{"id":7252,"date":"2017-08-05T08:20:47","date_gmt":"2017-08-05T08:20:47","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7252"},"modified":"2019-03-25T19:12:35","modified_gmt":"2019-03-25T19:12:35","slug":"dar-a-sexualidade-atencao-plena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2017\/08\/05\/dar-a-sexualidade-atencao-plena\/","title":{"rendered":"Dar \u00e0 sexualidade &#8220;aten\u00e7\u00e3o plena&#8221;"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/sandravilarinhoredondo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-5575\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/sandravilarinhoredondo-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/a><\/strong><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong>\u00c0 conversa com\u2026<\/strong><br \/>\nSandra Vilarinho<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><strong>Percursos\u2026<\/strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/spsc.pt\/index.php\/sandra-vilarinho\/\">Presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica<\/a> e\u00a0Membro da Comiss\u00e3o Executiva e coordenadora do Comit\u00e9 da Educa\u00e7\u00e3o Sexual da Federa\u00e7\u00e3o Europeia de Sexologia. Psic\u00f3loga cl\u00ednica, terapeuta sexual e instrutora de <em>mindfulness<\/em>. Doutorada em Psicologia Cl\u00ednica (FPCE, Universidade de Coimbra) e Investigadora do Sexlab da FPCE (Universidade do Porto).<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Contacto<\/strong><br \/>\n91 962 73 19<\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n5 de agosto de 2017<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong>Entrevista<\/strong><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>Isabel Freire<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]<strong>Define-se como &#8220;uma pessoa simples, focada no prazer dos momentos e das pequenas coisas (como o chocolate), e tamb\u00e9m das grandes, como as pessoas&#8221;. \u00c9 presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica, psic\u00f3loga cl\u00ednica, terapeuta sexual e instrutora de <em>mindfulness<\/em> e autocompaix\u00e3o. Sandra Vilarinho fala nesta entrevista dos benef\u00edcios terap\u00eauticos da &#8220;aten\u00e7\u00e3o plena&#8221; (ou <em>mindfulness<\/em>) para a sexualidade: &#8220;Os estudos mostram melhorias significativas ao n\u00edvel da satisfa\u00e7\u00e3o sexual, resposta sexual (desejo, excita\u00e7\u00e3o, orgasmo) e diminui\u00e7\u00e3o do sofrimento associado \u00e0s dificuldades (<em>distress<\/em>)&#8221;. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Em Portugal n\u00e3o h\u00e1 ainda muitos especialistas com forma\u00e7\u00e3o s\u00f3lida nas duas \u00e1reas (sexualidade e <em>mindfulness<\/em>), mas a curiosidade e o interesse s\u00e3o crescentes.<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica &#8211; Em que medida o <em>mindfulness<\/em> influenciou a sua forma de ser e de estar no mundo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sandra Vilarinho &#8211;<\/strong> O <em>mindfulness<\/em> (ou aten\u00e7\u00e3o plena) pode ser definido como a consci\u00eancia que emerge quando dirigimos intencionalmente a aten\u00e7\u00e3o para as coisas tal como elas s\u00e3o, no aqui e agora, sem julgamento. Trata-se de uma pr\u00e1tica que nos convida sobretudo a observar com uma atitude de abertura, curiosidade e aceita\u00e7\u00e3o, oferecendo-nos a devolu\u00e7\u00e3o ao momento presente, sem as preocupa\u00e7\u00f5es do passado ou as antecipa\u00e7\u00f5es do futuro (que tanto ocupam e pr\u00e9-ocupam a nossa mente). \u00c9 uma forma de estar que se cultiva (atrav\u00e9s da pr\u00e1tica) e que nos vai permitindo responder perante determinados eventos, em vez de somente reagir.