{"id":7333,"date":"2017-08-05T08:19:58","date_gmt":"2017-08-05T08:19:58","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7333"},"modified":"2019-03-25T19:13:46","modified_gmt":"2019-03-25T19:13:46","slug":"uma-mulher-pioneira-no-desempenho-da-terapia-sexual-em-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2017\/08\/05\/uma-mulher-pioneira-no-desempenho-da-terapia-sexual-em-portugal\/","title":{"rendered":"Uma mulher pioneira no desempenho da terapia sexual em Portugal"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p class=\"wpb_wrapper\"><strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Maria-Fernanda-Bunt.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7385\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/Maria-Fernanda-Bunt-235x300.jpg\" alt=\"\" width=\"235\" height=\"300\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p class=\"wpb_wrapper\"><strong>\u00c0 conversa com\u2026<\/strong><br \/>\nMaria Fernanda Silva Mendes<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><strong>Percursos\u2026<br \/>\n<\/strong>S\u00f3cia fundadora e presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica entre 1994 e 1995. Psiquiatra e terapeuta sexual, publicou em 2014 o livro <em>Sexualidade Redonda e Circular<\/em>. Em 2006 apresentou doze programas sobre Sexualidade na RTP-A\u00e7ores. Foi deputada \u00e0 Assembleia Legislativa Regional dos A\u00e7ores (VI, VII e VIII Legislaturas) e Vice-Presidente da Assembleia Legislativa Regional dos A\u00e7ores.<\/p>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n5 de agosto de 2017<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong>Entrevista<\/strong><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>Isabel Freire<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]<strong>Maria Fernanda Silva Mendes foi o elemento feminino de uma equipa pioneira na interven\u00e7\u00e3o em sexologia cl\u00ednica em Portugal, nos anos 1970. Com o psiquiatra Allen Gomes fez avan\u00e7ar a &#8220;Consulta de Ginecologia Psicossom\u00e1tica e Sexologia&#8221; dos Hospitais da Universidade de Coimbra, em 1975. Juntos tentavam ent\u00e3o aplicar o protocolo de Masters e Johnson, que recomendava a exist\u00eancia de uma equipa mista (masculino e feminino) de co-terapeutas, para tratamento do que ent\u00e3o se considerava &#8220;o casal&#8221; (\u00e0 \u00e9poca genericamente entendido como apenas heterossexual). <\/strong><strong>Psiquiatra e terapeuta sexual, Maria Fernanda rev\u00ea nesta conversa algumas representa\u00e7\u00f5es da sexualidade (e da sexologia), em Portugal, dos anos 1960 aos nossos dias.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica \u2013 Tanto quanto sei, foi a primeira m\u00e9dica a trabalhar em Portugal numa equipa de terapia sexual (anos 1970, Hospitais da Universidade de Coimbra, em parceria com Allen Gomes). Como sentiu\/viveu esse momento? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Fernanda Silva Mendes \u2013<\/strong> Penso que sim, que terei sido a primeira mulher a trabalhar em terapia sexual. Essas interven\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas realizadas no Servi\u00e7o de Psiquiatria (do antigo Hospital da Universidade de Coimbra) foram efetuadas em 1975. De in\u00edcio desempenhei o papel de co-terapeuta do Dr. Allen Gomes. Nesses primeiros casos tentou-se aplicar <em>ipsis verbis <\/em>o protocolo de Masters e Johnson, que referia ser fundamental a exist\u00eancia de uma equipa de terapeutas (homem e mulher), para tratar um casal (subentendia-se \u00e0 \u00e9poca que um casal se tratava de um homem e de uma mulher). Esta experi\u00eancia foi mais um desafio na minha aprendizagem. Eu era uma jovem m\u00e9dica policl\u00ednica, monitora de psiquiatra, \u00e0 espera de fazer o servi\u00e7o m\u00e9dico \u00e0 periferia, para ingressar no internato de especialidade. Neste per\u00edodo da minha vida profissional a aprendizagem era tudo. Em Portugal vivia-se ainda sob o efeito revolucion\u00e1rio do 25 de Abril de 1974. N\u00e3o s\u00f3 ao n\u00edvel pol\u00edtico (institucional), mas tamb\u00e9m social e cultural. Descobrir e fazer o novo era uma for\u00e7a motriz bem presente. Aceitei o desafio lan\u00e7ado pelo Dr. Allen: estudar os protocolos para de seguida ouvir, compreender, e ajudar pessoas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es da sua intimidade sexual. Esta experi\u00eancia tornou-me, sem qualquer d\u00favida, melhor m\u00e9dica e melhor pessoa.