A vida de Lígia

Data da Notícia: Março 28, 2018

A vida de Lígia

 

Uma reflexão de…
Inês Brasão, socióloga, é professora no Instituto Politécnico de Leiria (ESTM)) e investigadora Integrada no IHC (FCSH_UNL) e CITUR (IPL).

 

Percurso 
Doutorada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Em 1997, foi distinguida com o Prémio Carolina Michaelis de Vasconcelos pela sua dissertação na área dos estudos sobre a mulher. Em 2011, obteve o Prémio Maria Lamas pela história das criadas de servir. Entre outros livros, publicou O Tempo das Criadas (2012), Dons e Disciplinas do Corpo Feminino (1ª e 2ª edição revista), Hotel, Os Bastidores (2017) e Visões Cruzadas: um retrato da Lagoa de Óbidos (2015).

 

Data
28 de Março de 2018

Lígia é o nome fictício de uma mulher de oitenta anos. Tem a vida marcada por um acontecimento traumático de que nunca se refez. Foi mulher casada aos vinte e quatro, mas apenas durante nove meses. Eram os anos 40, em Portugal. “Fui muito infeliz. Fui enganada…” e meteu-se-me num pesado silêncio, numa mesa de café perto do antigo cinema Império. Imaginei problemas vários, mas só aos poucos me fui apercebendo do secreto acontecimento. Era um segredo sobre sexo e, passados tantos anos, Lígia ainda não conhecia um caminho fácil para o contar: “Fui usada para encobrir”.

Lígia foi metida num plano-fachada. Alberto escolheu-a como alvo de uma união artificial para se salvar do julgamento impiedoso à sua masculinidade. Acautelou contactos físicos prévios e encenou uma performance conforme ao galanteio exigido na época. Após o dia de casamento veio ao de cima a relação homossexual que mantinha com um companheiro, seu amado e amante. Os primeiros indícios foram revelados a Lígia no contacto íntimo e na sexualidade não-entendida, como se a comunicação do desejo não fluísse, a um e outro, e os afastasse, em vez de unir. Sejamos claros. Estamos perante duas vítimas de um sistema opressor que as conduziu ao trágico e insuportável caminho, abrindo fundas e mútuas feridas. Os homossexuais foram perseguidos e invisibilizados pelo regime fascista português[1]. “A homossexualidade não existe” – podia ter sido um slogan posto a circular por uma qualquer fonte oficial da época, mas ainda que não tenha sido posto a circular foi a aniquilação pública de uma possibilidade que esteve na raiz da profunda sociedade homofóbica em que nos tornámos, ao longo de décadas. Essa homofobia está presente em pequenos sinais quotidianos e ajuda-nos a compreender, entre outras coisas, o duplo fardo do papel social atribuído à mulher, mas também ao homem. Julgo que tem havido uma falta de discussão sobre como se educaram e definiram homens até chegarmos aqui. E só depois dessas discussões ainda por fazer conseguiremos definir estratégias onde o binarismo entre homem e mulher deixem de ter lugar enquanto opositores, ou dominadores e dominados, mas passemos a entender como são um absoluto reflexo de algo intrincado e que não pode ser entendido separadamente. Aliás, no mesmo ano em que Judith Butler publicava Gender Trouble, Pierre Bourdieu denunciava um modo de pensar pautado pelas dicotomias e oposições e alertava para o peso da violência simbólica extrema presente nessas dicotomias, produzindo assimetrias de género e perpetuando a dominação masculina.

De que forma tantos (e ainda tão pouco debates) sobre o corpo e o sexo penetram em grupos e classes menos favorecidas? Conheci Lígia aos oitenta anos, no final do ano de 2017, e a sua vergonha de um corpo rejeitado continuava intacta: o seu sexo permaneceu intacto até hoje porque justamente nenhuma educação sexual a preparou para a ideia de não ser desejada por quem a levou ao altar. Não a preparam antes, nem passadas tantas décadas. Como se ainda não tivéssemos compreendido o quanto a circulação de discursos e ideias atinge grupos de privilegiados sem comunicar com uma enorme massa de indivíduos

