{"id":7504,"date":"2017-10-09T09:31:03","date_gmt":"2017-10-09T09:31:03","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7504"},"modified":"2019-03-25T18:55:20","modified_gmt":"2019-03-25T18:55:20","slug":"mutilacao-genital-feminina-mas-isso-existe-em-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2017\/10\/09\/mutilacao-genital-feminina-mas-isso-existe-em-portugal\/","title":{"rendered":"\u201cMutila\u00e7\u00e3o Genital Feminina? Mas isso existe em Portugal?\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Foto2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-7530\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Foto2.jpg\" alt=\"\" width=\"239\" height=\"287\" \/><\/a><\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong>Uma reflex\u00e3o de\u2026<\/strong><br \/>\nLisa Ferreira Vicente, ginecologista-obstetra no Centro Hospitalar Lisboa Central \u2013 Maternidade Dr. Alfredo da Costa, onde continua a observar e trabalhar com mulheres com MGF<\/div>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Percursos\u2026<\/strong><br \/>\nFoi chefe da Divis\u00e3o de Sa\u00fade Reprodutiva da Dire\u00e7\u00e3o Geral de Sa\u00fade (2009-2011), Chefe de Divis\u00e3o de Sa\u00fade Sexual, Reprodutiva, Infantil e Juvenil da DGS (2012-2016). Membro do Grupo Intersetorial que elaborou e acompanhou os Programas Nacionais para a Elimina\u00e7\u00e3o da Mutila\u00e7\u00e3o Genital Feminina (I Programa de 2008 a 2010 e II Programa de 2011 a 2013 e PAPEMGF de 2014 a 2017). P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o\u00a0em Medicina Sexual. Reconhecimento de Compet\u00eancia em Sexologia Cl\u00ednica (pela O.M. 2015). Autora de v\u00e1rios textos e coautora de livros que abordam o tema da MGF.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n9 de Outubro de 2017<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]<em>Mutila\u00e7\u00e3o Genital Feminina? Mas isso existe?. Mas isso faz-se em Portugal?<\/em> Estas s\u00e3o quest\u00f5es que oi\u00e7o frequentemente quando introduzo o tema da Mutila\u00e7\u00e3o Genital Feminina (MGF) fora dos c\u00edrculos comuns \u00e0s pessoas que trabalham nesta \u00e1rea. Vou ouvindo menos, \u00e9 certo. Mas ainda acontece. Por isso, come\u00e7o este texto explicando porque acho que deve ser lido:<\/p>\n<h4><em>A MGF existe e acontece a meninas e mulheres a viverem entre n\u00f3s. Todos podemos contribuir para a sua erradica\u00e7\u00e3o. E, em particular, cabe a todos os profissionais de sa\u00fade conhecer esta pr\u00e1tica para estarmos aptos a cuidar destas mulheres.<\/em><\/h4>\n<p>Muitas mulheres que vivem em Portugal foram submetidas \u201c\u00e0 tradi\u00e7\u00e3o\u201d. Procuram os cuidados de sa\u00fade pelas mais variadas raz\u00f5es. Algumas relacionadas com as complica\u00e7\u00f5es da MGF, outras n\u00e3o. Mas o facto de terem passado por este evento \u00e9 central na forma como interagem na sua intimidade, nos seus relacionamentos afetivos e na sua vida em geral. Os profissionais de sa\u00fade, em concreto, devem saber como abordar este tema. Porque as mulheres j\u00e1 submetidas \u00e0 MGF podem n\u00e3o falar espontaneamente sobre o assunto. Contudo, esta quest\u00e3o pode ser importante na abordagem cl\u00ednica, em particular nas \u00e1reas da sa\u00fade mental, sa\u00fade sexual \/ sexologia e sa\u00fade reprodutiva.<\/p>\n<p>Mas em Portugal existem, tamb\u00e9m, meninas que podem vir a ser submetidas a esta pr\u00e1tica. Algumas ainda n\u00e3o nasceram, algumas s\u00e3o rec\u00e9m-nascidas, outras vivem ainda sem saber que isto lhes pode vir a acontecer numas f\u00e9rias ao Pa\u00eds de origem dos seus pais.<\/p>\n<p>Trabalhar na preven\u00e7\u00e3o desta pr\u00e1tica est\u00e1 na m\u00e3o de profissionais de sa\u00fade, de educa\u00e7\u00e3o, da \u00e1rea de interven\u00e7\u00e3o social ou comunit\u00e1ria, animadores culturais, juristas\u2026 enfim, todos. Informar para combater a pr\u00e1tica. Dar a conhecer as suas complica\u00e7\u00f5es e as suas consequ\u00eancias. Dar a conhecer que n\u00e3o tem uma fundamenta\u00e7\u00e3o s\u00f3lida mesmo em termos religiosos. Que \u00e9 ilegal em Portugal e em muitos outros Pa\u00edses. Ou seja, contribuir para que deixe de ser realizada.