{"id":6744,"date":"2017-02-04T22:36:11","date_gmt":"2017-02-04T22:36:11","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=6744"},"modified":"2019-03-28T09:03:09","modified_gmt":"2019-03-28T09:03:09","slug":"a-intervencao-psicologica-com-vitimas-de-abuso-sexual-requer-formacao-especializada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2017\/02\/04\/a-intervencao-psicologica-com-vitimas-de-abuso-sexual-requer-formacao-especializada\/","title":{"rendered":"&#8220;A interven\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica com v\u00edtimas de abuso sexual requer forma\u00e7\u00e3o especializada&#8221;"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Marisalva-Fa\u0301vero-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-6826\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Marisalva-Fa\u0301vero-1-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c0 conversa com\u2026<\/strong><br \/>\nMarisalva Fernandes F\u00e1vero (<a href=\"mailto:mfavero@ismai.pt\">mfavero@ismai.pt<\/a>), Coordenadora do Observat\u00f3rio da Sexualidade e do Projeto <a href=\"http:\/\/www.webedcacaosexual.com\">WebEduca\u00e7\u00e3oSexual<\/a><\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n4 de Fevereiro de 2017<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\"><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong>Entrevista<\/strong><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>Isabel Freire<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]<strong>\u201cO abuso sexual \u00e9 um crime muito dif\u00edcil de sinalizar\u201d, que pode ocorrer em qualquer lado: na fam\u00edlia, na escola, na universidade, mesmo no consult\u00f3rio do psiquiatra ou psic\u00f3logo. Marisalva Fernandes F\u00e1vero, doutorada em psicologia e investigadora do Instituto Universit\u00e1rio da Maia, dedica-se ao estudo deste fen\u00f3meno, na perspetiva da v\u00edtima. A autora de <em>Sexualidade Infantil e Abusos sexuais<\/em>, terapeuta sexual e psicodramatista, explica ao site da SPSC, que \u201cdesenclausurar\u201d o abuso \u00e9 poss\u00edvel, mas complexo, requerendo do profissional que acompanha a v\u00edtima uma forma\u00e7\u00e3o especializada.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica &#8211; A viol\u00eancia sexual pode ter apenas uma dimens\u00e3o psicol\u00f3gica? Ou pressup\u00f5e sempre uma qualquer forma de agress\u00e3o f\u00edsica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marisalva Fernandes F\u00e1vero &#8211;<\/strong> A viol\u00eancia sexual tem v\u00e1rias faces e protagonistas. N\u00e3o pressup\u00f5e sempre a agress\u00e3o f\u00edsica. Felizmente, e ao contr\u00e1rio do que as pessoas podem pensar, esta \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o que os estudos cient\u00edficos vieram trazer para a comunidade em geral. At\u00e9 h\u00e1 umas d\u00e9cadas s\u00f3 se considerava viol\u00eancia sexual se houvesse marcas f\u00edsicas e, portanto, os tribunais procuravam vest\u00edgios. N\u00e3o se considerava viol\u00eancia sexual ser-se assediado, obrigado a ver cenas de sexo entre outras pessoas (ao vivo ou em filmes), a ver o corpo do agressor (no caso do exibicionismo), a deixar-se fotografar e filmar nu e em poses er\u00f3ticas, etc..