{"id":6597,"date":"2017-01-03T08:32:31","date_gmt":"2017-01-03T08:32:31","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=6597"},"modified":"2019-03-28T09:17:41","modified_gmt":"2019-03-28T09:17:41","slug":"nao-sao-as-lesbicas-e-os-gays-com-privilegios-que-merecem-medalhas-sao-todasos-os-outros-a-conversa-com-nuno-carneiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2017\/01\/03\/nao-sao-as-lesbicas-e-os-gays-com-privilegios-que-merecem-medalhas-sao-todasos-os-outros-a-conversa-com-nuno-carneiro\/","title":{"rendered":"Muitas pessoas LGBT ainda sofrem de uma &#8220;viol\u00eancia de n\u00e3o existir&#8221;"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/nuno1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-6623\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/nuno1-193x300.jpg\" alt=\"\" width=\"193\" height=\"300\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c0 conversa com\u2026<\/strong><br \/>\nNuno Carneiro (nunoscarneiro@gmail.com)<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\"><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n4 de Janeiro 2017<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\"><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong>Entrevista<\/strong><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>Isabel Freire<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]<strong>A express\u00e3o &#8220;viol\u00eancia de n\u00e3o existir&#8221; \u00e9 de Nuno Santos Carneiro. Usa-a para designar a discrimina\u00e7\u00e3o, o sofrimento e a desumaniza\u00e7\u00e3o que sentem ainda muitas pessoas LGBT (ou outras que n\u00e3o se identificam com normas sexuais e de g\u00e9nero) no nosso pa\u00eds. Psicoterapeuta, professor e investigador da Faculdade de Psicologia e Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o da Universidade do Porto, lembra que fazer ci\u00eancia \u00e9 tomar posi\u00e7\u00e3o, refletir de forma cr\u00edtica sobre o papel que pretendemos ter (ou n\u00e3o) na ajuda \u00e0 dignifica\u00e7\u00e3o do outro. Em 2007, Nuno Santos Carneiro concluiu a tese de doutoramento sobre constru\u00e7\u00e3o da identidade homossexual, redes de apoio e participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Nesta entrevista salienta lugares comuns que temos ainda relativamente \u00e0s realidades LGBT. Exemplo? N\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os jovens que se debatem com a &#8216;sa\u00edda do arm\u00e1rio&#8217;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica &#8211; Nos anos 1950, em Portugal, o beijo na boca em p\u00fablico era escandaloso e os seus praticantes insultados. Como \u00e9 visto o beijo ou outras manifesta\u00e7\u00f5es afetuosas se praticadas entre pessoas do mesmo sexo, no espa\u00e7o p\u00fablico, hoje, em Portugal (70 anos depois)?<\/strong><br \/>\n<strong>Nuno Santos Carneiro &#8211;<\/strong> Durante o Estado Novo a homossexualidade era alvo de criminaliza\u00e7\u00e3o. S\u00f3 deixa de o ser com a revis\u00e3o constitucional de 1982. Mais do que insultados, os homossexuais eram perseguidos, condenados. E muitos deles isolados, devido a uma inten\u00e7\u00e3o higienista &#8211; o Albergue da Mitra foi durante muito tempo o campo de concentra\u00e7\u00e3o &#8216;\u00e0 portuguesa&#8217; para aqueles que praticassem o &#8216;crime homossexual&#8217; e merecessem &#8216;castigo&#8217;.<br \/>\nHoje dispomos de mecanismos constitucionais de combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o com base na orienta\u00e7\u00e3o sexual. Em meados da d\u00e9cada 1990 ganh\u00e1mos um nome coletivo inexistente at\u00e9 \u00e0 emerg\u00eancia politizada das associa\u00e7\u00f5es de defesa dos direitos LGBT (l\u00e9sbicas, gays, bissexuais e trans). Atualmente damo-nos conta de uma crescente visibilidade de pr\u00e1ticas e desejos. Mas a discrimina\u00e7\u00e3o social persiste. O legal n\u00e3o se fez acompanhar do social. O beijo entre pessoas do mesmo sexo prossegue como algo que faz cutucar cotovelos. Gera receios. \u00c9 potencialmente motivo de inj\u00faria e de viol\u00eancia. Ainda \u00e9 inscrito como &#8216;outro tipo&#8217; de beijo. T\u00eam de se escolher lugares seguros. Mas pensemos na persistente fal\u00e1cia &#8211; essa sim, perversa &#8211; que enaltece o beijo entre pessoas heterossexuais\u201d como manifesta\u00e7\u00e3o de felicidade e de consolida\u00e7\u00e3o relacional, em contraste com a t\u00e3o frequente ideia de que pessoas do mesmo sexo que se beijam ou trocam publicamente afetos, exp\u00f5em vergonhosamente a sua intimidade. \u201cAt\u00e9 se podem fazer essas coisas, desde que seja dentro de casa\u201d. E o beijo n\u00e3o se solta. Cala-se ou dissimula-se na maioria das vezes. Um espa\u00e7o p\u00fablico sem diversidades afetivas livremente vividas e exprimidas, n\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o pulsante de cidadania.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Muitos jovens (gays e l\u00e9sbicas) enfrentam ainda contextos familiares e escolares profundamente homof\u00f3bicos. \u00c9 poss\u00edvel algu\u00e9m viver sem medo de se descobrir a si pr\u00f3prio, mesmo que viva num contexto de medo de ser descoberto p\u2019lo outro?<\/strong><br \/>\n<strong>NSC &#8211;<\/strong> O medo de si \u00e9 uma inevit\u00e1vel e compreens\u00edvel marca da discrimina\u00e7\u00e3o. Continua a s\u00ea-lo. Descobrir-se como alvo de inferioriza\u00e7\u00e3o nunca pode ser um processo destemido. Ressalte-se tamb\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 apenas em rela\u00e7\u00e3o a jovens que tal sucede. Pessoas de todas as idades ainda se debatem com \u201ccontar\u201d (ou n\u00e3o) a orienta\u00e7\u00e3o sexual que escapa \u00e0 norma. Ponderam se, quando, como e onde &#8216;sair do arm\u00e1rio&#8217;. Muita gente se mant\u00e9m ainda precisamente a\u00ed, num (ou at\u00e9 em mais do que um) arm\u00e1rio, quando os contextos mesclam diferentes motivos de discrimina\u00e7\u00e3o &#8211; por exemplo, o g\u00e9nero, a precaridade, a etnia, a localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. Nunca \u00e9 poss\u00edvel saber com certeza que rea\u00e7\u00f5es merecer\u00e1 a afirma\u00e7\u00e3o de si como n\u00e3o-heterossexual. Menos ainda hoje, num mundo saturado de discursos e pr\u00e1ticas que em nada promovem a t\u00e3o proclamada (mas t\u00e3o pouco celebrada) diversidade humana. A diferen\u00e7a est\u00e1, sim, nestas mesmas rea\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o est\u00e1, a priori, em n\u00f3s. N\u00e3o reconhecer isto \u00e9 culpar quem continua sendo v\u00edtima da marginaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; H\u00e1 ainda pessoas a viverem a sua identidade homossexual \u2018clandestinamente\u2019, de forma prolongada no tempo e num regime de intoler\u00e2ncia sem exce\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel dos seus c\u00edrculos sociais. Que tra\u00e7os inevit\u00e1veis tem esta identidade vivida em segredo, na clandestinidade?<\/strong><br \/>\n<strong>NSC &#8211;<\/strong> Antes at\u00e9 da assun\u00e7\u00e3o de uma identidade, devemos reconhecer a exist\u00eancia de pr\u00e1ticas e desejos, entre as chamadas pessoas do mesmo sexo, sem que isso represente, necessariamente, um sentido de si como l\u00e9sbica, gay ou bissexual. A identidade tem uma hist\u00f3ria recente, que esconde ou faz esquecer muitas destas vontades e\/ou formas de relacionamento. Porque pressup\u00f5e que todos\/as tenhamos que construir identidades pautadas pelas sexualidades, o que muitas vezes n\u00e3o acontece. A constante ostraciza\u00e7\u00e3o (tanto de pr\u00e1ticas e desejos, quanto de identidades) causa inevitavelmente danos. Idea\u00e7\u00f5es e tentativas de suic\u00eddio. Processos depressivos e ansiosos. Isolamento social. N\u00e3o integra\u00e7\u00e3o (e abandono) escolar e profissional. Abuso de subst\u00e2ncias. Dificuldades de rela\u00e7\u00e3o social e\/ou amorosa. Desesperante insatisfa\u00e7\u00e3o com as intimidades e\/ou com as sexualidades, quando n\u00e3o a total incapacidade para a sua constru\u00e7\u00e3o. Afinal, modalidades de profundo sofrimento que qualquer pessoa experi\u00eancia, se for sujeita \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o, e se votada ao pior dos segredos, o segredo for\u00e7ado de si mesmo, que \u00e9 o fingimento imposto de n\u00f3s pr\u00f3prios.<br \/>\nE as incita\u00e7\u00f5es ao \u00f3dio est\u00e3o a\u00ed, bem \u00e0 vista. Por todo o lado. De tantas maneiras. Quando algu\u00e9m se encontra consigo e com outrem nesse reconhecimento (e s\u00f3 atrav\u00e9s de tal encontro), pode ir desvanecendo \u201aa viol\u00eancia de n\u00e3o existir\u2018, como costumo chamar a estes modos de fazer sofrer e desumanizar pela rejei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Enquanto psicoterapeuta, que trabalho faz com os pacientes quando a homossexualidade \u00e9 vivida em conflito interno, e com ang\u00fastia?<\/strong><br \/>\n<strong>NSC &#8211;<\/strong> Trabalho com um espectro amplo de pessoas. N\u00e3o s\u00f3 com aquelas que se auto-identificam como homossexuais, gays, l\u00e9sbicas, bissexuais. Trabalho com possibilidades humanas. E com o que ensombra estas possibilidades: as d\u00favidas, as insatisfa\u00e7\u00f5es, os sofrimentos, as necessidades de resist\u00eancia aos m\u00faltiplos contextos de rejei\u00e7\u00e3o. Contrariamente a discursos absurdos recentemente tornados p\u00fablicos em Portugal, relativos a uma perigos\u00edssima pseudo-psicologia que promete mudar orienta\u00e7\u00f5es sexuais, deve deixar-se muito bem claro que fazer psicoterapia no campo das diversidades sexuais e de g\u00e9nero \u00e9 ajudar a afirmar as rela\u00e7\u00f5es da pessoa consigo mesma e com os contextos de rejei\u00e7\u00e3o dessa diversidade. N\u00e3o o fazer, \u00e9 reproduzir no espa\u00e7o psicoterap\u00eautico os horrores (mais do que bastantes) do mundo discriminat\u00f3rio em que vivemos. Mais de quatro d\u00e9cadas passadas desde a despatologiza\u00e7\u00e3o de l\u00e9sbicas e gays, estas posi\u00e7\u00f5es moralistas e abjetas, s\u00e3o obsoletas, ineficientes, patol\u00f3gicas, contr\u00e1rias aos prop\u00f3sitos da psicoterapia e seriamente agravantes do desespero que motiva a procura de ajuda. O que fa\u00e7o na psicoterapia \u00e9 o que me cabe fazer: estar com (e n\u00e3o contra) quem me procura.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; H\u00e1 grupos de maior vulnerabilidade, dentro do contexto social das viv\u00eancias homossexuais? Quais e que riscos acrescidos sofrem? <\/strong><br \/>\n<strong>NSC &#8211;<\/strong> H\u00e1 sempre vulnerabilidades mais profundas do que outras. Pensemos numa pessoa l\u00e9sbica, bissexual, gay ou n\u00e3o identificada com as pr\u00e1ticas e os desejos sexuais ou relacionais tomados como normativos, sem recursos pessoais e\/ou materiais para a mudan\u00e7a, exclu\u00edda porque \u00e9 \u201cvelha\u201d, sujeita \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o racial, vivendo contextos de persegui\u00e7\u00e3o f\u00e9rrea da \u201cdiferen\u00e7a\u201d. N\u00e3o estamos a falar de ningu\u00e9m profundamente distante. Estamos a falar de tanta gente que est\u00e1 ao nosso lado, sem que possamos reconhecer, a maior parte das vezes, estas m\u00faltiplas discrimina\u00e7\u00f5es. Porque a vulnerabilidade \u00e9 isso: a produ\u00e7\u00e3o de camadas diferenciadas de invisibilidade e de n\u00e3o reconhecimento de outrem. Os riscos s\u00e3o os de continuarmos a fazer com que algumas pessoas sejam ainda menos reconhecidas como humanas. Os riscos s\u00e3o os do agravamento da condi\u00e7\u00e3o sempre b\u00e1rbara de n\u00e3o se existir, de n\u00e3o se ser sequer pens\u00e1vel, de estar para l\u00e1 dos limites da exclus\u00e3o, porque at\u00e9 esta tem requisitos para ser identificada. Os riscos s\u00e3o os da total nega\u00e7\u00e3o da pessoa, pelo que tudo pode acontecer.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; A comunidade LGBTQ \u00e9 uma fam\u00edlia funcional? Uma fam\u00edlia muito unida? Outro tipo de fam\u00edlia?<\/strong><br \/>\n<strong>NSC &#8211;<\/strong> \u00e3o creio que em Portugal tenhamos uma comunidade LGBTQ. Temos representantes da luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o e pessoas que se envolvem, com diferentes inten\u00e7\u00f5es. Mas uma comunidade implica um sentido continuado e s\u00f3lido de perten\u00e7a, uma partilha de identifica\u00e7\u00f5es face a essa luta e tamb\u00e9m de &#8216;desidentifica\u00e7\u00f5es&#8217; face ao que n\u00e3o nos representa. N\u00e3o sinto que essa inexist\u00eancia de uma comunidade seja em si mesma boa ou m\u00e1. O que h\u00e1 que perceber \u00e9 que diferentes pessoas\/coletivos t\u00eam lutado por causas e por reconhecimentos diferentes, com formas de atua\u00e7\u00e3o diferenciadas, com discord\u00e2ncias que entendo mais como proveitosas do que como indesej\u00e1veis. O que n\u00e3o podemos nunca \u00e9 deixar que determinados discursos de entendimento das necessidades das pessoas LGBTQ se sobreponham a outros, e alimentem a invisibliza\u00e7\u00e3o acrescida das pessoas invisibilizadas. \u00c0 semelhan\u00e7a de outros pa\u00edses, temos visto esta luta muito centrada e investida precisamente numa ideia espec\u00edfica e sobrevalorizada de fam\u00edlia e de formas relacionais, de que o casamento e a ado\u00e7\u00e3o entre pessoas do mesmo sexo t\u00eam sido o corol\u00e1rio. Mas somos muito mais do que isso e at\u00e9 possivelmente nada disso. Somos gentes de todos os tamanhos e feitios, de todas as vontades, de todos os desejos, ou n\u00e3o ser\u00edamos gente, mas sim ilustra\u00e7\u00f5es vivas de formas hegem\u00f3nicas de viver\/entender as nossas rela\u00e7\u00f5es. Podemos at\u00e9 nem nos espelharmos em nenhuma das letras desta sigla. S\u00f3 a diversidade de posi\u00e7\u00f5es na luta pelas quest\u00f5es LGBT me parece fazer jus \u00e0 amplitude do humano.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; H\u00e1 pessoas que se definem como straight queer. O que \u00e9 que esta ideia nos diz do ponto de vista da identidade, da perten\u00e7a e da participa\u00e7\u00e3o nos nossos dias?<\/strong><br \/>\n<strong>NSC &#8211;<\/strong> Esta \u00e9 uma defini\u00e7\u00e3o sem sentido, incongruente. Uma defini\u00e7\u00e3o desconhecedora do que implica cada uma das duas express\u00f5es usadas. Repare-se que o <em>queer<\/em> \u00e9 n\u00e3o defin\u00edvel. Representa um fazer-se, e n\u00e3o um ser-se. Representa a subversiva reapropria\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o do insulto, numa assun\u00e7\u00e3o intencional da marginaliza\u00e7\u00e3o, do abjeto, do n\u00e3o querer estar nem ficar em qualquer norma. <em>Queer<\/em> representa, por isso, um querer e um viver diametralmente oposto ao <em>straight<\/em>. E \u00e9 preciso dizer que ningu\u00e9m \u00e9 <em>straight<\/em>, assim como ningu\u00e9m \u00e9 <em>queer<\/em>, ainda que muitas pessoas se definam como tal. Ningu\u00e9m \u00e9 estanque, ningu\u00e9m vive sem desvios face a si, face a outrem, face a todas as expectativas que se jogam sobre todas\/os n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Qual \u00e9 a grande quest\u00e3o \u2013 a mais \u2018desfragmentante\u2019 ou fraturante \u2013 do ponto de vista das viv\u00eancias identit\u00e1rias e da sexualidade, que se coloca \u00e0 humanidade nos nossos dias?<\/strong><br \/>\n<strong>NSC &#8211;<\/strong> A grande quest\u00e3o \u00e9 continuarmos a fazer destas viv\u00eancias quest\u00f5es fraturantes. O que \u00e9 fraturante \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o cultural, social, pol\u00edtica, ideol\u00f3gica dessa ideia de fratura. Todos somos sujeitos de desfragmenta\u00e7\u00e3o e de fratura, seja no dom\u00ednio das sexualidades, seja em qualquer outro dom\u00ednio do que se percebe como humano.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; O estudo das identidades homossexuais \u00e9 \u201cmuito bem recebido\u201d, \u201cbem recebido\u201d, \u201cmenos bem recebido\u201d ou \u201cmal recebido\u201d nos contextos de investiga\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica em psicologia, em Portugal?<\/strong><br \/>\n<strong>NSC &#8211;<\/strong> O estudo das identidades denominadas como \u201cminorit\u00e1rias\u201d \u00e9 algo \u201cn\u00e3o recebido\u201d. Falo dos programas curriculares que raramente tocam nestas tem\u00e1ticas (ou que quando o fazem, tomam muitas vezes posi\u00e7\u00f5es reprodutoras da discrimina\u00e7\u00e3o). H\u00e1 exce\u00e7\u00f5es. Mas elas s\u00e3o isso\u2026 exce\u00e7\u00f5es, quer no que respeita \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o cuidada, cr\u00edtica, culturalmente conhecedora das realidades LGBTQ, quer na capacidade de n\u00e3o reproduzir estere\u00f3tipos e de, assim, se contribuir para a transforma\u00e7\u00e3o social. Isso sabe-se quando se conversa com colegas, quando se faz o exerc\u00edcio da doc\u00eancia e da forma\u00e7\u00e3o nestas tem\u00e1ticas, inclusive junto de p\u00fablicos que h\u00e1 muito investigam e\/ou desenvolvem pr\u00e1ticas profissionais, nomeadamente as da psicoterapia (e de quem se esperaria um conhecimento cuidado sobre os temas em causa). Por muito que disponhamos j\u00e1 de muito boas investiga\u00e7\u00f5es, elas s\u00e3o claramente insuficientes e muitas vezes desnecess\u00e1rias (porque nada trazem de novo) ou nocivas, pelo desrespeito \u00e0 sensibilidade necess\u00e1ria e aos cuidados deontol\u00f3gicos que requerem. N\u00e3o \u00e9 o mesmo fazermos investiga\u00e7\u00e3o com sujeitos que n\u00e3o t\u00eam de esconder-se. Que n\u00e3o vivem o sofrimento decorrente dos constrangimentos contextuais e pol\u00edticos. Dever\u00edamos investigar em conformidade com as recomenda\u00e7\u00f5es de cuidados acrescidos, quando se estudam pessoas socialmente discriminadas. Sente-se tamb\u00e9m que a investiga\u00e7\u00e3o de dom\u00ednios das identidades, subjetividades, sexualidades, pr\u00e1ticas e desejos apelidados de \u201cminorit\u00e1rios\u201d, \u00e9 muitas vezes votada ao desinvestimento, \u00e0s dificuldades de publica\u00e7\u00e3o (inter)nacional, ao silenciamento, \u00e0 retic\u00eancia de serem entendidos como cient\u00edficos. A academia ainda constr\u00f3i e estabelece como \u201cminorit\u00e1rios\u201d o conhecimento, a investiga\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o sobre \u201cminorias\u201d. N\u00e3o admira que pouco se relativize e pouco se v\u00e1 transformando a no\u00e7\u00e3o de \u201cminoria\u201d, em si mesma perigosa e inferiorizante.