{"id":5398,"date":"2016-08-25T17:56:46","date_gmt":"2016-08-25T17:56:46","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=5398"},"modified":"2019-03-28T09:43:46","modified_gmt":"2019-03-28T09:43:46","slug":"a-sexualidade-e-a-doenca-oncologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2016\/08\/25\/a-sexualidade-e-a-doenca-oncologica\/","title":{"rendered":"\u201cTer cancro n\u00e3o significa o fim da vida sexual\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/gracasantos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-9097\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/gracasantos-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c0 conversa com&#8230;<\/strong><br \/>\nGra\u00e7a Santos<\/p>\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n4 de setembro 2016<\/p>\n<p><strong>Entrevista<\/strong><br \/>\nIsabel Freire<strong><br \/>\n<\/strong>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]Gra\u00e7a Santos, psiquiatra, psicooncologista, terapeuta sexual e coordenadora da hist\u00f3rica<a href=\"https:\/\/sites.google.com\/site\/sexologiahuc\/home\/apresentacao\"> consulta de sexologia do Centro Hospitalar e Universit\u00e1rio de Coimbra<\/a> (criada em 1975) dedica-se \u00e0 compreens\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica da sexualidade junto do doente oncol\u00f3gico. Fomentar a comunica\u00e7\u00e3o do casal, desmistificar cren\u00e7as erradas, promover a n\u00e3o dessexualiza\u00e7\u00e3o do doente e da rela\u00e7\u00e3o, e valorizar formas menos genitalizadas de realiza\u00e7\u00e3o sexual s\u00e3o algumas estrat\u00e9gias recomendadas por esta especialista, que \u00e9 tamb\u00e9m membro da Dire\u00e7\u00e3o da Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica.<\/p>\n<p><strong>Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica: Muito genericamente, o que retiram as doen\u00e7as graves \u00e0 nossa conjuntura pessoal sexual?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gra\u00e7a Santos: <\/strong>As doen\u00e7as graves, como o cancro, amea\u00e7am a perspetiva de futuro antecipado. Trazem consigo o sofrimento, quer f\u00edsico quer psicol\u00f3gico. Diminuem o indiv\u00edduo, conferem-lhe o estatuto de doente, privando-o de se sentir como um ser sexual, desej\u00e1vel. A forma como a pessoa se v\u00ea a si pr\u00f3pria ou como vivencia o seu corpo, bem como a rela\u00e7\u00e3o com o parceiro\/a modificam-se significativamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SPSC: As doen\u00e7as oncol\u00f3gicas s\u00e3o particularmente lesivas da sexualidade? Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GS: <\/strong>A maioria dos doentes com cancro sente dificuldades ou apresenta disfun\u00e7\u00f5es sexuais em consequ\u00eancia da doen\u00e7a e seus tratamentos. Desde logo porque o processo patol\u00f3gico pode atingir \u00f3rg\u00e3os ou estruturas importantes para a resposta sexual. Os efeitos dos tratamentos sobre a sexualidade n\u00e3o s\u00e3o menores. A autoimagem \u00e9 afetada pelas cirurgias mutilantes, pela apar\u00eancia e alop\u00e9cia resultantes da quimioterapia. As altera\u00e7\u00f5es hormonais resultantes de algumas terap\u00eauticas comprometem o desejo, a ere\u00e7\u00e3o no homem e a lubrifica\u00e7\u00e3o vaginal na mulher. A tudo isto, somam-se as rea\u00e7\u00f5es emocionais de ansiedade e humor depressivo que adquirem maior intensidade em determinados per\u00edodos da doen\u00e7a. Habitualmente, esses estados de sofrimento psicol\u00f3gico s\u00e3o inibidores do desejo sexual.