{"id":7312,"date":"2017-07-05T08:40:22","date_gmt":"2017-07-05T08:40:22","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7312"},"modified":"2019-03-25T19:14:59","modified_gmt":"2019-03-25T19:14:59","slug":"erotismo-e-sexualidades-queer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2017\/07\/05\/erotismo-e-sexualidades-queer\/","title":{"rendered":"Erotismo e sexualidades queer"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/feenando-cascais.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-5744\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/feenando-cascais-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/a><\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong>Uma reflex\u00e3o de\u2026<\/strong><br \/>\nAnt\u00f3nio Fernando Cascais, <a href=\"http:\/\/www.fcsh.unl.pt\/faculdade\/docentes\/fcc\">professor universit\u00e1rio<\/a> na \u00e1rea das Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o (Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa) e especialista em teoria <em>queer. <\/em>Autor do livro recentemente publicado, <em><a href=\"http:\/\/www.sistemasolar.pt\/pt\/produto\/259\/pt\/hospital-miguel-bombarda-1968\/\">Hospital Miguel Bombarda &#8211; 1968<\/a>, <\/em>que organiza com Margarida Medeiros. A obra nasce no contexto de um projeto de investiga\u00e7\u00e3o que coordena sobre a <a href=\"http:\/\/spsc.pt\/index.php\/2016\/08\/16\/a-historia-da-cultural-visual-da-medicina-em-portugal\/\">Hist\u00f3ria da Cultura Visual da Medicina em Portugal<\/a>.<em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\nJulho 2017<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]Uma dificuldade de monta se levanta quando se pretende abordar o erotismo nas sexualidades <em>queer<\/em> (outrora equivocamente reduzidas \u00e0 \u201chomossexualidade\u201d, seja l\u00e1 o que for que pudesse ser entendido por isso). \u00c9 que, durante muito tempo, essas sexualidades foram sujeitas a um aut\u00eantico processo de \u201cobsceniza\u00e7\u00e3o\u201d que fazia com que toda e qualquer representa\u00e7\u00e3o delas \u2013 visual, liter\u00e1ria, etc. \u2013 valesse como imagem pornogr\u00e1fica. Tanto assim era \u2013 e, em n\u00e3o pequena medida, ainda continua a ser \u2013 que podia passar por pornografia o mais casto beijo nas faces entre duas mulheres, ou as mais an\u00f3dinas m\u00e3o dadas num casal de homens convenientemente compostinhos e tranquilizadoramente m\u00e1sculos, ou ent\u00e3o a imagem de uma pessoa que, sem qualquer artif\u00edcio de maquilhagem ou de indument\u00e1ria, ostentasse carater\u00edsticas de g\u00e9nero ou de identidade sexual tidas por desconformes relativamente ao seu sexo socialmente percebido (obviamente s\u00f3 masculino ou s\u00f3 feminino). Era em si mesma pornogr\u00e1fica qualquer representa\u00e7\u00e3o de algo que essas pessoas fizessem e que, por o fazerem, denunciava aquilo que em ess\u00eancia eram, praticantes da homossexualidade ou de outra coisa feia qualquer, que n\u00e3o era para ser mostrada em p\u00fablico e que n\u00e3o podia sen\u00e3o fazer mal a pessoas fr\u00e1geis e influenci\u00e1veis que a ela fossem expostas, crian\u00e7as sobretudo. Eis a principal raz\u00e3o para o facto de as discuss\u00f5es, que fizeram escola, sobre a poss\u00edvel distin\u00e7\u00e3o entre erotismo e pornografia, terem deixado de fora as express\u00f5es das sexualidades <em>queer<\/em>: precisamente porque elas pareciam ser definitivamente irrecuper\u00e1veis para o resguardado dom\u00ednio da arte er\u00f3tica. O que faz com que a abordagem do erotismo <em>queer<\/em> se veja obrigada a principiar pela transcend\u00eancia cr\u00edtica da abje\u00e7\u00e3o para que, mais do que qualquer outro, ele foi longamente relegado. E desafio tanto mais arriscado quanto fascinante.