Infidelidade ou a traição em 4 atos


Infidelidade ou a traição em 4 atos

Uma reflexão de…
Luana Cunha Ferreira, Psicóloga clínica doutorada em Psicologia da Família, Professora Auxiliar Convidada na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa.

 

Percursos…
Desenvolve investigação sobre intimidade e desejo dos casais portugueses. Iniciou o percurso profissional no CAFAP (Associação Nós), no âmbito da formação parental e promoção da parentalidade positiva, e faz clínica individual, conjugal e familiar desde 2008. Sócia fundadora e Presidente da Assembleia Geral da Associação Casa estrela-do-mar.

 

Data
6 de Novembro de 2017

 

Foto
Isabel Saldanha

 

 

 

 

Ato Primeiro: Mergulhar – No início real ou fantasiado de muitas relações de casal, tudo é vivo, crepitante, acelerado. Particularmente nas relações que se iniciam sob a premissa da exclusividade, desejamos o Outro de forma viral, um desejo que contamina tudo e que nos faz descobrir novos limites pessoais. O olhar do Outro sobre nós é definidor de uma nova visão sobre nós próprios e gostamos tanto do que vemos. Nesta descoberta de novas dimensões – nossas e do Outro – sentimo-nos provocados a mergulhar mais e mais, e quanto mais viajamos no túnel da paixão, mais descobrimos que afinal somos também isto. E sabe tão bem, gostar de nós assim, diferentes, através dos olhos do Outro. O sentimento de autenticidade fica facilmente o motor da paixão, numa luta prazerosa de descoberta mútua. Ao som das batidas taquicárdicas e palpitantes, gerimos como podemos o que chamaremos mais tarde de atentados à individualidade e crises de confiança. Tudo normal, aliás, normativo. A paixão que caracteriza as fases iniciais da relação de casal tende a ser marcada por um desejo difícil de igualar e mais difícil ainda de descrever. O desejo sexual, especificamente, tende a ser um marcador inequívoco – ou talvez não, já lá chegaremos – de que estamos a fazer a coisa bem, que é mesmo aqui que é para estar. Tudo vivo, tudo a crescer, cabe tudo dentro da paixão. Queremos conhecer o Outro, saber tudo sobre o Outro, este tudo que é tão novo, tão apetitoso, tão criativo, tão autêntico, tão diferente, tão irresistível. Mas também tão assustador. O risco está já ao virar da esquina.

O desejo sexual explode nas fases iniciais da paixão e se o deixarem, pode facilmente transformar-se em bom sexo que, como diz Perel (2017) é um ótimo facilitador de uma boa intimidade emocional, pelo que facilmente associamos a presença de desejo à qualidade da relação onde nos encontramos. A diminuição de desejo, por vezes também absolutamente normativa, é facilmente interpretada como um sinal de que algo está mal na relação, podendo eventualmente abrir a porta a uma infidelidade. Mas são várias as vulnerabilidades que parecem potenciar a infidelidade, entre as quais a incapacidade de desenvolver intimidade emocional aprofundada, problemas com o compromisso, medo da dependência, falta de paixão na relação, dificuldades de desejo e na sexualidade, transições de ciclo de vida do casal e adesão a valores que privilegiam o prazer e a excitação (Peluso, 2007)

Ato Segundo: Proteger – Durante a fase da paixão ignoramos estoicamente o risco mas brevemente a sua dimensão torna-se inequívoca. Estar apaixonado é arriscado. Ficamos vulneráveis à dor, à insegurança, e por vezes ficamos também tão dependentes das reações do objeto da nossa paixão, que a tarefa de minimizar este risco torna-se prioritária, subdivida em inúmeras sub-tarefas de proteção do coração. Queremos saber onde está, com quem está, a que horas chega, o que acha daquela pessoa ou da outra, o que acha de nós, como vai ser a noite, o que combinamos, e o fim de semana, as férias, a vida? Numa miríade de pequenas traições à liberdade e autenticidade da paixão inicial, elaboramos um Plano de Ataque ao Risco: tudo o que nos pode magoar é um alvo a abater, tudo o que nos separa do Outro será erradicado. A alteridade, a perceção de que o Outro é diferente de nós e que isso é fabuloso, torna-se no nosso pior inimigo. Não a conseguimos tolerar, algo que alguns técnicos classificarão de vinculação insegura, outros de baixa diferenciação do self, outros apenas de life’s a bitch. Nas vãs tentativas de a erradicar, e no processo de deusificarmos a intimidade absoluta e total, deitamos fora o bebé com a água do banho. Morte à distância, morte ao risco, morte à transgressão, morte ao Outro. O Outro já era, agora há só o outro, fiel, companheiro, acessível (sempre! Obrigada telemóveis e apps de localização!), doméstico e domesticado. Sem surpresas, que a taquicárdia já lá vai e a vida precisa é de rotinas, senão ninguém trabalha descansado ou se lembra de comprar sacos para o aspirador. Com tantos limites e com falta de ar, o desejo fica acorrentado em escolhas impossíveis.