<\/p>\n<p>Pessoalmente, a pr\u00e1tica de <em>mindfulness<\/em> tem-me influenciado no sentido de convidar cada vez mais a perspetivar e relativizar as pequenas contrariedades (inevit\u00e1veis e transit\u00f3rias, tal como os momentos de sucesso e alegrias). Isto ajuda-me tamb\u00e9m a ser mais grata. E a manter-me mais focada no que realmente me faz sentido, e que muitas vezes passa por momentos simples, n\u00e3o exigentes, de presen\u00e7a dispon\u00edvel. Sinto-me uma pessoa mais satisfeita, com maior facilidade em compreender e lidar com o sofrimento, e encarar tudo isto como um processo &#8211; o que se estende tamb\u00e9m \u00e0 forma como exer\u00e7o a minha pr\u00e1tica cl\u00ednica.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; O que foi mais exigente (ou dif\u00edcil) no seu percurso de aprendizagem do <em>mindfulness<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SV &#8211;<\/strong> Quando comecei a praticar em 2003, o que me parecia mais exigente era a disciplina e a ideia de ter que estar sentada (aparentemente sem fazer nada), durante algum tempo. Quando temos dias com muitas solicita\u00e7\u00f5es, torna-se dif\u00edcil encontrar tempo para dedicar a n\u00f3s mesmos e a aquietar a mente. Tudo parece mais importante e urgente. Este \u00e9 um dos maiores desafios. Sentarmo-nos e ficarmos por algum tempo com a nossa experi\u00eancia, tal como ela \u00e9.<br \/>\nEm termos de pr\u00e1ticas, era-me particularmente dif\u00edcil o <em>body scan<\/em> (ou explora\u00e7\u00e3o corporal), aten\u00e7\u00e3o dedicada e bondosa a v\u00e1rias partes do corpo, feito na posi\u00e7\u00e3o deitada. Invariavelmente adormecia. Aconteceu num <em>workshop<\/em> com o Jon Kabat-Zin, em 2010. Tinha ido a Londres com o prop\u00f3sito de aprender com o &#8220;grande mestre&#8221;, e ap\u00f3s cerca de meia hora de <em>body scan<\/em>, supostamente tranquilizador e em aten\u00e7\u00e3o plena, acordei, zangad\u00edssima comigo mesma. Senti que estava a perder a forma\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o fazia sentido nenhum. Fiquei frustrada. Mas a zanga e os pensamentos de chicote duraram pouco. Apenas at\u00e9 ao momento em que ouvi dizer do Kabat-Zin, na sua imensa sabedoria: \u201c\u00c9 normal adormecer. Se \u00e9 o que o corpo mais precisa, damos ao corpo, e a n\u00f3s mesmos, o que precisamos, e confiamos que aquilo que recebemos \u00e9 o suficiente por agora\u201d.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Por que motivo escolheu o <em>mindfulness<\/em> como caminho de interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, ao n\u00edvel cl\u00ednico da sexualidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SV &#8211;<\/strong> N\u00e3o sei se fui eu que escolhi esta abordagem ou se foi esta forma de estar (que comecei a cultivar por raz\u00f5es pessoais) que fez com que n\u00e3o fizesse muito sentido ser de outro modo. Na altura em que iniciei a minha pr\u00e1tica estava longe de imaginar que a Psicologia pudesse ser t\u00e3o integrativa, ao ponto de abra\u00e7ar as abordagens baseadas no <em>mindfulness,<\/em> enquanto \u201cterapias de terceira gera\u00e7\u00e3o\u201d (na tradi\u00e7\u00e3o cognitivo-comportamental). S\u00f3 mais tarde, em 2007, viria a perceb\u00ea-lo. A integra\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas que nos colocam no presente, na experi\u00eancia, no corpo, nas emo\u00e7\u00f5es, pareceu e continua a parecer-me um caminho natural para uma intimidade sexual mais consciente e prazerosa. Era uma \u201cescolha\u201d quase inevit\u00e1vel, sobretudo quando vivemos numa cultura de consumismo e urg\u00eancias que facilmente nos aliena tamb\u00e9m na nossa sexualidade. Refor\u00e7aram tamb\u00e9m esta escolha as crescentes evid\u00eancias emp\u00edricas e cl\u00ednicas, que mostram os benef\u00edcios de dar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa experi\u00eancia sexual de um outro modo, mais consciente e focado.