{"id":7279,"date":"2017-07-03T13:15:22","date_gmt":"2017-07-03T13:15:22","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7279"},"modified":"2019-03-25T19:20:46","modified_gmt":"2019-03-25T19:20:46","slug":"a-pornografia-e-a-discussao-que-chegou-com-a-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2017\/07\/03\/a-pornografia-e-a-discussao-que-chegou-com-a-revolucao\/","title":{"rendered":"A pornografia e a discuss\u00e3o que chegou com a Revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/isabelround.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7302\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/isabelround-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/a><\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong>A reflex\u00e3o de\u2026<\/strong><br \/>\nIsabel Freire, investigadora associada do ICS-UL, doutorada em sociologia, com uma <a href=\"http:\/\/repositorio.ul.pt\/browse?type=author&amp;value=Ana+Isabel+Marques%2C+Freire+1971-\">tese<\/a> sobre a intimidade afetiva e sexual em Portugal (1968-1978). Autora de <a href=\"https:\/\/umapequenahistoriadosexo.wordpress.com\/\"><em>Uma pequena hist\u00f3ria do sexo<\/em><\/a>\u00a0 (educa\u00e7\u00e3o sexual para alunos do secund\u00e1rio). Jornalista e editora de conte\u00fados do site da SPSC.<\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Foto: <\/strong>Pedro Ferreira, Esfera dos Livros<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Email<\/strong><br \/>\nisabelfreire.press@gmail.com<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n6 de Julho de 2017<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]Com a Revolu\u00e7\u00e3o do 25 de Abril \u2013 e a queda da censura \u2013 chega \u00e0 sociedade portuguesa uma \u2018enxurrada\u2019 de discursos em torno da sexualidade, classificados como \u201ceventualmente chocantes\u201d. Representa\u00e7\u00f5es da nudez, da sensualidade e do prazer sexual \u2018invadem\u2019 as salas de cinema, as vitrinas das livrarias, os palcos de muitos teatros e as prateleiras dos quiosques (n\u00e3o s\u00f3 com revistas, mas tamb\u00e9m com discos er\u00f3ticos).<\/p>\n<p>\u201cAlgu\u00e9m perguntou a Lisboa se queria ser mais uma capital da pornografia? Se pretendia rivalizar com Londres, Copenhaga ou Nova Iorque na exibi\u00e7\u00e3o grosseira do sexo? Se acreditava ser essa a forma de as pessoas libertarem a sua sexualidade?\u201d. As quest\u00f5es s\u00e3o da jornalista Regina Louro, e foram publicadas num artigo da revista <em>Flama<\/em>, em Outubro de 1975. E a posi\u00e7\u00e3o \u00e9 partilhada por muitas feministas \u00e0 \u00e9poca. O <em>porno<\/em> \u00e9 sin\u00f3nimo de explora\u00e7\u00e3o e abuso do corpo, da sexualidade e da dignidade da mulher, muito embora se fa\u00e7a \u2018valer\u2019 como uma forma de liberta\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>O que pensaram os portugueses da chegada destes discursos? Que debates se fizeram a prop\u00f3sito? Nos jornais e revistas da \u00e9poca, questiona-se a natureza (er\u00f3tica, pornogr\u00e1fica ou de outra ordem) destes produtos. Os <em>media<\/em> interrogam-se acerca das motiva\u00e7\u00f5es de quem os procura e dos efeitos do seu consumo. O que deve o Estado fazer? Reabilitar a censura? Como regular a