur, ao ver que a mulher o desconsiderava, começou a achar que ela já não gostava dele. “Afinal, como era possível que a “sua” Rosa dissesse aquelas coisas a seu respeito”. Em todas as trocas de palavras mais acesas, ela acabava a discussão repetindo as críticas que cada vez eram maiores e mais afirmativas. Ele reagia, dizendo-lhe todos os disparates que lhe ocorriam. Acabavam amuados, zangados e, nessa noite, dormiam separados. Com o tempo, o Artur começou a acostumar-se ao sofá. Esticava-se ao comprido de comando na mão direita a fazer zapping toda a noite. A Rosa ficava na cama, encolhida no seu lado habitual e tinha sempre alguma dificuldade em adormecer, pois receava que ele aparecesse durante a noite e que ela sentisse a mão mansa que tentava convencê-la a ter sexo. O tempo foi passando e os silêncios nos intervalos das discussões aumentaram. Às vezes já nem lhes apetecia discutir. Certo dia, numa visita à família, enquanto esperavam pelo ferryboat que os levaria ao outro lado, um vendedor aproximou-se do carro e tentou vender-lhes uns óculos escuros. Prontamente, o Artur disse que não, mas a Rosa, contrariando a sua decisão, resolveu experimentar os óculos de armação dourada com umas lentes cor-de-Rosa. Experimentou-os, viu-se no espelho do carro e sorriu. O Artur observou-a e disse: “ficam-te bem”. E ela virou-se para ele e voltou a sorrir. O vendedor pegou noutro par de óculos e sugeriu que ele os experimentasse também. Hesitou, mas acabou por aceitar. Olharam-se através daquelas lentes cor-de-Rosa e ambos sorriram. A visita correu bem e, ao voltarem a casa, pareciam diferentes. A Rosa elogiou o Artur por ter sido tão prestável com a mãe dela e por ter ajudado o pai com o carro. “Pareces o Bono com esses óculos”, disse ela. E ele cantou: “In the name of love, one man in the name of love”. Ela riu-se e fizeram coro. Nessa noite o jantar foi divertido e nem sequer ligaram a televisão, como habitualmente. Apetecia-lhes falar daquele dia: do facto da avó da Rosa estar surda e confundir os sentidos de tudo o que ouvia, do gato do vizinho estar completamente cego, mas encontrar sempre o caminho. Cada relato provocava uma pequena gargalhada, um elogio e até uma carícia. Tagarelaram até tarde e de forma espontânea deitaram-se juntos. A Rosa sentiu a mão mansa do Artur e pareceu-lhe muito macia… e foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais, que o mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz (Valsinha de Chico Buarque e Vinicius de Moraes).

A autora recomenda que se escute a Valsinha de Chico Buarque e Vinicius de Moraes, no final da leitura texto.