{"id":7284,"date":"2017-07-03T13:16:41","date_gmt":"2017-07-03T13:16:41","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7284"},"modified":"2019-03-25T19:19:34","modified_gmt":"2019-03-25T19:19:34","slug":"o-erotismo-na-sociedade-pos-moderna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2017\/07\/03\/o-erotismo-na-sociedade-pos-moderna\/","title":{"rendered":"Ficheiros er\u00f3ticos"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>A reflex\u00e3o de\u2026<\/strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/anaround.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7300\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/anaround-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/sites.google.com\/site\/anaalexandracarvalheira\/\">Ana Alexandra Carvalheira<\/a>, psicoterapeuta, professora auxiliar no ISPA, investigadora no William James Center for Research. Ex-Presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n4 julho 2017<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Foto: <\/strong>Rui Jorge, Esfera das Ideias, 21015<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]Vivemos tempos de grandes transforma\u00e7\u00f5es sociais na forma de viver as rela\u00e7\u00f5es amorosas e sexuais. S\u00e3o tempos fren\u00e9ticos, cheios de canais de comunica\u00e7\u00e3o que se abrem por todos os lados. A Internet \u00e9 uma ferramenta social ao servi\u00e7o do amor e do sexo e o imediatismo tornou-se um valor fundamental. O amor \u00e9 hoje um bem de primeira necessidade e a realiza\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 desejada e obrigat\u00f3ria mas, ao mesmo tempo, os la\u00e7os amorosos tornaram-se fr\u00e1geis. Zygmunt Bauman fala do \u201camor l\u00edquido\u201d e aponta o dedo ao medo de estabelecer rela\u00e7\u00f5es de longa dura\u00e7\u00e3o e \u00e0 tend\u00eancia para as rela\u00e7\u00f5es fugazes, superficiais e com pouco compromisso. O Dr. Francisco Allen Gomes constata uma certa \u201cdesregula\u00e7\u00e3o da sexualidade \u00e0 semelhan\u00e7a do que aconteceu com a economia e com a estrutura social\u201d. Diz que as interdi\u00e7\u00f5es e os tabus se desmoronaram e a diversidade sexual \u00e9 a regra. Estas an\u00e1lises levantam muitas quest\u00f5es. Tenho pensado sobre o impacto de tudo isto no erotismo. Quais s\u00e3o as amea\u00e7as ao erotismo nestes tempos modernos?<\/p>\n<p>Antes de mais, de que estamos a falar quando falamos de erotismo? A palavra \u201cer\u00f3tico\u201d \u00e9 usada de tantas formas. Falamos de fantasia er\u00f3tica, est\u00edmulo er\u00f3tico, desejo er\u00f3tico, intelig\u00eancia er\u00f3tica, s\u00f3 para dar alguns exemplos. H\u00e1 21 anos, quando comecei a minha forma\u00e7\u00e3o em sexologia, o tema da minha monografia (nesse que foi o primeiro curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da SPSC) foi o Erotismo. N\u00e3o fazendo ideia onde me estava a meter, foi o ano em que li mais poesia, romances e filosofia. A dada altura comecei a fazer perguntas aos amigos. <em>O que \u00e9 para ti o Erotismo? D\u00e1-me um exemplo<\/em>. E os exemplos chegaram: \u201c<em>Uma camisa de seda cujo decote a torna ainda mais seda\u201d; <\/em><em>\u201cUm sussurro ao ouvido, que quase toca sem tocar\u201d; <\/em><em>\u201cO movimento do cruzar de pernas de uma mulher. Tem que ser lento, e a perna que cruza deve passar muito pr\u00f3ximo da outra, que se inclina ligeiramente\u201d; <\/em><em>\u00c9 acordar num s\u00f3t\u00e3o de madeira com cheiro a ma\u00e7\u00e3s<\/em>\u201d. Com este exerc\u00edcio cheguei \u00e0 primeira ideia. O erotismo \u00e9 um fen\u00f3meno individual, \u00e9 como as impress\u00f5es digitais, cada um tem o seu.