{"id":7198,"date":"2017-06-04T14:48:09","date_gmt":"2017-06-04T14:48:09","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7198"},"modified":"2019-03-27T08:33:52","modified_gmt":"2019-03-27T08:33:52","slug":"etica-e-sexualidade-nas-deficiencias-cognitivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2017\/06\/04\/etica-e-sexualidade-nas-deficiencias-cognitivas\/","title":{"rendered":"\u00c9tica e sexualidade nas defici\u00eancias cognitivas"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/\u00b4joanaalmeidabublle.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-7231\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/06\/\u00b4joanaalmeidabublle.jpg\" alt=\"\" width=\"272\" height=\"272\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>A reflex\u00e3o de\u2026<br \/>\n<\/strong>M. Joana Almeida, psic\u00f3loga cl\u00ednica e terapeuta sexual no <a href=\"http:\/\/diferencas.net\/\">Centro de Desenvolvimento Infantil <em>Diferen\u00e7as<\/em><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n4 de Junho de 2017<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]No Centro de Desenvolvimento Infantil <em>Diferen\u00e7as<\/em> fazemos, desde 2009, aconselhamento em quest\u00f5es da sexualidade a jovens com perturba\u00e7\u00f5es do neurodesenvolvimento (trissomia 21, perturba\u00e7\u00f5es do espetro do autismo, perturba\u00e7\u00f5es do desenvolvimento intelectual, entre outras), com diferentes n\u00edveis de d\u00e9fice cognitivo associado, e \u00e0s suas fam\u00edlias. Nas interven\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas junto de jovens com perturba\u00e7\u00f5es desenvolvimentais a \u00e9tica n\u00e3o \u00e9 simples e cada princ\u00edpio deontol\u00f3gico precisa de aten\u00e7\u00e3o e cautela sem espa\u00e7o para uma aplica\u00e7\u00e3o cega e n\u00e3o reflexiva.<\/p>\n<p>Come\u00e7a no facto de as fam\u00edlias e cuidadores serem tutores legais para al\u00e9m da idade da maioridade destes jovens com perturba\u00e7\u00f5es neurodesenvolvimentais. A grande depend\u00eancia dos seus cuidadores por parte dos jovens leva a que a sua autonomia seja diminu\u00edda face a outros jovens da mesma idade e sem perturba\u00e7\u00f5es, nas oportunidades de socializa\u00e7\u00e3o, de rela\u00e7\u00f5es sociais e, mais particularmente, na viv\u00eancia da sua sexualidade, no desenvolvimento de rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas e mesmo na proje\u00e7\u00e3o futura de conjugalidade ou de projetos de maternidade ou paternidade.<\/p>\n<p>Em Portugal, fizemos um longo caminho de mudan\u00e7a nos tratamentos da sa\u00fade sexual e reprodutiva face \u00e0 esteriliza\u00e7\u00e3o compulsiva e n\u00e3o consentida pelos\/as pr\u00f3prios\/as, com as inova\u00e7\u00f5es em contrace\u00e7\u00e3o a ajudarem a que se generalizem op\u00e7\u00f5es mais dignas e menos definitivas; muito embora ao n\u00edvel da compreens\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o e do papel da contrace\u00e7\u00e3o ainda continue a haver muito desconhecimento e falta de envolvimento nas decis\u00f5es que afetam a sexualidade dos jovens e adultos com d\u00e9fice cognitivo.<\/p>\n<p>As atitudes negativas da parte dos cuidadores face \u00e0 sexualidade destes jovens com perturba\u00e7\u00f5es t\u00eam sido objeto de v\u00e1rias investiga\u00e7\u00f5es e a sua influ\u00eancia nas viv\u00eancias sexuais dos jovens com perturba\u00e7\u00f5es faz-se sentir de diferentes maneiras (Cardoso, 2003; Marques, 2005; Marques &amp; F\u00e9lix, 1995). Alguns exemplos chave: a explora\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es e comportamentos sexuais pode ser encarada como inapropriada pelos cuidadores (t\u00e9cnicos de apoio, pais e m\u00e3es e outros familiares ou cuidadores legais), conotada como abusos sexuais, quer os seus pares possuam ou n\u00e3o uma defici\u00eancia.