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 O que se pensava e se dizia entre a comunidade m\u00e9dica relativamente a esta consulta de sexologia pioneira, mas tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o a haver uma mulher na equipa cl\u00ednica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFSM \u2013<\/strong> Apesar da forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, a comunidade m\u00e9dica (\u00e0 semelhan\u00e7a de muitas outras) refletia aspetos socioculturais das suas origens. Maioritariamente, era uma comunidade conservadora, designadamente no que respeitava \u00e0s quest\u00f5es da sexualidade, embora existissem focos &#8216;subversivos&#8217;: m\u00e9dicos\/as ligados aos cuidados em Planeamento Familiar, no \u00e2mbito da Ginecologia. Historicamente, em Coimbra, a Sexologia Cl\u00ednica e o Planeamento Familiar estiveram desde o seu in\u00edcio, de m\u00e3os dadas &#8211; foi ali\u00e1s nas instala\u00e7\u00f5es da Consulta Externa do Servi\u00e7o de Ginecologia, que se instalou a &#8220;Consulta de Ginecologia Psicossom\u00e1tica e Sexologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra&#8221; (servi\u00e7o que \u00e0 \u00e9poca era dos que tinha mais mulheres). Talvez por isso, o facto de ser mulher tenha sido irrelevante. A equipa da consulta de Sexologia era composta pelo Dr. Allen Gomes (psiquiatra), pela Dr\u00aa Isabel Ara\u00fajo, (Ginecologista) e por mim. Num contexto mais geral, n\u00e3o era bem assim. Em 1979, quando no <em>I Simp\u00f3sio Internacional sobre Ansiedade<\/em>, no Porto, apresentei a comunica\u00e7\u00e3o \u201cAbordagem das Disfun\u00e7\u00f5es Er\u00e9teis em Homens Solteiros\u201d (Maria Fernanda Mendes e Francisco Allen Gomes), o coment\u00e1rio de um participante (psiquiatra mais velho), para o colega ao lado foi o seguinte: &#8220;uma mulher n\u00e3o devia saber tanto de sexo\u201d.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Que ideias err\u00f3neas do desempenho sexual feminino se combatia ent\u00e3o \u2013 meados dos anos 1970 \u2013 em termos cl\u00ednicos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFSM \u2013<\/strong> Os conhecimentos derivados das investiga\u00e7\u00f5es de Masters e Johnson foram publicados em Portugal, em 1972. Eram portanto muito recentes. Com a entrada da p\u00edlula no mercado portugu\u00eas (em 1962), e a consequente separa\u00e7\u00e3o das componentes er\u00f3tica e procriativa da rela\u00e7\u00e3o sexual, passaram a estar reunidos os fatores fundamentais para se dar in\u00edcio \u00e0 mudan\u00e7a do paradigma da fun\u00e7\u00e3o sexual humana, mat\u00e9ria diversa a ser trabalhada nas consultas.<br \/>\nA ignor\u00e2ncia de tudo o que dizia respeito \u00e0 sexualidade era enorme. Raras mulheres conheciam os seus genitais. Explicar o papel do clit\u00f3ris no prazer e no orgasmo feminino (as dificuldades e as disfun\u00e7\u00f5es org\u00e1sticas eram a maioria), e dar a conhecer a variedade da resposta feminina, era parte fundamental da consulta.<\/p>\n<p>Por isso, no meu livro <em>Sexualidade Redonda e Circular<\/em> senti necessidade de escrever um texto sobre a vulva, tentando desconstruir a sua imagem negativa. Designei-o por A TUA FLOR [Sob a pris\u00e3o do recolhimento]: \u201c[\u2026] porque n\u00e3o a posso admirar, ver os seus contornos, como o os do teu rosto; o seu rubor, como o das ma\u00e7\u00e3s das tuas faces; e o carmim dos seus, como dos teus l\u00e1bios; [\u2026] Encantei-me quando, deixando de lado qualquer hesita\u00e7\u00e3o, a ela me dirigi, de olhos, m\u00e3os e l\u00e1bios virgens, e com dedos em pin\u00e7a abri-a para poder antever, ligeiramente recolhido sob o seu habitual manto, o bot\u00e3o por abrir; deslumbrado, apercebi-me da sua beleza e fragilidade e, ao mesmo tempo, da sua imponente for\u00e7a na consagra\u00e7\u00e3o dos segredos do deleite do meu amor.