<\/p>\n<p>Por serem in\u00fameros os exemplos de erotismo <em>queer <\/em>que podemos encontrar nas artes, no cinema e na literatura, basta que nos concentremos em autores portugueses para depararmos com abundantes exemplos ilustrativos, paradoxalmente negligenciados entre n\u00f3s a favor de nomes internacionais sem que o m\u00e9rito respetivo o justifique.<\/p>\n<p>Duas considera\u00e7\u00f5es adicionais se imp\u00f5em ainda. Primeiro, que qualquer poss\u00edvel distin\u00e7\u00e3o entre erotismo e pornografia depende estreitamente do que numa dada cultura se entende por sexualidade e, por maioria de raz\u00e3o, quando tal sexualidade se afigura ser em absoluto sexualidade, pura sexualidade incapaz de se confundir ou sublimar em amor, como sempre se concebeu que fossem as sexualidades <em>queer<\/em>. Segundo, que, se o erotismo (tal como a pornografia ou a beleza) est\u00e1 nos olhos de quem o v\u00ea, ent\u00e3o s\u00e3o tanto mais imediata e intensamente percebidos como er\u00f3ticos os corpos j\u00e1 culturalmente constitu\u00eddos pelo facto de serem olhados, ao contr\u00e1rio do que acontece com os corpos que sustentam o olhar, cujo desejo seria caraterizado por uma acentuada visualidade, que o mesmo \u00e9 dizer, por uma intensa puls\u00e3o esc\u00f3pica. Na tradi\u00e7\u00e3o ocidental herdada da Antiguidade cl\u00e1ssica, \u00e9 a feminilidade que se constituiu como objeto pelo, e para o, olhar masculino. Da\u00ed prov\u00e9m em \u00faltima an\u00e1lise a \u201cmulher-objeto\u201d constitu\u00edda como ser-para-o-homem, sem nada de equivalente ou sim\u00e9trico do lado deste. Homem v\u00ea, mulher \u00e9 (para ser) vista.<\/p>\n<h4><em>O erotismo queer comporta ainda uma dimens\u00e3o fundamental que diz respeito ao corpo como mat\u00e9ria-prima com que trabalham os processos de re-subjetiva\u00e7\u00e3o e que j\u00e1 nada tem que ver com a categoria da sexualidade (hetero ou homo-sexualidade) como dado biol\u00f3gico ou facto \u201cnatural\u201d cuja verdade \u00faltima seria revelada por uma qualquer scientia sexualis m\u00e9dica, psiqui\u00e1trica ou psicol\u00f3gica<\/em><\/h4>\n<p>Ou era. Acontece que um dos tra\u00e7os mais salientes do erotismo <em>queer<\/em> consiste na erotiza\u00e7\u00e3o do corpo masculino de um modo que, antes dele, era exclusivo do corpo feminino. Doravante, o que nele \u00e9 evidenciado s\u00e3o as zonas de passividade, a saber, aquelas que carecem de ser tocadas por outrem para serem estimuladas, designadamente os mamilos e os gl\u00fateos. Pioneiro nesta via \u00e9 o cinema de Jo\u00e3o Pedro Rodrigues, mas trata-se nele de uma est\u00e9tica classicamente <em>gay<\/em>, designadamente em alguns dos seus filmes como<em> Odete<\/em> (2005, 97\u2019), e <em>O corpo de Afonso<\/em> (2013, 30\u2019). Em contrapartida, algumas das curtas-metragens do cineasta Ant\u00f3nio da Silva p\u00f5em em pr\u00e1tica um verdadeiro programa de erotiza\u00e7\u00e3o dos corpos masculinos, diferenciando-se decididamente do c\u00e2none est\u00e9tico-er\u00f3tico prevalecente que uniformiza beleza, juventude e musculatura em crit\u00e9rios de exig\u00eancia imposs\u00edveis de emular para a esmagadora maioria de homens, <em>gay<\/em> e n\u00e3o s\u00f3. Nos seus <em>Gingers<\/em> (2013, 15\u2019) e<em> Daddies<\/em> (2014, 16\u201928\u2019\u2019), Ant\u00f3nio da Silva explora respetivamente os nichos er\u00f3ticos dos