<\/p>\n<p>O erotismo \u00e9 um fen\u00f3meno individual, \u00e9 como as impress\u00f5es digitais, cada um tem o seu.<\/p>\n<p>Vinte anos depois e porque sou investigadora, fui pesquisar sobre erotismo nas bases de dados, a ver o que nos diz a ci\u00eancia do sexo. E comprovei o que j\u00e1 desconfiava. A pesquisa nas revistas cient\u00edficas internacionais no campo da sexualidade revelou apenas 153 artigos nos \u00faltimos 40 anos, ou seja, nada. Mas o que se passa? Por que raz\u00e3o os investigadores da sexualidade n\u00e3o se interessam por este t\u00f3pico absolutamente central para a compreens\u00e3o da sexualidade de homens e mulheres? D\u00e1 vontade de perguntar, em jeito de provoca\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 feito do erotismo dos investigadores do sexo? O que sim, \u00e9 certo, \u00e9 que nas bases de dados da ci\u00eancia, o erotismo est\u00e1 espalhado por uma diversidade de \u00e1reas, mas sobretudo encontra-se na literatura e nas artes. Afinal, quem sabe de erotismo s\u00e3o os artistas, os poetas e os escritores. Vejamos ent\u00e3o.<\/p>\n<h4><em>O erotismo \u00e9 um fen\u00f3meno individual, \u00e9 como as impress\u00f5es digitais, cada um tem o seu<\/em><\/h4>\n<p>Em 1957, Georges Battaille, escritor e antrop\u00f3logo franc\u00eas, publica <em>L\u2019Erotism<\/em>, onde afirma que a ess\u00eancia do erotismo resulta de uma inextrinc\u00e1vel associa\u00e7\u00e3o do prazer sexual com o interdito. Diz ainda que &#8220;um homem que ignora o erotismo \u00e9 t\u00e3o estranho quanto um homem sem experi\u00eancia interior\u201c. \u00c9 uma an\u00e1lise complexa, mas que oferece esta componente do erotismo, o interdito.<\/p>\n<p>Ainda em Fran\u00e7a, o psic\u00f3logo Bernard Muldworf escreveu <em>Vers la Soci\u00e9t\u00e9 \u00c9rotique<\/em> (1972), livro em que apresenta uma defini\u00e7\u00e3o muito interessante. O desejo projeta no exterior uma trajet\u00f3ria que termina em pontilhado, cujos vazios constituem o erotismo. O desejo precisa do erotismo para se manifestar. E os sinais er\u00f3ticos s\u00e3o os elementos mobilizadores do desejo.<\/p>\n<p>Vinte anos depois, Octavio Paz, escritor e poeta mexicano, pr\u00e9mio nobel da literatura, escreve um ensaio riqu\u00edssimo sobre o amor e o erotismo, com o t\u00edtulo <em>La Llama Doble<\/em> (1993). Neste ensaio afirma que o erotismo \u00e9 a po\u00e9tica do corpo, o testemunho dos sentidos. Os sentidos tornam-se servos da imagina\u00e7\u00e3o e deixam-nos ver o invis\u00edvel e ouvir o inaud\u00edvel. O erotismo \u00e9 aquilo que a imagina\u00e7\u00e3o acrescenta \u00e0 natureza. Octavio Paz aporta mais dois elementos para a compreens\u00e3o do conceito: os sentidos e a imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Recentemente, Esther Perel, uma famosa psicoterapeuta com uma longa experi\u00eancia cl\u00ednica e em diversos contextos culturais, fala de \u201cintelig\u00eancia er\u00f3tica\u201d e da sua