{"id":7344,"date":"2017-11-06T12:09:45","date_gmt":"2017-11-06T12:09:45","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7344"},"modified":"2019-03-25T18:41:51","modified_gmt":"2019-03-25T18:41:51","slug":"seremos-nos-as-relacoes-que-temos-porventura-seremos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2017\/11\/06\/seremos-nos-as-relacoes-que-temos-porventura-seremos\/","title":{"rendered":"Seremos n\u00f3s as rela\u00e7\u00f5es que temos? Porventura seremos"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/IMG_22941.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7596\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/IMG_22941-191x300.jpg\" alt=\"\" width=\"191\" height=\"300\" \/><\/a><\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong>Uma reflex\u00e3o de\u2026<\/strong><\/div>\n<div>\n<p>Sofia Neves, docente e investigadora do Instituto Universit\u00e1rio da Maia (ISMAI), membro do Centro Interdisciplinar de Estudos de G\u00e9nero (CIEG &#8211; ISCSP, ULisboa) e Presidente da Dire\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/APi-Associa%C3%A7%C3%A3o-Plano-i-528493950648008\/\">Associa\u00e7\u00e3o Plano i.<\/a><\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Percursos\u2026<\/strong><br \/>\nLicenciada em Psicologia (1999) e doutorada em Psicologia Social (2005). Integra os grupos de trabalho da Viol\u00eancia Dom\u00e9stica e de G\u00e9nero, da Comiss\u00e3o para a Cidadania e Igualdade de G\u00e9nero, e da Interven\u00e7\u00e3o do Psic\u00f3logo com pessoas LGBT, da Ordem dos Psic\u00f3logos Portugueses. \u00c9 autora de v\u00e1rios artigos em revistas da especialidade nacionais e internacionais, assim como de cap\u00edtulos de livros e de livros, dos quais se destacam\u00a0<em>Amor, Poder e Viol\u00eancias na Intimidade: os caminhos entrecruzados do pessoal e do pol\u00edtico<\/em><em>\u00a0<\/em>(2008),\u00a0<em>Vitimologia: Ci\u00eancia e Ativismo<\/em>\u00a0(2010),\u00a0<em>G\u00e9nero e Ci\u00eancias Sociais<\/em><em>\u00a0<\/em>(2011), <em>Interven\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e social com v\u00edtimas<\/em> (Volumes 1 e 2) (2012) e <em>Viol\u00eancias na Contemporaneidade no Brasil e em Portugal<\/em> (2015).<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n6 de Novembro de 2017<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]H\u00e1 quem diga que somos as rela\u00e7\u00f5es que temos. Porventura seremos. Se a nossa identidade \u00e9 relacional e socialmente constru\u00edda (e.g., Gergen, 2009) seremos, de forma mais ou menos expl\u00edcita, o reflexo das rela\u00e7\u00f5es que vamos tendo ao longo da vida. A sua qualidade determina, em parte, a nossa sa\u00fade e esta, em larga medida, o nosso bem-estar f\u00edsico, psicol\u00f3gico, sexual e social.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es que estabelecemos com pessoas significativas parecem ser aquelas que mais nos influenciam no curso do nosso desenvolvimento, quer positiva, quer negativamente. Rela\u00e7\u00f5es seguras, emocionalmente investidas e nutridas por afetos, promovem habitualmente estabilidade, confian\u00e7a, sentido de efici\u00eancia e motiva\u00e7\u00e3o para a autossupera\u00e7\u00e3o, ao passo que rela\u00e7\u00f5es inseguras, rejeitantes, hostis ou violentas geram, n\u00e3o raras vezes, mal-estar, inadapta\u00e7\u00e3o, sofrimento e desesperan\u00e7a. V\u00e1rios estudos (e.g., Hale Ma, Hannum, &amp; Espelage, 2010; Holt-Lunstad Smith &amp; Layton, 2010) sugerem que as pessoas cujas rela\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o inexistentes ou de reduzida qualidade est\u00e3o em maior risco de desenvolver sintomatologia psicopatol\u00f3gica, doen\u00e7as f\u00edsicas ou morrer prematuramente, quando comparadas com outras cujas rela\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o satisfat\u00f3rias e gratificantes. Por outro lado, pessoas que desenvolvem v\u00ednculos sociais decorrentes de rela\u00e7\u00f5es de qualidade t\u00eam melhores indicadores de sa\u00fade, envolvem-se menos em comportamentos de risco e est\u00e3o mais orientadas para o sucesso (e.g., Minayo, Hartz, &amp; Buss, 2000; Uchino, Bowen, Carlisle, &amp; Birmingham, 2012). S\u00e3o, em suma, mais felizes.