{"id":6124,"date":"2016-11-14T16:23:51","date_gmt":"2016-11-14T16:23:51","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=6124"},"modified":"2019-03-28T09:29:40","modified_gmt":"2019-03-28T09:29:40","slug":"tudo-mudou-e-tudo-parece-demasiadamente-igual-para-as-intimidades-menos-convencionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2016\/11\/14\/tudo-mudou-e-tudo-parece-demasiadamente-igual-para-as-intimidades-menos-convencionais\/","title":{"rendered":"\u201cTudo mudou e tudo parece demasiadamente igual\u201d para as intimidades menos convencionais"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Cristina.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-6261\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/Cristina-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c0 conversa com&#8230;<\/strong><br \/>\nAna Cristina Santos<\/p>\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n15 de novembro de 2016<\/p>\n<p><strong>Entrevista<\/strong><br \/>\nIsabel Freire<\/p>\n<p><strong>Foto<\/strong><br \/>\nCarlos Nolasco\/CES[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]A intimidade \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o \u201cdiversa\u201d, \u201cflu\u00edda\u201d e \u201cinacabada\u201d, mas a \u201criqueza\u201d experienciada nas biografias n\u00e3o \u00e9 ainda legitimamente representada no C\u00f3digo Civil, nos <em>media<\/em> nem nos manuais escolares. Quem o afirma \u00e9 Ana Cristina Santos, a soci\u00f3loga doutorada em Estudos de G\u00e9nero, que coordena o INTIMATE, um projeto que analisa a pluralidade das nossas viv\u00eancias \u00edntimas, p\u2019la lente da cidadania. No <a href=\"http:\/\/www.ces.uc.pt\/intimate\/\">site do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra<\/a> \u00e9 poss\u00edvel saber mais sobre esta pesquisa transnacional (iniciada em 2014), que compara tr\u00eas pa\u00edses do sul da Europa (Portugal, Espanha e It\u00e1lia), em mat\u00e9rias como as viv\u00eancias LGBTQ, o poliamor e as formas de reprodu\u00e7\u00e3o que dispensam a sexualidade. Para Ana Cristina Santos, &#8220;falta \u00e0 pol\u00edtica portuguesa reconhecer que o combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 opcional\u201d.<\/p>\n<p><strong>Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica &#8211; Como explicaria o conceito de cidadania \u00edntima a uma crian\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Cristina Santos &#8211;<\/strong> Trata-se de gostar de quem se gosta sem sofrer por isso, incluindo gostar de si mesma do modo como a pessoa \u00e9 (e n\u00e3o como as outras pessoas a veem). Implica que cada pessoa tenha direito \u00e0 sua intimidade. A cidadania \u00edntima permite fazer escolhas \u2013 por exemplo fazer amigas\/os, namorar, ter ou n\u00e3o beb\u00e9s, ou ficar solteira\/o e feliz \u2013, tudo sem viol\u00eancia nem imposi\u00e7\u00e3o. Permite sermos quem sentimos que somos: meninos, meninas, ambos, ou nenhuma destas \u2018coisas\u2019. Lembra-nos que a liberdade \u00e9 o bem mais precioso.<\/p>\n<p>No passado mulheres e homens n\u00e3o podiam escolher com quem namorar, e at\u00e9 se decretaram leis que determinavam que mulheres s\u00f3 podiam namorar com homens (e vice-versa), o que era uma grande injusti\u00e7a. Em alguns lugares do mundo ainda \u00e9 assim. Noutros \u2013 apesar de as leis injustas terem mudado \u2013 a cabe\u00e7a das pessoas ainda est\u00e1 em \u2018modo de avi\u00e3o\u2019 (sem rede, desligadas da realidade).