Géneros e sexualidades dissidentes na arte: do retrato ao queer


Géneros e sexualidades dissidentes na arte: do retrato ao queer

 

Uma reflexão de…
Fernanda Belizário, doutoranda em Pós Colonialismos e Cidadania Global no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

 

Percursos…
Mestra em Comunicação e Práticas de Consumo pela Escola Superior de Propaganda e Marketing e Bacharel em Ciências Sociais e Comunicação Social, ambas pela Universidade de São Paulo. Já atuou em importantes organizações públicas e não-governamentais na gestão de projetos, produção e edição de conteúdos, com obras já publicadas. Interessa-se por teorias queer, estudos de género e pós coloniais e identidades de género não-normativas e não ocidentais.

 

Data
18 de Janeiro de 2018

No dia 10 de setembro de 2017, a exposição “QueerMuseu: Cartografias da diferença na América Latina” que acontecia na cidade de Porto Alegre (Brasil) foi cancelada. A justificação do Santander Cultural, que patrocinava o evento, baseou-se na acusação de apologia à pedofilia, bestialidade, vilipêndio religioso e atentado aos bons costumes, bradada por grupos conservadores nas redes sociais brasileiras (e não só). Queermuseu propunha-se a dar visibilidade à diversidade de expressões de género e sexualidade na arte e na cultura, de meados do século XX aos dias de hoje, trazendo 270 trabalhos assinados por 85 artistas dentre nomes consagrados dentro do mercado das artes.

O cancelamento da exposição gerou reações diversas em muitos espaços nacionais e internacionais, iniciou uma avalanche de censuras e respostas conservadoras a exposições, peças de teatro e conferências que, de alguma forma, falavam sobre género e sexualidade, como também provocou manifestações de apoio e organização de eventos e outras manifestações artísticas que seguiam a mesma inspiração.

Há cerca de dois meses, organizamos no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra o seminário “Cartografias da (negação à) diferença: uma reflexão a partir de QueerMuseu” para discutir as diversas implicações do encerramento desta exposição em Porto Alegre do ponto de vista da arte, dos estudos de género, queer e pós coloniais, e falar também da repercussão de outros eventos que tinham géneros dissidentes e sexualidades não-normativas como centrais em suas expressões.

Durante a exposição do seminário ficou clara a ligação entre géneros não normativos e sexualidades dissidentes aos diversos regimes de poder, pois a sexualidade, longe de se resumir a uma prática ou preferência ou necessidade reprodutiva, é um mecanismo de classificação social.

Quando interseccionamos as questões de género e sexualidade com a raça, por exemplo, entramos em uma seara ainda mais complexa do poder discricionário da sexualidade normalizadora (sempre cisheterossexual, branca, burguesa e ocidental)

Michel Foucault, por exemplo, dedicou-se a demonstrar em seus três tomos de “História da Sexualidade” como a sexualidade também se constrói como discurso ao longo do tempo e passa a ser regulada por campos disciplinares como a sexologia, a psiquiatria e a psicanálise, que detêm desde então o monopólio para definir o que é normalidade ou anormalidade, em um fluxo de disputas e tentativas de ordenamento da incrível e multifacetada experiência da sexualidade e do desejo.

Portanto, se o sexo não tem história (o que de antemão como socióloga eu contestaria, mas aí é assunto para outro texto) ou pelo menos sabemos que práticas sexuais diversas sempre existiram, o que mudou a partir do século XIX foi o discurso sobre elas, ou, mais importante, mudou quem poderia falar sobre elas e quem poderia classificá-las entre normais ou patológicas.

Decerto que esta história da sexualidade é localizada e muito parcial. A normalidade da sexualidade também se estabeleceu como uma prática exclusivamente ocidental, ligada à família burguesa. Não podemos esquecer os nexos entre sexualidade e empreendimento colonial, em que diversas relações homoeróticas foram retratadas entre homens colonizadores e colonizados, a violação de mulheres e geração de filhos com mulheres nativas, o controle sobre sexualidades diversas como estratégia fundamental para a escravização e evangelização de índios na América e diversos outros exemplos. Sujeitos e sujeitas colonizados e escravizados foram representados a partir de uma sexualidade bestializada e irascível, seus lugares de origem representados como terras a desflorar, expropriar, invadir reforçando o imaginário de novos mundos em que outro tipo de regime de sexualidade vigorava, pois afinal, não existia pecado abaixo da linha do Equador.

Esta pequena história mostra-nos como a sexualidade como norma controla os corpos, especialmente os dissidentes, com consequências muito objetivas na vida das pessoas, na medida que restringe ou permite o acesso a recursos da sociedade: pessoas transgénero abandonam a escola mais cedo por conta do preconceito que sofrem e isto no futuro implica menos possibilidades de emprego; um adolescente gay tem medo de ir ao banheiro da escola e de sofrer algum tipo de violência por parte de seus colegas; um casal lésbico não pode aceder a técnicas de procriação medicamente assistida, simplesmente por ser um casal com duas mulheres; pessoas em relações poliamorosas não podem ser civilmente casadas e não ter acesso aos direitos e deveres de herança ou corresponsabilidade na criação de filhos.