<strong>\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SPSC: Em termos gerais, em que fase da doen\u00e7a pode e deve o m\u00e9dico abordar a quest\u00e3o da sexualidade? Diagn\u00f3stico, tratamento, recupera\u00e7\u00e3o ou vigil\u00e2ncia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GS: <\/strong>A quest\u00e3o da sexualidade deve ser abordada numa fase inicial. \u00c9 prov\u00e1vel que para algumas pessoas, perante o choque do diagn\u00f3stico, a sexualidade n\u00e3o seja uma preocupa\u00e7\u00e3o relevante. Por\u00e9m, para outras, estas quest\u00f5es tornam-se muito prementes desde o diagn\u00f3stico. \u00c9 necess\u00e1rio que, no espa\u00e7o terap\u00eautico, o doente ou o casal sintam que podem falar deste assunto, colocar as suas quest\u00f5es e obter respostas esclarecedoras. Os prestadores de cuidados n\u00e3o devem partir do pressuposto que algu\u00e9m que est\u00e1 a enfrentar uma doen\u00e7a oncol\u00f3gica n\u00e3o vai preocupar-se com a sexualidade. Na grande maioria dos casos, essa suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 errada. Ao longo do curso da doen\u00e7a surgir\u00e3o quest\u00f5es e dificuldades diferentes que devem merecer resposta \u00e0 medida que v\u00e3o sendo colocadas. Seguramente a problem\u00e1tica sexual do sobrevivente ser\u00e1 diferente na fase dos tratamentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SPSC: Imagino que dentro do largo espetro das doen\u00e7as oncol\u00f3gicas, haja algumas que sejam especialmente nocivas para a sa\u00fade sexual feminina e masculina. Estou a pensar por exemplo no cancro de mama ou c\u00f3lo do \u00fatero (para a mulher) e no cancro da pr\u00f3stata (para o homem). Isto faz sentido ou n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GS: <\/strong>Faz todo o sentido. Se o \u00f3rg\u00e3o ou parte do corpo atingido \u00e9 essencial para a resposta sexual e desempenho da atividade sexual, ter\u00e1 seguramente um impacto muito maior. Tamb\u00e9m psicologicamente o car\u00e1ter dessas mesmas partes do corpo associadas \u00e0 masculinidade\/feminilidade, ou fertilidade, tornam mais dram\u00e1ticos os efeitos nefastos na sexualidade. \u00c9 o caso do cancro da pr\u00f3stata no homem e dos cancros da mama e ginecol\u00f3gico na mulher. Na sociedade ocidental a mama reveste-se de um forte significado e simbolismo de feminilidade e erotismo. A mastectomia \u00e9 uma cirurgia mutiladora que faz a mulher sentir-se desvalorizada, afetando a sua autoimagem e autoestima, impedindo-a, muitas vezes, de se ver como um ser sexualmente desej\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SPSC: Interv\u00e9m-se sobretudo quando estamos perante pacientes jovens, ou a medicina e a psicologia n\u00e3o fazem esta distin\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GS: <\/strong>\u00c9 compreens\u00edvel que para um casal jovem que ainda n\u00e3o teve os filhos que desejaria, que est\u00e1 numa fase de viv\u00eancia pujante da sexualidade, o diagn\u00f3stico de cancro seja um golpe brutal em todos os seus projetos de vida e muito particularmente na sexualidade e fertilidade. Isto n\u00e3o significa que a sexualidade da pessoa de meia-idade e dos idosos, deva ser desvalorizada. A abordagem da problem\u00e1tica sexual deve ser proporcionada de igual forma. O mesmo deve acontecer em rela\u00e7\u00e3o a casais homossexuais ou pessoas que n\u00e3o t\u00eam companheiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SPSC: Que acompanhamento terap\u00eautico da sexualidade se recomenda no caso de uma mulher que lida com um cancro de mama ou do colo do \u00fatero?\u00a0 Psicologicamente, o que \u00e9 preciso em concreto \u2018reabilitar\u2019?