Obesidade e sexualidade

Data da Notícia: Junho 28, 2018

Obesidade e sexualidade

Uma reflexão de…
Paula Freitas, médica endocrinologista, Presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO)

 

Percurso 
Assistente Graduada no Serviço de Endocrinologia do Centro Hospitalar São João, no Porto. Professora Auxiliar da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Doutorada pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto com a tese “Estudo do síndrome da lipodistrofia e das repercussões endócrino-metabólicas e cardiovasculares na infecção por vírus da imunodeficiência humana”.

 

Data
28 de junho de 2018

A prevalência da obesidade tem vindo a aumentar, representando atualmente um dos maiores problemas de Saúde Pública. Em Portugal mais de 60% da população adulta tem obesidade ou pré-obesidade. A obesidade é uma doença crónica, complexa e multifatorial que é simultaneamente promotora do aparecimento de múltiplas outras doenças crónicas como diabetes, dislipidemia, hipertensão arterial, apneia do sono, síndrome metabólico, doenças cardiovasculares, incontinência urinária, determinados tipos de cancro, alterações musculoesqueléticas, depressão e diminuição da qualidade de vida. No que diz respeito à qualidade de vida, não podemos esquecer que esta inclui a vida e saúde sexuais. A sexualidade é um importante determinante da saúde, relacionada com a qualidade de vida global na vida adulta.

E como definido pela Organização Mundial de Saúde, a saúde sexual é “um estado de bem-estar físico, emocional, mental, e social em relação com a sexualidade”. Por outro lado, a disfunção sexual compreende síndromes clínicos que impedem a função sexual como a aversão sexual, excitação sexual disfuncional, vaginismo nas mulheres, e disfunção erétil e ejaculação prematura nos homens.

Vários estudos demonstraram que os homens e mulheres com obesidade têm mais e maiores problemas com a sua vida sexual comparativamente com indivíduos normoponderais. Se por um lado, algumas das numerosas comorbilidades associadas à obesidade, como dislipidemia, hipertensão arterial, diabetes tipo 2, compromisso funcional e depressão, estão associadas à disfunção sexual, por outro lado, a obesidade per se também contribui para o desenvolvimento de disfunção sexual. Estas são consideradas explicações primárias para os efeitos supressivos da obesidade no comportamento sexual, em larga parte devido ao aumento do risco de disfunção erétil e dificuldades lubrificação, entre outras formas de disfunção sexual. Outros potenciais mecanismos que podem explicar a associação entre obesidade e disfunção sexual incluem: disfunção endotelial, síndrome metabólico, distúrbios endócrinos, apneia obstrutiva do sono, problemas psicológicos e sociais.

Muitos dos problemas sexuais são o resultado de falta de autoestima subjacente, relacionamentos não satisfatórios, estigmatização das pessoas com obesidade e comportamentos de binge eating (em português, Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica), frequentes nas pessoas com obesidade

Existem múltiplas outras possíveis explicações para a associação entre obesidade e problemas e/ou disfunção sexual. Além dos aspetos psicológicos, os socioculturais são muito importantes. Muitos dos problemas sexuais são o resultado de falta de autoestima subjacente, relacionamentos não satisfatórios, estigmatização das pessoas com obesidade e comportamentos de binge eating (em português, Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica), frequentes nas pessoas com obesidade. Estes problemas sexuais também podem ter proveniência noutros problemas psicossociais ou psicológicos, como a frustração ou insegurança na obtenção de relações de parceria duradoiras.

