“O direito de nada significar”


“O direito de nada significar”

 

À conversa com…
Miguel Bonneville (Porto, 1985), artista (live art, performance e artes visuais).

Percursos…
Desde 2003 tem apresentado o seu trabalho em galerias de arte e festivais nacionais e internacionais. Concluiu os cursos de ‘Interpretação’ na Academia Contemporânea do Espectáculo (2000-2003), ‘Artes Visuais’ na Fundação Calouste Gulbenkian (2006), ‘Autobiografias, Histórias de Vida e Vidas de Artista’ no CIES-ISCTE (2008), ‘Arquivo – Organização e Manutenção’ no Citeforma (2013), ‘Costurar ideias’ na Magestil (2013), e ‘Cyborgs, Sexo e Sociedade’ na FCSH (2016).

 

Foto
Imagem do espetáculo A Importância de Ser Simone de Beauvoir, da autoria de Joana Linda.

 

Data
28 de Abril de 2018

Entrevista
Isabel Freire

Miguel Bonneville, 33 anos, artista, introduz-nos a histórias autobiográficas centradas na desconstrução e reconstrução da identidade, através de performances, desenhos, fotografias, vídeo, música e livros de artista. Define-se em termos de género como não sendo nem uma coisa nem outra. Nem feminino nem masculino. É por isso que o seu primeiro nome é alvo de rasura, na forma como se apresenta.

“No sexo ainda há uma concentração quase exclusiva nos órgãos reprodutores, é como se o resto do corpo se apagasse. Procuro encontrar outros modos de viver a sexualidade, outros lugares de prazer”. Nesta entrevista fala-nos de Paul B. Preciado, Simone de Beauvoir e Georges Bataille. Fala-nos também do abuso sexual intrafamiliar, de que ainda tão pouco se fala.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – Quando entramos no seu site, encontramos uma muito breve descrição biográfica, com um risco sobre o seu nome próprio (Miguel)…

Miguel Bonneville – Achei que seria essencial ter uma declaração muito direta sobre o meu trabalho, logo na entrada do site. Uma declaração que deixasse imediatamente claro, de uma forma simples, quais são as características base do meu trabalho.

SPSC – Como se exprime este risco sobre a palavra Miguel, na vida de todos os dias? Pode falar-nos um pouco dessa recusa?

MB – Em 2012 realizei uma performance na Capela Carlos Alberto, nos jardins do Palácio de Cristal, no Porto – o funeral do Miguel Bonneville; a última parte do meu projeto homónimo. Depois dessa morte, achei que não faria sentido continuar a assinar os meus trabalhos com o mesmo nome, pareceu-me ser necessário criar uma diferenciação clara entre um antigo eu e um novo eu. Aliando esta necessidade às minhas inquietações com as questões de género, e por não encontrar outro nome que fizesse sentido adotar, optei por rasurar o meu primeiro nome. Bonneville é um nome sem género, não é nem masculino, nem feminino, o que está de acordo com o meu próprio género, que não defino nem como uma coisa nem como outra. A rasura revela e afirma uma transição, mas mantém ainda a memória de uma identidade de outro tempo.

SPSC – Há discursos (ditos ou não-ditos) em torno do género e da sexualidade que o tenham afastado mais profundamente de si, no seu percurso de construção identitária?

MB – Parece-me que todos os discursos em torno do género e da sexualidade só me fizeram aproximar mais profundamente de mim, fosse por recusa ou por identificação.

SPSC – O que é (ou foi) mais complexo na opção de trabalhar de forma autobiográfica, expondo uma narrativa pessoal e íntima?

MB – Quando comecei a apresentar os primeiros trabalhos, não tinha muito presente o conceito de autobiografia. Sabia que tinha urgência em expor ideias que me inquietavam profundamente, e isso era o suficiente. Depois vi-me obrigado a produzir um discurso sobre o trabalho, porque comecei a vê-lo ser compartimentado e a ser empurrado para dentro de conceitos isolados, a ser categorizado. Então, comecei a procurar criar um discurso que fosse o mais abrangente possível, que não limitasse o trabalho apenas a uma ou duas categorias fixas, e cheguei à conclusão de que o meu trabalho era autobiográfico e performativo; duas características que encontro em qualquer trabalho e das quais não há forma de escapar. Ou seja, duas características que abrangem tudo, que a meu ver podem permitir variadíssimos pontos de vista, podem abrir (mais do que fechar) possibilidades. Tudo é autobiográfico, tudo é performativo.