<\/p>\n<h4><em>Em Portugal, fizemos um longo caminho de mudan\u00e7a nos tratamentos da sa\u00fade sexual e reprodutiva face \u00e0 esteriliza\u00e7\u00e3o compulsiva e n\u00e3o consentida pelos\/as pr\u00f3prios\/as, com as inova\u00e7\u00f5es em contrace\u00e7\u00e3o a ajudarem a que se generalizem op\u00e7\u00f5es mais dignas e menos definitivas<\/em><\/h4>\n<p>Mesmo quando os casais s\u00e3o recebidos com alguma permissividade, a cria\u00e7\u00e3o de momentos de conv\u00edvio do jovem casal, incluindo a privacidade necess\u00e1ria para se descobrirem as rela\u00e7\u00f5es sexuais, \u00e9 feita de obst\u00e1culos e sil\u00eancios. A comorbilidade do d\u00e9fice cognitivo leva a que se precise n\u00e3o s\u00f3 de permissividade, mas tamb\u00e9m de conhecimentos, de desenvolvimento de compet\u00eancias pessoais e relacionais, que ainda fica aqu\u00e9m das necessidades dos jovens.<\/p>\n<p>Outro exemplo ser\u00e1 a aceita\u00e7\u00e3o da masturba\u00e7\u00e3o dos jovens com perturba\u00e7\u00f5es realizada num contexto de prazer e privacidade, que \u00e9 diferente de fam\u00edlia para fam\u00edlia, como tamb\u00e9m nas institui\u00e7\u00f5es de apoio onde por vezes passam longas horas. As incapacidades motoras e a depend\u00eancia de apoio de cuidadores (institucionais ou familiares) pode significar a falta de condi\u00e7\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o da masturba\u00e7\u00e3o, desde a oferta de privacidade ao ato de despir. Tamb\u00e9m os d\u00e9fices cognitivos e motores acarretam por vezes a falta de destreza e t\u00e9cnica para atingir a satisfa\u00e7\u00e3o, criando a necessidade de uma educa\u00e7\u00e3o sexual adaptada e espec\u00edfica, que garanta a seguran\u00e7a e ainda a dignidade.<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica com jovens com perturba\u00e7\u00f5es neurodesenvolvimentais \u00e9 necess\u00e1rio o consentimento dos pais e das m\u00e3es para intervir com tal educa\u00e7\u00e3o sexual expl\u00edcita. As fam\u00edlias que nos pedem ajuda t\u00eam, no geral, atitudes favor\u00e1veis e respeitosas do direito ao prazer dos seus filhos e filhas; enquanto as maiores barreiras s\u00e3o as institucionais, de escolas, institui\u00e7\u00f5es residenciais e de forma\u00e7\u00e3o socioprofissional. Muitas institui\u00e7\u00f5es de apoio silenciam as necessidades de afeto e prazer dos seus jovens (embora tal n\u00e3o seja circunscrito \u00e0 adolesc\u00eancia, estendendo-se pela vida fora).<\/p>\n<h4><em>Imp\u00f5e-se a discuss\u00e3o \u00e9tica de como todos n\u00f3s contribu\u00edmos para permitir que as rela\u00e7\u00f5es e a sexualidade de jovens com perturba\u00e7\u00f5es desenvolvimentais existam, possam surgir e desenvolver-se ao longo da vida<\/em><\/h4>\n<p>N\u00e3o se trata apenas do acesso ao prazer, como tamb\u00e9m do desenvolvimento de relacionamentos com pares com desejos semelhantes de afeto, de necessidades e curiosidades, com pr\u00e1ticas sexuais e desejos de conjugalidade e mesmo paternidade. Ainda n\u00e3o temos implementados projetos de vida independente, que incluam estas \u00e1reas e promovam o seu desenvolvimento nos jovens, jovens casais, e ao longo da vida de pessoas com perturba\u00e7\u00f5es e defici\u00eancias cognitivas.