<\/p>\n<p><strong>Em que consiste a Mutila\u00e7\u00e3o Genital Feminina (MGF)? <\/strong><\/p>\n<p>Designam-se por MGF todos os procedimentos realizados sem indica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica que envolvam a remo\u00e7\u00e3o parcial ou total dos \u00f3rg\u00e3os genitais externos femininos ou que provoquem les\u00f5es nos mesmos.<\/p>\n<p><strong>Porque se faz? <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 realizada em v\u00e1rios Pa\u00edses do Continente Africano e M\u00e9dio Oriente e est\u00e1 frequentemente associada a um ritual de inicia\u00e7\u00e3o ou de purifica\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as do sexo feminino. Entre as diferentes comunidades que mant\u00eam esta pr\u00e1tica encontram-se ainda outras raz\u00f5es para a sua realiza\u00e7\u00e3o: a preserva\u00e7\u00e3o da castidade, da moralidade e da virgindade das raparigas. \u00c9 importante salientar que nestas comunidades a mulher n\u00e3o mutilada\/excisada\/submetida ao corte \u00e9 considerada \u201cimpura\u201d.<\/p>\n<p>Qualquer que seja a raz\u00e3o subjacente, esta pr\u00e1tica perpetua-se em nome da tradi\u00e7\u00e3o religiosa ou cultural. Ao trabalhar junto das mulheres e homens da comunidade, \u00e9 importante capacit\u00e1-los com o conhecimento sobre as consequ\u00eancias da pr\u00e1tica, nomeadamente no foro da sa\u00fade, porque os estudos apontam que o \u201cconhecimento\u201d constitui um fator importante para a mudan\u00e7a de comportamento.<\/p>\n<p><strong>Quais os diferentes tipos de MGF?<\/strong><\/p>\n<p>Para permitir a compara\u00e7\u00e3o e estudo, foi definida uma classifica\u00e7\u00e3o internacional que tipifica as les\u00f5es mais frequentemente encontradas. A classifica\u00e7\u00e3o atualmente aceite \u00e9 a da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade de 2007 (OMS), que classifica a MGF em 4 tipos.<\/p>\n<p>Na MGF I encontram-se tipificados os cortes em que existe remo\u00e7\u00e3o total ou parcial do cl\u00edtoris. Esta defini\u00e7\u00e3o inclui tamb\u00e9m as situa\u00e7\u00f5es em que existe apenas a excis\u00e3o do prep\u00facio do cl\u00edtoris. \u00c9 frequentemente designada por clitoridectomia.<\/p>\n<p>Na MGF II devem ser considerados os cortes dos pequenos l\u00e1bios (incluindo ou n\u00e3o cortes dos grandes l\u00e1bios ou clitoridectomia) que n\u00e3o est\u00e3o associados a um estreitamento do vest\u00edbulo vaginal. O que o distingue do tipo III \u00e9 exatamente n\u00e3o existir estreitamento do introito (\u201centrada vaginal\u201d).<\/p>\n<p>No tipo III da MGF, classificam-se os cortes que produzem estreitamento do introito vaginal. O procedimento consiste no corte e oposi\u00e7\u00e3o dos pequenos e\/ou grandes l\u00e1bios. Da cicatriza\u00e7\u00e3o por aposi\u00e7\u00e3o dos bordos cortados resulta uma \u00e1rea fibr\u00f3tica descrita como \u201cmembrana selante\u201d. Nestes casos existe um orif\u00edcio vaginal de dimens\u00e3o vari\u00e1vel dependendo da extens\u00e3o do corte e da cicatriza\u00e7\u00e3o. Este tipo \u00e9 praticado em Pa\u00edses como o Sud\u00e3o, a Som\u00e1lia e o Egito, entre outros. \u00c9 tamb\u00e9m designada por infibula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No tipo IV incluem-se os cortes n\u00e3o classific\u00e1veis nos outros tipos. Enquadram-se neste caso pr\u00e1ticas como a escarifica\u00e7\u00e3o, incis\u00f5es e perfura\u00e7\u00e3o realizados com o intuito ritual e sem indica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica cl\u00ednica \u00e9 importante saber que a classifica\u00e7\u00e3o facilita a sistematiza\u00e7\u00e3o, mas que em algumas mulheres a les\u00e3o pode n\u00e3o ser sim\u00e9trica ou n\u00e3o se enquadrar completamente na classifica\u00e7\u00e3o referida. Este facto justifica-se porque os cortes e as complica\u00e7\u00f5es dependem, n\u00e3o s\u00f3 do tipo e extens\u00e3o do corte, mas tamb\u00e9m da experi\u00eancia de quem realizou a mutila\u00e7\u00e3o, a exist\u00eancia ou n\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de assepsia durante e ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o do procedimento e a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica da v\u00edtima.<\/p>\n<p><strong>Quais as suas consequ\u00eancias ? <\/strong><\/p>\n<p>Durante o ritual existem meninas que morrem na sequ\u00eancia de hemorragia aguda, infe\u00e7\u00e3o e choque s\u00e9ptico. Nunca \u00e9 demais real\u00e7ar esta realidade.