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Ira Reiss \u2013 soci\u00f3logo norte-americano que lutou desde os anos 1950 pela credibiliza\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o sobre sexualidade nas ci\u00eancias sociais \u2013 defende que a posi\u00e7\u00e3o do cientista deve ser a de participa\u00e7\u00e3o e envolvimento face aos problemas sociais que investiga. Considera ali\u00e1s importante a exist\u00eancia formal de grupos de lobby nas ci\u00eancias sociais. Outros cientistas defendem que s\u00f3 devemos defender causas enquanto cidad\u00e3os e n\u00e3o enquanto investigadores. Onde se situa neste debate? <\/strong><br \/>\n<strong>NSC &#8211;<\/strong> A n\u00e3o implica\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe. Fazer ci\u00eancia \u00e9 ter de tomar posi\u00e7\u00e3o. \u00c9 fazer escolhas relativamente ao que se estuda, como se estuda, para qu\u00ea se estuda. \u00c9 ter necessariamente de perceber que nenhuma destas tem\u00e1ticas est\u00e1 desprovida de revestimentos ideol\u00f3gicos e pol\u00edticos. Porque as vidas nunca s\u00e3o vividas em vazios pol\u00edticos. Mesmo quando n\u00e3o s\u00e3o sequer (re)conhecidas! S\u00e3o sempre pol\u00edticas as (im)possibilidades de (re)conhec\u00ea-las. O que diferencia formas e inten\u00e7\u00f5es de fazer ci\u00eancia (de conhecer o mundo que constru\u00edmos atrav\u00e9s de filtros que s\u00e3o sempre os nossos) \u00e9 assumirmos (ou n\u00e3o) que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel distanciarmo-nos do que investigamos, estabelecermos uma fronteira entre n\u00f3s e os sujeitos que devemos escutar e &#8216;des-silenciar&#8217;. Se o lobby se reportar a um esfor\u00e7o concertado para a escuta e afirma\u00e7\u00e3o de quem precisa de voz e de visibilidade, ent\u00e3o sim, que exista.\u00a0 Situo-me, portanto, na necessidade de explicitamente dizermos onde e como nos situamos, bem como da reflex\u00e3o constante (e profundamente cr\u00edtica) sobre o papel que verdadeiramente queremos ter (ou n\u00e3o) na ajuda \u00e0 dignifica\u00e7\u00e3o do outro.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Se o presidente da rep\u00fablica entregasse a medalha da liberdade a um gay ou l\u00e9sbica, pelo seu contributo para a \u2018cidadania do amor\u2019 em Portugal, quem acha que seria merecedor de tal reconhecimento?<\/strong><br \/>\n<strong>NSC &#8211;<\/strong> Teriam de ser tantas medalhas quantas as pessoas que, mesmo sob as mais austeras adversidades, conseguem fazer o her\u00f3ico percurso de uma vida com o menor medo poss\u00edvel. Mas tamb\u00e9m tantas quantas as pessoas que ficam pelo caminho, quando o mundo sonega e violenta as possibilidades de existirem. Premiar quem sai \u201cdos arm\u00e1rios\u201d quando isso j\u00e1 \u00e9 confort\u00e1vel ou nada amea\u00e7ador \u00e9 um nada. N\u00e3o \u00e9 essa a condi\u00e7\u00e3o habitual de quem vive na discrimina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00e3o as l\u00e9sbicas e os gays com privil\u00e9gios que merecem medalhas. S\u00e3o todas\/os os outros. E s\u00e3o uma imensid\u00e3o, a que se juntam as pessoas que nem sequer sabemos que existem. Fa\u00e7amos real a utopia de n\u00e3o haver necessidade de medalhas.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] \u00c0 conversa com\u2026 Nuno Carneiro (nunoscarneiro@gmail.com) Data 4 de Janeiro 2017 Entrevista Isabel Freire [\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]A express\u00e3o &#8220;viol\u00eancia de n\u00e3o existir&#8221; \u00e9 de Nuno Santos Carneiro. 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