Há muitos aspectos difíceis que surgem quando se trabalha a partir da autobiografia, mas acho que isso acontece com qualquer trabalho que envolva risco, empenho e honestidade. O confronto consigo mesmo pode ser difícil, mas é um dos objetivos do trabalho. Faz parte do trabalho lidar com a vulnerabilidade. A exposição também faz parte da dificuldade inerente do processo autobiográfico, no entanto acho que o que é mais complicado é o risco de expor a vida dos outros; não é possível falarmos de nós mesmos sem falarmos dos outros, e às vezes pode ser arriscado fazê-lo sem também os expormos. Embora às vezes expor os outros também faça parte do processo. Ter de lidar com as reações por parte da família talvez seja o mais custoso, seja por não perceberem ou por ficarem chocados. Mas, na verdade, essas reações são multiplicadas pelo público em geral; há alguma admiração, no entanto exigem que me explique, o que é compreensível, visto que a educação artística e cultural em Portugal é lamentável e praticamente nula, o que leva a algum desconforto por parte do público – burguês, na sua grande maioria – porque não “compreende”, o que leva automaticamente ao seu desejo de exercer autoridade sobre o artista.

O feminismo, para mim, não tem só a ver com a opressão ou discriminação de género, tem a ver sobretudo com um movimento interseccional que procura combater todas as formas de opressão (machismo, racismo, classismo, transfobia, homofobia…)

SPSC – O seu trabalho questiona o género e a sexualidade desde o início, em 2003. Genericamente, como reagiu o contexto artístico português a propostas com esta centralidade?

MB – As reações são sempre muito dúbias, sobretudo porque são raras as pessoas que dão a sua opinião. Em Portugal há muito medo de falar. É um meio muito pequeno, dependemos todos muito uns dos outros, então qualquer opinião menos evasiva pode ser tomada como um insulto – e nunca se sabe se mais tarde não vamos precisar do apoio dessa pessoa que “insultámos”. Ou seja, fala-se, mas sempre às escondidas e, preferencialmente, dos outros e nunca de si próprio. Talvez tenha a ver com a história do país – primeiro a inquisição (300 anos), depois o fascismo (40 anos): épocas em que se aprendeu que talvez fosse mais seguro não falar de si próprio, porque poderia tornar-se comprometedor.

Por um lado, sempre fui apoiado por um grupo restrito de pessoas, desde professores a pessoas com quem trabalhei, e que programavam os meus trabalhos (Magda Henriques, Daniel Pires/Maus Hábitos, Francisco Camacho/Eira, Carlota Lagido, António Câmara/Festival Temps d’Images, João Manuel Oliveira…), por outro sentia que era excluído de alguns circuitos que tinham mais visibilidade – muitas vezes por estar associado a estes e outros artistas; eles próprios empurrados e encaixados para dentro de categorias isoladas.

Parece-me que o meu trabalho sempre teve alguma visibilidade, mas manteve-se à margem – às vezes por opção, às vezes por imposição. As questões autobiográficas e as questões ligadas ao género e à sexualidade (que, para mim, não estão separadas) tanto suscitavam interesse e curiosidade como desprezo. Curiosamente suscitam o interesse sobretudo de pessoas relacionadas a outras áreas e outros contextos que não os artísticos, como a psicologia ou a filosofia, por exemplo. O esforço que tenho feito tem sido sempre no sentido de descentralizar. Sim, autobiografia, identidade, género, sexualidade, fazem parte do meu trabalho, como fazem também a própria arte, a história da arte, o meio artístico, a memória, a família, a classe, as fábulas, o amor, a religião, os animais…

SPSC – Em 2016 promoveu um encontro aberto com grupos, coletivos e organizações para falar das preocupações e estratégias relativas a assuntos relacionados com o género, a sexualidade, a raça, a classe e a identidade (Bordel Filosófico). O que saiu deste ponto de encontro que tenha sido mais importante para si?

MB – Foi excepcional poder contar com a presença das Femafro, Lóbula e Panteras Rosa, sobretudo para as ouvir.

A partir das obras de Preciado tentei ir mais fundo na minha relação com o meu corpo, com a minha sexualidade, que, de facto, nunca se identificou com a norma

SPSC – Visitou a obra de Paul B. Preciado e refletiu sobre o lugar do género e da sexualidade de corpos que não se identificam com a norma (em A importância de ser Paul B. Preciado). O que sentiu/como se sentiu nestes lugares?

MB – Não se tratou de uma espécie de excursão a esses corpos, mas sim de um aprofundamento sobre o meu próprio corpo. A partir das obras de Preciado tentei ir mais fundo na minha relação com o meu corpo, com a minha sexualidade, que, de facto, nunca se identificou com a norma. Sobretudo com a performance Chérie, Chéri – que foi realizada para um espectador de cada vez – senti que consegui chegar muito próximo de um ideal. A relação de intimidade era imediatamente estabelecida, tanto eu como o espectador estávamos num território muito vulnerável, e isso permitiu que pudéssemos extrapolar a relação convencional entre performer e espectador, e criar um espaço onde, virtualmente, eu poderia estar mais perto daquilo que sou, poderia estar mais perto de ter o corpo que mereço.