homens ruivos e dos homens maduros, estes normalmente ostracizados pelo geracionismo <em>gay<\/em>, ao passo que em <em>Julian<\/em> (2012, 9\u2019) se trata de uma \u201c<em>road trip<\/em>\u201d veraneante de regresso a uma natureza ad\u00e2mica, e em <em>Dancers<\/em> (2014, 10\u2019) uma s\u00e9rie de atores e bailarinos oferecem-nos generosamente a sua nudez nas poses de dan\u00e7a e atua\u00e7\u00e3o t\u00edpicas dos seus desempenhos profissionais. Tal como nos seus outros <em>Beach 19<\/em> (2014, 10\u2019), <em>Cariocas \/ Mix Brasil<\/em> (2014, 10\u2019), <em>Nude Dudes<\/em> (2014, 10\u2019), alguns dos atores fazem jus \u00e0 puls\u00e3o esc\u00f3pica, indiferentemente <em>gay<\/em> e hetero, que concentra o olhar na ere\u00e7\u00e3o e no cl\u00edmax. No atual cinema portugu\u00eas, Ant\u00f3nio da Silva volve sobre o corpo masculino um olhar reflexivo que bem se pode dizer que \u00e9 id\u00eantico ao que j\u00e1 Leonardo da Vinci e Miguel \u00c2ngelo deram forma aos seus \u201c<em>ignudi<\/em>\u201d, um olhar que deslizou pelas angulosas muscularidades fotografadas por George Platt Lynes, Herb Ritts, Bruce of Los Angeles, que exp\u00f4s a carnalidade branca e crua de Lucien Freud num ou noutro dos modelos do filme de tez mais clara e pose mais acrob\u00e1tica, ou a veemente genitalidade de algum Robert Mapplethorpe, e, enfim, que acolheu o eretismo de Pablo Picasso. A frontalidade com que os atores e bailarinos portugueses de <em>Dancers<\/em> se despem para a c\u00e2mara de olhos agressivamente postos nela, isto \u00e9, em n\u00f3s, que os fixamos, revela que, ao inv\u00e9s de constitu\u00edrem uma pura mat\u00e9ria-prima passivamente mold\u00e1vel pelo realizador, partilham com este uma atitude que pretende dobrar a vis\u00e3o do espectador e submet\u00ea-la \u00e0 verdadeira exig\u00eancia bem notada por Paul Klee: que agora s\u00e3o as imagens que nos v\u00eaem. Eis porque, longe de sequer estimularem o simples voyeurismo, os filmes de Ant\u00f3nio da Silva constituem aut\u00eanticos tratados sobre a vis\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 por equ\u00edvoco se pode ver neste oferecer-se ao olhar do outro um sinal de \u201chomossexualidade\u201d, quando se sabe que elas concentram em igual medida a aten\u00e7\u00e3o visual das mulheres. De resto, tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o apenas os corpos percebidos como masculinos ou que exibem carateres secund\u00e1rios saturados de sentidos sociais da masculinidade que concitam a aten\u00e7\u00e3o tanto de homens como de mulheres. Embora consideravelmente menos abundante entre n\u00f3s, existe uma linhagem de representa\u00e7\u00e3o do erotismo <em>queer <\/em>que tem por objeto corpos femininos, desde os desenhos datados de antes da d\u00e9cada de 1950, mas rec\u00e9m-descobertos, da pintora Of\u00e9lia Marques, que nos d\u00e3o a ver de forma eloquente o amplexo er\u00f3tico de casais de mulheres, at\u00e9 a obras como a recente curta-metragem <em>Inserts<\/em> (2010, 10\u2019), de Filipa C\u00e9sar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m s\u00f3 por redutor equ\u00edvoco se pode falar de uma feminiza\u00e7\u00e3o da masculinidade. Na verdade, seria prefer\u00edvel falar de uma transgeneriza\u00e7\u00e3o, que respeita \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o dos corpos com atributos de feminilidade e de masculinidade independentemente dos seus sexos biol\u00f3gicos. Dessa transgeneriza\u00e7\u00e3o, que constitui um processo social global, t\u00eam dado abundantemente conta as artes e a literatura, explorando-lhe