<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Que met\u00e1fora usaria para descrever o que acontece no universo psicol\u00f3gico e emocional de uma crian\u00e7a que seja abusada sexualmente por um membro da fam\u00edlia, e de forma repetida, ao longo de anos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFF &#8211;<\/strong> O abuso sexual continuado \u00e9, para mim clausura, pris\u00e3o. \u00c9 um estado semelhante ao vivido em campos de concentra\u00e7\u00e3o. Gera, na v\u00edtima, a despersonaliza\u00e7\u00e3o, a falta de controlo sobre o seu corpo, sobre as suas emo\u00e7\u00f5es, remete-a a um sil\u00eancio for\u00e7ado, a uma perman\u00eancia na situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia. Ainda que os port\u00f5es de sa\u00edda estejam abertos, n\u00e3o h\u00e1 para onde fugir. Emociono-me, sempre com uma afirma\u00e7\u00e3o de dois terapeutas franceses (Perrone e Naninni), que ilustram esta solid\u00e3o e desamparo: \u201cA crian\u00e7a fica numa situa\u00e7\u00e3o de ex\u00edlio. Faz parte do mundo adulto sem estar integrada e participa do mundo das crian\u00e7as sem lhe poder pertencer. Por isso, est\u00e1 condenada ao sil\u00eancio! Em sua casa fala uma l\u00edngua estrangeira e fala uma l\u00edngua estrangeira no exterior. \u00c9 estrangeiro num e noutro.\u201d Eu \u201caportuguesei\u201d a express\u00e3o anglo-sax\u00f3nica <em>Disclosure<\/em> (usada para indicar a revela\u00e7\u00e3o do abuso sexual) num texto que est\u00e1 para publicar (\u201cPorque <em>Desenclausurar<\/em> \u00e9 mais do que revelar um segredo bem guardado\u201d). A mensagem de esperan\u00e7a \u00e9 que \u201cdesenclausurar\u201d \u00e9 poss\u00edvel. A terapia \u00e9 imprescind\u00edvel nestes casos. \u00c9 preciso ter os sentidos em estado de alerta, para perceber quando uma crian\u00e7a ou adolescente est\u00e1 a ser v\u00edtima. \u00c9 um fen\u00f3meno de sil\u00eancio, \u00e9 certo, mas o ser humano n\u00e3o comunica s\u00f3 com palavras &#8211; as v\u00edtimas dizem que fizeram tentativas de revelar, que enviaram sinais, que n\u00e3o foram consideradas. Por outro lado, \u00e9 imprescind\u00edvel investir em programas de preven\u00e7\u00e3o. Num estudo em que participei na Universidade de Salamanca (com Amaia Del Campo e F\u00e9lix L\u00f3pez), sobre a avalia\u00e7\u00e3o de um programa de preven\u00e7\u00e3o em todos os n\u00edveis de escolaridade, 10 alunos\/as (oito do grupo experimental e duas meninas do grupo de controle) revelaram, durante a aplica\u00e7\u00e3o do Programa, que foram ou estavam a ser v\u00edtimas.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Que sinais n\u00e3o verbais pode a v\u00edtima enviar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFF &#8211;<\/strong> Qualquer mudan\u00e7a de comportamento, isolamento social, estar com sono em hor\u00e1rios de aula ou de atividades sociais, altera\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas, comich\u00e3o nas zonas \u00edntimas, comportamentos sexuais ou interesses sexuais n\u00e3o esperados para a idade, etc..<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Quando pensamos em abuso sexual intrafamiliar n\u00e3o o associamos a mulheres agressoras. Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFF &#8211;<\/strong> Em certa medida pensamos bem, porque est\u00e1 demonstrado que a maioria das v\u00edtimas s\u00e3o meninas e o agressor homem. No entanto, tamb\u00e9m h\u00e1 mulheres que agridem sexualmente crian\u00e7as e adolescentes da sua fam\u00edlia. At\u00e9 h\u00e1 bem poucos anos, pensava-se que as mulheres s\u00f3 agrediam sexualmente, se instigadas pelos seus companheiros agressores. Mas os estudos cient\u00edficos e o trabalho com v\u00edtimas tem vindo a desconstruir este mito. A pedofilia feminina e a agress\u00e3o sexual por mulheres s\u00e3o reconhecidas na psiquiatria e psicologia forense. No meu estudo (realizado a partir de 1994 e publicado em 2003) encontrei 10% de mulheres agressoras de crian\u00e7as. Os dados mant\u00eam-se e os estudos internacionais v\u00e3o na mesma dire\u00e7\u00e3o, revelando percentagens que v\u00e3o dos 5% (quando as v\u00edtimas s\u00e3o meninas) aos 20% (para v\u00edtimas rapazes). A agress\u00e3o \u00e9 mais facilmente velada, pois nas crian\u00e7as mais jovens pode ser confundida com os cuidados. Isto tamb\u00e9m se aplica aos homens agressores, mas no caso das mulheres pode ser ainda mais subtil. \u00c9 preciso pontuar que as consequ\u00eancias podem ser t\u00e3o graves quanto as perpetradas por agressores e os motivos tamb\u00e9m se assemelham.