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 barreiras dif\u00edceis de transpor no estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas entre rapazes e raparigas, quando h\u00e1 atra\u00e7\u00f5es, interesses ou pr\u00e1ticas e explora\u00e7\u00f5es sexuais entre jovens do mesmo sexo, os valores familiares e dos cuidadores e a poss\u00edvel homofobia ou transfobia existentes, criam barreiras fort\u00edssimas e dif\u00edceis de ultrapassar. Em cl\u00ednica e em aconselhamento em sexualidade a \u00e9tica recomenda-nos interven\u00e7\u00f5es para promover a aceita\u00e7\u00e3o, prevenir as discrimina\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas, face a uma orienta\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o heterossexual ou a uma identidade de g\u00e9nero n\u00e3o conforme \u00e0 dicotomia feminino\/masculino do sexo \u00e0 nascen\u00e7a. Mas os pedidos das fam\u00edlias para que a psicologia seja ve\u00edculo de press\u00e3o para a heterossexualidade normativa surgem, e as respostas claras de recusa e \u00e9tica associadas afastam as fam\u00edlias das consultas, dos terapeutas e definitivamente os\/as seus\/suas filhos\/as do apoio que necessitariam para exercerem o seu direito \u00e0 igualdade com outros jovens sem perturba\u00e7\u00f5es e com orienta\u00e7\u00e3o sexual e identidade de g\u00e9nero minorit\u00e1rias. Que legitimidade t\u00eam os psic\u00f3logos para intervir com estes jovens nesta \u00e1rea sem a autoriza\u00e7\u00e3o e consentimento dos seus tutores legais? E se a obten\u00e7\u00e3o de consentimento destas fam\u00edlias impedir de todo o acesso dos\/as seus\/suas filhos\/as a apoios n\u00e3o homof\u00f3bicos e transf\u00f3bicos?<\/p>\n<p>N\u00e3o temos respostas simples. Em cada fam\u00edlia, em cada caso, esfor\u00e7amo-nos por transmitir valores de aceita\u00e7\u00e3o e mudar atitudes negativas, face ao nosso contexto hist\u00f3rico, \u00e9tico e deontol\u00f3gico (Ordem dos Psic\u00f3logos, 2011). Mas sabemos que o caminho ainda tem muito para andar. A simples passividade ou nega\u00e7\u00e3o da sexualidade na vida destes jovens n\u00e3o respeita a desejada promo\u00e7\u00e3o de igualdade, dignidade, nem os seus direitos sexuais e reprodutivos (OMS, 2002; Na\u00e7\u00f5es Unidas, 2006). Imp\u00f5e-se a discuss\u00e3o \u00e9tica de como todos n\u00f3s contribu\u00edmos para permitir que as rela\u00e7\u00f5es e a sexualidade de jovens com perturba\u00e7\u00f5es desenvolvimentais existam, possam surgir e desenvolver-se ao longo da vida, em condi\u00e7\u00f5es de igualdade e dignidade, numa sociedade realmente inclusiva e respeitadora de todos e de todas as pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>CARDOSO, J. (2003). Reabilita\u00e7\u00e3o Sexual P\u00f3s-Defici\u00eancia F\u00edsica: Um Modelo Multidimensional.\u00a0<em>Sexualidade &amp; Planeamento Familiar,<\/em>\u00a05-10.<\/p>\n<p><em>Defining sexual health: report of a technical consultation on sexual health<\/em>, 28\u201331 January 2002. Geneva: World Health Organization; 2006.<\/p>\n<p>MARQUES, A. M., &amp; F\u00e9lix, I. (1995). <em>E n\u00f3s&#8230; somos diferentes?: sexualidade e educa\u00e7\u00e3o sexual na defici\u00eancia mental<\/em>. Lisboa: Associa\u00e7\u00e3o para o Planeamento da Fam\u00edlia.<\/p>\n<p>MARQUES, A. M. (2005). <em>Ser+ Programa de desenvolvimento pessoal e social para crian\u00e7as, jovens e adultos portadores de defici\u00eancia ment<\/em>al. Associa\u00e7\u00e3o para o Planeamento da Fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Ordem dos Psic\u00f3logos Portugueses (2011). C\u00f3digo Deontol\u00f3gico da Ordem dos Psic\u00f3logos Portugueses. <em>Di\u00e1rio da Rep\u00fablica<\/em>, 2.\u00aa s\u00e9rie, 78, 20 de Abril de 2011, 17931- 17936.<\/p>\n<p>The United Nations (2006). <em>Convention on the Rights of Persons with Disabilities<\/em>.\u00a0Treaty Series,\u00a02515, 3.<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] A reflex\u00e3o de\u2026 M. 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