Curvatura do pénis, um alerta para a doença de Peyronie

Data da Notícia: Agosto 30, 2018

Curvatura do pénis, um alerta para a doença de Peyronie

Uma reflexão de…
Nuno Tomada, médico especialista em urologia e andrologia. Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Andrologia, Medicina Sexual e Reprodução.

 

Percurso 
Competência em Sexologia Clínica pela Ordem dos Médicos, Doutorado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, com Tese sobre Disfunção Erétil. Investigador do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (BMC – I3S).

 

Data
30 de Agosto de 2018

 

Entrevista
Isabel Freire

Chama-se doença de Peyronie. Estima-se que afete 9% dos homens. Sabe-se que a rapidez na procura de ajuda clínica é fundamental para o tratamento. Mas, por desconhecimento ou vergonha, muitos pacientes chegam tarde à consulta, numa fase já crónica da doença, explica Nuno Tomada, urologia, andrologista e cirurgião experiente no tratamento da doença. Para o especialista, é fundamental que os profissionais de saúde “abordem na consulta o tema sexual de forma integrada e sistemática nas suas histórias clínicas”. Os estudos indicam que o doente está recetivo a discutir esta problemática. Apenas aguardam a iniciativa do médico. Nuno Tomada lembra ainda que no processo terapêutico da doença de Peyronie é fundamental acompanhar o casal, pois a dor e a disfunção erétil podem instalar-se nas relações sexuais, afetando o relacionamento.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – Que preocupações/medos vem registando como sendo mais comuns em pacientes com a doença de Peyronie, quando lhe chegam ao consultório à procura de um diagnóstico?

Nuno Tomada – A maior preocupação dos doentes é que a placa ou nódulo palpável traduzam a presença de uma neoplasia (tumor maligno). É fundamental aquando do diagnóstico no consultório, que o doente seja informado do carácter benigno desta patologia. A outra preocupação é o aparecimento, muitas vezes súbito, de uma curvatura no pénis em ereção que para além do aspeto estético também tem implicações funcionais nas relações sexuais, e que para eles representa uma situação que não conseguem explicar e da qual têm muita vergonha em expor. Daí resulta que estes doentes cheguem muito tarde à minha consulta, muitas vezes após a fase inflamatória ter passado e nessa altura, apenas restam opções cirúrgicas para as curvaturas disfuncionais. Já na fase crónica, uma fase mais tardia, as maiores angústias dos doentes que me procuram são o encurtamento peniano e a disfunção eréctil que podem decorrer desta doença.

SPSC – Como explica o que é a doença de Peyronie aos seus pacientes?

NT – Nem sempre é fácil. Mas a abordagem mais simples é explicar-lhes que há um processo cicatricial excessivo na túnica que reveste os corpos cavernosos, na sequência de vários pequenos traumatismos no pénis aquando da relação sexual, e que promove o aparecimento de lesões que limitam a normal expansão do pénis em ereção. É importante acrescentar que isto não acontece em todos os homens, mas sim naqueles que apresentam algum tipo de predisposição, nomeadamente predisposição genética.

SPSC – A que sintomas é preciso estar especialmente atento? E com que rapidez se deve procurar ajuda?

NT – Enquanto que os sinais são óbvios – a curvatura – os sintomas não são propriamente específicos. Mas muitas vezes, antes do aparecimento da curvatura, o homem queixa-se de dor no pénis que agrava em ereção. Para além disso, sente à palpação que há uma região mais endurecida no seu pénis, geralmente na sua face dorsal. Assim que o homem detete toda e qualquer alteração, deve procurar ajuda especializada, nomeadamente andrologistas, para iniciar o mais rapidamente possível o tratamento para melhoria e estabilização das lesões.

Não é possível ter uma consulta nesta área tão sensível e com tantas particularidades em 5 minutos…

SPSC – O tratamento da doença passa genericamente por…

NT – O tratamento é determinado pela fase em que a doença se encontra: a fase inicial, denominada inflamatória, que se pode prolongar por vários meses e que se caracteriza por dor peniana em ereção e placa em evolução condicionando progressão da curvatura, ou a fase crónica, que se caracteriza pela ausência de dor e estabilidade da curvatura, com ou sem disfunção erétil associada.

Na fase inicial é importante controlar a dor, e existem várias opções terapêuticas que tentam estabilizar ou mesmo melhorar a curvatura peniana. Entre estas destacam-se a vitamina E em alta dose, Pentoxifilina, POTABA, Colchicina e Tamoxifeno. Infelizmente, apresentam resultados que não são reprodutíveis. Para além disso, neste momento, não há evidências suficientes para emitir recomendações terapêuticas na fase aguda. Também temos disponíveis as injeções intralesionais (aplicadas diretamente na lesão), tanto com o verapamil como mais recentemente com a colagenase, que representa uma das mais promissoras opções terapêuticas. Sem dúvida que a abordagem cirúrgica é a opção que traz os melhores resultados, mas está reservada para a fase crónica, isto é, quando a doença se apresenta estável pelo menos há 6 meses, e devendo ser realizada por cirurgiões com elevada diferenciação na área reconstrutiva genito-urinária.