Mas voltemos às biografias desta mulher e deste homem encontrados sós na intimidade e para sempre afastados. Um ódio a tudo quanto não encaixasse na figura do patriarca terá levado Alberto ao engodo de Lígia, destruindo-lhe grande parte do sonho de feminilidade, mas também o seu desejo. Imaginamo-nos hoje sociedades bastante mais abertas e dialogantes, em que o sexo se vê, fotografa, filma, escreve, publica, grava, analisa e se liberta, mas até que ponto é essa abertura ao sexo tão transversal? De que forma tantos (e ainda tão pouco debates) sobre o corpo e o sexo penetram em grupos e classes menos favorecidas? Conheci Lígia aos oitenta anos, no final do ano de 2017, e a sua vergonha de um corpo rejeitado continuava intacta: o seu sexo permaneceu intacto até hoje porque justamente nenhuma educação sexual a preparou para a ideia de não ser desejada por quem a levou ao altar. Não a preparam antes, nem passadas tantas décadas. Como se ainda não tivéssemos compreendido o quanto a circulação de discursos e ideias atinge grupos de privilegiados sem comunicar com uma enorme massa de indivíduos. E não falo de velhos indivíduos, falo dos de todas as idades.

A construção social do caráter reprodutivo e maternal da mulher portuguesa foi suportada em espelho pela construção social do homem fértil e sustentáculo familiar. Quanto mais prole e bens acumulados, mais homem. E quanto mais mulheres, mais homem, na exata medida em que a sua virilidade era (e ainda é) demonstrada para ser vista por outros, revelando capacidade de segurar/conter/alimentar mulheres que por ele se prendam. Continuo a ver pais e mães babadas perguntar aos filhos rapazes de 9 anos quantas já tem, algo que seria até libertador se houvesse pergunta simétrica feita às suas filhas, e se o verbo “ter” não fosse um mau sintoma de educação para a posse e a propriedade. O caso de Lígia e Alberto revelam uma história social da sexualidade por contar. São estruturas de pensamento que perduram além dos discursos emancipatórios, dos avanços legislativos ou das novelas mais ousadas onde estes temas são abordados. Exprime uma realidade social desfasada, na qual indivíduos vivem em estruturas emocionais, mentais e políticas muito distantes das perspetivas otimistas de emancipação e liberdade sexual.

Não resisto fazer uma referência à visão de vanguarda de Alexandra Kollontai[2], feminista russa do início do século XX. Considero-a uma das vozes mais revolucionárias da sexualidade e da política de género. O seu vanguardismo expressa-se no facto de encarar a sexualidade uma prioridade, considerando vital concretizá-la a partir da base, isto é, a partir das classes trabalhadoras, alargando progressivamente essa prioridade a todas as outras classes. Kollontai preconizava ser uma tarefa da classe trabalhadora lutar contra a opressão sexual vivida pelas mulheres e estabelecer relações sexuais mais sadias que, portanto, tornassem a humanidade mais feliz. Kollontai não perdoava aos “burgueses” a atitude de indiferença diante de uma das esferas essenciais para a emancipação da classe trabalhadora. Dava-lhes recados dizendo considerar inexplicável que o problema sexual fosse relegado, hipocritamente, para o arquivo da esfera privada. Kollontai queria trabalhar a pirâmide invertida: levar a discussão sobre o sexo para a massa de trabalhadores era o único caminho viável para uma verdadeira (e não apenas ficcionada e parcial) revolução sexual e revolução social, justamente por ser o centro de tudo: deixar de permitir que as estruturas se sirvam da carne e do sexo da mulher para reproduzir a propriedade e o sistema de desvantagens sociais.

O caso de Lígia e Alberto revelam uma história social da sexualidade por contar. São estruturas de pensamento que perduram além dos discursos emancipatórios, dos avanços legislativos ou das novelas mais ousadas onde estes temas são abordados

Para quem conhece mais que a vida na grande cidade, não faltam histórias como a de Lígia e Alberto contadas “à boca pequena”, sobretudo nas pequenas vilas. Não faltam, por isso, histórias de repressão sexual com consequências muito duras para implicados na rede e nas suas famílias. A vergonha de se ser homossexual levou a um investimento desproporcionado em criar uma cena social capaz de representar o papel conveniente, minimizando as suspeitas.

