{"id":7351,"date":"2017-08-17T11:38:11","date_gmt":"2017-08-17T11:38:11","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7351"},"modified":"2019-03-25T19:07:39","modified_gmt":"2019-03-25T19:07:39","slug":"a-dimensao-biologica-do-desejo-sexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2017\/08\/17\/a-dimensao-biologica-do-desejo-sexual\/","title":{"rendered":"A dimens\u00e3o biol\u00f3gica do desejo sexual"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dimensaobiologica1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7451\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/dimensaobiologica1-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/a><\/strong><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong>Uma reflex\u00e3o de\u2026<\/strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.nunomonteiropereira.pt\/queme.html\">Nuno Monteiro Pereira<\/a><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Percursos\u2026<\/strong><br \/>\nM\u00e9dico especialista em Urologia e Andrologia, com compet\u00eancia em sexologia cl\u00ednica. <span class=\"style7\">\u00c9 membro da Comiss\u00e3o Cient\u00edfico-Pedag\u00f3gica da Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica e coordenador da Compet\u00eancia de Sexologia Cl\u00ednica da Ordem dos M\u00e9dicos (desde 2016). Presidiu <\/span>\u00e0 Sociedade Portuguesa de Andrologia entre 2004 e 2008, dirigiu o Mestrado Transdisciplinar de Sexologia da Universidade Lus\u00f3fona, e foi regente dos cursos de Andrologia\/Medicina Sexual do Instituto de Educa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n19 de agosto de 2017<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]\u00c9 indiscut\u00edvel a exist\u00eancia de um modelo biol\u00f3gico da sexualidade, se bem que modulado por um modelo \u201cconstrutivista\u201d, resultante de fatores psicol\u00f3gicos, sociais e culturais. O modelo biol\u00f3gico assenta essencialmente no sistema nervoso e no sistema end\u00f3crino. O primeiro determina uma dupla a\u00e7\u00e3o: 1) a a\u00e7\u00e3o el\u00e9trica de cerca de dez mil milh\u00f5es de neur\u00f3nios, dez bili\u00f5es de liga\u00e7\u00f5es sin\u00e1pticas interneuronais; 2) a a\u00e7\u00e3o qu\u00edmica de algumas dezenas de neurotransmissores, cuja a\u00e7\u00e3o se faz na contiguidade neuronal e sin\u00e1ptica. O segundo, o sistema end\u00f3crino, determina a a\u00e7\u00e3o de hormonas, subst\u00e2ncias qu\u00edmicas que s\u00e3o lan\u00e7adas no sistema sangu\u00edneo para atuarem, seletiva e exclusivamente, em \u00f3rg\u00e3os ou estruturas onde existam recetores espec\u00edficos para cada uma das hormonas. A a\u00e7\u00e3o neuroend\u00f3crina assim resultante \u00e9 essencialmente um sistema de fluxo de informa\u00e7\u00e3o que, na sexualidade, gera a prontid\u00e3o e a execu\u00e7\u00e3o consumat\u00f3ria sexual. Ou seja, a a\u00e7\u00e3o neuroend\u00f3crina \u00e9 a base fisiol\u00f3gica da resposta sexual (Pereira, 2014).<\/p>\n<p><strong>Desejo sexual<\/strong><\/p>\n<p>O desejo sexual \u00e9 considerado a primeira e indispens\u00e1vel etapa para uma adequada resposta sexual. Entenda-se que desejo sexual \u00e9 diferente de amor, muito mais raro, mais exigente e biologica e psicologicamente mais complexo. Pode haver desejo sexual sem haver amor. Mais dif\u00edcil, talvez, ser\u00e1 haver amor sem desejo sexual.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil definir desejo sexual, mas, muito simplesmente, pode dizer-se que \u00e9 o impulso que faz despertar para a experi\u00eancia sexual.