De um ponto de vista sociocultural, existe um enorme estigma associado à obesidade, especialmente no sexo feminino. Nas sociedades ocidentais contemporâneas, fitness e magreza estão associadas com atração física e desejabilidade sexual. A este respeito, especialmente as mulheres, são sem sombra de dúvida marginalizadas em termos de aparência física pelas sociedades modernas, sendo a consciência corporal de “youthful and sexualized” preponderante. Basta observar a publicidade, as modelos, as cantoras e as atrizes da moda que têm de ser jovens, belas, magras e sexy. O peso corporal é uma fonte mantida de preocupações ao longo de toda a vida e visto e vivido como um aspeto central de insatisfação corporal, especialmente nas mulheres. De facto, as mulheres “vêm os seus corpos como objetos para avaliação estética” e estão sempre preocupadas com a perda de peso, enquanto os homens estão mais tipicamente insatisfeitos com a sua capacidade física que negativamente impacta na sua identidade masculina. Pelo menos entre os jovens, a obesidade é avaliada como um traço especialmente desagradável para possíveis parceiros sexuais femininos e as mulheres com obesidade são sujeitas a estereótipos sexuais mais negativos do que os homens obesos.

Vários estudos mostram que os indivíduos com obesidade grave (obesidade classe II ou III, IMC > 35 Kg/m2), quer homens quer mulheres, são menos sexualmente ativos que os indivíduos normoponderais. Parte deste padrão pode ser explicado porque os indivíduos com obesidade têm maior dificuldade em encontrar um parceiro ou de manter a disponibilidade do parceiro. A menor atividade sexual, em parte, também é devida ao estigma da obesidade que pode moldar o bem-estar psicológico. Também numa perspetiva socioeconómica, devido à obesidade ser estigmatizante, especialmente para as mulheres, concorre para menor qualidade nos relacionamentos e consequente maior inatividade sexual ou infrequência de relacionamentos do que nos homens. Por outro lado, as pessoas com obesidade tendem a procurar parceiros com um peso semelhante, de modo que o peso de uma mulher obesa possa ser menos estigmatizante numa família com obesidade. Deste modo, a mulher tende a diminuir o estigma social da obesidade social e nega as implicações da obesidade na qualidade do relacionamento. O facto de indivíduos com obesidade tenderem a casar com indivíduos com obesidade, pode potenciar a existência de complicações de saúde relacionadas com obesidade de um ou de ambos, o que molda a atividade sexual do casal. Também a saúde psicológica explica como a obesidade impacta na sexualidade. Há evidência de que a obesidade está associada a pior saúde mental quer nos homens quer nas mulheres, em parte devido à pior capacidade funcional ou a outros problemas crónicos de saúde associados à obesidade. Os problemas psicológicos, por sua vez, têm associação negativa com certos aspetos da sexualidade, como por exemplo, a disfunção sexual.

Consistente com essa perspetiva, um recente estudo francês mostrou também que as mulheres obesas são menos propensas a ter um parceiro sexual do que mulheres não obesas e que a obesidade das mulheres reduz a probabilidade de manter atividade sexual mesmo dentro de casais casados ​​ou em coabitação.

[…] as pessoas com obesidade tendem a procurar parceiros com um peso semelhante, de modo que o peso de uma mulher obesa possa ser menos estigmatizante numa família com obesidade

Outro argumento é a teoria de que a obesidade pode ser uma barreira física para as relações sexuais. Se uma mulher é fisicamente incapaz de realizar uma relação sexual, é claro que a sua sexualidade está comprometida, com consequentes problemas psicológicos. Existe evidência de problemas psicológicas secundários à dificuldade física em se envolver em relações sexuais devido à enorme circunferência abdominal e/ou a condições físicas precárias associadas à obesidade. Como dissemos atrás, a obesidade pode causar importantes problemas psicológicos, porque os indivíduos com obesidade tendem a ter uma negativa imagem corporal, baixa autoestima e autoaceitação, com consequentes dificuldade nas relações interpessoais. Vários estudos demonstram que após a perda de peso após cirurgia bariátrica (cirurgia da obesidade), há uma melhoria da imagem corporal, as pessoas sentem-se mais atrativas, e sem problemas de se despir na frente dos seus parceiros, maiores taxas de empregabilidade, empregos melhor remunerados, maior e melhor vida social e vida sexual, assim como gozo de períodos de férias, o que indica também uma melhoria nas relações interpessoais. De facto, estes estudos salientam que após a cirurgia bariátrica, a saúde sexual da mulher melhora, assim como as dificuldades psicológicas (imagem corporal, autoestima, e relações interpessoais).