\u201d<\/p>\n<h4><em>Em 1979, [&#8230;] no Simp\u00f3sio Internacional sobre Ansiedade, no Porto, quando apresentei uma comunica\u00e7\u00e3o, [&#8230;] o coment\u00e1rio de um psiquiatra, mais velho, foi o seguinte: &#8220;uma mulher n\u00e3o devia saber tanto de sexo\u201d.<\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC \u2013 E em termos do desempenho sexual masculino?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFSM \u2013<\/strong> O homem aparecia nas consultas, na sua grande maioria, por queixas relacionadas com a ere\u00e7\u00e3o. Disfun\u00e7\u00f5es er\u00e9teis (grande parte secund\u00e1rias e circunstanciais) de causas psicog\u00e9nicas. Predominava na sexualidade em geral, e na masculina em particular, o mesmo grau de desinforma\u00e7\u00e3o que na mulher. O mito da &#8216;prontid\u00e3o&#8217;, e da apet\u00eancia constante, e o achar que o desempenho sexual da parceira era decalcada da sua, obrigava tamb\u00e9m a uma interven\u00e7\u00e3o psicopedag\u00f3gica incisiva e constante. O temor do desempenho era, nesses casos, uma componente fundamental. Tamb\u00e9m trato o tema no meu livro (acima citado): \u201c[\u2026] Sei que sofres a dor da aus\u00eancia, da fuga da for\u00e7a mai\u00fascula do teu corpo, esmagada pelo desejo e pelos masculinos temores; desencantado, tudo repetes em rotinas falidas \u00e0 procura de ti e da tua prontid\u00e3o [\u2026] um dia h\u00e1s de esquecer, seja l\u00e1 o que for que te leva \u00e0 paralisa\u00e7\u00e3o. E, nesse dia, numa tarde de morna paisagem e sem destino aflito, ir\u00e1s despertar e ver\u00e1s que a for\u00e7a da tua natureza nascer\u00e1 da fraqueza de te entregares, sem medo, \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o que a pr\u00f3pria tormenta encerra; e, nesse momento em que o teu controle nada acode, nem aprisiona, nascer\u00e1 do teu peito a for\u00e7a que se encerra no teu ventre, abaixo do teu perd\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Lembra-se do primeiro caso e de como o pensaram?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFSM \u2013<\/strong> Tratava-se de um jovem casal de namorados (estudantes universit\u00e1rios), que tinha decidido iniciar rela\u00e7\u00f5es sexuais. Tiveram diversas dificuldades, instalando-se, por essa raz\u00e3o, uma incapacidade org\u00e1stica situacional (classifica\u00e7\u00e3o de Helen Kaplan) ou circunstancial (classifica\u00e7\u00e3o de Masters e Johnson). Este caso cl\u00ednico foi apresentado numa reuni\u00e3o de Ginecologia, como uma esp\u00e9cie de caso padr\u00e3o, para dar a conhecer \u00e0 comunidade m\u00e9dica, as consultas de Sexologia (ver BOL. Soc. Port. Ginecool., 1977, 2, 115). Tratava-se de uma disfun\u00e7\u00e3o sexual feminina, de pouca dura\u00e7\u00e3o, o que facilitava a an\u00e1lise das causas. Mostrava que uma disfun\u00e7\u00e3o pode surgir por falta de informa\u00e7\u00e3o sexual e conting\u00eancias negativas na primeira rela\u00e7\u00e3o. Espelhava como o temor de desempenho pode funcionar como fator de manuten\u00e7\u00e3o da disfun\u00e7\u00e3o. Escolhemo-lo porque foi um dos casos em que se seguiu rigorosamente o protocolo de Masters e Johnson, e por se tratar de um caso ass\u00e9tico e escorreito, por isso de f\u00e1cil aceita\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria sexualidade, por parte da comunidade m\u00e9dica.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 H\u00e1 alguma hist\u00f3ria da sua experi\u00eancia terap\u00eautica da sexualidade, que guarde como uma \u201ap\u00e9rola\u2019?