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Quais s\u00e3o os preju\u00edzos mais recorrentes (ou mais lesivos) de uma sexualidade vivida de forma rotineira, automatizada, desfocada?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SV &#8211;<\/strong> As vidas em correria, os imediatismos, as press\u00f5es em tempo real, s\u00e3o altamente valorizados nos nossos padr\u00f5es atuais de intera\u00e7\u00e3o com o mundo. Encontramo-nos frequentemente imersos em preocupa\u00e7\u00f5es, que se sucedem a mais preocupa\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m as exig\u00eancias, de que dever\u00edamos ser desta ou daquela forma, de que dever\u00edamos comportar-nos desta ou daquela maneira, de que as coisas deveriam ser diferentes do que s\u00e3o no momento presente, constituem fonte de mal-estar. Sabemos bem como \u00e9 f\u00e1cil deixarmo-nos levar por responsabilidades e press\u00f5es (tamb\u00e9m sexuais), assim como perdermo-nos na tempestade dos nossos pr\u00f3prios pensamentos e sentimentos. Muito frequentemente entramos em &#8220;piloto autom\u00e1tico&#8221;. Entramos em exig\u00eancias multitarefa. E isso refor\u00e7a a aus\u00eancia de <em>mindfulness<\/em>. Agimos sem pensar. E nem sempre o resultado \u00e9 o mais eficaz. H\u00e1 que fazer muito (se poss\u00edvel em simult\u00e2neo) e ainda ter disponibilidade para a fam\u00edlia, os amigos, as redes sociais e todo um conjunto de atividades consideradas saud\u00e1veis que &#8220;temos de&#8221; n\u00e3o esquecer: alimentarmo-nos de uma certa forma (evitando isto e aquilo), fazer desporto, passear o c\u00e3o\u2026 e ainda\u2026 encontrar tempo para aquilo a que chamo de &#8220;sexualidade pregui\u00e7osa&#8221;. Uma esp\u00e9cie de intimidade sexual rapidinha, uma sexualidade que d\u00ea pouco trabalho, e pouca aten\u00e7\u00e3o. Com truques eficazes anunciados em revistas ou simplesmente automatizados e que depressa nos coloquem no pr\u00e9mio final do orgasmo (de prefer\u00eancia mais do que um). Com tanta pressa e automatismo, \u00e9 de esperar que haja assim tanta disponibilidade (emocional, mental, f\u00edsica) para desfrutar daquilo que a intimidade sexual pode permitir? Haver\u00e1 assim tanto tempo para ver &#8211; ver mesmo! &#8211; a outra pessoa, para sintonizar com o corpo, com o prazer, com o momento \u00fanico e irrepet\u00edvel de estar intimamente com algu\u00e9m?<\/p>\n<h4><em>Na minha pr\u00e1tica cl\u00ednica tenho encontrado melhorias ao n\u00edvel do desejo sexual feminino e da perturba\u00e7\u00e3o da dor (aquilo que antes se designava como vaginismo e dispareunia), mas tenho tamb\u00e9m integrado estas abordagens no trabalho com homens com disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til e ejacula\u00e7\u00e3o prematura, e estou animada com os resultados<\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC &#8211; O que \u00e9 essencial para que a sexualidade possa ser vivida aqui e agora?