<\/p>\n<p><strong>Neurofisiologia do desejo sexual<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista fisiol\u00f3gico o desejo sexual \u00e9 desencadeado pela estimula\u00e7\u00e3o de um subsistema espec\u00edfico, o sistema l\u00edmbico, composto pelo t\u00e1lamo, hipot\u00e1lamo, am\u00edgdala, hipocampo e v\u00e1rios outros centros cerebrais, e que \u00e9 mediado por est\u00edmulos bioel\u00e9tricos e subst\u00e2ncias bioqu\u00edmicas, nomeadamente a dopamina, a ocitocina, a serotonina e a testosterona. Alguma destas subst\u00e2ncias podem atuar quer como neurotransmissores quer como hormonas. Existem ainda as feromonas, cuja a\u00e7\u00e3o permanece algo misteriosa.<\/p>\n<p>Os centros cerebrais decisivos para o desejo sexual s\u00e3o: 1) o t\u00e1lamo, que avalia o sistema de recompensa e \u00e9 modulado por julgamentos morais e sentimentos de culpa; 2) o hipot\u00e1lamo, que coordena a liberta\u00e7\u00e3o de ocitocina e determina a capacidade de imaginar, ou recriar, experi\u00eancias sexuais; 3) a am\u00edgdala, que faz a avalia\u00e7\u00e3o emocional dos est\u00edmulos apetitivos visuais, nomeadamente faciais e corporais (Martins, 2014).<\/p>\n<p>A dopamina \u00e9 um neurotransmissor conhecido como \u201ca hormona do desejo\u201d, com forte influencia sobre a atra\u00e7\u00e3o, cogni\u00e7\u00e3o, recompensa e adi\u00e7\u00e3o sexuais. A sua liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 sobretudo influenciada pela quantidade de testosterona em circula\u00e7\u00e3o e, com menos impacto, pela ocitocina e pela vasopressina.<\/p>\n<p>A ocitocina \u00e9 tamb\u00e9m um neurotransmissor por vezes definido como o respons\u00e1vel pela satisfa\u00e7\u00e3o sexual. \u00c9 produzida pelo n\u00facleo paraventricular hipotal\u00e2mico, que o liberta diretamente no c\u00e9rebro, onde vai exercer a sua a\u00e7\u00e3o comportamental. Uma parte \u00e9 libertada na circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea atrav\u00e9s da neurohip\u00f3fise, com efeitos na excita\u00e7\u00e3o genital e no trabalho de parto. A sua a\u00e7\u00e3o no desejo sexual \u00e9 sobretudo pela sua a\u00e7\u00e3o sobre a confian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a terceiros, determinando afetos positivos, vincula\u00e7\u00e3o, humor e felicidade (Caldwell, 2002).<\/p>\n<p>A serotonina tem um papel geral oposto, inibit\u00f3rio. Tendo sobretudo um prop\u00f3sito regulador da dopamina, pode ser a causa de desejo hipoativo, para al\u00e9m de dificuldades org\u00e1smicas e, nos homens, de ejacula\u00e7\u00e3o retardada.<\/p>\n<p>O desejo sexual \u00e9 tamb\u00e9m influenciado pelas hormonas sexuais masculinas, os androg\u00e9nios, sobretudo pela testosterona. Nos homens esta hormona \u00e9 segregada pelos test\u00edculos e nas mulheres pelo ov\u00e1rio. Existe ainda uma pequena produ\u00e7\u00e3o derivada das endorfinas, mol\u00e9culas semelhantes \u00e0 morfina, que determinam sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar, prazer e euforia. As hormonas sexuais femininas, os estrog\u00e9nios, n\u00e3o t\u00eam qualquer efeito significativo sobre o desejo sexual, embora nos homens tenham uma a\u00e7\u00e3o anti-androg\u00e9nica, reduzindo o desejo sexual.<\/p>\n<p>No desejo sexual do homem h\u00e1 uma maior ativa\u00e7\u00e3o do t\u00e1lamo, hipot\u00e1lamo e am\u00edgdala. No sexo feminino as ativa\u00e7\u00f5es s\u00e3o diferentes, variando ao longo da vida, tendo como separador bem definido a menopausa. Nas mulheres pr\u00e9-menop\u00e1usicas existe sobretudo uma maior ativa\u00e7\u00e3o do n\u00facleo caudato e no putamen, enquanto nas p\u00f3s-menop\u00e1usicas h\u00e1 maior ativa\u00e7\u00e3o no corpo caloso e da circunvolu\u00e7\u00e3o frontal superior. Esta diferen\u00e7a na resposta no sexo feminino reflete sobretudo a a\u00e7\u00e3o no c\u00e9rebro feminino das hormonas sexuais, tanto estrog\u00e9nios como androg\u00e9nios (Hyde, 2005).