igualmente as virtualidades er\u00f3ticas. Exemplos patentes, encontramo-los em obras do realizador Carlos Concei\u00e7\u00e3o, tais como <em>Boa noite, Cinderela<\/em> (2014, 30\u2019), a anamorfose ultra-rom\u00e2ntica e g\u00f3tica da hist\u00f3ria Gata Borralheira num trio amoroso, ou <em>Carne<\/em> (2010, 20\u2019), que revela um Cristo vulner\u00e1vel e indecentemente belo que mais parece ter padecido uma viola\u00e7\u00e3o do que a morte na cruz. Quem porventura levou mais longe a er\u00f3tica da transgeneriza\u00e7\u00e3o ter\u00e3o sido Vasco Ara\u00fajo e Gabriel Abrantes, o primeiro com a performance de uma diva que canta \u00f3pera transportada aos ombros de seis culturistas em <em>Some Enchanted Evening<\/em> (2001), e o segundo com <em>Ol\u00edmpia I<\/em> e <em>Ol\u00edmpia II <\/em>(2006, 9\u20198\u2019\u2019), filmes em que Abrantes e Katie Widloski recriam o c\u00e9lebre nu reclinado do quadro \u201cOl\u00edmpia\u201d de Gustave Manet.<\/p>\n<h4><em>[&#8230;] seria prefer\u00edvel falar de uma transgeneriza\u00e7\u00e3o, que respeita \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o dos corpos com atributos de feminilidade e de masculinidade independentemente dos seus sexos biol\u00f3gicos. Dessa transgeneriza\u00e7\u00e3o, que constitui um processo social global, t\u00eam dado abundantemente conta as artes e a literatura, explorando-lhe igualmente as virtualidades er\u00f3ticas<\/em><\/h4>\n<p>Transgeneriza\u00e7\u00e3o remete para um fen\u00f3meno mais vasto e mais profundo de extrema relev\u00e2ncia no mundo contempor\u00e2neo. Com efeito, o erotismo <em>queer<\/em> comporta ainda uma dimens\u00e3o fundamental que diz respeito ao corpo como mat\u00e9ria-prima com que trabalham os processos de re-subjetiva\u00e7\u00e3o e que j\u00e1 nada tem que ver com a categoria da sexualidade (hetero ou homo-sexualidade) como dado biol\u00f3gico ou facto \u201cnatural\u201d cuja verdade \u00faltima seria revelada por uma qualquer <em>scientia sexualis<\/em> m\u00e9dica, psiqui\u00e1trica ou psicol\u00f3gica. Embora n\u00e3o seja o \u00fanico meio de fazer a experi\u00eancia de sermos um corpo, que n\u00e3o apenas de o termos como uma propriedade que podemos alienar ou descartar de alguma maneira como simples objeto que se possui e se manipula, o erotismo \u00e9-o por excel\u00eancia. A re-significa\u00e7\u00e3o das identidades para al\u00e9m das meras oposi\u00e7\u00f5es bin\u00e1rias, naturalizadas e essencializadas, entre homem \/ mulher, masculino \/ feminino, heterossexual \/ homossexual, etc. passa por uma transforma\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo consigo pr\u00f3prio, uma metamorfose do <em>self <\/em>inevitavelmente mediada pela corporeidade. O erotismo pode tamb\u00e9m associar-se a estes processos em que o indiv\u00edduo se transforma como sujeito, dev\u00e9m outro, se ressubjetiva. \u201c<em>Queer<\/em>\u201d exprime precisamente tanto o processo como o respetivo resultado em que o indiv\u00edduo se recomp\u00f5e, se reelabora, se reinventa, se recria e se re-produz performativamente para l\u00e1 da rela\u00e7\u00e3o determinista entre o sexo biol\u00f3gico, o desempenho de um papel social de g\u00e9nero e uma correspondente identidade sexual.