No momento em que o Brasil atravessa uma dura disputa entre movimentos conservadores e movimentos de esquerda que coloca em questão a própria construção da identidade nacional, consagrar travestis, as bixas, sapatões, viados, vagabundas, caminhoneiras, lésbicas e todxs tantxs outras e outros e outres como dignos de serem voz e representação em um espaço oficial e de consagração da Arte com letra maiúscula, deu sentido à cruzada moral que vem se delineando no Brasil pós golpe

Quando interseccionamos as questões de género e sexualidade com a raça, por exemplo, entramos em uma seara ainda mais complexa do poder discricionário da sexualidade normalizadora (sempre cisheterossexual, branca, burguesa e ocidental): a brasileira cujo destino inexorável é o trabalho sexual, a hipersexualização das mulheres negras, a dificuldade de identidades trans não-ocidentais serem compreendidas e suas necessidades traduzidas dentro do sistema de saúde, dentre infinitas outras histórias que não são casos isolados, são parte de uma estrutura de opressão.

Estas múltiplas formas de produzir a diferença — ou seja, dizer que nem todo o mundo é igual e que algumas pessoas terão mais recursos económicos, afetivos, psíquicos, simbólicos que outras — expressam-se em todos os setores da vida em sociedade. Pierre Bourdieu, famoso sociólogo francês do século XX, tem uma expressão muito precisa: orquestração social. Tal qual uma orquestra, cada instrumento tem seu tema e todos, ao mesmo tempo, criam uma música, um contexto que tem a mesma lógica e o mesmo sentido.

A arte faz parte desta orquestra, como forma de representação, como uma linguagem organizada que exprime os valores de uma sociedade. Claro que ela tem a plasticidade incrível de poder ser tanto um instrumento afinado, como uma dissonância. Pode ser vanguarda, delinear processos de rutura, trazer à baila o que não se nomeia ou do que não fala. Esta foi a proposta enunciada do QueerMuseu, juntamente com uma série de exposições sobre sexualidades dissidentes e identidades de género não normativas que têm sido organizadas nos últimos anos.

Se em outro momento elaboramos uma reflexão mais particular sobre o discurso queer e a exposição queermuseu, que complexifica a discussão a partir de outras inferências também relevantes para o debate, como os loci mais ou menos privilegiados de produção e circulação das obras de autores queer, deixo-vos aqui a discussão principal que a exposição trouxe nos meios intelectuais. Por que motivo tanta comoção gerada por uma exposição ao ponto de ter sido cancelada pela ação de grupos de pressão ultraconservadores?

Reconhecer o direito desses corpos adquirirem uma existência alargada, uma cidadania completa, desafiar o discurso de “tudo bem ser (paneleiro/fufa/travesti/…), desde que não demonstre”

Ao mesmo tempo que uma arte dita Queer busca centrar a sexualidade como parte dos esquemas de classificação social, ela se coloca como um problema a partir de diversos vieses. Se certa sexologia tem o monopólio de decidir o normal e o patológico, o museu tem a potência discursiva de desenhar o que é ou não é boa arte, ou seja, aquela que pode estar dentro e a que deve estar fora do seu espaço. Se este é o poder discricionário do museu, como pode existir um QueerMuseu? Como um espaço dedicado à “Boa” arte pode conter a dissidência?

No momento em que o Brasil atravessa uma dura disputa entre movimentos conservadores e movimentos de esquerda que coloca em questão a própria construção da identidade nacional, consagrar travestis, as bixas, sapatões, viados, vagabundas, caminhoneiras, lésbicas e todxs tantxs outras e outros e outres como dignos de serem voz e representação em um espaço oficial e de consagração da Arte com letra maiúscula, deu sentido à cruzada moral que vem se delineando no Brasil pós golpe.

Não se bradou aqui contra as sexualidades propriamente, mas contra a ocupação de um espaço oficial de representação por sexualidades e identidades de género dissidentes. O medo de trazer à luz do dia formas diversas de entender os corpos, o sexo, o desejo e o género (e não só representá-los como patológicos). De não poder mais fingir que existe um mundo branco, burguês, hetero-cis-sexual e todo o resto ou é ficção ou é obra de gente esquisita. Reconhecer o direito desses corpos adquirirem uma existência alargada, uma cidadania completa, desafiar o discurso de “tudo bem ser (paneleiro/fufa/travesti/…), desde que não demonstre”.

Nota: o catálogo da exposição QueerMuseu está disponível para consulta na Biblioteca Norte Sul (BNS) do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.