<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o das feromonas no desejo sexual humano \u00e9 ainda objeto de controv\u00e9rsia cient\u00edfica. As feromonas propiciam a intera\u00e7\u00e3o sexual nos insetos e, a um n\u00edvel mais elevado do desenvolvimento filogen\u00e9tico, em alguns r\u00e9pteis e mam\u00edferos. S\u00e3o subst\u00e2ncias qu\u00edmicas segregadas por gl\u00e2ndulas habitualmente situadas na pele, no \u00e2nus ou na boca, de constitui\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0s hormonas esteroides. Libertadas para o ambiente, s\u00e3o muito ativas em algumas esp\u00e9cies animais, servindo para comunica\u00e7\u00e3o sexual intra-esp\u00e9cie. Tem de haver um \u00f3rg\u00e3o emissor e um recetor espec\u00edfico. Existem v\u00e1rias feromonas, pr\u00f3prias de cada sexo. A androstenona tem caracter\u00edsticas para integrar a classe de uma putativa feromona masculina, sendo nos humanos facilmente detetada pela mulher e desencadeando, nas f\u00eameas de v\u00e1rios mam\u00edferos, uma rea\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica de resposta. Nos animais, a estrutura recetora \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o vomeronasal, uma estrutura olfativa que na esp\u00e9cie humana tem a placa olfativa como equivalente filogen\u00e9tico. Na progress\u00e3o da escala evolutiva das esp\u00e9cies, a atividade sexual dependente da atividade feromenal vai-se atenuando, mas sem desaparecer completamente. Na esp\u00e9cie humana, sabe-se que a placa olfativa se liga ao hipot\u00e1lamo, onde vai estimular a am\u00edgdala e o n\u00facleo paraventricular, desencadeando a liberta\u00e7\u00e3o de ocitocina. Estimula tamb\u00e9m as gonadotrofinas hipofis\u00e1rias a induzir a produ\u00e7\u00e3o de ACTH, levando a suprarrenal a libertar ester\u00f3ides sexuais (Mora, 1996).<\/p>\n<p>O desejo sexual pressup\u00f5e a exist\u00eancia de pensamentos e fantasias sexuais. \u00c9 um estado mental, criado por est\u00edmulos externos ou internos, que induz a necessidade ou procura de algu\u00e9m para partilhar a atividade sexual. Sem est\u00edmulo, n\u00e3o haver\u00e1 desejo. A resposta sexual a est\u00edmulos externos depende, pois, das rea\u00e7\u00f5es emocionais por eles provocadas (Both, Everaerd &amp; Laan, 2007). Depois do <em>input<\/em> informativo sensorial er\u00f3geno ser transmitida \u00e0 \u00ednsula, que controla a resposta nervosa aut\u00f3noma, o mesmo passa \u00e0 am\u00edgdala, que o torna consciente e intrinsecamente sexual, e ao hipocampo, onde se depara a mem\u00f3ria de coisas passadas, aspeto facilitador ou inibit\u00f3rio da resposta sexual. Sinais favor\u00e1veis, particularmente se relacionados com uma potencial recompensa sexual, mesmo quando pouco conscientes, como acontece por exemplo com est\u00edmulos er\u00f3ticos subliminares, ativam o t\u00e1lamo e o c\u00f3rtex cingulado. Particularmente se houver n\u00edveis elevados de dopamina.<\/p>\n<h4><em>O desejo sexual hipoativo nos homens mais novos deve-se quase sempre a fatores psicol\u00f3gicos, ou ent\u00e3o a abuso de drogas ou medicamentos. As causas psicopatol\u00f3gicas s\u00e3o geralmente os transtornos de stresse, a depress\u00e3o e a ansiedade<\/em><\/h4>\n<p><strong>Desejo sexual na pr\u00e1tica cl\u00ednica<\/strong><\/p>\n<p>Podemos dizer que s\u00e3o duas as causas do desejo sexual hipoativo: psicol\u00f3gicas ou org\u00e2nicas. Ou um misto das duas.<\/p>\n<p>Para muitos homens \u00e9 um problema s\u00e9rio sentirem diminui\u00e7\u00e3o do desejo sexual. Particularmente quando ainda s\u00e3o jovens, ou de meia-idade, e n\u00e3o \u00e9 esperado terem esse tipo de problema. De facto, muitos julgam que o envelhecimento leva inevitavelmente \u00e0 perda do interesse sexual. Embora muitos homens com mais de 60 anos sintam uma progressiva diminui\u00e7\u00e3o do desejo sexual, isso nem sempre acontece. O desejo sexual hipoativo nos homens mais novos deve-se quase sempre a fatores psicol\u00f3gicos, ou ent\u00e3o a abuso de drogas ou medicamentos.