<\/p>\n<p>O preconceito \u2013 que \u00e9 quando julgamos as outras pessoas injustamente, sem as ouvir, sem as ver, achando que s\u00f3 n\u00f3s \u00e9 que temos raz\u00e3o \u2013, \u00e9 das coisas mais feias e perigosas. \u00c9 o oposto da cidadania \u00edntima, que nos diz (atrav\u00e9s das leis e pr\u00e1ticas de cada pa\u00eds), que todas as pessoas t\u00eam o direito a ser iguais em oportunidades, livres para gostar de quem gostam e para ser quem s\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; O Estado Novo promovia uma vis\u00e3o da intimidade balizada pela heterossexualidade, o casamento monog\u00e2mico e a sexualidade reprodutiva. O projeto INTIMATE estuda exatamente o que sai deste per\u00edmetro (viv\u00eancias LGBTQ, poliamor e formas de reprodu\u00e7\u00e3o que dispensam sexualidade). O per\u00edmetro do mundo dos afetos e sexualidades alargou-se ou temos hoje muitos per\u00edmetros?<br \/>\nACS &#8211;<\/strong> Em qualquer contexto \u2013 durante o Estado Novo como agora \u2013 sempre tivemos muitos mais per\u00edmetros do que aqueles com que nos autorizam a imaginar o campo dos afetos. Mesmo em democracia, o regime de g\u00e9nero e sexualidade dominante tende a ser monocrom\u00e1tico, num esfor\u00e7o ingl\u00f3rio de cristaliza\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, diverso, inacabado, fluido: a intimidade. Lamentavelmente a riqueza de experi\u00eancias e pr\u00e1ticas que acumulamos nas nossas biografias \u00edntimas n\u00e3o encontra espa\u00e7o de representa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima nos <em>media<\/em>, nos manuais escolares nem no C\u00f3digo Civil. Esse apagamento \u00e9 intencional e transporta consigo efeitos v\u00e1rios, incluindo \u2013 para citar porventura um dos exemplos mais banais \u2013 a viol\u00eancia do olhar heterossexista de que continuam a ser alvo demonstra\u00e7\u00f5es de afeto entre pessoas do mesmo sexo em espa\u00e7os p\u00fablicos. O que se alargou hoje (gra\u00e7as a processos de democratiza\u00e7\u00e3o) \u00e9 a perce\u00e7\u00e3o da desigualdade e das v\u00e1rias formas de assimetria de poder. Alargou-se tamb\u00e9m a capacidade de den\u00fancia \u2013 e aqui a a\u00e7\u00e3o coletiva, a academia e, de modo muito particular, as teorias queer e feministas, tiveram um papel fundamental. Alargou-se ainda a consci\u00eancia de que os corpos que amamos (e a partir dos quais amamos) s\u00e3o m\u00faltiplos e incluem pessoas com diversidade funcional ou que n\u00e3o se conformam aos padr\u00f5es est\u00e9ticos dominantes.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; O que \u00e9 que mudou mais nos \u00faltimos anos, ao n\u00edvel das intimidades menos convencionais: as viv\u00eancias, as pol\u00edticas ou os interesses da academia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ACS &#8211; <\/strong>A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 que tudo mudou e tudo parece estar demasiadamente igual. Continuamos a n\u00e3o ter um Doutoramento em Portugal em que a Teoria Queer ou os Estudos LGBTIQ tenham adquirido estatuto de Unidade Curricular. Continuamos a ter leis boas que esbarram em regulamenta\u00e7\u00f5es tardias, ou que falham na monitoriza\u00e7\u00e3o do seu cumprimento, ou que ficam ref\u00e9ns da aus\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es que assegurem o seu bom funcionamento. Paralelamente continuamos a ter leis discriminat\u00f3rias, por a\u00e7\u00e3o direta e\/ou por omiss\u00e3o. Veja-se, por exemplo, a exclus\u00e3o de gays e l\u00e9sbicas do acesso \u00e0 maternidade de substitui\u00e7\u00e3o ou a legisla\u00e7\u00e3o de pendor patologizante face a pessoas transg\u00e9nero e intersexo. Continuamos a ter relatos surpreendentes de discrimina\u00e7\u00e3o em espa\u00e7o p\u00fablico, incluindo escolas e servi\u00e7os de sa\u00fade. H\u00e1 uma tremenda dificuldade em reconhecer a urg\u00eancia de promover abertamente uma educa\u00e7\u00e3o anti-homofobia, bifobia e transfobia, uma comunidade escolar que chame bullying ao que \u00e9 bullying, e que aplique medidas inequ\u00edvocas de combate e preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia simb\u00f3lica e f\u00edsica em fun\u00e7\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o sexual, relacional e identidade de g\u00e9nero.