A descentralização não ocupa apenas um lugar na minha obra, mas também na forma como vivo a minha vida, como vivo a minha sexualidade. No sexo ainda há uma concentração quase exclusiva nos órgãos reprodutores, é como se o resto do corpo se apagasse. Procuro encontrar outros modos de viver a sexualidade, outros lugares de prazer. Acho a reprodução abominável.

SPSC – É sobrevivente de abuso sexual intrafamiliar, na infância. Trabalhou de forma confessional as memórias destas vivências na exibição Abuso (Projeto Família) em 2009. Como vê o tratamento desta tema na sociedade portuguesa, nos nossos dias?

MB – Não vejo. Parece-me continuar a ser algo do qual não se fala nem aberta nem publicamente, e muito pouco em privado.

Bonneville é um nome sem género, não é nem masculino, nem feminino, o que está de acordo com o meu próprio género, que não defino nem como uma coisa nem como outra. A rasura [sobre o nome próprio] revela e afirma uma transição, mas mantém ainda a memória de uma identidade de outro tempo

SPSC – Vai voltar a escutar e a parafrasear mulheres que escutou e parafraseou há cerca de 10 anos no projeto MB#6. Qual a importância do feminino em/para si?

MB – Durante muito tempo o feminino – talvez seja mais exato dizer os femininos – foi o modelo alternativo (ao masculino) que procurei para me construir. Sobretudo na infância, antes de ter uma perspectiva mais consciente e informada sobre as construções sociais, quando os exemplos que tinha presentes eram apenas os dos papéis tradicionais.

As mulheres à minha volta sempre foram exemplos de um estoicismo inigualável, sem que isso significasse falta de afabilidade. Sentia um contraste enorme entre essa firmeza, a capacidade enorme de sobrevivência, de suportar e superar as dificuldades, e a cobardia e a distância por parte dos homens. Duas formas muito diferentes, opostas, de lidar com a culpa. É claro que é sempre perigoso generalizar e há sempre muitas exceções, mas a verdade é que sentia (e ainda sinto) uma diferença aguda de comportamento que se deve ainda às normas sociais tradicionais relativas ao género.

Quero deixar claro que falo aqui de mulheres sobretudo por causa do projeto em questão; não associo o feminino exclusivamente só às mulheres. E tenho várias questões em torno da questão: o que é ser mulher?

SPSC – Como se posiciona em relação ao feminismo, e em que ponto se aproxima e/ou se afasta de Simone de Beauvoir (sobre quem se debruçou no projeto A importância de ser Simone de Beauvoir, em 2014)?

MB – Percebi que era feminista por causa da Simone de Beauvoir. Ou seja, tornou-se mais claro o caminho que tinha estado a traçar; compreendi que linhagem tinha a minha filosofia, e de que forma é que o meu trabalho era político. Não há nada que me afaste da Beauvoir (a não ser talvez o Sartre, visto que não nutro grande simpatia por ele, mas é um pormenor). O contacto com as obras da Beauvoir mudou profundamente a minha relação comigo mesmo, porque de repente tive acesso a um exemplo de alguém que sustentava inteligente e fundamentadamente as minhas crenças, que me defendia. E esse conhecimento mais profundo sobre mim permitiu-me ser mais assertivo, logo menos manipulável.

O feminismo, para mim, não tem só a ver com a opressão ou discriminação de género, tem a ver sobretudo com um movimento interseccional que procura combater todas as formas de opressão (machismo, racismo, classismo, transfobia, homofobia…).

SPSC – Disse-me que George Bataille é a próxima figura a inspirar a sua reflexão (ainda no contexto d’A importância de ser). Bataille é um pré/texto para…

MB – Para apagar o meu nome, para me devolver o direito de nada significar, para retornar a um pensamento no qual a identidade falha, para voltar a tentar fugir ao objeto, para transbordar, para dar início a mais um suicídio.

[O abuso sexual intrafamiliar] parece-me continuar a ser algo do qual não se fala nem aberta nem publicamente, e muito pouco em privado

SPSC – Há algum espaço ou algum tempo que gostasse de visitar/viver?

MB – Há muitos lugares que gostava de visitar. Não sei se gostaria de fazer uma viagem no tempo para conhecer outra época – tenho a certeza de que seria decepcionante. Acho preferível ficar com a ideia fantasiosa do amor livre, da liberdade, da igualdade e da fraternidade. É mais fértil a nostalgia.

Se pudesse tornar-me espaço, desfazer-me desta ideia de humano, ir em direção à obscuridade, então era isso que faria.

Fotografia de Joana Linda. Imagem do espetáculo A Importância de Ser Simone de Beauvoir.