Agora olhemos outra vez para trás. Lígia vinha de uma aldeia pequena: a sua sexualidade iria começar ali, naquele casamento, e provavelmente acabar. Nenhuma educação sexual prévia, algo que produziu apenas pânico, estranheza, medo, incompreensão e fuga. O fio da sua vida foi sendo alimentado por esta tragédia. Lígia não conseguiu o divórcio antes da revolução de abril. O pedido foi feito ao Vaticano, mas a Igreja, com a complacência do Estado, não a deixou sair dali e libertar-se, ficando presa à condição de esposa por mais de vinte anos, sem qualquer apelo. A impossibilidade de requerer o divórcio afetou milhares de mulheres portuguesas, muitas delas vítimas de maus tratos continuados, usadas como fachada em outros sentidos, uma vez que não lhes era concedida dignidade, por exemplo, em termos da qualidade do sexo a que podiam ter tido direito. Maria Archer é uma escritora a ler: desmancha solidamente a vida de famílias intocáveis onde a mulher era depósito de filhos, mas não a amante. O lastro de consequências desastrosas que esta hipocrisia deixou para a vida de mulheres dos nossos dias está por averiguar. Lígia não arranjou outros namorados porque a condição oficial de casada os afastava, muitos deles a mando das suas mães. Agravando as consequências do trauma, a vida de mulher sem homem dificultou-lhe até o acesso a uma casa própria, embora trabalhasse para o sustento próprio, enquanto datilógrafa. Lia os anúncios nos jornais e depois batia à porta e a mesma cena sucedia-se, uma e outra vez: “Mas você quer alugar uma casa? Uma rapariga nova? Para que é que quer a casa para si? Não tem cara disso… Tem cara de quem quer a casa para fazer negócio, para a fama… sabe, eles ficavam desconfiados porque julgavam que eu queria a casa para ser “menina da vida”. E aqui chegamos a uma outra desdobragem do leque que acaba por ir afetando, em dominó, a vida desta, e de tantas outras mulheres. A questão de uma mulher viver sozinha foi (e ainda é) agravada por duas enormes pressões: está desligada do casamento e está desligada do seu fim reprodutivo. Numa sociedade repressora e obcecada com a ideia de família enquanto célula da ideologia, como aconteceu com os fascismos europeus, e nas sociedades democráticas perdura, o conceito de mulher autónoma relega-a para o território da mulher prostituta, pública ou fácil. Aliás, Lígia foi duplamente penalizada. Sendo de origem popular, cuidadora de crianças e, mais tarde, datilógrafa no pequeno comércio, o seu estigma acelerou-se rapidamente: todos a imaginaram uma “mulher de casa posta” por algum amante ou proxeneta escondido. Se a sua origem fosse de classe média-alta, a probabilidade deste estigma diminuiria, não tenhamos dúvidas. Nos bailes, contava-me, “tudo o que aparecia era casado e era para “aconchegos”. E eu pensava assim: “então agora vou com este, porque gosto dele e vou dançar com ele. Ele depois vai ter a minha casa quando ele quer, e precisa de mim, e depois quando se for embora põe dinheiro em cima da mesa… e eu dizia, isso para mim, não… Se houver uma pessoa que queira casar comigo ou juntar-se comigo tem que ser livre… como eu, e a verdade é que nunca nenhum quis”. Embora a sua moral seja tradicional, porque associa uma relação ao casamento, é interessante notar que Lígia refletiu a situação afetiva em termos de uma paridade de direitos sexuais, e não de uma subjugação. E essa reflexão não encontrou um par à medida. Ainda hoje a situação de uma mulher que tenta viver e definir livremente a sua sexualidade é de enorme desvantagem: paira sobre nós, implacável, em plena segunda década do século XXI, a “hipócrita dupla moral” capaz de julgar de forma severa a conduta de uma mulher por oposição a uma tolerância no comportamento simétrico de um homem. E é uma dupla moral que afeta todas as classes sociais. Embora, em algumas, os sorrisos de lado, bocas e piadas, comiseração ou desconfiança, ataque ou incompreensão, estejam lá, mas travestidos. 

                                                                                                            *

Desde a tragédia da vida de Lígia, as suas capacidades de luta e resistência foram sendo cerceadas. De Alberto não sabemos porque um longo rompimento se interpôs entre ambos. Após o 25 de abril, Lígia foi sendo barrada nas entrevistas de recrutamento porque não dominava uma língua estrangeira. Perguntou ao médico que acompanhava a sua prolongada depressão sobre se era prudente investir em estudos: “Não pense nisso – a depressão que você teve não dá… não dá… desista da ideia. Você agora tente continuar a fazer a sua vida, e ir fazendo aquilo de que gosta, e aquilo que não puder fazer, não faz…” E então Lígia começou a procurar casas onde pudesse “trabalhar a dias”. E trabalha a dias até hoje.

[1] Ana Correia, Corpo de Delito: A Repressão Policial à Homossexualidade na Primeira Década do Estado Novo – Arquivos da Polícia de Investigação Criminal de Lisboa, Lisboa, ISCTE, Departamento de História, 2016 (versão policopiada).

[2] Alexandra Kollontai, Sexual Relations and the Class Struggle: Love and the New Morality. Bristol: Falling Wall Press, 1972.