<\/p>\n<h3><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/AVIONETE.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-6245 alignright\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/AVIONETE-300x212.jpg\" alt=\"avionete\" width=\"300\" height=\"212\" \/><\/a>A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 que tudo mudou e tudo parece estar demasiadamente igual. Continuamos a n\u00e3o ter um Doutoramento em Portugal em que a Teoria Queer ou os Estudos LGBTIQ tenham adquirido estatuto de Unidade Curricular. Continuamos a ter leis boas que esbarram em regulamenta\u00e7\u00f5es tardias, ou que falham na monitoriza\u00e7\u00e3o do seu cumprimento, ou que ficam ref\u00e9ns da aus\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es que assegurem o seu bom funcionamento.<\/h3>\n<p><strong>SPSC &#8211; H\u00e1 15 anos, uma investiga\u00e7\u00e3o de doutoramento da psic\u00f3loga cl\u00ednica Gabriela Moita, deu-nos conta da exist\u00eancia de muitos preconceitos patologizantes da homossexualidade, nas narrativas dos psiquiatras e psic\u00f3logos portugueses. Qual a import\u00e2ncia desta dimens\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o da cidadania da intimidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ACS &#8211;<\/strong> Tem a import\u00e2ncia que decorre do poder simb\u00f3lico conferido a figuras de autoridade. A sexualidade constituiu-se enquanto objeto de escrut\u00ednio cient\u00edfico e interven\u00e7\u00e3o detalhada a partir da constru\u00e7\u00e3o da sexologia enquanto ramo da medicina no s\u00e9culo XIX. Logo, o discurso cient\u00edfico sobre sexualidade sempre esteve muito ancorado no conhecimento legitimado pela comunidade m\u00e9dica, e em especial por profissionais da psiquiatria e da psicologia. H\u00e1 todo um imagin\u00e1rio cultural que alimenta essa proje\u00e7\u00e3o (\u201cFreud explica\u2026\u201d). Neste contexto, agravado pela inger\u00eancia cat\u00f3lica em mat\u00e9ria de sexualidade, n\u00e3o \u00e9 apenas importante convocar estas\/es profissionais para a co-constru\u00e7\u00e3o de conhecimento cient\u00edfico despatologizante; \u00e9 fundamental que se perceba que, na aus\u00eancia desse papel proactivo, est\u00e3o a incorrer numa omiss\u00e3o perigosa e irrespons\u00e1vel, com consequ\u00eancias s\u00e9rias. S\u00e3o demasiados os exemplos com que me deparo ainda hoje de interven\u00e7\u00f5es sexistas e homof\u00f3bicas por parte de profissionais da psiquiatria e psicologia, com grande acolhimento por parte dos <em>media<\/em>. Para citar apenas dois exemplo mais recentes, ocorre-me o livro <em>A Queda Dos Machos<\/em>, escrito por Pio Abreu este ano, ou as declara\u00e7\u00f5es da presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Psic\u00f3logos Cat\u00f3licos que fazia equivaler homossexualidade e toxicodepend\u00eancia. Ambos os exemplos confirmam o quanto ainda est\u00e1 por fazer neste campo, 15 anos depois da disserta\u00e7\u00e3o pioneira que nos trouxe a Gabriela Moita. Conv\u00e9m lembrar o impacto da patologiza\u00e7\u00e3o nos campos da assexualidade e da diversidade de g\u00e9nero. Basta lembrar que n\u00e3o s\u00f3 a pr\u00e1tica cl\u00ednica, mas a pr\u00f3pria lei de identidade de g\u00e9nero requer o diagn\u00f3stico de \u201cperturba\u00e7\u00e3o de identidade de g\u00e9nero\u201d.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211;<\/strong> Q<strong>ue conhecimento fundamental sobre as viv\u00eancias n\u00e3o-convencionais dos afetos e sexualidades (em Portugal) nos traz o INTIMATE?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ACS &#8211;<\/strong> Um dos objetivos mais importantes do INTIMATE \u00e9 conhecer experi\u00eancias quotidianas de intimidade a partir das hist\u00f3rias de vida de pessoas LGBTQ considerando tr\u00eas eixos principais: conjugalidade, parentalidade e amizade. Essa recolha, feita atrav\u00e9s de entrevistas em profundidade, tem sido reveladora de um facto pouco discutido social e politicamente: a norma \u00e9 a diversidade. Ou seja, aquilo que \u00e9 minorit\u00e1rio ou pouco frequente s\u00e3o as viv\u00eancias estritamente heterossexuais, reprodutivas e monog\u00e2micas. O casal heterossexual, que coabita, tem filhos e cujos c\u00f4njuges nunca tiveram nenhum outro parceiro\/a sexual ao longo da vida n\u00e3o corresponde ao modelo familiar dominante, mas antes a uma proje\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil de um mito. Quanto mais rapidamente e de forma consolidada se reconhecer a banalidade da diferen\u00e7a, mais depressa se desmontam p\u00e2nicos sexuais ancorados em d\u00e9cadas de narrativas patologizantes e de pendor moralista, influenciadas por vis\u00f5es intencionalmente redutoras da realidade. A investiga\u00e7\u00e3o que desenvolvemos contribui para desmontar as fal\u00e1cias da discrimina\u00e7\u00e3o, dando corpo \u00e0 riqueza das experi\u00eancias pessoais, \u00e0 import\u00e2ncia da vida de cada pessoa, e lembrando a partir do lugar simb\u00f3lico fundamental que ocupa a academia, que temos o dever de proteger a diversidade enquanto mais-valia, que n\u00e3o pode ser agredida.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; O que \u00e9 preciso que a pol\u00edtica portuguesa incorpore, mais urgentemente, ao n\u00edvel das viv\u00eancias das pessoas LGBTQ?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ACS &#8211; <\/strong>H\u00e1 \u00e1reas que carecem de interven\u00e7\u00e3o urgente, no sentido de conferir maior autodetermina\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas face ao poder biom\u00e9dico. E nessa frente podemos pensar no enquadramento jur\u00eddico conferido \u00e0 transexualidade ou \u00e0 intersexualidade, e tamb\u00e9m no fundamento necessariamente patologizante como condi\u00e7\u00e3o de acesso \u00e0 maternidade de substitui\u00e7\u00e3o, entre outros exemplos. Mais do que identificar um d\u00e9fice legislativo espec\u00edfico, verificamos um d\u00e9fice de cidadania. O que falta \u00e0 pol\u00edtica portuguesa \u00e9 o reconhecimento de que o combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 opcional. Trata-se de cumprir a Constitui\u00e7\u00e3o que nos garante igualdade perante a lei. O cumprimento do princ\u00edpio constitucional da igualdade fortalece a democracia. Essa igualdade n\u00e3o admite concess\u00f5es nem exce\u00e7\u00f5es, assim como n\u00e3o pode ser apenas uma declara\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es. Ao abster-se do exerc\u00edcio urgente de monitorar leis previamente aprovadas ou de regulamentar em tempo \u00fatil, j\u00e1 para n\u00e3o falar na aus\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o adequada de profissionais em \u00e1reas t\u00e3o diversas como a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, o desporto, as for\u00e7as armadas ou as c\u00e2maras municipais, estamos perante um entendimento pouco s\u00e9rio e descuidado face a leis aprovadas e aos conceitos mais elementares de justi\u00e7a, dignidade e direitos humanos. A este respeito, a aus\u00eancia de educa\u00e7\u00e3o sexual em meio escolar, ensinada de forma sistem\u00e1tica e consistente, continua a ser inexplic\u00e1vel.<\/p>\n<h3><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/espartilho-e1479138393860.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-6103 alignright\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/espartilho-236x300.png\" alt=\"espartilho\" width=\"236\" height=\"300\" \/><\/a>O casal heterossexual, que coabita, tem filhos e cujos c\u00f4njuges nunca tiveram nenhum outro parceiro\/a sexual ao longo da vida n\u00e3o corresponde ao modelo familiar dominante, mas antes a uma proje\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil de um mito.<\/h3>\n<p><strong>SPSC &#8211; Em que medida as pessoas poliamorosas em Portugal est\u00e3o fora do per\u00edmetro da cidadania?