<\/p>\n<h4><em>O abuso sexual continuado \u00e9, para mim clausura, pris\u00e3o. \u00c9 um estado semelhante ao vivido em campos de concentra\u00e7\u00e3o. Gera, na v\u00edtima, a despersonaliza\u00e7\u00e3o, a falta de controlo sobre o seu corpo, sobre as suas emo\u00e7\u00f5es, remete-a a um sil\u00eancio for\u00e7ado, a uma perman\u00eancia na situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia. Ainda que os port\u00f5es de sa\u00edda estejam abertos, n\u00e3o h\u00e1 para onde fugir.<\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC &#8211; <\/strong><strong>Como pode a viv\u00eancia testemunhal do abuso sexual do \u2018outro\u2019, marcar uma crian\u00e7a ou adolescente? <\/strong><\/p>\n<p><strong>MFF &#8211;<\/strong> Neste momento, e depois de 6 anos a investigar o assunto, n\u00e3o tenho d\u00favidas de que uma crian\u00e7a ou adolescente que ouve, assiste e\/ou \u00e9 confidente de uma v\u00edtima muito pr\u00f3xima de si, \u00e9 tamb\u00e9m ela uma v\u00edtima (indireta). Temos verificado que as caracter\u00edsticas do abuso sexual em si, as viv\u00eancias subjetivas, os mecanismos de defesa e as consequ\u00eancias s\u00e3o muito semelhantes \u00e0s das v\u00edtimas diretas.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; \u00c9 poss\u00edvel que o abuso sexual vivido na inf\u00e2ncia\/adolesc\u00eancia seja completamente apagado do consciente? Que t\u00e9cnicas terap\u00eauticas se recomendam para intervir junto destas v\u00edtimas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFF &#8211;<\/strong> Apagado n\u00e3o \u00e9 o termo. O acompanhamento de v\u00edtimas diz-nos que, principalmente nos casos de abusos sexuais repetidos, de facto podem ocorrer no momento do trauma, rea\u00e7\u00f5es dissociativas que, ao impedir o acesso \u00e0s mem\u00f3rias (do trauma), prejudicam o seu processamento. A dissocia\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno defensivo, complexo, que permite que a pessoa se distancie cognitiva e emocionalmente da experi\u00eancia, de forma a manter a estabilidade f\u00edsica e mental. A dissocia\u00e7\u00e3o pode surgir durante, ou imediatamente ap\u00f3s o trauma (peritraum\u00e1tica), ou como uma consequ\u00eancia a longo prazo. Por isso, est\u00e1 fortemente associada a fen\u00f3menos dissociativos na idade adulta, pelo que a presen\u00e7a da dissocia\u00e7\u00e3o nesta etapa da vida pode ser um indicador fortemente confi\u00e1vel de que a pessoa sofreu abusos sexuais na inf\u00e2ncia e\/ou adolesc\u00eancia. V\u00e1rias propostas de interven\u00e7\u00e3o focada no trauma t\u00eam surgido, cada qual reclamando maior efici\u00eancia e rapidez. Independentemente do modelo terap\u00eautico de interven\u00e7\u00e3o utilizado, deve promover a estabiliza\u00e7\u00e3o dos sintomas, validar a experi\u00eancia e os sentimentos associados e promover o desenvolvimento pessoal com vista ao futuro.