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SV &#8211;<\/strong> Creio que s\u00e3o a maioria das atitudes fundamentais sugeridas por Kabat-Zin: disponibilidade, abertura, n\u00e3o julgamento, aceita\u00e7\u00e3o, mente de principiante (olhar para a experi\u00eancia com frescura, como se fosse a primeira vez)\u2026 \u00c9 importante estarmos dispostos a \u201carriscar\u201d mais sermos quem somos (e n\u00e3o tanto o ter que fazer isto ou aquilo). Aceitar o que vem do encontro (sem ter que ser desta ou daquela forma). Menos expectativas. Maior aten\u00e7\u00e3o ao corpo, \u00e0s sensa\u00e7\u00f5es, aos sentidos. Explorar e desfrutar mais do que surge e n\u00e3o do que n\u00e3o surge.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Uma sexualidade que tem por base os princ\u00edpios do <em>mindfulness<\/em> precisa de ambos os elementos do casal sintonizados para esta ideia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SV<em> &#8211;<\/em> <\/strong>Se ambos estiverem alinhados na mesma atitude e na mesma disponibilidade para abra\u00e7ar o momento tal como ele acontece, \u00e9 naturalmente mais f\u00e1cil. Mas n\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3rio. Nem todas as pessoas se identificam com as pr\u00e1ticas meditativas. Muitas vezes a integra\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias e atitudes subjacentes ao <em>mindfulness<\/em> \u00e9 um processo, e acontece frequentemente que uma das pessoas come\u00e7a, e depois a outra \u201cvai atr\u00e1s\u201d. Se notamos que a pessoa com quem partilhamos a nossa intimidade est\u00e1 ou vai ficando mais tranquila e dispon\u00edvel para o prazer (sem exig\u00eancias ou condi\u00e7\u00f5es), normalmente ajustamo-nos a isso &#8211; o inverso tamb\u00e9m \u00e9 verdadeiro (quando um dos elementos do casal tende para o conflito e discuss\u00e3o, normalmente h\u00e1 tamb\u00e9m um ajustamento a isso, em escalada).<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Que papel (ou pap\u00e9is) pode ter a respira\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o sexual?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SV &#8211;<\/strong> A respira\u00e7\u00e3o \u00e9 vital e nutritiva. Est\u00e1 sempre presente na nossa vida. Acompanha as nossas emo\u00e7\u00f5es. Resulta da sabedoria do nosso corpo e, como tal, pode constituir-se como \u00e2ncora para a nossa mente dispersa. Num encontro sexual, \u00e9 frequente e relativamente f\u00e1cil para muitas pessoas distra\u00edrem-se com preocupa\u00e7\u00f5es acerca do corpo ou outras (expectativas, antecipa\u00e7\u00f5es, atribui\u00e7\u00f5es). Ora, a respira\u00e7\u00e3o est\u00e1 sempre presente, podemos sempre convidar-nos a voltar a ela, ao corpo, e assim fica tamb\u00e9m mais f\u00e1cil voltar novamente a focar o prazer.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Um dos aspectos sobre que o <em>mindfulness<\/em> assenta \u00e9 a ideia da aceita\u00e7\u00e3o e a de n\u00e3o julgamento. Do ponto de vista da sexualidade, o que \u00e9 bom aprendermos a aceitar sem julgamentos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SV &#8211;<\/strong> A nossa tend\u00eancia autom\u00e1tica para julgar a experi\u00eancia, e o querer que as coisas sejam diferentes daquilo que s\u00e3o, impedem-nos de estarmos totalmente presentes em cada momento. Pensar que algo n\u00e3o deve ser assim, que algo n\u00e3o est\u00e1 certo ou que n\u00e3o \u00e9 suficientemente bom, pode conduzir a sequ\u00eancias de pensamentos envoltos em culpabilidade e ansiedade ou outras emo\u00e7\u00f5es negativas. Tais pensamentos conduzem-nos muitas vezes a caminhos mentais que, embora familiares, s\u00e3o &#8220;viciados&#8221;. Os produtos da nossa mente est\u00e3o frequentemente relacionados com a an\u00e1lise repetitiva, rumina\u00e7\u00f5es, pensamento catastr\u00f3fico, ou proje\u00e7\u00f5es futuras, o que gera ang\u00fastia e sofrimento.