O problema da confiança nos relacionamentos íntimos

Data da Notícia: Dezembro 4, 2017

O problema da confiança nos relacionamentos íntimos

Uma reflexão de…
Mário Lourenço, psiquiatra, sexólogo clínico e ex-Presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (1999)

 

Percursos…
Psiquiatra no Hospital da Sra. da Oliveira, no Hospital da Luz de Guimarães (onde coordena a Unidade de Psiquiatria e é Vice-Presidente da Comissão de Ética). Foi Professor Auxiliar Convidado da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto (FMDUP), docente do Mestrado em Sexologia do Instituto Universitário da Maia e do Mestrado em Sexualidade Humana da Faculdade de Medicina da U.L.. É um dos editores internacionais do Journal of Sex & Marital Therapy.

 

Data
4 de Dezembro de 2017

As relações amorosas são sempre constituídas por duas pessoas. Nem sempre há coincidência das razões individuais que aproximam aquelas duas pessoas e, muitas vezes, em psicoterapia de casal, é preciso reviver os fatores de vinculação, aquilo que leva as pessoas a ficar juntas (1). Para todos os efeitos, a relação em si mesma acaba por ser o compromisso entre o passado e o futuro de duas pessoas.

Em teoria, a díade amorosa abarca 4 componentes fundamentais, que denominamos: compromisso, intimidade, paixão erótica e paixão romântica (2). A satisfação conjugal define-se no equilíbrio instável desses 4 pilares. É como se a felicidade correspondesse a um conjunto de experiências e atitudes que levam ao crescimento pessoal e do casal.

A manutenção de um relacionamento com vínculos amorosos envolve a motivação e o empenhamento dos intervenientes, além da atração física e dos afetos positivos. Os dois elementos têm que envolver-se para uma causa comum chamada projeto de vida, que vai sendo construído paulatinamente pelas duas partes. Quando isso não acontece emergem os individualismos e, mais tarde ou mais cedo, os conflitos e o afastamento afetivo.

Da minha experiência clínica acumulada é possível concluir que, regra geral, as mulheres esforçam-se para salvar as relações disfuncionais, enquanto, tantas vezes, os homens se acomodam, adotam um papel de espectador ou apenas se esforçam minimamente numa mudança de comportamentos, à espera que o outro lado se decida. Esta é a receita perfeita para a infelicidade e, sempre que isso acontece, debaixo do mesmo teto, passam a coabitar dois estranhos.

Amar dá trabalho. Renovar a relação permanentemente exige tempo, energia e atenção (3). Os amantes compartilham interesses, gostos, comprometem-se um com o outro, cooperam e ajudam-se mutuamente. Assim, a relação amorosa pode ser caracterizada como uma relação íntima, mútua e voluntária.

O suave encanto da intimidade

A intimidade gera proximidade, desvenda desejos profundos e cria uma atmosfera especial no casal. Para existir, deve haver autonomia pessoal e capacidade para receber o que é do outro no nosso território, sem nos sentirmos invadidos, postos em causa. A intimidade é o elemento mágico que torna tudo significativo. Um Santo Graal!

A qualidade daquilo que diz respeito à intimidade de cada casal é o que dá à vida um sabor especial.

Sexo e intimidade estão intrinsecamente interligados. Entretanto, desde a revolução sexual na década de 60 do século XX que o discurso público apenas se debruça sobre os comportamentos sexuais, o desempenho, as disfunções sexuais, as questões de Género e acabou por enfatizar o prazer físico dissociando-o da intimidade (4; 5).

Os meandros da intimidade humana ainda não ganharam a notoriedade que merecem. Talvez porque são complexos (6)! Envolvem a mútua aceitação, a abertura ao outro, a proximidade afetiva, a volúpia dos sentidos, a entrega completa, para além do que é físico! (7). O que requer trabalho, criativo e árduo, das partes interessadas.

As barreiras para a intimidade

Apesar da sua importância nos relacionamentos amorosos, a intimidade, muitas vezes, enfrenta obstáculos criados por limitações e medos.