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Que organiza\u00e7\u00f5es recomenda no apoio a fam\u00edlias que lidam com o problema da viol\u00eancia sexual na inf\u00e2ncia\/adolesc\u00eancia? <\/strong><\/p>\n<p><strong>MFF &#8211;<\/strong> Tenho colaborado com a Associa\u00e7\u00e3o Projecto Criar. Possui os GIAC (Gabinetes Interdisciplinares de Apoio \u00e0 crian\u00e7a, no Porto, Vila do Conde, Braga e Lisboa) e oferece interven\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica, social e jur\u00eddica \u00e0s v\u00edtimas. H\u00e1 v\u00e1rias respostas sociais, IPSS, ONG, Gabinetes de psicologia em algumas universidades. Em dezembro foi criado o primeiro Centro de Crise de apoio a mulheres e raparigas sobreviventes de viol\u00eancia sexual na Cidade de Lisboa, o primeiro servi\u00e7o especializado em Portugal. Na inaugura\u00e7\u00e3o ficou a promessa pol\u00edtica para o seu alargamento ao pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; O Sistema Nacional de Sa\u00fade comparticipa o tratamento psicoterap\u00eautico a menores v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual? E a adultos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFF &#8211;<\/strong> N\u00e3o especificamente. H\u00e1 apoio psicol\u00f3gico em hospitais, centros de sa\u00fade, etc.. Mas a resposta, embora feita por psic\u00f3logos e psiquiatras, n\u00e3o \u00e9 especializada e isto deveria ser um ponto important\u00edssimo a entrar na agenda pol\u00edtica. A interven\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica com v\u00edtimas de abuso sexual (seja com crian\u00e7as e adolescentes ou pessoas adultas que foram v\u00edtimas na inf\u00e2ncia ou adolesc\u00eancia) requer uma forma\u00e7\u00e3o especializada. \u00c9 uma \u00e1rea complexa, exige muito do\/a profissional, que deveria submeter-se \u00e0 supervis\u00e3o e \u00e0 sua pr\u00f3pria terapia.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; H\u00e1 muito a ideia de que a v\u00edtima de abuso sexual se transforma frequentemente em agressor\/a, se n\u00e3o for ajudada. Na realidade \u00e9 mesmo assim?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFF &#8211;<\/strong> N\u00e3o \u00e9 bem assim. Grande parte das v\u00edtimas rompe o chamado ciclo de viol\u00eancia. De outro modo, tendo em conta a elevada frequ\u00eancia de v\u00edtimas, o flagelo da viol\u00eancia sexual seria, ainda, maior. Outra evid\u00eancia \u00e9 que a maior parte das v\u00edtimas s\u00e3o mulheres e os ofensores, homens.<\/p>\n<p>Temos que considerar todos os fatores que possam contribuir para a agress\u00e3o sexual. Apesar de a maior parte das v\u00edtimas romper, efetivamente, o ciclo de viol\u00eancia, a interven\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica \u00e9 muito importante, para, por um lado evitar a repeti\u00e7\u00e3o do ciclo, mas tamb\u00e9m para acabar com esta esp\u00e9cie de \u201cpremoni\u00e7\u00e3o\u201d de v\u00edtima-a-agressor, nos rapazes v\u00edtimas. Por tudo isto, \u00e9 preciso real\u00e7ar que, ser v\u00edtima de viol\u00eancia sexual na inf\u00e2ncia ou adolesc\u00eancia pode ser um <em>fator de risco<\/em> de agress\u00e3o sexual no futuro, n\u00e3o a <em>causa<\/em> do referido comportamento.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; As dire\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas dos meios universit\u00e1rios portugueses s\u00e3o sens\u00edveis \u00e0 necessidade de prevenir a viol\u00eancia sexual, de criar estruturas para denunciar agressores e para apoiar v\u00edtimas? Ou promove-se mais a ideia de que \u2018isso n\u00e3o acontece aqui\u2019? <\/strong><\/p>\n<p><strong>MFF &#8211;<\/strong> N\u00e3o reconhe\u00e7o essa preocupa\u00e7\u00e3o em nenhuma universidade.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Nas escolas secund\u00e1rias tamb\u00e9m acontece viol\u00eancia sexual? De que formas? O <em>sexting<\/em> \u00e9 uma delas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFF &#8211;<\/strong> A viol\u00eancia sexual acontece em qualquer lugar, desde que haja agressores. O <em>sexting<\/em> est\u00e1 a tornar-se vulgar, pois toda a gente tem telem\u00f3veis ou outros meios de comunica\u00e7\u00e3o, todos de f\u00e1cil acesso.