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GS: <\/strong>A informa\u00e7\u00e3o a prestar \u00e0 mulher e ao companheiro sobre o que \u00e9 expect\u00e1vel como consequ\u00eancia dos tratamentos, o que \u00e9 passageiro e o que pode constituir sequelas definitivas, ajudando a lidar com os eventuais problemas, tem-se revelado uma importante medida preventiva. Fomentar no casal uma comunica\u00e7\u00e3o eficaz sobre sexualidade, desmistificar cren\u00e7as erradas, promover a intimidade sexual e a n\u00e3o dessexualiza\u00e7\u00e3o da doente e da rela\u00e7\u00e3o s\u00e3o algumas das abordagens a realizar no espa\u00e7o terap\u00eautico. Oferecer possibilidade de reconstru\u00e7\u00e3o mam\u00e1ria e promover a melhoria da autoimagem tamb\u00e9m contribuem para uma sexualidade saud\u00e1vel na sobrevivente de cancro da mama.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>\u00a0<em>A inclus\u00e3o e colabora\u00e7\u00e3o da companheira(o) na renegocia\u00e7\u00e3o de uma nova intimidade sexual ap\u00f3s o cancro mostram-se fundamentais na reabilita\u00e7\u00e3o sexual<\/em><\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SPSC: O\/a companheiro\/a s\u00e3o integrados nesse processo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GS: <\/strong>A integra\u00e7\u00e3o do companheiro (a) \u00e9 fundamental. N\u00e3o s\u00f3 porque este pode fomentar a confian\u00e7a da mulher em si pr\u00f3pria melhorando a sua autoestima, mas tamb\u00e9m porque ele pr\u00f3prio est\u00e1 a passar por um per\u00edodo de dificuldades emocionais, eventualmente sexuais, necessitando tamb\u00e9m de suporte e orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SPSC: E se o paciente for homem, e a doen\u00e7a oncol\u00f3gica for na pr\u00f3stata, que acompanhamento se prop\u00f5e ao doente e o que \u00e9 preciso reabilitar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GS: <\/strong>A percentagem de Disfun\u00e7\u00e3o Er\u00e9til \u00e9 elevada nos homens submetidos a prostatectomia radical e terapia hormonal. A sexualidade \u00e9 encarada com ansiedade e medo. O homem sente-se amea\u00e7ado na sua masculinidade, o que muitas vezes resulta no evitamento de toda a situa\u00e7\u00e3o de intimidade, afastando-se o casal emocionalmente. Para al\u00e9m de medidas m\u00e9dicas de reabilita\u00e7\u00e3o peniana, a terapia sexual promove a valoriza\u00e7\u00e3o de outras formas menos genitalizadas de realiza\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o hipervalorizem o coito. A inclus\u00e3o e colabora\u00e7\u00e3o da companheira(o) na renegocia\u00e7\u00e3o de uma nova intimidade sexual ap\u00f3s o cancro mostram-se fundamentais na reabilita\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SPSC: H\u00e1 tamb\u00e9m pacientes que se recusam a falar destas quest\u00f5es, considerando-as absolutamente secund\u00e1rias, insignificantes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GS: <\/strong>Sim, h\u00e1 doentes para quem estes aspetos s\u00e3o menos importantes em determinadas fases da doen\u00e7a, o que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o venham a mostrar-se importantes mais tarde. Algumas pessoas tamb\u00e9m se mostram desinteressadas da sexualidade porque, previamente \u00e0 doen\u00e7a, n\u00e3o valorizavam esta dimens\u00e3o nas suas vidas, ou a sua viv\u00eancia j\u00e1 era problem\u00e1tica. Tal atitude deve ser respeitada pelos terapeutas, ap\u00f3s terem esclarecido que tal n\u00e3o corresponde apenas a embara\u00e7o ou vergonha, em falar de assuntos \u00edntimos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SPSC: O confronto com uma situa\u00e7\u00e3o limite pode tamb\u00e9m colocar o doente numa situa\u00e7\u00e3o de <em>reboot<\/em>, ou seja, de um renascimento para a vida, para a forma de se ver e de se relacionar com os outros, trazendo amanheceres inesperados, nomeadamente ao n\u00edvel sexual, ou isto \u00e9 