visibilidade e circula\u00e7\u00e3o destas propostas, no espa\u00e7o p\u00fablico? Certas figuras p\u00fablicas deixam o alerta: naquele momento de transi\u00e7\u00e3o para a democracia, as sexualidades dos portugueses\/as mantinham-se, ainda e afinal, em processo \u201ccontrarrevolucion\u00e1rio\u201d. E censurar a pornografia era outra forma de prolongar a l\u00f3gica repressiva do Estado Novo, remetendo um assunto que se evidenciava enfim como pol\u00edtico e p\u00fablico (o assunto da sexualidade) para a &#8216;velha&#8217; esfera do pessoal e do privado.<\/p>\n<h4><em>Poucos meses ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, o Expresso lan\u00e7a um \u201cInqu\u00e9rito\u201d (1974) a figuras nacionais de refer\u00eancia do cinema e da cultura. \u201cDeve ou n\u00e3o censurar-se a pornografia?\u201d, questiona o seman\u00e1rio. <\/em><\/h4>\n<p>Folheando jornais publicados entre 1974 e 1976, verificamos que s\u00e3o \u2018mais que muitos\u2019 os an\u00fancios publicit\u00e1rios a filmes que invocam a sexualidade como argumento central, seja no t\u00edtulo, nas fotografias promocionais ou nos <em>slogans <\/em>que os apresentam. Nos cartazes a estas pel\u00edculas anuncia-se a queda do tabu (\u201co acto de amor&#8230; como jamais foi visto no \u00e9cran\u201d<em>)<\/em>. Promete-se a transgress\u00e3o (\u201cum filme que perturba pela recusa de tabus sociais e sexuais!\u201d). Clama-se pela aceita\u00e7\u00e3o do gozo sexual, independente dos afetos e livre de compromissos (\u201cpossu\u00ed-te com prazer&#8230; deixo-te sem remorso\u201d). E reivindica-se o direito \u00e0 sexualidade feminina (\u201ca rapariga que queria saber tudo sobre sexo, pol\u00edtica e felicidade!\u201d). Al\u00e9m disso, o grande ecr\u00e3 sugere fantasias er\u00f3ticas para todos os gostos, comportamentos e pr\u00e1ticas sexuais menos convencionais (\u201cprimeiro, eram dois, sem quaisquer preconceitos,&#8230; a seguir, eram tr\u00eas, sem quaisquer preconceitos,&#8230; e depois, eram quatro, sem quaisquer preconceitos\u201d).<\/p>\n<p>O filme portugu\u00eas de Eduardo Geada (<em>Sofia e a Educa\u00e7\u00e3o Sexual<\/em>), com Io Apolloni, Lu\u00edsa Nunes, Artur Semedo e Carlos Ferreiro, estreia-se no cinema, ainda em 1974. N\u00e3o \u00e9 pornografia. \u00c9 um filme sobre a quest\u00e3o da sexualidade. Outros t\u00edtulos com enorme sucesso l\u00e1 fora, com abordagens (mais impl\u00edcitas ou mais expl\u00edcitas) das viv\u00eancias sexuais, deixam o p\u00fablico portugu\u00eas, literalmente, na fila: \u201cEstar a ver no \u2018\u00e9cran\u2019 um homem e uma mulher fazerem o que s\u00f3 se faz na intimidade \u00e9 um bocado forte. Mas talvez seja falta de h\u00e1bito da nossa parte, porque nunca nos davam estas coisas a ver\u201d, conta uma espetadora \u00e0 jornalista Susana Ruth Vasquez (<em>Modas e Bordados<\/em>, 1975), \u00e0 sa\u00edda do Cinema S\u00e3o Jorge, em Lisboa. Na mesma reportagem relata-se que as salas de cinema vendem um m\u00e1ximo de 6 bilhetes por cliente, para travar o mercado negro, que inflacionava bilhetes de 27.50 escudos para o dobro do valor.<\/p>\n<p>Na literatura a sexualidade \u00e9 tamb\u00e9m um argumento de peso. As editoras apostam em livros de autoajuda (discursos de m\u00e9dicos e psic\u00f3logos), frequentemente ilustrados com fotografias sugestivas de \u2018boas\u2019 pr\u00e1ticas para acabar de vez com a ignor\u00e2ncia da fisiologia, o medo da busca er\u00f3tica e a culpa do prazer sexual. No an\u00fancio ao livro <em>Guia \u00cdntimo das Rela\u00e7\u00f5es Sexuais<\/em> apregoa-se que esta era uma forma de o leitor aprender a \u2018fazer amor\u2019 de forma \u201cinventiva\u201d e \u201clivre\u201d. Na publicidade ao <em>Guia Sexual da Mo\u00e7a Moderna<\/em> (do psic\u00f3logo Wardell B. Pomeroy) promete-se que a leitura vai ensinar \u00e0s raparigas tudo sobre rela\u00e7\u00f5es sexuais pr\u00e9-matrimoniais.<\/p>\n<h4><em>Quando olhamos para os discursos publicados na imprensa portuguesa dos anos 1970, n\u00e3o encontramos a defesa aberta do chamado \u201camor livre\u201d<br \/>\n<\/em><\/h4>\n<p>Poucos meses ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, o <em>Expresso<\/em> lan\u00e7a um \u201cInqu\u00e9rito\u201d (1974) a figuras nacionais de refer\u00eancia do cinema e da cultura. \u201cDeve ou n\u00e3o censurar-se a pornografia?\u201d, questiona o seman\u00e1rio. Representantes de cineclubes vinham manifestando indigna\u00e7\u00e3o, pela falta de oportunidade para exibir filmes de \u2018qualidade\u2019. As salas estariam sobreocupadas com ofertas de pel\u00edculas alegadamente er\u00f3ticas ou pornogr\u00e1ficas. M\u00e1rio Cesariny, uma das personalidades convidadas pelo <em>Expresso<\/em> a escrever sobre o assunto, considera um \u201cgrave dist\u00farbio social e mental\u201d, taxar-se de pornogr\u00e1ficos os filmes que ent\u00e3o se exibiam: \u201cN\u00e3o s\u00e3o filmes \u2019de sexo\u2018, s\u00e3o filmes com sexo\u2018 (pouco sexo), corrija-se [\u2026]\u201d (<em>Expresso<\/em>, 1974). Para Cesariny, pornografia e erotismo n\u00e3o eram realidades distintas. A \u201cintentona\u201d de \u201cdestrin\u00e7\u00e1-los\u201d era ali\u00e1s uma p\u00e9ssima ideia. Quando muito, poder-se-ia dizer que o porno era \u201co parente pobre do er\u00f3tico\u201d, e que nem todos pod\u00edamos ser ricos. Para o poeta surrealista estava portanto fora de quest\u00e3o a censura do cinema er\u00f3tico-pornogr\u00e1fico em fun\u00e7\u00e3o de um argumento de moraliza\u00e7\u00e3o da sexualidade.<\/p>\n<p>Nat\u00e1lia Correia (<em>Expresso<\/em>, 1974) tamb\u00e9m discorda da ideia de reabilitar a censurar para regular a pornografia. \u201cDe momento n\u00e3o vejo outra sa\u00edda, sen\u00e3o deixar \u00e0s pessoas a liberdade de consumirem os produtos que lhes parecem mais apetec\u00edveis. Querem pornografia? Fartem-se\u2026 Se se morre de fome, tamb\u00e9m se morre de fartura\u201d. Eduardo Geada, outro articulista convidado pelo \u201cInqu\u00e9rito\u201d do <em>Expresso<\/em>, defende que \u201ca pornografia existir\u00e1 enquanto durar a repress\u00e3o sexual, tal como o crime existir\u00e1 enquanto durar a mis\u00e9ria social\u201d. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 portanto educar. Educar para a sa\u00fade sexual. E para o cineasta, a sexualidade \u00e9 saud\u00e1vel quando aceita o \u201cdesejo\u201d, e quando tem no\u00e7\u00e3o de que o prazer passa pela \u201cternura\u201d. Esta forma &#8220;s\u00e3&#8221; de entender e viver a sexualidade dispensaria portanto a pornografia.