<\/p>\n<p>As causas psicopatol\u00f3gicas s\u00e3o geralmente os transtornos de stresse, a depress\u00e3o e a ansiedade. Causas ligadas \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o de aspectos negativos da sexualidade por parte do indiv\u00edduo: o medo da intimidade; o medo de um compromisso s\u00e9rio; a medo de estar a praticar atos pecaminosos; o receio de alguma repres\u00e1lia pelo ato sexual. Muitas das causas assentam tamb\u00e9m no facto do parceiro sexual ser insatisfat\u00f3rio, da atividade sexual ser insatisfat\u00f3ria, da constante preocupa\u00e7\u00e3o em que a vida nos coloca, no excesso de preocupa\u00e7\u00e3o em ter um bom desempenho sexual (Serrano, 2014). O tratamento psicol\u00f3gico passa por ultrapassar os pensamentos negativos, por reduzir a ansiedade, por utilizar t\u00e9cnicas de relaxamento.<\/p>\n<p>As causas org\u00e2nicas s\u00e3o variadas, como por exemplo: a diminui\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de testosterona; as doen\u00e7as cr\u00f3nicas (hipotiroidismo, insufici\u00eancia renal cr\u00f3nica, cirrose hep\u00e1tica, etc.); alguns medicamentos e drogas consumidos (\u00e1lcool, tranquilizantes, anti-hipertensivos, antidepressivos, coca\u00edna, etc.). A medicina atual possui tratamentos eficazes para muitas dessas situa\u00e7\u00f5es, nomeadamente quando o problema \u00e9 o d\u00e9fice de testosterona.<\/p>\n<p>E as mulheres? Tal como nos homens, s\u00e3o duas as causas do desejo sexual hipoativo feminino: org\u00e2nicas ou psicol\u00f3gicas. Ou um misto dessas duas.<\/p>\n<p>As causas org\u00e2nicas s\u00e3o variadas e em geral semelhantes \u00e0s dos homens: diminui\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de testosterona, doen\u00e7as cr\u00f3nicas, medicamentos e drogas. T\u00eam particular import\u00e2ncia o <em>stress<\/em>, a ansiedade e a depress\u00e3o. E os fatores hormonais espec\u00edficos, como o ciclo ov\u00e1rico e o per\u00edodo pr\u00e9 e p\u00f3s-menop\u00e1usico.<\/p>\n<p>As causas psicol\u00f3gicas s\u00e3o tamb\u00e9m semelhantes \u00e0s dos homens: medo da intimidade, medo de compromisso s\u00e9rio, parceiro sexual insatisfat\u00f3rio, atividade sexual insatisfat\u00f3ria, preocupa\u00e7\u00e3o com a vida, experi\u00eancias sexuais anteriores, expectativas sexuais, cren\u00e7as religiosas e culturais, etc.<\/p>\n<p>Uma quest\u00e3o cl\u00e1ssica \u00e9 interessante: as mulheres sentem menos desejo sexual do que os homens? A duvida baseia-se num mito de desigualdade de g\u00e9nero. Na verdade, a intensidade do desejo sexual \u00e9, ou pode ser, semelhante nos homens e nas mulheres. Os mecanismos neurofisiol\u00f3gicos s\u00e3o bastante semelhantes. Contudo, \u00e9 indiscut\u00edvel existirem diferen\u00e7as: na maioria dos homens, o desejo \u00e9 quase omnipresente, sendo facilmente desencadeado desde que haja um adequado estimulo er\u00f3tico. A ativa\u00e7\u00e3o do t\u00e1lamo, hipot\u00e1lamo e am\u00edgdala \u00e9 f\u00e1cil e r\u00e1pida, se existir esse estimulo. Havendo desejo, a resposta excitat\u00f3ria genital \u00e9 tamb\u00e9m r\u00e1pida, com surgimento da ere\u00e7\u00e3o peniana.