<\/p>\n<p>Dentre as rela\u00e7\u00f5es significativas que vamos estabelecendo, as de intimidade afiguram-se como especialmente determinantes na nossa sa\u00fade e no nosso bem-estar. A viv\u00eancia da intimidade pressup\u00f5e, quando adequada, a assun\u00e7\u00e3o de uma perten\u00e7a afetiva securizante. Saber-se parte integrante de uma rela\u00e7\u00e3o de intimidade que se constitui como fonte de suporte, e que \u00e9 responsiva sempre que convocada, \u00e9 essencial na perce\u00e7\u00e3o do eu e da rela\u00e7\u00e3o do eu com os outros. Quando disfuncional, pelo contr\u00e1rio, a viv\u00eancia da intimidade pode afetar a vis\u00e3o que elaboramos a respeito de n\u00f3s mesmos\/as e dos outros, comprometendo o nosso autoconceito, a nossa autoestima e a nossa autoefic\u00e1cia e constrangendo a nossa disponibilidade de nos entregarmos aos outros emocional e socialmente.<\/p>\n<h4><em>A educa\u00e7\u00e3o para a cidadania \u00edntima, aqui entendida como o conjunto de processos, pr\u00e1ticas e discursos que regula e molda o exerc\u00edcio da ag\u00eancia na intimidade [&#8230;] pode ser, por isso, parte da solu\u00e7\u00e3o para o problema da aus\u00eancia de democratiza\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es sociais de g\u00e9nero<\/em><\/h4>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o (e.g., Rudman &amp; Glick, 2012) tamb\u00e9m sugere que embora homens e mulheres beneficiem daquilo que as rela\u00e7\u00f5es de intimidade lhes podem proporcionar, estas assumem, em fun\u00e7\u00e3o do sexo, significados diferenciados. Tais evid\u00eancias parecem estar relacionadas com as expectativas sociais que uns e outras criam em torno dessas rela\u00e7\u00f5es, por um lado e, por outro, com a valora\u00e7\u00e3o que socialmente \u00e9 atribu\u00edda \u00e0 intimidade de acordo com o sexo de quem a vivencia. Assim, as mulheres tendem a reconhecer, mais do que os homens, a centralidade das rela\u00e7\u00f5es de intimidade nas suas vidas, raz\u00e3o pela qual parecem envolver-se mais ativamente na sua procura e retirar delas, quando positivas, maior satisfa\u00e7\u00e3o. V\u00e1rios autores\/as (e.g., Carol Gilligan) defendem mesmo a ideia de que, no caso das mulheres, a intimidade e a identidade s\u00e3o processos fusionais, n\u00e3o sendo poss\u00edvel determinar onde come\u00e7a um e termina o outro.<\/p>\n<p>Na realidade, as prescri\u00e7\u00f5es de g\u00e9nero empurram as mulheres para a esfera da emo\u00e7\u00e3o, reservando para os homens a esfera da racionalidade (Am\u00e2ncio, 1994). Elas querem-se afetos, eles querem-se raz\u00e3o. Invocando-se o argumento da natureza e da respetiva condi\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica de cada um dos sexos, a constru\u00e7\u00e3o da identidade das mulheres foi estando, ao longo da Hist\u00f3ria, subordinada \u00e0 compet\u00eancia do cuidar-proteger (sobretudo no contexto da fam\u00edlia), estando a dos homens subordinada \u00e0 do fazer-produzir (predominantemente no espa\u00e7o p\u00fablico) (Burleson, 2003; Torres, 2004). O investimento nas rela\u00e7\u00f5es de intimidade n\u00e3o tem sido, como daqui se depreende, aquilo que mais se tem esperado dos homens. Por contraste, \u00e9 quase tudo o que se tem esperado das mulheres. Refira-se, a t\u00edtulo ilustrativo, a reprova\u00e7\u00e3o social que pende, ainda hoje, sobre as mulheres que escolhem n\u00e3o constituir fam\u00edlia ou, escolhendo faz\u00ea-lo, decidem n\u00e3o ter filhos\/as. Complementarmente, a desvaloriza\u00e7\u00e3o social que sofrem os homens que chamam a si a responsabilidade familiar, deixando para segundo plano o desempenho profissional. Em qualquer um dos grupos, as prescri\u00e7\u00f5es de g\u00e9nero t\u00eam funcionado como barreiras \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o, fixando como normativos certo tipos de comportamentos, pensamentos e sentimentos e como desviantes aqueles que os desafiam. O campo da intimidade n\u00e3o constitui exce\u00e7\u00e3o a esta regra (e.g., Prentice &amp; Carranza, 2002).