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFSM \u2013<\/strong> Aconteceu no \u00e2mbito consulta de Sexologia do Hospital de Ponta Delgada, na d\u00e9cada de 1990. Um homem (de sessenta anos) \u00e9 enviado \u00e0 consulta pelo seu m\u00e9dico, por disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til secund\u00e1ria ap\u00f3s doen\u00e7a do foro pulmonar. Feita a primeira consulta, e para poder dar in\u00edcio \u00e0 terapia de casal, pedi-lhe que regressasse, dali a duas semanas, depois de terminar os seus tratamentos m\u00e9dicos, e que viesse acompanhado pela esposa. Tratava-se de uma fam\u00edlia numerosa, rural, de literacia m\u00ednima, com filhos solteiros adultos. Chegado o dia da consulta, fez-se acompanhar por uma mulher decidida, e fisicamente encorpada. Comecei por lhe explicar porque tinha pedido a sua presen\u00e7a, ao que, de prontid\u00e3o, me respondeu com voz en\u00e9rgica e sonante, que n\u00e3o mais voltaria \u00e0 consulta porque o marido s\u00f3 n\u00e3o tinha rela\u00e7\u00f5es sexuais porque n\u00e3o queria. Acrescentando que, uns dias atr\u00e1s, tinha tido rela\u00e7\u00f5es sexuais por tr\u00eas vezes, no mesmo dia, mais ou menos seguidas. Entretanto, venho a saber que a melhoria (s\u00fabita e inesperada), tinha sido causada por uma cassete. Por engano, o paciente colocara no leitor de v\u00eddeo um filme do filho, que passava coisas que n\u00e3o imaginava. \u201cAquilo mexeu comigo\u201d, explicou. \u201cEnquanto via &#8216;aquilo&#8217; senti a minha &#8216;pombinha&#8217; ficar dura, e muita vontade de ter rela\u00e7\u00f5es com a minha esposa\u201d. Assim se fez um tratamento r\u00e1pido e sem custos m\u00e9dicos. Ficou demonstrado o papel das fantasias sexuais no desempenho sexual.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Que quest\u00f5es s\u00e3o hoje mais intrigantes para si, em termos da sexualidade humana?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFSM \u2013<\/strong> O que se passar\u00e1 no desenvolvimento ontog\u00e9nico e filog\u00e9nico dos seres humanos, para haver a diversidade sexual que hoje come\u00e7a a ser reconhecida, estudada e aceite? Na evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie humana o aparecimento da resposta prazenteira no desempenho sexual n\u00e3o ocorreu certamente ao mesmo tempo e de igual modo para todos os humanos. Porqu\u00ea impor-se um padr\u00e3o\/modelo, defin\u00edvel do que deve ser um indiv\u00edduo biol\u00f3gica e psicologicamente bem sucedido sexualmente? N\u00e3o ser\u00e1 isso uma fal\u00e1cia?<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Como definiria um bom terapeuta sexual?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFSM \u2013<\/strong> \u00c9 aquele que munido de um vasto arsenal de conhecimentos relativos \u00e0 sexualidade, seus problemas e abordagens terap\u00eautica, \u00e9 capaz, de uma forma humana e com uma atitude emp\u00e1tica e tolerante, compreender o problema, dificuldade ou disfun\u00e7\u00e3o do sujeito paciente ou do casal, como algo espec\u00edfico e \u00fanico. \u00c9 algu\u00e9m capaz de conceptualizar as queixas, informar e atuar como catalisador da comunica\u00e7\u00e3o entre o casal, desfazendo ideias err\u00f3neas, mas n\u00e3o impondo valores pessoais e n\u00e3o utilizando atitudes paternalistas. A intera\u00e7\u00e3o, se for caso disso, deve ser entre o casal, e n\u00e3o entre estes e o terapeuta (como \u00e9 referido no artigo \u201cA Rela\u00e7\u00e3o terap\u00eautica em Sexologia\u201d, de Francisco Allen Gomes, Maria Fernanda Mendes, e Maria Isabel Ara\u00fajo, publicado em <em>Psquiatria Cl\u00ednica<\/em>, 1, Supl. (1),pp. 157-160,1980).<\/p>\n<h4><em>[Um terapeuta sexual deve ser] algu\u00e9m capaz de conceptualizar as queixas, informar e atuar como catalisador da comunica\u00e7\u00e3o entre o casal, desfazendo ideias err\u00f3neas, mas n\u00e3o impondo valores pessoais e n\u00e3o utilizando atitudes paternalistas. A intera\u00e7\u00e3o, se for caso disso, deve ser entre o casal, e n\u00e3o entre estes e o terapeuta <\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC \u2013 Que ideias err\u00f3neas \u00e9 preciso combater ainda nos nossos dias, em termos do desempenho sexual masculino?