SPSC – Há evoluções significativas recentes do ponto de vista farmacológico ou cirúrgico para o tratamento da doença?

NT – Infelizmente não tantas como deveriam. Nos últimos anos poucos avanços têm sido feitos nesta área. Continuámos sem um tratamento eficaz na fase aguda da doença, mas na fase estabilizada temos agora disponível a injeção na placa de colagenase, uma enzima que degrada o colagénio depositado na túnica albugínea e que, condicionando a sua elasticidade, é responsável pela curvatura em ereção. As técnicas cirúrgicas também têm vindo a ser aprimoradas, e a realização das mesmas por cirurgiões mais especializados nesta área – cirurgiões reconstrutivos génito-urinários – concentra a experiência e permitem os melhores resultados.

SPSC – O que ainda desconhecemos de relevante sobre a doença?

NT – Seria muito importante mais investimento na investigação básica dos mecanismos etiofisiopatogenéticos destas lesões penianas de forma a termos a curto prazo um tratamento médico mais assertivo e eficaz.

Temos de divulgar mais esta patologia de modo a que os doentes recorram a ajuda especializada atempadamente.

SPSC – Que questões psicológicas ter em conta no processo de acompanhamento do doente?

NT – Existem vários aspetos distintos. Primeiro é relativo ao tempo de procura de ajuda médica. Geralmente por desconhecimento ou vergonha, este ainda é muito acentuado. Temos de divulgar mais esta patologia de modo a que os doentes recorram a ajuda especializada atempadamente. O segundo aspeto é o acompanhamento do casal, que é fundamental. Como referi anteriormente, uma das consequências desta doença é a dor aquando da relação sexual, acrescida da dor provocada à parceira e, não menos importante, a disfunção eréctil secundária à doença de Peyronie. Quaisquer um destes fatores, leva muitas vezes ao evitamento da atividade sexual, com todos os problemas relacionais daí decorrentes.

SPSC – Sabemos qual a prevalência da doença em Portugal? É coerente com outros países europeus?

NT – Não existem estudos com a necessária amostragem para uma correta determinação da prevalência em Portugal. Temos o mesmo problema nos outros países, exacerbado pela existência do tabu em revelar a presença desta patologia bem como pelo seu subdiagnóstico em ambulatório. Se o homem não se queixa, e o profissional de saúde não está familiarizado com este problema, não é possível conhecermos números. De uma forma genérica, a prevalência da maioria dos estudos ronda os 1-3%, mas estima-se que a verdadeira prevalência seja da ordem dos 9%.

SPSC – Hoje em dia, no nosso país, a vergonha/pudor são ainda entraves significativos à exposição de problemas do foro sexual no consultório?

NT – Assistimos a uma melhoria deste aspeto nas últimas décadas, especialmente com a desmistificação da impotência, mais corretamente a disfunção erétil, e com a sua associação com a saúde masculina em geral. Contudo, culturalmente, ainda faz parte do ser homem não expor aspetos relacionados com a esfera sexual. Ainda nos resta algum caminho pela frente para ajudar os homens a ultrapassar estes obstáculos de comunicação.

[…] muitas vezes, antes do aparecimento da curvatura, o homem queixa-se de dor no pénis que agrava em ereção. Para além disso, sente à palpação que há uma região mais endurecida no seu pénis, geralmente na sua face dorsal

SPSC – Será que há ainda desconforto por parte dos profissionais (nomeadamente de Medicina Geral e Familiar) em abordar e examinar problemas do foro sexual?

NT – Infelizmente ainda sim, embora hoje em dia o maior problema foca-se na falta de tempo útil para abordar de forma adequada esta problemática. Não é possível ter uma consulta nesta área tão sensível e com tantas particularidades em 5 minutos… Ainda assim, recebo com frequência doentes referenciados por muitos dos colegas.

SPSC – Que apostas se podem fazer para melhorar, dentro do consultório, a abordagem às problemáticas visadas pela medicina sexual?

NT – É fundamental a formação de profissionais da área da saúde, para que abordem na consulta o tema sexual de forma integrada e sistemática nas suas histórias clínicas. Todos os estudos realizados reforçam a ideia que o doente está recetivo a discutir esta problemática com os clínicos apenas aguardando a iniciativa do médico. Nesse sentido, a abordagem multidisciplinar do doente tal como fazemos na nossa consulta de medicina sexual que integra especialistas diferenciados nesta área, faz mais sentido. A nossa experiência de longos anos, aliada à vontade de fazer mais e melhor em prol do doente, e procurando para isso mesmo evoluir em termos médico-cirúrgicos, não nos deixa dúvidas que devemos manter a aposta na formação, tal como temos vindo a fazer nos últimos anos através da nossa Sociedade Portuguesa de Andrologia, Medicina Sexual e Reprodução, bem como através da interação com outras sociedades, particularmente com a Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica.