{"id":6208,"date":"2016-11-03T18:58:50","date_gmt":"2016-11-03T18:58:50","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=6208"},"modified":"2019-03-28T09:32:07","modified_gmt":"2019-03-28T09:32:07","slug":"as-conversas-mais-profundas-e-abertas-que-tive-sobre-sexualidade-foram-com-pessoas-assexuais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2016\/11\/03\/as-conversas-mais-profundas-e-abertas-que-tive-sobre-sexualidade-foram-com-pessoas-assexuais\/","title":{"rendered":"&#8220;As conversas mais profundas e abertas que tive sobre sexualidade foram com pessoas assexuais&#8221;"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/fotografia_entrevista_spsc-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-6210\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/fotografia_entrevista_spsc-1-263x300.jpg\" alt=\"\" width=\"263\" height=\"300\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c0 conversa com&#8230;<\/strong><br \/>\nRita Alcaire<\/p>\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n4 de Novembro 2016<\/p>\n<p><strong>Entrevista<\/strong><br \/>\nIsabel Freire[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]Antrop\u00f3loga e documentarista, Rita Alcaire desenvolve atualmente na Universidade de Coimbra uma investiga\u00e7\u00e3o de doutoramento intitulada &#8220;<a href=\"http:\/\/www.revolucaoassexual.pt\">A revolu\u00e7\u00e3o assexual: discutindo a assexualidade atrav\u00e9s da lente dos direitos humanos<\/a>&#8220;. Num momento em que o assunto parece ter entrado na agenda p\u00fablica (e medi\u00e1tica) da <em>cidadania da intimidade<\/em>, a SPSC pergunta pelas linhas gerais desta orienta\u00e7\u00e3o sexual e pela disponibilidade da sociedade dos nossos dias em aceit\u00e1-la. Nas entrevistas que realizou para o seu estudo, Rita Alcaire encontrou pessoas com um percurso de reflex\u00e3o profundo, carregado de clareza em torno da pr\u00f3pria intimidade.<\/p>\n<p><strong>Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica: Como podemos definir a assexualidade, em termos gerais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rita Alcaire &#8211;<\/strong> Assexualidade \u00e9 um termo chap\u00e9u que engloba uma realidade muito ampla e complexa (de identidades, experi\u00eancias, comportamentos e orienta\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas), em que existe uma caracter\u00edstica comum: assexual \u00e9 uma pessoa que n\u00e3o sente atra\u00e7\u00e3o sexual por outras pessoas, independentemente do seu g\u00e9nero, e que pode ou n\u00e3o ter desejo ou interesse em atividade sexual.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; O mundo est\u00e1 \u2018preparado\u2019 para aceitar que existem pessoas assexuais ou a tend\u00eancia \u00e9 para ver ainda nelas seres disfuncionais (traumatizados, doentes), que precisam ajuda terap\u00eautica para p\u00f4r a sua sexualidade a funcionar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RA &#8211; <\/strong>A tend\u00eancia \u00e9 sempre a de se integrar algo que surge como novo naquilo que j\u00e1 se conhece. Neste caso, no modelo vigente de sexualidade. O que n\u00e3o cabe nesse modelo \u00e9 ainda questionado e patologizado. Com a assexualidade n\u00e3o \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Felizmente, muitos s\u00e3o os relatos que recolhi (de profissionais de sa\u00fade, fam\u00edlias, sociedade em geral) que mostram abertura para conhecer a diversidade sexual humana e estou confiante de que paulatinamente haver\u00e1 mais abertura nesse sentido &#8211; o contributo do ativismo tem sido essencial.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Ao n\u00edvel internacional pode falar-se j\u00e1 de uma comunidade assexual ativa, cooperante, reivindicativa dos seus direitos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RA &#8211; <\/strong>Sem d\u00favida. Existe uma comunidade internacional assexual forte e um conjunto de coletivos e associa\u00e7\u00f5es em diferentes pa\u00edses (europeus e americanos), que se fazem representar em eventos p\u00fablicos, que promovem iniciativas de educa\u00e7\u00e3o e visibilidade para a assexualidade, e que usam a internet como uma das principais plataformas para espalhar a mensagem, promover debates e organizar confer\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Que reivindicam os assexuais em concreto?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RA &#8211;<\/strong> As reivindica\u00e7\u00f5es s\u00e3o comuns em v\u00e1rias partes do mundo e centram-se essencialmente no direito \u00e0 n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o, luta pelo reconhecimento como uma orienta\u00e7\u00e3o sexual v\u00e1lida &#8211; embora nem sempre sejam formuladas dessa forma, n\u00e3o s\u00e3o muito distantes das reivindica\u00e7\u00f5es gerais por direitos sexuais e reprodutivos.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; E em Portugal&#8230; h\u00e1 uma comunidade formada ou em forma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RA &#8211;<\/strong> Em Portugal as pessoas que se identificam como assexuais est\u00e3o ainda a encontrar-se, maioritariamente pela internet. Isso n\u00e3o impede que haja j\u00e1 pessoas a organizar-se e muito motivadas para levar a efeito iniciativas que promovam o conhecimento sobre a diversidade sexual humana, pela promo\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o e visibilidade assexual e pela promo\u00e7\u00e3o dos direitos humanos em geral. Algumas delas est\u00e3o a organizar-se em grupos e a fazer ativismo significativo e informado como \u00e9 o caso do GAAP \u2013Grupo Sexual e Arrom\u00e2ntico Portugu\u00eas.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Pode dar certo um relacionamento em que apenas um dos elementos \u00e9 assexual?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RA &#8211;<\/strong> H\u00e1 pessoas que estabelecem rela\u00e7\u00f5es afetivas com outras pessoas assexuais. H\u00e1 tamb\u00e9m quem esteja numa rela\u00e7\u00e3o com pessoas que n\u00e3o s\u00e3o assexuais (referidas pela comunidade como allosexuais). E existem pessoas que n\u00e3o desejam envolver-se em rela\u00e7\u00f5es. Dentro das rela\u00e7\u00f5es, a presen\u00e7a de rela\u00e7\u00f5es sexuais e de quaisquer outras quest\u00f5es s\u00e3o negociadas, faladas, integradas (ou n\u00e3o) de acordo com aquilo que faz sentido para aquelas pessoas. Comunica\u00e7\u00e3o e consentimento s\u00e3o palavras-chave.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; <\/strong><strong>No seio das fam\u00edlias a assexualidade \u00e9 complicada de entender e aceitar? O que \u00e9 que em geral os pais \u2018veem\u2019 no filho\/filha assexual?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RA &#8211;<\/strong> Existem situa\u00e7\u00f5es distintas de fam\u00edlia para fam\u00edlia. H\u00e1 alguns casos em que os pais acham que se trata de uma fase. Querem saber se ainda v\u00e3o ser av\u00f3s. Acham que \u00e9 uma coisa da idade. Mas depende sempre do contexto da fam\u00edlia, das informa\u00e7\u00f5es que os pais e outros familiares t\u00eam sobre sexualidade, do tipo de rela\u00e7\u00e3o que t\u00eam com os filhos. Encontrei hist\u00f3rias muito positivas de compreens\u00e3o da assexualidade como mais &#8216;uma possibilidade de se ser&#8217;.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Homens e mulheres assexuais lutam genericamente contra os mesmos preconceitos sociais ou algum deles precisa derrubar um muro mais alto? Qual e porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RA &#8211;<\/strong> \u00c9 mais complicado para um homem identificar-se publicamente como assexual dada a sociedade em que vivemos: o poder, o sucesso, o prazer e tudo aquilo que \u00e9 entendido como \u2018ser homem\u2019 \u00e9 muito associado ao sexo (heterossexual, coital, org\u00e1stico e com a maior frequ\u00eancia poss\u00edvel). Nas minhas entrevistas percebi que os homens s\u00e3o habitualmente equacionados como sendo gays, porque um homem que n\u00e3o sente atra\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 tido como inconceb\u00edvel.<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Para si, como investigadora (e entrevistadora), que aspeto da assexualidade foi mais complexo de compreender ou \u2018encaixar\u2019?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RA &#8211;<\/strong> Aspetos dif\u00edceis de compreender ou de encaixar, n\u00e3o diria. Houve sim muitos momentos desconcertantes. Estamos a falar de pessoas que refletiram muito sobre si mesmas e sobre os contextos que as rodeiam, sobre a sua identidade, intimidade, as rela\u00e7\u00f5es que estabeleceram e a sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo. Por terem esse percurso de reflex\u00e3o, t\u00eam uma maneira muito clara e muito rica de comunicar a sua experi\u00eancia. Assim, as conversas mais profundas e abertas que tive sobre sexualidade foram com pessoas assexuais, o que n\u00e3o estava \u00e0 espera. Isto \u00e9 algo que n\u00e3o surge com pessoas que, por uma raz\u00e3o ou outra, nunca sa\u00edram do gui\u00e3o que est\u00e1 estabelecido como sendo a norma. E isso \u00e9 algo que me marcou profundamente.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Nas narrativas das pessoas assexuais que entrevistou \u00e9 mais forte a afirma\u00e7\u00e3o da sua assexualidade ou a nega\u00e7\u00e3o da sexualidade, como um valor?<\/strong><\/p>\n<p><strong>RA &#8211;<\/strong> Na verdade, \u00e9 dif\u00edcil p\u00f4r a quest\u00e3o nesses termos. Recuperando um pouco do que acabei de dizer, e salvaguardando sempre a grande diversidade que h\u00e1 dentro das pessoas assexuais e dentro do conjunto de pessoas que entrevistei, as pessoas que conheci s\u00e3o, regra geral, sex-positive e feministas. N\u00e3o existe avers\u00e3o ao sexo ou a genitais e as rela\u00e7\u00f5es sexuais podem ser integradas no seu repert\u00f3rio \u00edntimo. O sexo e a sexualidade n\u00e3o \u00e9 algo que seja negado, mas n\u00e3o lhe atribuem o papel central, chamam a aten\u00e7\u00e3o para as estruturas de poder a que ele est\u00e1 associado e apelam para a compreens\u00e3o da diversidade.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] \u00c0 conversa com&#8230; Rita Alcaire Data 4 de Novembro 2016 Entrevista Isabel Freire[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]Antrop\u00f3loga e documentarista, Rita Alcaire desenvolve atualmente na Universidade de Coimbra uma investiga\u00e7\u00e3o de doutoramento intitulada &#8220;A revolu\u00e7\u00e3o assexual: discutindo a assexualidade atrav\u00e9s da lente dos direitos humanos&#8220;. Num momento em que o assunto parece ter entrado na agenda p\u00fablica [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":500,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[815,58,36,1],"tags":[200,198,199],"class_list":["post-6208","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","category-divulgacao-de-estudos-em-curso","category-noticias","category-variadas","tag-assexualidade","tag-cidadania-da-intimidade","tag-direitos-humanis"],"featured_image_src":{"landsacpe":false,"list":false,"medium":false,"full":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6208","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/500"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6208"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6208\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9283,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6208\/revisions\/9283"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6208"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6208"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6208"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}