<\/p>\n<h4><em>Se a viol\u00eancia sexual, principalmente a intrafamiliar, \u00e9 um crime quase perfeito (protegido pelo sil\u00eancio da v\u00edtima, da fam\u00edlia, pelos sentimentos ambivalentes da v\u00edtima para com o agressor, por outros fen\u00f3menos psicol\u00f3gicos), a viol\u00eancia sexual nos contextos profissionais \u00e9 um crime perfeito, sobretudo quando \u00e9 perpetrado por psiquiatras e terapeutas. <\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC &#8211; Sabemos que o ass\u00e9dio sexual tamb\u00e9m acontece nos gabinetes de profissionais de sa\u00fade (m\u00e9dicos, psic\u00f3logos, psiquiatras, entre outros especialistas). Esta \u00e9 uma realidade mais f\u00e1cil de sinalizar, punir e combater?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFF &#8211;<\/strong> Toda a viol\u00eancia sexual \u00e9 dif\u00edcil de sinalizar. Se a viol\u00eancia sexual, principalmente a intrafamiliar, \u00e9 um crime quase perfeito (protegido pelo sil\u00eancio da v\u00edtima, da fam\u00edlia, pelos sentimentos ambivalentes da v\u00edtima para com o agressor, por outros fen\u00f3menos psicol\u00f3gicos), a viol\u00eancia sexual nos contextos profissionais \u00e9 um crime perfeito, sobretudo quando \u00e9 perpetrado por psiquiatras e terapeutas. \u00c9 muito dif\u00edcil de sinalizar e combater. Os estudos indicam que, apenas as situa\u00e7\u00f5es mais s\u00e9rias ter\u00e3o alguma probabilidade de serem reportadas. D\u00e1-se o caso, em grande parte das situa\u00e7\u00f5es, de a pr\u00f3pria v\u00edtima demorar a reconhecer que est\u00e1 a ser v\u00edtima. Em tribunal a primeira coisa que perguntam \u00e9: \u201cse isto aconteceu na primeira consulta, porque \u00e9 que l\u00e1 voltou?\u201d. E as v\u00edtimas s\u00e3o desacreditadas, remetidas ao sil\u00eancio. E a \u201cviol\u00eancia sexual\u201d \u00e9 quase legitimada em tribunal. O p\u00fablico em geral faria a mesma pergunta, tende a culpar a v\u00edtima, por isso, dizia eu, \u00e9 um crime perfeito!<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Temos ideia da percentagem de pessoas que sofre (sofreu) de viol\u00eancia sexual no nosso pa\u00eds, atualmente? Como interpretar estes dados?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFF &#8211;<\/strong> Desde a realiza\u00e7\u00e3o do meu estudo n\u00e3o foi feito nenhum estudo nacional de preval\u00eancia, que retira dados da informa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o atrav\u00e9s de fontes oficiais (que s\u00e3o as que resultam das den\u00fancias). Neste primeiro estudo, 7% da amostra referiu ter sido v\u00edtima at\u00e9 os 18 anos. No entanto, na \u00e9poca, tendo em conta os dados internacionais (entre 10 e 15%) consider\u00e1mos que algumas pessoas da amostra n\u00e3o tinham sido sinceras e que os dados de vitima\u00e7\u00e3o poderiam ser maiores do que os revelados. Por este motivo, e passados quase 15 anos do in\u00edcio do processo Casa Pia (que consideramos ter sido um acontecimento que fez romper o sil\u00eancio social sobre o fen\u00f3meno, tanto que se verificou um aumento das den\u00fancias), decidimos replicar o estudo e, embora s\u00f3 tenhamos tratado os dados do norte do pa\u00eds, verificamos que 10% da amostra revelou ter sido v\u00edtima. Mas aqui introduzimos um dado novo, pois verific\u00e1mos que, nesta mesma amostra, 5% foi v\u00edtima indireta, ou seja, testemunhou o abuso sexual por ter ouvido, presenciado ou sido confidente de uma v\u00edtima direta. Como se v\u00ea s\u00e3o dados preocupantes. Por isso urge a implementa\u00e7\u00e3o de programas de preven\u00e7\u00e3o (avaliados e eficazes), a reformula\u00e7\u00e3o das penas, a interven\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e jur\u00eddica para as v\u00edtimas e para as suas fam\u00edlias e a interven\u00e7\u00e3o com agressores.