David Schnarch (2011) descreve através dos denominados “dilemas de duas escolhas” a ambivalência opressiva que algumas pessoas sentem numa fase pós-paixão, onde a rotina se instala como forma de garantir a segurança e minimizar o risco e onde o desejo, por arrasto, tende a ficar refém de uma situação paradoxal impossível de resolver: “Quero variedade e novidades em termos de sexo, mas dispenso a ansiedade que fazer coisas novas me provoca” ou “Quero ser amado por quem realmente sou mas tenho receio de mostrar a minha autenticidade antes de saber se sou aceite”. Questões relativas a sentimentos negativos de dependência mas também à falta de intimidade e proximidade emocional, dois marcadores de níveis baixos de diferenciação do self, foram positivamente associados a uma maior frequência de infidelidade (Norona, Olmstead & Welsh, 2017).

Ato Terceiro: Tropeçar – Somos, ou queremos ser, em teoria, maioritariamente exclusivos na conjugalidade. Mas os terceiros eróticos têm a sua mais ou menos perversa função, e numa relação calma e confortável tendem a aparecer como fantasmas (in)desejados. Em relações sem oxigénio nem espaço para individualidade e para autenticidade, estes fantasmas tendem a corporizar facilmente sob a forma de traições e infidelidades. Entreabre-se essa porta e mesmo que esteja “tudo bem” na relação, sentimos o cheiro daquela energia irresistível que nos transporta para outro tempo e, não raramente, mergulhamos. É um mergulho fácil à partida, como não? Com a atenção de um novo Outro, sentimo-nos mais nós, autónomos, autênticos, livres. Aquele sentimento tão bom que no início nos fez dar mergulhos mais profundos. E o desejo, céus, o desejo! Aquele que tem estado tão adormecido desde que erradicamos o Outro. Mergulhamos sem questionar, sem nos perguntarmos se aquilo que nos puxa para a traição não estará também disponível – embora bem escondido – na relação onde (des)investimos todos os dias. O que aconteceria que aplicássemos a mesma energia, a mesma antecipação, a mesma capacidade fantasiar à relação primária e não ao flirt da época? Mudaria alguma coisa? Qual seria o grande risco? Dará assim tanto trabalho e incómodo? Ou temos coisas mais importantes para fazer?

Segundo Perel (2017), os affairs estão mais relacionados com desejo do que com sexo, e o principal motor do desejo é a antecipação, a capacidade de fantasiar com o encontro com o Outro, algo que se tende a perder ao longo do tempo da relação primária. Se o desejo só acontece na distância que vai de mim ao Outro, quando estamos demasiado próximos o combustível pode ficar apenas residual. No entanto, tal não quer dizer que a autonomia ou a distância sejam um remédio santo, já que vários estudos indicam que estas características por si só – sem serem acompanhadas também de intimidade emocional – não potenciam o desejo (Stulhofer, Ferreira & Landripet, 2014).

Ato Quarto: Recuperar – Numa sociedade que valoriza a exclusividade e o compromisso, os danos da infidelidade são extensos e bem documentados (Whisman, 2016) tanto para quem trai como para quem é traído. Não será por isso surpreendente que, à medida que as profissões de ajuda são mais recrutadas e aceites, este seja um dos tópicos mais frequentes em terapia de casal. Nestes processos terapêuticos travam-se batalhas sempre duras e muitas vezes longas e os dropouts e separações não são de todo incomuns.

Alguns estudos sugerem que a terapia de casal pode ser especialmente eficaz na infidelidade. Os estudos de Atkins e colegas (particularmente o de 2010) revelam que quando comparados com casais que procuravam terapia de casal por outros motivos, os casais que a procuravam por motivos de infidelidade mostravam indicadores de distress mais negativos mas melhoravam mais rapidamente e durante mais tempo que os primeiros.

A sala do consultório fica inundada de fantasmas, zonas sombra e angústias dilacerantes à medida que escavamos as atribuições causais da traição, os valores e crenças associados, a gestão de danos e as necessidades ocultas. Mas à medida que se avança, por vezes aos tropeções, surgem o que um casal recente denominava de glimmers of hope, frestas brilhantes de lançam luz sobre o futuro, onde as pessoas se conseguem ver com outros olhos, se descobrem autênticas, vulneráveis, presentes. Onde o Outro, o que ainda é a escolha primeira, volta a aparecer. Para isso, haja esperança, técnica, relação, criatividade e teimosia q.b.

Referências Bibliográficas

Atkins, D. C., Marín, R. A., Lo, T. T., Klann, N., & Hahlweg, K. (2010). Outcomes of couples with infidelity in a community-based sample of couple therapy. Journal of Family Psychology24(2), 212.

Norona, J. C., Olmstead, S. B., & Welsh, D. P. (2017). Betrayals in Emerging Adulthood: A Developmental Perspective of Infidelity. The Journal of Sex Research, 1-15.

Perel, E. (2017). The State of Affairs: Rethinking Infidelity. New York, NY: Harper Collins.

Peluso, P. R. (Ed.). (2007). Infidelity: A practitioner’s guide to working with couples in crisis. Routledge.

Schnarch, D., & Schnarch, D. M. (2011). Intimacy & desire: Awaken the passion in your relationship. Beaufort Book Publications.

Štulhofer, A., Ferreira, L. C., & Landripet, I. (2014). Emotional intimacy, sexual desire, and sexual satisfaction among partnered heterosexual men. Sexual and Relationship Therapy29(2), 229-244.

Whisman, M. A. (2016). Discovery of a partner affair and major depressive episode in a probability sample of married or cohabiting adults. Family Process55(4), 713-723.