<\/p>\n<p>O lugar dos afetos nas viv\u00eancias da sexualidade \u00e9 um aspecto importante na discuss\u00e3o sobre pornografia. Ali\u00e1s, na discuss\u00e3o sobre sexualidade, em geral, neste per\u00edodo. Pode haver sexo sem amor? Quando olhamos para os discursos publicados na imprensa portuguesa dos anos 1970, n\u00e3o encontramos a defesa aberta do chamado \u201camor livre\u201d (de uma sexualidade independente do amor e\/ou desvinculada do compromisso), mesmo entre os defensores de vis\u00f5es tendencialmente mais liberalizantes. \u201cO sexo integra-se no amor e s\u00f3 nele tem sentido\u201d. Assim sendo, a pornografia \u2013 que vira \u201co sexo contra o amor humano\u201d \u2013 deve ser alvo de \u201csan\u00e7\u00f5es limitadoras\u201d. O racioc\u00ednio \u00e9 de Eduardo F. T. David, leitor que envia uma carta ao <em>Expresso<\/em> (1974), publicada a prop\u00f3sito do \u201cInqu\u00e9rito\u201d \u00e0 pornografia.<\/p>\n<h4><em>Fernando Ribeiro de Mello clama por uma revolu\u00e7\u00e3o sexual urgente, no nosso pa\u00eds, que passe pela \u201clegaliza\u00e7\u00e3o\u201d da homossexualidade, pela emancipa\u00e7\u00e3o da mulher, e pela necessidade de medidas legislativas e de educa\u00e7\u00e3o sexual<\/em><\/h4>\n<p>Entre os m\u00faltiplos contributos para pensar o tema neste seman\u00e1rio<em>, <\/em>destaca-se o de Fernando Ribeiro de Mello, criador da <em>Afrodite<\/em>, editora que publicara durante o Estado Novo diversos livros pol\u00e9micos, proibidos pela censura, e um deles alvo de processo judicial, por conte\u00fado obsceno e atentado \u00e0 moral p\u00fablica (<em>Antologia da Poesia Portuguesa Er\u00f3tica e Sat\u00edrica)<\/em>. No seu depoimento no <em>Expresso<\/em> (1974) o editor da <em>Afrodite<\/em> clama por uma revolu\u00e7\u00e3o sexual urgente, no nosso pa\u00eds, que passe pela \u201clegaliza\u00e7\u00e3o\u201d da homossexualidade, pela emancipa\u00e7\u00e3o da mulher, e pela necessidade de medidas legislativas e de educa\u00e7\u00e3o sexual (\u201cfrontal\u201d e \u201cclara\u201d desde a escola), que garantissem aos indiv\u00edduos \u201co direito \u00e0 plena express\u00e3o da personalidade sexual de cada um\u201d (<em>Expresso<\/em>, 1974).<\/p>\n<p>Neste artigo de opini\u00e3o, Fernando Ribeiro de Mello arrasta a discuss\u00e3o sobre pornografia para um plano de maior amplitude e aprofundamento, o plano de uma cidadania emergente, a <em>da sexualidade.<\/em> Defende que uma sociedade democr\u00e1tica n\u00e3o pode tratar de forma discriminat\u00f3ria e desigual (portanto contrarrevolucion\u00e1ria) os seus cidad\u00e3os, seja em fun\u00e7\u00e3o da sua sexualidade ou do seu g\u00e9nero. Para este editor vision\u00e1rio, a homofobia e o machismo \u2013 essas sim \u2013 eram cenas efetivamente \u201cchocantes\u201d, da realidade portuguesa p\u00f3s-25 de abril.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] A reflex\u00e3o de\u2026 Isabel Freire, investigadora associada do ICS-UL, doutorada em sociologia, com uma tese sobre a intimidade afetiva e sexual em Portugal (1968-1978). Autora de Uma pequena hist\u00f3ria do sexo\u00a0 (educa\u00e7\u00e3o sexual para alunos do secund\u00e1rio). Jornalista e editora de conte\u00fados do site da SPSC. 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