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ACS &#8211; <\/strong>A cidadania \u00e9 um conceito que compreende v\u00e1rias frentes simult\u00e2neas. No INTIMATE olhamos para a cidadania a partir de tr\u00eas \u00e2ngulos complementares: a cidadania formal, a cidadania sociocultural e a cidadania experiencial (ou vivida).<\/p>\n<p>A <em>cidadania formal<\/em> (traduzida num enquadramento jur\u00eddico adequado) n\u00e3o vislumbra sequer a possibilidade do reconhecimento de c\u00f4njuges m\u00faltiplos, independentemente do contrato estabelecido (casamento, uni\u00e3o de facto, etc.). As quest\u00f5es da poliparentalidade tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o equacionadas na pol\u00edtica portuguesa. Estes exemplos chocam com uma realidade em que ambos s\u00e3o j\u00e1 constitutivos da realidade de pessoas poliamorosas que coabitam (ou n\u00e3o), que t\u00eam crian\u00e7as biol\u00f3gicas (ou n\u00e3o).<\/p>\n<p>A <em>cidadania sociocultural<\/em> emerge dos entendimentos t\u00e1citos: daquilo que \u00e9 legitimado ou desacreditado no quotidiano das institui\u00e7\u00f5es, do que \u00e9 visibilizado ou n\u00e3o nas s\u00e9ries televisivas ou nos manuais escolares, do que \u00e9 autorizado no julgamento c\u00e9lere da sala de espera ou do caf\u00e9 do bairro. Nesta esfera, a monogamia adquire um peso compuls\u00f3rio e tudo o que fuja dele \u00e9 um deslize e deve ser tratado com discri\u00e7\u00e3o, assumindo o seu estatuto devidamente clandestino, tabu.<\/p>\n<p>Por fim, a <em>cidadania experiencial<\/em> decorre da gest\u00e3o quotidiana da intimidade, do que \u00e9 negociado em contexto de casal, de constela\u00e7\u00e3o poliamorosa ou da rede de presta\u00e7\u00e3o de cuidados. As pr\u00e1ticas aqui s\u00e3o t\u00e3o diversas quanto as pessoas, revelando contradi\u00e7\u00f5es s\u00e9rias entre a hist\u00f3ria ensinada e a hist\u00f3ria vivida, mantendo as pessoas poliamorosas fora do per\u00edmetro formal e sociocultural da cidadania.<\/p>\n<figure id=\"attachment_6263\" aria-describedby=\"caption-attachment-6263\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/equipa-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-6263 size-medium\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/equipa-1-300x200.jpg\" alt=\"equipa\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-6263\" class=\"wp-caption-text\">A equipa do INTIMATE. Foto de Carlos Nolasco\/CES<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>SPSC &#8211; O projeto que lidera estuda e compara tr\u00eas pa\u00edses do Sul da Europa: Portugal, Espanha e It\u00e1lia. O que encontraram at\u00e9 agora de divergente?<br \/>\nACS &#8211;<\/strong> O enquadramento jur\u00eddico das quest\u00f5es de cidadania \u00edntima em It\u00e1lia \u00e9 muito incompleto, refletindo s\u00e9rias dificuldades em respeitar em condi\u00e7\u00f5es de igual dignidade as pessoas LGBTQ. Essa \u00e9 uma diferen\u00e7a que configura pontos de partida distintos dos tr\u00eas pa\u00edses em estudo. As pr\u00e1ticas individuais e coletivas s\u00e3o tamb\u00e9m diversas. Espanha e It\u00e1lia t\u00eam uma tradi\u00e7\u00e3o de milit\u00e2ncia na \u00e1rea das n\u00e3o-monogamias e do transfeminismo muito mais vincada do que a que verificamos em Portugal, onde o ativismo LGBTQ mant\u00e9m muitos dos aspetos que o caracterizam desde a sua emerg\u00eancia nos anos 1990 (urbano, com pouca diversidade \u00e9tnica, racial e funcional, lideran\u00e7as masculinizadas, etc.). E Portugal \u00e9 porventura aquele no qual o processo de transforma\u00e7\u00e3o legislativa conheceu um percurso mais r\u00e1pido e transversal que, no entanto, n\u00e3o encontra tradu\u00e7\u00e3o direta nas experi\u00eancias de vida das pessoas entrevistadas, muito marcadas por narrativas de embate com pr\u00e1ticas individuais e institucionalizadas de discrimina\u00e7\u00e3o. Nos tr\u00eas pa\u00edses temos relatos de viol\u00eancia e relatos de boas pr\u00e1ticas, que indicam d\u00e9fices ao mesmo tempo que apontam caminhos. Algumas destas conclus\u00f5es, sendo preliminares (o INTIMATE decorre entre 2014 e 2019), est\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.ces.uc.pt\/intimate\">j\u00e1 dispon\u00edveis para consulta<\/a>.