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil perdermos as valiosas e significativas experi\u00eancias do presente. Nos casos em que queremos estar presentes (como \u00e9 o do cen\u00e1rio sexual), torna-se muitas vezes dif\u00edcil, se n\u00e3o imposs\u00edvel, desligarmo-nos do ru\u00eddo mental. Um resultado poss\u00edvel e frequente \u00e9 a diminui\u00e7\u00e3o do desejo e excita\u00e7\u00e3o, tornando a experi\u00eancia sexual menos gratificante e prazerosa. Ora, pensamentos s\u00e3o apenas pensamentos (a grande maioria deles, repetitivos e in\u00fateis). Produtos da mente. N\u00e3o s\u00e3o necessariamente representa\u00e7\u00f5es precisas da realidade. \u00c9 importante cultivarmos o h\u00e1bito de observar mais, de ver mais as coisas como elas s\u00e3o &#8211; momento a momento &#8211; e aceitar que \u201cpor agora\u201d possam ser assim. Seria bom estarmos mais no corpo, nas sensa\u00e7\u00f5es e menos na mente dispersa.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Em que problem\u00e1ticas sexuais a interven\u00e7\u00e3o baseada no <em>mindfulness<\/em> apresenta evid\u00eancias de melhores resultados terap\u00eauticos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SV &#8211;<\/strong> De modo geral, os estudos mostram melhorias significativas ao n\u00edvel da satisfa\u00e7\u00e3o sexual, resposta sexual (desejo, excita\u00e7\u00e3o, orgasmo) e diminui\u00e7\u00e3o do sofrimento associado \u00e0s dificuldades (<em>distress<\/em>). A inclus\u00e3o das pr\u00e1ticas meditativas na abordagem da sexualidade e das problem\u00e1ticas sexuais tem revelado grande potencial e resultados promissores em amostras de mulheres com dificuldades ao n\u00edvel do desejo e excita\u00e7\u00e3o, queixas sexuais secund\u00e1rias a cancro ginecol\u00f3gico, abuso sexual e ao n\u00edvel da dor sexual. H\u00e1 ainda estudos que associam as pr\u00e1ticas meditativas a benef\u00edcios nas din\u00e2micas de casal, satisfa\u00e7\u00e3o sexual e consist\u00eancia do orgasmo. Na minha pr\u00e1tica cl\u00ednica tenho encontrado melhorias ao n\u00edvel do desejo sexual feminino e da perturba\u00e7\u00e3o da dor (aquilo que antes se designava como vaginismo e dispareunia), mas tenho tamb\u00e9m integrado estas abordagens no trabalho com homens com disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til e ejacula\u00e7\u00e3o prematura, e estou animada com os resultados. De modo geral, o que mais noto \u00e9 a melhoria da consci\u00eancia e satisfa\u00e7\u00e3o sexual e um aumento da aceita\u00e7\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p>No que respeita \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia cl\u00ednica, h\u00e1 ainda um importante caminho a percorrer, sobretudo a dois n\u00edveis. Ao n\u00edvel da metodologia, no sentido de haver estudos mais controlados e que permitam melhor explicar os processos e mecanismos da efic\u00e1cia que vem sendo encontrada. E ao n\u00edvel da aplica\u00e7\u00e3o a outros grupos (n\u00e3o apenas mulheres), nomeadamente homens com diferentes problem\u00e1ticas sexuais, pessoas a caminhar para a grande idade, pessoas com defici\u00eancia, ou pessoas com orienta\u00e7\u00e3o sexual e identidade de g\u00e9nero diversa. Este \u00e9 mesmo um caminho a iniciar-se agora.