No entanto, há que fazer uma ressalva, já que após grandes perdas de peso após a cirurgia bariátrica, devido ao excesso de peles, as mulheres se não forem submetidas a cirurgias plásticas também podem ter problemas em despir-se frente ao companheiro. Em conclusão, a diminuição da obesidade melhora as comorbilidades, diminui as dificuldades físicas e melhora a saúde sexual.

Alguns estudos com intervenção farmacológica também mostraram resultados semelhantes, apesar da perda ponderal com a cirurgia bariátrica ser mais pronunciada. Também existem estudos com resultados diferentes. Por exemplo, um estudo australiano mostrou que havia pouca associação entre índice de massa corporal (IMC) e diferentes dificuldades sexuais nas mulheres, com exceção do interesse no sexo, que diminuía significativamente à medida que o IMC aumentava. E pelo contrário, existia uma forte associação entre IMC e aumento de preocupação acerca da própria falta de atratividade do corpo durante o sexo. Outros estudos, como por exemplo, o Study of Women’s Health Across the Nation, em mulheres de meia idade, mostrou que a perda de peso maior do que o esperado num programa de redução ponderal estava associada com aumento do desejo sexual, enquanto o ganho de peso maior do que o esperado resultava numa diminuição do desejo sexual. Múltiplos estudos demonstraram que a disfunção sexual, em particular, excitação, lubrificação, orgasmo, e vários domínios de satisfação se correlacionavam fortemente com o IMC.

A relação entre obesidade e problemas de saúde sexual pode ser explicada por mecanismos fisiológicos/biológicos (como por exemplo, problemas musculoesqueléticos, barreira física), psicológicos (como por exemplo, baixa autoestima sexual, que concorre para dificuldades em permitir ou iniciar o sexo) e sociais

Ainda noutro estudo francês, tanto nos homens como nas mulheres, a obesidade afetava o número de parceiros sexuais nos últimos 12 meses e, para as mulheres, se elas tinham ou não um parceiro sexual. Nos homens, o IMC mais alto foi associado a um aumento da probabilidade de disfunção sexual e a obesidade foi associada a comportamentos sexuais inseguros, com maior risco de doenças sexualmente transmissíveis. Os parceiros de homens e mulheres obesos eram mais propensos a serem obesos, mas a associação era mais forte para as mulheres do que para os homens. Houve também evidência de que a autoimagem varia com o género; mulheres obesas eram duas vezes mais propensas a verem-se como tal em comparação com homens obesos. As mulheres também diminuem a importância da sexualidade para o seu bem-estar, o que pode refletir um ajuste racionalizante à falta de um parceiro sexual disponível.

A relação entre obesidade e problemas de saúde sexual pode ser explicada por mecanismos fisiológicos/biológicos (como por exemplo, problemas musculoesqueléticos, barreira física), psicológicos (como por exemplo, baixa autoestima sexual, que concorre para dificuldades em permitir ou iniciar o sexo) e sociais. É nos fatores sociais que influenciam o comportamento sexual, no entanto, que é mais provável encontrarmos insights sobre esta associação, particularmente nas mulheres. Nos países industrializados, como descrito atrás, há evidência considerável ​​de que as mulheres estão sob maior pressão social do que os homens em relação ao peso e que os homens são mais propensos do que as mulheres a selecionar os seus parceiros de acordo com o peso.

Embora, a baixa autoestima, seja um atributo psicológico, deriva de estereótipos sociais em torno da obesidade e, portanto, é essencialmente de origem social. Como dissemos, as mulheres com obesidade têm mais dificuldade em encontrar um parceiro e para aumentar esta probabilidade, recorrem mais frequentemente à procura de parceiros na internet, já que deste modo podem ocultar o seu peso.

Tal como a obesidade que é uma doença crónica, complexa e multifatorial, a sexualidade também é extremamente complexa e explicar as relações entre ambas é de uma enorme complexidade já que envolve fatores biológicos, hormonais, físicos, psicológicos e sociais.