import\u00e2ncia para manter o erotismo no casal. Diz que os ingredientes s\u00e3o o mist\u00e9rio, a curiosidade, a brincadeira e a novidade, mas o ingrediente central \u00e9 a imagina\u00e7\u00e3o. Diz que crise do desejo \u00e9 muitas vezes uma crise da imagina\u00e7\u00e3o. Em 2006 publica <em>Mating in Captivity<\/em>, onde explica a import\u00e2ncia da reconcilia\u00e7\u00e3o do er\u00f3tico com o dom\u00e9stico. Recomendo vivamente esta an\u00e1lise sobre o investimento fundamental no erotismo do casal. Mas j\u00e1 antes John Bancroft falara da <em>imagery er\u00f3tica<\/em> (1989), como uma capacidade de gerar experi\u00eancias imagin\u00e1rias.<\/p>\n<p>Julgo que chegamos aos componentes essenciais do Erotismo que nos permitem uma aproxima\u00e7\u00e3o ao conceito. A componente <em>sensorial<\/em>, que inclui os cinco sentidos e que constitui o substrato biol\u00f3gico. A <em>imagina\u00e7\u00e3o<\/em>, que funciona como um palco onde criamos, (re)elaboramos e ensaiamos tudo aquilo que pode mobilizar o desejo sexual. O erotismo \u00e9 essa esp\u00e9cie de combust\u00edvel do desejo. Outros elementos que o constituem podem ser a transgress\u00e3o, a novidade, a surpresa e o jogo.<\/p>\n<p>Nesta r\u00e1pida deambula\u00e7\u00e3o \u00e9 incontorn\u00e1vel uma refer\u00eancia a Francesco Alberoni, que nas v\u00e1rias publica\u00e7\u00f5es na d\u00e9cada de 80 t\u00e3o bem explica as diferen\u00e7as de g\u00e9nero no erotismo. O masculino, como sendo um erotismo descont\u00ednuo, na forma de epis\u00f3dios, mais fragmentado, menos elaborado, <em>\u201cum interl\u00fadio er\u00f3tico numa agenda <\/em><\/p>\n<p><em>carregada\u201d (<\/em>Alberoni, 1986). E por outro lado, o erotismo feminino mais baseado na componente emocional, menos visual, menos sensorial, com um imagin\u00e1rio elaborado na forma de narrativa. A mulher tamb\u00e9m admira a beleza do corpo masculino mas, para aquele corpo se tornar er\u00f3tico, para acender o desejo dela, aquele corpo tem que prometer intimidade amorosa. Mas ser\u00e1 que esta dicotomia er\u00f3tica ainda faz sentido? Ainda \u00e9 assim neste tempo de grande liberdade na persegui\u00e7\u00e3o do prazer sexual e a caminho da igualdade de g\u00e9nero? Continuamos a ter dois erotismos?<\/p>\n<h4><em>[&#8230;] a dicotomia er\u00f3tica perdeu for\u00e7a. Faz cada vez menos sentido falar de diferen\u00e7as de g\u00e9nero mas antes analisar as diferen\u00e7as entre as mulheres, dentro do grupo das mulheres, e as diferen\u00e7as entre os homens, sem nunca perdermos de vista a ideia da diversidade, claro est\u00e1. <\/em><\/h4>\n<p>Com o objectivo de responder a esta quest\u00e3o, levei a cabo um estudo qualitativo onde usei grupos focais, para perceber as componentes do erotismo nos jovens. Fizemos 11 grupos com uma amostra total de 78 homens e mulheres. Lan\u00e7ava a pergunta e registava a resposta dos elementos do grupo, que gerava uma energia estimulante e motivadora de discuss\u00e3o. Basicamente emergiram quatro componentes principais: a transgress\u00e3o\/interdito (e.g. sexo num local proibido), a novidade (e.g. a surpresa, o inesperado, sair da rotina), o sensorial (e.g. beijos, cheiros, determinada forma de tocar), e a imagina\u00e7\u00e3o (e.g. fantasias). Outros elementos foram caracter\u00edsticas individuais (e.g. intelig\u00eancia, sentido