<\/p>\n<h4><em>A comunidade cl\u00ednica e cient\u00edfica tem vindo a incorporar com entusiasmo as interven\u00e7\u00f5es baseadas no <\/em>mindfulness<em> sobretudo porque os resultados s\u00e3o encorajadores. Creio que est\u00e1 ainda longe de ser amplamente praticada porque a sua incorpora\u00e7\u00e3o implica que os terapeutas sexuais conhe\u00e7am bem as abordagens [&#8230;], as atitudes [&#8230;] e, sobretudo, que sejam praticantes regulares (provavelmente o mais importante). [&#8230;] n\u00e3o basta ler uns livros e\/ou selecionar duas ou tr\u00eas estrat\u00e9gias como quem aplica solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas. <\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC &#8211; A terapia sexual baseada no <em>mindfulness<\/em> \u00e9 hoje amplamente praticada no mundo? <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u2028SV &#8211;<\/strong> A n\u00edvel mundial, foi sobretudo a partir do trabalho pioneiro de Lory Brotto (investigadora canadiana), em 2007, que o recurso a abordagens baseadas no <em>mindfulness<\/em> come\u00e7ou a ter visibilidade e a ser investigado de modo mais sistem\u00e1tico. Antes desta, uma outra investigadora (Mayland) tinha feito em 2005 um trabalho de doutoramento em que descrevia qualitativamente as vidas sexuais de mulheres praticantes de <em>mindfulness<\/em> (m\u00e9dia de 20 anos de pr\u00e1tica) e com idade m\u00e9dia de 50 anos, em rela\u00e7\u00f5es est\u00e1veis e duradouras. Esta investigadora verificou que todas as mulheres associavam \u00e0 pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o uma maior consci\u00eancia, quer das emo\u00e7\u00f5es, quer das sensa\u00e7\u00f5es corporais no contexto sexual, bem como da maior capacidade para lidar com a ansiedade e expetativas face ao pr\u00f3prio comportamento e desempenho sexual.<br \/>\nRecuando at\u00e9 \u00e0 d\u00e9cada de 70, podemos encontrar algum paralelismo entre as atuais interven\u00e7\u00f5es baseadas no <em>mindfulness<\/em> e o foco sensorial proposto por Masters e Johnson, uma das estrat\u00e9gias cl\u00ednicas mais investigadas e que melhores resultados tem demonstrado na pr\u00e1tica cl\u00ednica.<br \/>\nA comunidade cl\u00ednica e cient\u00edfica tem vindo a incorporar com entusiasmo as interven\u00e7\u00f5es baseadas no <em>mindfulness,<\/em> sobretudo porque os resultados s\u00e3o encorajadores. Creio que est\u00e1 ainda longe de ser amplamente praticada, porque a sua incorpora\u00e7\u00e3o implica que os terapeutas sexuais conhe\u00e7am bem as abordagens baseadas no <em>mindfulness<\/em>, as atitudes fundamentais subjacentes \u00e0s pr\u00e1ticas e, sobretudo, que sejam praticantes regulares (provavelmente o mais importante). Diria que n\u00e3o basta ler uns livros e\/ou selecionar duas ou tr\u00eas estrat\u00e9gias, como quem aplica solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas. O <em>mindfulness<\/em>, assim entendido, estaria condenado a ser apenas mais uma t\u00e9cnica e, como tal, com benef\u00edcios muito limitados. N\u00e3o h\u00e1 muitos investigadores e h\u00e1 ainda menos cl\u00ednicos a n\u00edvel internacional, com prepara\u00e7\u00e3o adequada para usar as abordagens baseadas no <em>mindfulness<\/em> na terapia sexual, mas o interesse tem vindo a crescer. Creio que representa um dos mais recentes avan\u00e7os na terapia sexual e um avan\u00e7o bastante promissor.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; E em Portugal?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SV &#8211;<\/strong> Em Portugal, o caminho \u00e9 ainda mais lento, porque s\u00f3 h\u00e1 pouco tempo o <em>mindfulness<\/em> come\u00e7a a ser conhecido e aceite. H\u00e1 10 anos, quando comecei a fazer <em>workshops<\/em> de introdu\u00e7\u00e3o ao <em>mindfulness<\/em>, havia colegas que olhavam com alguma estranheza, como se se tratasse de uma pr\u00e1tica esot\u00e9rica\u2026 Encontrava na altura (e por vezes ainda hoje) algumas ideias equ\u00edvocas, associando a medita\u00e7\u00e3o a uma \u201ct\u00e9cnica de relaxamento\u201d, a uma forma de esvaziar a mente ou a um tipo de religi\u00e3o. N\u00e3o se trata disso, naturalmente. Trata-se