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Ser\u00e1 a Europa do Norte mais respeitadora da cidadania \u00edntima?<br \/>\nACS &#8211;<\/strong> A distin\u00e7\u00e3o por zonas geogr\u00e1ficas, embora tentadora, n\u00e3o funciona. At\u00e9 porque h\u00e1 leis muito bem pensadas que n\u00e3o sobrevivem ao teste das pr\u00e1ticas quotidianas, o que gera disson\u00e2ncia no respeito face \u00e0 diversidade. E a pr\u00f3pria Europa do Sul apresenta grandes diferen\u00e7as internas, conforme os \u00e2ngulos que escolhermos para olhar a cidadania \u00edntima. Contudo, o peso dos valores tradicionais do catolicismo e o legado de regimes ditatoriais conservadores (entre outros fatores) faz que seja poss\u00edvel identificar um contraste entre a import\u00e2ncia sociocultural dos modelos tradicionais de fam\u00edlia nos pa\u00edses que estudamos no INTIMATE e os pa\u00edses n\u00f3rdicos, nos quais tradi\u00e7\u00f5es culturais e uma hist\u00f3ria pol\u00edtica distinta facilitaram uma atitude menos conservadora no campo da intimidade.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; O que acha que seria necess\u00e1rio fazer para promover a cidadania \u00edntima junto de gera\u00e7\u00f5es mais jovens, no nosso pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p><strong>ACS &#8211;<\/strong> N\u00e3o existe uma idade certa para se come\u00e7ar a falar de igualdade de direitos e justi\u00e7a. Mas existe um tempo certo para agir: ontem. Os trabalhos de Mercedes S\u00e1nchez Sainz com crian\u00e7as e adolescentes confirmam maiores n\u00edveis de homofobia e transfobia \u00e0 medida que aumenta a idade das crian\u00e7as e adolescentes. \u00c9 necess\u00e1rio reconhecer de forma concertada, sistem\u00e1tica, inequ\u00edvoca, que a diversidade (sexual, relacional e de g\u00e9nero) \u00e9 parte constitutiva do que somos enquanto humanos. \u00c9 urgente rejeitar de forma concertada, sistem\u00e1tica e inequ\u00edvoca, qualquer menoriza\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o sexual, relacional ou identidade de g\u00e9nero. E depois h\u00e1 que tornar os temas da sexualidade e do g\u00e9nero transversais aos conte\u00fados educativos (da inf\u00e2ncia \u00e0 universidade), envolvendo agentes de educa\u00e7\u00e3o formal e n\u00e3o formal (o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e as editoras que publicam livros infantis); investir na forma\u00e7\u00e3o para a cidadania \u00edntima de profissionais de sa\u00fade, integrando unidades curriculares nas \u00e1reas dos Estudos de G\u00e9nero e Estudos LGBT e Queer nos Cursos de Medicina e Enfermagem; envolver as autoridades policiais; sensibilizar jornalistas; trabalhar de forma incans\u00e1vel e interseccional com comunidades religiosas, associa\u00e7\u00f5es de moradores, grupos desportivos, jardins de inf\u00e2ncia, etc.. A lista do que h\u00e1 a fazer \u00e9 potencialmente intermin\u00e1vel. E havendo tanto por fazer, a perplexidade consiste em reconhecer que ainda se fez t\u00e3o pouco.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] \u00c0 conversa com&#8230; Ana Cristina Santos Data 15 de novembro de 2016 Entrevista Isabel Freire Foto Carlos Nolasco\/CES[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]A intimidade \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o \u201cdiversa\u201d, \u201cflu\u00edda\u201d e \u201cinacabada\u201d, mas a \u201criqueza\u201d experienciada nas biografias n\u00e3o \u00e9 ainda legitimamente representada no C\u00f3digo Civil, nos media nem nos manuais escolares. 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