<\/p>\n<p>Resultados de v\u00e1rios estudos (e.g., Petersen &amp; Hyde, 2010) indicam, por exemplo, que os homens despertam mais cedo para a atividade sexual do que as mulheres, tendo inclusivamente mais parceiras\/os ao longo da vida, por terem aparentemente menos necessidade do que elas de se envolverem em rela\u00e7\u00f5es de intimidade, rela\u00e7\u00f5es estas que exigem mais conhecimento m\u00fatuo e confian\u00e7a. Se para as mulheres estes fatores parecem servir de substrato para a atividade sexual, para os homens n\u00e3o necessariamente, podendo ser a intimidade e a sexualidade faces de uma moeda diferente. Com efeito, a sexualidade desvinculada de rela\u00e7\u00f5es de intimidade convencionais e socialmente reconhecidas, como \u00e9 exemplo mor o casamento, tem sido negada \u00e0s mulheres, como se a sua honra fosse proporcional \u00e0 sua resist\u00eancia celibat\u00e1ria fora do espa\u00e7o matrimonial. Esta vis\u00e3o restritiva da sexualidade feminina, cujos fins seriam essencialmente os de procriar \u00e9, ainda hoje, espartilho de muitas mulheres que a experimentam com se ela fosse pecado. As amarras \u00e0 sexualidade feminina t\u00eam sido um dos redutos da liberdade das mulheres, privando-as da express\u00e3o sem culpa do desejo e do prazer (e.g., Tolman &amp; Tolman, 2009).<\/p>\n<p>A viv\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es em geral, e das rela\u00e7\u00f5es de intimidade em particular, \u00e9 pois, socialmente regulada e \u00e9-o em fun\u00e7\u00e3o do sexo, a par de outras caracter\u00edsticas, como \u00e9 o caso da idade, da etnia, da orienta\u00e7\u00e3o sexual, entre outras, de quem a experimenta. Qualquer an\u00e1lise que lhes seja dirigida n\u00e3o pode, por isso, fazer-se sem um enquadramento interseccional (Crenshaw, 1991), isto \u00e9, sem considerar a forma como diferentes perten\u00e7as identit\u00e1rias se entrecruzam. As hist\u00f3rias de intimidade s\u00e3o um recurso importante de aquisi\u00e7\u00e3o, manuten\u00e7\u00e3o e reconfigura\u00e7\u00e3o das identidades interseccionais (Wilkins, 2012), dependendo dos lugares de privil\u00e9gio e de opress\u00e3o ocupados por cada um\/a. Partindo do princ\u00edpio que as mulheres ocupam mais do que os homens lugares de opress\u00e3o, inclusivamente nas suas rela\u00e7\u00f5es de intimidade, antecipa-se que a suas identidades sejam, mais do que as deles, marcadas pela aus\u00eancia de poder.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o para a cidadania \u00edntima, aqui entendida como o conjunto de processos, pr\u00e1ticas e discursos que regula e molda o exerc\u00edcio da ag\u00eancia na intimidade (Roseneil, Crowhurst, Hellesund, Santos, &amp; Stoilova, 2011) pode ser, por isso, parte da solu\u00e7\u00e3o para o problema da aus\u00eancia de democratiza\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es sociais de g\u00e9nero.<\/p>\n<p>\u00c9 tempo, pois, de reconfigurar expectativas sociais e de desfazer prescri\u00e7\u00f5es de g\u00e9nero, sendo aquilo que quisermos ser nas rela\u00e7\u00f5es que quisermos ter.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] Uma reflex\u00e3o de\u2026 Sofia Neves, docente e investigadora do Instituto Universit\u00e1rio da Maia (ISMAI), membro do Centro Interdisciplinar de Estudos de G\u00e9nero (CIEG &#8211; ISCSP, ULisboa) e Presidente da Dire\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Plano i. &nbsp; Percursos\u2026 Licenciada em Psicologia (1999) e doutorada em Psicologia Social (2005). 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