sobretudo de cultivar uma atitude diferente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa experi\u00eancia, ao nosso sofrimento e \u00e0s suas causas. Enquanto pr\u00e1tica, trata-se sobretudo de observar a experi\u00eancia, notar sensa\u00e7\u00f5es corporais, pensamentos e\/ou emo\u00e7\u00f5es presentes (aceita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o julgamento). N\u00e3o chamar nem suprimir o que vem. Apenas tomar consci\u00eancia. Mesmo que seja desagrad\u00e1vel ou indesejado. Trata-se de treinar a mente nesta pr\u00e1tica de observa\u00e7\u00e3o particular do presente, de modo a que o m\u00fasculo da mente fique menos disperso em preocupa\u00e7\u00f5es e rumina\u00e7\u00f5es, e a vaguear entre o passado e o futuro. Em Portugal n\u00e3o h\u00e1 ainda muitos colegas com forma\u00e7\u00e3o s\u00f3lida em ambas as \u00e1reas (sexualidade e aten\u00e7\u00e3o plena), mas existe muita curiosidade e um interesse crescente.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Que impress\u00e3o tem da forma como \u00e9 atualmente reconhecida por psiquiatras e psic\u00f3logos, no nosso pa\u00eds e no mundo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SV &#8211;<\/strong> Desde que come\u00e7ou a ser introduzida no Ocidente, tem vindo a ser crescentemente reconhecida. \u00c9 uma pr\u00e1tica com tradi\u00e7\u00e3o milenar no oriente, inserida na filosofia budista, tendo sido integrada em programas de tratamento dirigidos a pessoas com dor cr\u00f3nica e outras condi\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, por Jon Kabat-Zin (1990). Em Portugal, vejo de ano para ano (sobretudo desde 2014), cada vez mais livros dedicados ao tema nas prateleiras das livrarias. E cada vez mais psic\u00f3logos e psiquiatras interessados em conhecer e aprofundar esta abordagem. V\u00e1rios colegas fazem-me encaminhamentos para uso combinado com medica\u00e7\u00e3o, ou porque nalguns casos a psicoterapia mais cl\u00e1ssica n\u00e3o resulta t\u00e3o bem, ou ainda como forma de assegurar manuten\u00e7\u00e3o dos ganhos terap\u00eauticos a longo prazo. N\u00e3o s\u00f3 diria que h\u00e1 aceita\u00e7\u00e3o desta abordagem, como at\u00e9 que parece ser moda&#8230; com todas as vantagens e consequ\u00eancias que isso tem. Entre as vantagens encontro o facto de haver uma sensibiliza\u00e7\u00e3o crescente para a import\u00e2ncia de desacelerar exig\u00eancias e de viver mais, de modo mais consciente e com maior qualidade de vida. Quanto aos perigos, alerto para o \u201cMacMindfulness\u201d: a tenta\u00e7\u00e3o de encontrar uma solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica e r\u00e1pida, que nos &#8220;resolva a vida&#8221;, enfim, mais uma receita, a juntar ao caderno de dicas para ser feliz.<br \/>\nGostava mais que pudesse ser uma pr\u00e1tica a integrar, se fizer sentido, e um convite a ver a nossa exist\u00eancia como uma casa de h\u00f3spedes:<\/p>\n<p>\u201cThis being human is a guest house.<\/p>\n<p>Every morning a new arrival.<\/p>\n<p>A joy, a depression, a meanness,<\/p>\n<p>some momentary awareness comes<\/p>\n<p>as an unexpected visitor.<\/p>\n<p>Welcome and entertain them all!\u201d<\/p>\n<p>(excerto do poema Guest House, de Rumi)[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] \u00c0 conversa com\u2026 Sandra Vilarinho &nbsp; Percursos\u2026 Presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica e\u00a0Membro da Comiss\u00e3o Executiva e coordenadora do Comit\u00e9 da Educa\u00e7\u00e3o Sexual da Federa\u00e7\u00e3o Europeia de Sexologia. Psic\u00f3loga cl\u00ednica, terapeuta sexual e instrutora de mindfulness. 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