de humor), o jogo (role-play, fingir que se \u00e9 isto ou aquilo), dom\u00ednio\/submiss\u00e3o (dominar a cena sexual, mas tamb\u00e9m ser dominado), e a comunica\u00e7\u00e3o (e.g. determinadas conversas, mensagens por telefone). Com base neste estudo e na observa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, eu diria que a dicotomia er\u00f3tica perdeu for\u00e7a. Faz cada vez menos sentido falar de diferen\u00e7as de g\u00e9nero. Antes analisar as diferen\u00e7as entre as mulheres, dentro do grupo das mulheres, e as diferen\u00e7as entre os homens, sem nunca perdermos de vista a ideia da diversidade, claro est\u00e1. O erotismo resulta da experi\u00eancia e cada um vai aumentando os seus ficheiros er\u00f3ticos, numa esp\u00e9cie de patrim\u00f3nio fundamental para a sua sexualidade. E muitas vezes as dificuldades sexuais na vida adulta resultam de uma certa pobreza neste patrim\u00f3nio. Digamos que algumas pessoas t\u00eam os ficheiros er\u00f3ticos praticamente vazios. Mas sobre a deserotiza\u00e7\u00e3o h\u00e1 muito mais a dizer.<\/p>\n<p>Considero que vivemos um tempo que traz amea\u00e7as ao erotismo. Por um lado, a banaliza\u00e7\u00e3o generalizada do sexo, para a qual a comunica\u00e7\u00e3o social tem contribu\u00eddo. Por outro lado, a esfera p\u00fablica tomou espa\u00e7o \u00e0 esfera privada, \u00e0 do indiv\u00edduo e \u00e0 do casal. A realiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a n\u00edvel social imp\u00f5em-se (para al\u00e9m do profissional, familiar, amoroso e sexual) e h\u00e1 uma certa press\u00e3o para haver maior exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica. O espa\u00e7o privado perdeu import\u00e2ncia para o casal. Valores como o imediatismo, o poder da imagem e da informa\u00e7\u00e3o que chega por tantos canais e \u00e9 preciso processar, tomaram a dianteira. Mas o erotismo precisa de tempo e de espa\u00e7o. Outra amea\u00e7a ao erotismo \u00e9 uma certa desconex\u00e3o com o corpo. Vivemos mais desligados do corpo, com menos sensorialidade. A vida acontece nos ecr\u00e3s, longe da natureza e isto tem consequ\u00eancias na nossa consci\u00eancia e rela\u00e7\u00e3o com o corpo, onde supostamente sentimos os est\u00edmulos er\u00f3ticos. O corpo anda esquecido neste sentido. Lembramo-nos dele para atingir os c\u00e2nones de beleza impostos socialmente mas, muitas vezes n\u00e3o o sentimos. N\u00e3o somos o corpo. Octavio Paz disse que o capitalismo dessacralizou o corpo e transformou-o num instrumento de marketing.<\/p>\n<p>Por tudo isto, venho em defesa do erotismo. Um erotismo que nos permita uma sexualidade mais livre e completa. Um erotismo que seja uma \u00e2ncora na rela\u00e7\u00e3o amorosa. E para quem faz sexologia cl\u00ednica, afirmo a necessidade de trazer o erotismo para a Terapia Sexual.<\/p>\n<p>Rolando Toro, Chileno fundador da Biodanza, dizia que \u201c\u00e9 preciso resgatar a fauna boa que h\u00e1 em n\u00f3s\u201d. Ou seja, existir mais no corpo e nas sensa\u00e7\u00f5es. Porque a an\u00e1lise e o controlo, espantam o desejo.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] A reflex\u00e3o de\u2026 Ana Alexandra Carvalheira, psicoterapeuta, professora auxiliar no ISPA, investigadora no William James Center for Research. 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