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFSM \u2013<\/strong> \u00c9 necess\u00e1rio continuar a combater a ideias de que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o mau desempenho. Tanto assim \u00e9 que o consumo, sem indica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, dos comprimidos vasoativos (do espetro \u201cdos azuis\u2026\u201d) \u00e9 elevado entre homens adultos jovens. Para melhoria destes aspetos \u00e9 necess\u00e1rio trabalhar, atrav\u00e9s dos diferentes os meios de comunica\u00e7\u00e3o, a diminui\u00e7\u00e3o do foco sexual masculino na genitalidade, na sua vertente coito, e alarg\u00e1-lo ao vasto campo da sensualidade.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 E do desempenho sexual feminino?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFSM \u2013<\/strong> Em rela\u00e7\u00e3o aos anos setenta, podemos dizer que o fiel da balan\u00e7a mudou, pendendo na atualidade para a quest\u00e3o da diminui\u00e7\u00e3o do desejo. Por isso, importa fazer a distin\u00e7\u00e3o entre desejo e excita\u00e7\u00e3o, porque se por um lado o desejo leva invariavelmente \u00e0 excita\u00e7\u00e3o e respetiva lubrifica\u00e7\u00e3o, a excita\u00e7\u00e3o pode surgir na sequ\u00eancia do est\u00edmulo sexual, mesmo na aus\u00eancia de desejo, levando do mesmo modo \u00e0 intera\u00e7\u00e3o sexual. &#8220;Disponibilidade&#8221; dever\u00e1 ser a palavra-chave para homens e mulheres interagirem sexualmente. &#8220;Prazer&#8221; a segunda palavra. E tudo o resto deveria pertencer ao \u00e2mbito do extraordin\u00e1rio \u2013 n\u00e3o tem de acontecer sempre.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Faz sentido continuarmos a diferenciar, t\u00e3o marcadamente, o desempenho sexual por dois g\u00e9neros?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFSM \u2013<\/strong> N\u00e3o faz sentido, porque a diversidade \u00e9 a raz\u00e3o de se ser humano em toda as suas vertentes, onde obviamente a sexualidade e as suas express\u00f5es se incluem, constituindo uma mat\u00e9ria, por excel\u00eancia, do interesse e do estudo em Sexologia. No entanto, tendo em conta a preval\u00eancia das quest\u00f5es, problemas e disfun\u00e7\u00f5es sexuais nas nossas sociedades ocidentais, faz algum sentido continuar a diferenciar o desempenho sexual tendo em conta os dois g\u00e9neros.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Qual o \u00faltimo discurso nocivo da sa\u00fade sexual, que viu ou escutou por a\u00ed (seja na literatura, na m\u00fasica, no cinema, nas telenovelas, nos media\u2026)?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MFSM \u2013<\/strong> \u00c9 a constante tentativa, nos mais diversos discursos, de idealiza\u00e7\u00e3o do sexo (de forma direta ou subliminar), quase em contraponto \u00e0 anterior funesta idealiza\u00e7\u00e3o do amor rom\u00e2ntico. A tentativa de uma padroniza\u00e7\u00e3o superficial e em constante muta\u00e7\u00e3o, para que sejam consumidos os produtos que ajudar\u00e3o a estar-se em conformidade social sexual. N\u00e3o importa se \u00e9 um filme, um qualquer estilo de roupa, um instrumento de submiss\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o, uma receita para o corpo ideal sexual, o restaurante para o jantar rom\u00e2ntico. O que me chama a aten\u00e7\u00e3o (e me preocupa) n\u00e3o s\u00e3o os produtos em si, mas a mensagem de norma e de modernidade colocados no ef\u00e9mero. Assim encurralada, a sexualidade \u00e9 levada a categoria de um nicho de mercado, transformando-a num produto, numa coisa, num objeto a ser consumido para se estar na norma, e na moda. Com isto, a pessoa humana tem grandes dificuldades em ultrapassar a instabilidade e ansiedade pr\u00f3prias do seu desenvolvimento, quando ainda anda \u00e0 procura do seu modo sexual de ser e estar, em fun\u00e7\u00e3o das suas caracter\u00edsticas individuais e das melhores escolhas para o seu equil\u00edbrio psicossexual.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] \u00c0 conversa com\u2026 Maria Fernanda Silva Mendes &nbsp; Percursos\u2026 S\u00f3cia fundadora e presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica entre 1994 e 1995. Psiquiatra e terapeuta sexual, publicou em 2014 o livro Sexualidade Redonda e Circular. Em 2006 apresentou doze programas sobre Sexualidade na RTP-A\u00e7ores. 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