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; A sociedade portuguesa reconhece os horrores da viol\u00eancia sexual como horr\u00edficos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MF &#8211;<\/strong> Sim, depois de ter sido confrontada de uma forma muito dram\u00e1tica, com o que ficou conhecido como o processo Casa Pia. A sociedade portuguesa teve de rever certos mitos e preconceitos, nomeadamente o de que o agressor pode ser algu\u00e9m com reconhecimento e simpatia p\u00fablica, e o de que as v\u00edtimas podem ser rapazes. O processo Casa Pia abriu um debate p\u00fablico, social, e conseguiu implicar todas as pessoas na reflex\u00e3o sobre o que \u00e9, verdadeiramente, a viol\u00eancia sexual contra crian\u00e7as e adolescentes. Inicialmente, no entanto, gerou-se p\u00e2nico, medo e inseguran\u00e7a por parte dos adultos relativamente \u00e0 forma como deveria ser o relacionamento com as crian\u00e7as sem ser\/parecer abusivo. \u00c9 evidente que todo este processo teve tamb\u00e9m repercuss\u00f5es nos processos judiciais. Apesar de considerar que ainda falta muito para se chegar a um modelo adequado de interven\u00e7\u00e3o nos abusos sexuais, alguns acontecimentos abrem uma ponta de esperan\u00e7a. Por exemplo, o caso de um professor, no Porto, que foi condenado por abuso sexual de tr\u00eas alunas adolescentes, cujos tipos foram o que chamamos de menos intrusivos (sem penetra\u00e7\u00e3o, sem contactos f\u00edsicos subtis, ass\u00e9dio sexual verbal, etc.) e para tal terem valorizado as per\u00edcias psicol\u00f3gicas, o meu depoimento na qualidade de psic\u00f3loga de uma das v\u00edtimas, e terem ouvido as adolescentes, com recurso \u00e0 grava\u00e7\u00e3o para mem\u00f3ria futura.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] \u00c0 conversa com\u2026 Marisalva Fernandes F\u00e1vero (mfavero@ismai.pt), Coordenadora do Observat\u00f3rio da Sexualidade e do Projeto WebEduca\u00e7\u00e3oSexual Data 4 de Fevereiro de 2017 Entrevista Isabel Freire [\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]\u201cO abuso sexual \u00e9 um crime muito dif\u00edcil de sinalizar\u201d, que pode ocorrer em qualquer lado: na fam\u00edlia, na escola, na universidade, mesmo no consult\u00f3rio do psiquiatra [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":500,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[815,36,56],"tags":[257,260,170,258,261,259],"class_list":["post-6744","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","category-noticias","category-saude-sexual","tag-abuso-sexual-intrafamiliar","tag-agressor-sexual","tag-sexting","tag-violencia-sexual","tag-vitima-indirecta-de-abuso-sexual","tag-vitima-sexual"],"featured_image_src":{"landsacpe":false,"list":false,"medium":false,"full":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6744","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/500"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6744"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6744\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9272,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6744\/revisions\/9272"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6744"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6744"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6744"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}