<\/p>\n<p>A obra de Jo\u00e3o Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira \u2013 tal como a performance de Francisco Camacho, mas o registo er\u00f3tico \u00e9 neste praticamente inexistente \u2013 inclui por vezes exemplos evidentes daquele programa de re-constru\u00e7\u00e3o performativa, como \u00e9 o caso do espantoso desempenho de John Rom\u00e3o que, na curta-metragem <em>English as She Is Spoke<\/em> (2010, 46\u2019), canta \u201c<em>I\u2019m Like a Bird<\/em>\u201d de Nelly Furtado com um xaile negro de fado a cobrir-lhe o tronco como uma soberba Am\u00e1lia masculina que, a outro n\u00edvel, s\u00f3 Ant\u00f3nio Varia\u00e7\u00f5es tinha logrado ser. Nem por isso, no entanto, deixam Jo\u00e3o Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira de recorrer a registos mais marcadamente <em>gay<\/em> e menos <em>queer<\/em>, em obras como <em>King Ghob \u2013 O rei dos gnomos<\/em> (2012, 100\u2019), com as tor\u00e7\u00f5es parox\u00edsticas de um corpo \u201curso\u201d masculino suspenso de len\u00e7\u00f3is como num <em>grand guignol<\/em> humano a preto-e-branco, e sobretudo na recria\u00e7\u00e3o da muito glosada gesta do <em>Moby Dick<\/em>, de Herman Melville, no filme <em>Hero, Captain and Stranger<\/em> (2009, 68\u2019). Trata-se, neste, de uma est\u00e9tica que entre n\u00f3s \u00e9 o que h\u00e1 de mais pr\u00f3ximo do cl\u00e1ssico <em>Un chant d\u2019amour<\/em> (1950, 25\u2019), de Jean Genet, tal como os desenhos er\u00f3ticos masculinos de Lagoa Henriques recordam imagens cong\u00e9neres de Jean Cocteau ou as colagens de figuras masculinas originais de Tom of Finland por M\u00e1rio Cesariny.<\/p>\n<p>Finalmente, a categoria do erotismo <em>queer<\/em> que tem sido descrita como p\u00f3s-porno, na qual poder\u00e1 incluir-se toda a obra er\u00f3tica do pintor Barahona Possolo. Em registos radicalmente opostos e mesmo incompat\u00edveis nos seus prop\u00f3sitos, Jo\u00e3o Pedro Rodrigues, em <em>O fantasma<\/em> (2000, 90\u2019), que recria uma fantasia er\u00f3tica hiperviril da est\u00e9tica <em>leather<\/em>, e Joaquim Pinto e Nuno Leonel, em <em>E agora? Lembra-me<\/em> (2013, 164\u2019), obra pungente, sublime e absolutamente \u00fanica no cinema nacional que representa a rela\u00e7\u00e3o sexual entre eles com um prop\u00f3sito essencialmente documental, possuem um ponto em comum: com a muito cuidadosa ressalva da especificidade e singularidade absoluta das respetivas obras, existem em ambos elementos que se podem referir em certa medida ao p\u00f3s-porno, na medida em que nenhum visa provocar a excita\u00e7\u00e3o sexual, ao inv\u00e9s da pornografia cl\u00e1ssica, mas exibem literalmente a genitalidade com id\u00eanticos efeitos er\u00f3ticos, apesar de os prop\u00f3sitos serem divergentes, ilustrar uma fantasia <em>versus <\/em>retratar o papel da intimidade sexual no seu quotidiano de casal. E n\u00e3o ser\u00e1 demasiado for\u00e7ado fazermos remontar na cultura portuguesa a est\u00e9tica do erotismo p\u00f3s-porno ao poema \u201cSobre a nudez\u201d de Jorge de Sena: \u201cNus no amor para nos vermos, \/ sentirmos a pele dos outros corpos e \/ para mais que penetrarmos \/ termos o choque e o ro\u00e7ar \/ que nos dizem do quanto penetramos. \/ Nus sempre, menos no que n\u00e3o importa. \/ Porque h\u00e1 ent\u00e3o quem tema tanto \/ a nudez dos outros? Ser\u00e1 \/ que teme, menos que o feio \/ de muitos, a beleza de \/ alguns, ou o fasc\u00ednio das \/ espl\u00eandidas partes \/ de uns raros?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] Uma reflex\u00e3o de\u2026 Ant\u00f3nio Fernando Cascais, professor universit\u00e1rio na \u00e1rea das Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o (Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa) e especialista em teoria queer. Autor do livro recentemente publicado, Hospital Miguel Bombarda &#8211; 1968, que organiza com Margarida Medeiros. 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