A falta de controlo é o maior desafio da modernidade, disse o conhecido Dr. Oz na Web Summit (Lisboa, 7/11/17). Precisamente, a intimidade está associada ao despojamento do autocontrolo sensorial e afetivo, à entrega plena, sem o receio das consequências que daí possam advir. As experiências de fracasso sentimental e as vivências traumáticas facilitam o aparecimento da rigidez, da insegurança, do medo da perda de controlo. Quem não está seguro de si próprio ou do seu corpo, sente-se intimidado quando vai partilhar aquilo que é com a outra pessoa. A confiança é um elemento estruturante da intimidade. A intimidade implica não só a proximidade física mas também a cumplicidade e a conexão entre dois adultos (8).

Essa mala voadora a que chamamos intimidade não se deve confundir com a interação sexual. Pode haver intimidade sem sexo e atividade sexual sem intimidade. Uma não pressupõe forçosamente a outra. No filme muito interessante – O amor é um lugar estranho – vemos como Bill Murray e Scarlett Johansson estão tão próximos um do outro e não precisam tocar-se para o sentirem. Tudo ali nasce do interior para fora dos corpos. Acontece devagar. A estória de amor nascida de coisas simples, nascida do tempo e da atenção. A verdade é que muitas pessoas, regra geral mulheres, só estão preparadas e só tiram proveito do contacto sexual quando se sentem próximas e emocionalmente comprometidas com uma dada pessoa.

Há pessoas que receiam expor e verbalizar os seus sentimentos, as suas necessidades mais profundas, porque sentem que, ao fazê-lo, tornam-se vulneráveis e, como tal, passíveis de manipulação (9). As vulnerabilidades da autoestima dificultam os relacionamentos interpessoais. Nalguns casos, são pessoas que parecem estar sempre “pulando de galho em galho”, são consideradas promíscuas ou incapazes de amar. Mais do que fugirem a um relacionamento sério, sentem um verdadeiro pavor em se comprometer com alguém. É conveniente enfatizar que a intimidade começa no próprio indivíduo. Só estamos bem com os outros, se a nossa personalidade estiver estável. A autonomia e a flexibilidade são dois requisitos para o bem-estar pessoal e relacional (10).

Seja qual for a abordagem proposta, uma certeza tem que ser assumida: a intimidade é o que de mais profundo (íntimo!) existe em cada pessoa.

Não é que esteja escondida num sítio recôndito, secreto ou obscuro (como por exemplo, no inconsciente!). Mas é algo que só revelamos em relações de grande proximidade, que nos inspiram confiança e nos transmitem segurança. Quando sentimos que não vamos amachucar a nossa forma de ser e de estar no Mundo.

Por ser tão especial a intimidade dá um colorido muito próprio às relações amorosas. A verdadeira petit mort!

Reconheça-se que a intimidade deixa de ser saudável quando as necessidades de segurança suplantam as necessidades de proximidade. Como acontece nalgumas personalidades disfuncionais.

Acima de tudo, na acepção de W. Pasini, a intimidade será sempre a capacidade de nos colocarmos na pele do outro sem perdermos a nossa (11).

Notas bibliográficas:

(1) Kernberg, O. F., & Piatigorsky, J. (1995). Relaciones amorosas: normalidad y patología. Paidós.

(2) Yela García, C. (1997). Curso temporal de los componentes básicos del amor a lo largo de la relación de pareja. Psicothema, 9(1).

(3) Costa, M. E. (1996). A intimidade à procura de um psicoterapeuta.

(4) Foucault, M. (1990). The history of sexuality: An introduction, volume I. Trans. Robert Hurley. New York: Vintage.

(5) Altheide, D. L. (2009). Moral panic: From sociological concept to public discourse. Crime, Media, Culture, 5(1), 79-99.

(6) Lima, V., Vieira, F., & Soares, I. (2006). Vinculação em casais: avaliação da representação da intimidade e da interacção conjugal. Psicologia, 20(1), 51-63.

(7) Giddens, A. (1998). La transformación de la intimidad. Ediciones Cátedra.

(8) Moss, B. F., & Schwebel, A. I. (1993). Defining intimacy in romantic relationships. Family relations, 31-37.

(9) Clinebell, H. J., & Clinebell, C. H. (1970). The intimate marriage. Harpercollins College Div.

(10) Oattes, M. K., & Offman, A. (2007). Global self-esteem and sexual self-esteem as predictors of sexual communication in intimate relationships. The Canadian Journal of Human Sexuality, 16(3/4), 89.

(11) Pasini, W. (1990). Intimidade. O Outro Espaço da Afectividade (trad. J. Gama). Lisboa: Difusão Cultural.