uma ideia que s\u00f3 vem nos filmes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GS: <\/strong>Ter cancro n\u00e3o significa o fim da vida sexual. Mas, seguramente, a experi\u00eancia ser\u00e1 diferente, embora n\u00e3o necessariamente menos compensadora. Alguns casais encontram numa maior intimidade afetiva n\u00edveis de partilha e proximidade f\u00edsica muito gratificantes. Sentem que apreciam o companheiro mais profundamente e descobrem formas de ter prazer para al\u00e9m do imperativo coital. Ao contr\u00e1rio de lamentarem as perdas, adaptam-se e celebram a experi\u00eancia presente. N\u00e3o surpreendentemente, estes s\u00e3o casais que, no passado, tinham n\u00edveis altos de satisfa\u00e7\u00e3o sexual e n\u00e3o tinham barreiras \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o sobre sexualidade e intimidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SPSC: Que unidades hospitalares disp\u00f5em de um servi\u00e7o de terap\u00eautica sexual para a doen\u00e7a oncol\u00f3gica, no nosso pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GS: <\/strong>A interven\u00e7\u00e3o a n\u00edvel da sa\u00fade sexual no doente com cancro deve ser realizada multidisciplinarmente pelos profissionais da equipa prestadora de cuidados, organizada numa resposta gradual e crescente. Num primeiro n\u00edvel de interven\u00e7\u00e3o cabe ao m\u00e9dico que trata o doente, ou a outro elemento da equipa prestadora de cuidados (enfermeiro, psic\u00f3logo), avaliar a sexualidade, fornecer informa\u00e7\u00e3o, orientar o retomar gradual da atividade sexual e fomentar a comunica\u00e7\u00e3o sexual no casal. Alguns casais necessitar\u00e3o de uma interven\u00e7\u00e3o mais estruturada de terapia sexual na abordagem da disfun\u00e7\u00e3o sexual. No IPO de Lisboa funciona uma consulta de oncossexologia. Nas outras unidades esta tem\u00e1tica pode ser endere\u00e7ada em consulta de psicooncologia, ou o doente pode ser referenciado para consulta de sexologia. Tamb\u00e9m as Unidades de Psico-Oncologia da Liga Portuguesa Contra o Cancro fornecem servi\u00e7os cl\u00ednicos em Sexologia Cl\u00ednica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SPSC: Na cl\u00ednica privada existem suficientes terapeutas sexuais especializados a trabalhar estas quest\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GS: <\/strong>N\u00e3o conhe\u00e7o cabalmente a realidade ao n\u00edvel da cl\u00ednica privada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>SPSC: Faz-se investiga\u00e7\u00e3o nesta \u00e1rea da sa\u00fade sexual no nosso pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><strong>GS: <\/strong>N\u00e3o conhe\u00e7o investiga\u00e7\u00e3o muito robusta nesta \u00e1rea. Em teses de mestrado\/doutoramento ou monografias de forma\u00e7\u00e3o p\u00f3s-graduada em sexologia cl\u00ednica, a tem\u00e1tica da sexualidade e cancro (sobretudo o cancro da mama) tem sido abordada com frequ\u00eancia. No entanto, daquilo que conhe\u00e7o, alguns destes trabalhos s\u00e3o revis\u00f5es da literatura, e os trabalhos de investiga\u00e7\u00e3o baseiam-se em pequenas amostras cl\u00ednicas.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] \u00c0 conversa com&#8230; Gra\u00e7a Santos Data 4 de setembro 2016 Entrevista Isabel Freire [\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]Gra\u00e7a Santos, psiquiatra, psicooncologista, terapeuta sexual e coordenadora da hist\u00f3rica consulta de sexologia do Centro Hospitalar e Universit\u00e1rio de Coimbra (criada em 1975) dedica-se \u00e0 compreens\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica da sexualidade junto do doente oncol\u00f3gico. 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