<\/p>\n<p>Na generalidade das mulheres, as coisas n\u00e3o se passam assim. As mulheres podem consentir ter rela\u00e7\u00f5es sexuais sem sentir qualquer desejo. Ou seja, n\u00e3o cumprem o pressuposto contido na defini\u00e7\u00e3o que neste texto assumimos como desejo sexual: o impulso que faz despertar para a experi\u00eancia sexual. E acontecer que, depois de iniciado o ato sexual penetrativo, surja a fase de excita\u00e7\u00e3o, representada pela lubrifica\u00e7\u00e3o vaginal e pela ere\u00e7\u00e3o clitoriana, sem que nunca verdadeiramente surja desejo sexual. Ou o desejo sexual surgir no final, quando o homem j\u00e1 ejaculou e perdeu a ere\u00e7\u00e3o. Tudo isso, independentemente de haver, ou n\u00e3o, orgasmo. Tudo isso, independentemente de haver, ou n\u00e3o, satisfa\u00e7\u00e3o sexual. A resposta sexual da mulher \u00e9, de facto, muito diversa de mulher para mulher e de circunst\u00e2ncia para circunst\u00e2ncia. A excita\u00e7\u00e3o sexual masculina \u00e9 muito genital. Pelo contr\u00e1rio, a excita\u00e7\u00e3o feminina, tal como o desejo, tem mais a ver com a atra\u00e7\u00e3o sexual, a seguran\u00e7a, a fantasia, a disponibilidade, o bem-estar e o afeto (Serrano, 2014). Esta \u00faltima premissa \u00e9 particularmente interessante: enquanto os homens s\u00e3o capazes de separar o sexo do afeto, existem muitas mulheres que o n\u00e3o conseguem ou s\u00f3 conseguem se estiverem presentes uma ou mais das outras premissas referidas.<\/p>\n<p>Isso coincide com a opini\u00e3o de alguns neurocientistas (Fisher <em>et. al<\/em>, 2002) que sugerem existir no c\u00e9rebro feminino tr\u00eas sistemas de motiva\u00e7\u00e3o dedicados ao acasalamento: desejo sexual, atra\u00e7\u00e3o e afeto. O sistema do desejo sexual, caracterizado por uma necessidade de gratifica\u00e7\u00e3o sexual, estar\u00e1 associado aos androg\u00e9nios. O sistema de atra\u00e7\u00e3o estar\u00e1 associado a elevados n\u00edveis de dopamina, com diminui\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de serotonina. O sistema do afeto determina sentimentos de bem-estar, seguran\u00e7a e uni\u00e3o emocional e estar\u00e1 sobretudo associado \u00e0 ocitocina. Sendo uma teoria bastante pr\u00e1tica, para n\u00e3o dizer simplista, a sua base fisiopatol\u00f3gica parece parcialmente sustentada nos estudos neurofisiol\u00f3gicos que explicit\u00e1mos no inicio deste texto. E, de algum modo, torna mais f\u00e1cil entender os complexos mecanismos do desejo sexual feminino, explicando tamb\u00e9m porque \u00e9 que o desejo sexual hipoativo \u00e9 a mais frequente das disfun\u00e7\u00f5es sexuais da mulher.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS:<\/strong><\/p>\n<p>BOTH, S.; Everaerd, W. &amp; Laan, E., (2007). Desire Emerges from Excitement. A Psychophysiology Perspective on Sexual Motivation. In: Janssen, E. (Ed). <em>The Psychophysiology of Sex. <\/em>Bloomington: Indiana University Press.<\/p>\n<p>CALDWELL, J., (2002). A sexual arousability model involving steroid effects at the plasma membrane.<em> Neuroscience and Biobehavior Review; 26: 13-19.<\/em><\/p>\n<p>FISHER H, Aron A, Mashek D, Li H, Brown L. (2002). Defining the brain Systen of Lust, Romantic Attraction and Attachment. Arch Sex Behav. 31 (5): 413 \u2013 419.<\/p>\n<p>HYDE, J., (2005). <em>Biological Substrate of Human Sexuality.<\/em> Washington DC: American Psychological Association.<\/p>\n<p>MARTINS, A.S., (2014). Neurobiologia da sexualidade. In: Pereira NM (coord). <em>Sexologia M\u00e9dica<\/em>. Lisboa: Lidel; 159-176.<\/p>\n<p>MORA, O., (1996). Feromonas y conducta sexual. In Llusi\u00e1, J. &amp; Tresguerres J. (Ed.). <em>Hormonas, instintos y emociones.<\/em> Madrid: Editorial Complutense SA.<\/p>\n<p>PEREIRA, N.M., (2014). Fisiologia da resposta sexual masculina. In: Pereira NM (coord). <em>Sexologia M\u00e9dica<\/em>. Lisboa: Lidel; 235-248.<\/p>\n<p>SERRANO, F., (2014). Anatomia e fisiologia da resposta sexual masculina. In: Pereira NM (coord). <em>Sexologia M\u00e9dica<\/em>. 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