<\/p>\n<p>Entre as complica\u00e7\u00f5es agudas est\u00e3o ainda descritas: dor intensa; choque hipovol\u00e9mico; dificuldades em urinar ou defecar e infe\u00e7\u00e3o por diferentes agentes (Hepatite B, Hepatite C, VIH) quando os utens\u00edlios utilizados se encontram contaminados pelos mesmos.<\/p>\n<p>As complica\u00e7\u00f5es a longo prazo variam bastante de acordo com o tipo de mutila\u00e7\u00e3o genital praticada. Est\u00e3o descritas v\u00e1rias consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas, urol\u00f3gicas, ginecol\u00f3gicas e da resposta sexual.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas da MGF s\u00e3o as mais dif\u00edceis de identificar e correlacionar com a pr\u00e1tica, mas s\u00e3o frequentemente relatadas. Os estudos revelam a exist\u00eancia de sentimentos de ansiedade, trai\u00e7\u00e3o, humilha\u00e7\u00e3o e terror. Existem, tamb\u00e9m, m\u00faltiplas refer\u00eancias a sintomas de stress p\u00f3s-traum\u00e1tico, como ins\u00f3nia, pesadelos, perda de apetite, perda ou ganho de peso excessivo, p\u00e2nico, dificuldades de concentra\u00e7\u00e3o e aprendizagem e, ainda, perda de mem\u00f3ria. A depress\u00e3o, a perda de confian\u00e7a, a diminui\u00e7\u00e3o da auto estima e ou medo\/receio de ter rela\u00e7\u00f5es sexuais s\u00e3o outras das perturba\u00e7\u00f5es psicossom\u00e1ticas que s\u00e3o mais frequentes nas mulheres v\u00edtimas de MGF.<\/p>\n<p>Todos os tipos de MGF, podem provocar altera\u00e7\u00f5es na forma como estas mulheres vivem as suas rela\u00e7\u00f5es de intimidade e a sexualidade. Seja pelas consequ\u00eancias f\u00edsicas (por exemplo, por dor recorrente durante a rela\u00e7\u00e3o sexual com penetra\u00e7\u00e3o vaginal), seja pelas consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>A MGF tipo II ou III est\u00e1 frequentemente associada \u00e0 dispareunia (dor com penetra\u00e7\u00e3o vaginal). Muitas mulheres com estes tipos de mutila\u00e7\u00e3o receiam a primeira experi\u00eancia sexual, ou at\u00e9 as subsequentes, por anteverem dor e dificuldade na penetra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A clitoridectomia total ou parcial pode estar associada \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o, aus\u00eancia e \/ou dor durante a fase da excita\u00e7\u00e3o pela les\u00e3o dos genitais ou pela fibrose dos tecidos cicatriciais. Durante a fase de excita\u00e7\u00e3o a ere\u00e7\u00e3o do cl\u00edtoris pode provocar dor recorrente.<\/p>\n<p>Contudo, v\u00e1rias mulheres submetidas a MGF descrevem que este facto n\u00e3o as impede de obter prazer sexual. A estimula\u00e7\u00e3o de outras zonas er\u00f3genas, a qualidade do relacionamento, a compreens\u00e3o do parceiro (ou parceira) s\u00e3o elos fundamentais na sua satisfa\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Por isso, a presen\u00e7a de uma disfun\u00e7\u00e3o sexual, numa mulher com MGF, deve ser orientada e tratada, contextualizando as altera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas e biol\u00f3gicas encontradas, o relacionamento afetivo e as representa\u00e7\u00f5es individuais e sociais em que a mulher est\u00e1 inserida. Ou seja, a presen\u00e7a de uma disfun\u00e7\u00e3o sexual numa mulher com MGF deve ser tratada e n\u00e3o meramente aceite como uma inevitabilidade.<\/p>\n<p>As mulheres submetidas \u00e0 pr\u00e1tica, que vivem em Pa\u00edses nos quais ela n\u00e3o \u00e9 aceite, sentem-se muitas vezes duplamente estigmatizadas: por um lado, s\u00e3o v\u00edtimas de uma pr\u00e1tica que n\u00e3o escolheram e que lhes provoca sintomas, o que as levaria a procurar ajuda. Por outro lado, admitir que s\u00e3o portadoras de uma MGF remete-as para \u201cum universo considerado primitivo\u201d e n\u00e3o ajustado \u00e0s representa\u00e7\u00f5es sociais \u201cadequadas\u201d do novo Pa\u00eds. V\u00e1rias s\u00e3o as mulheres que nestas condi\u00e7\u00f5es optam por ocultar o facto. Talvez por isso, existem autores e estudos que consideram que nos pa\u00edses onde esta pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 culturalmente aceite, a psicopatologia e severidade das sequelas psicol\u00f3gicas s\u00e3o superiores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s sequelas psicol\u00f3gicas encontradas nas mulheres de pa\u00edses onde a pr\u00e1tica da MGF \u00e9 culturalmente aceit\u00e1vel exigindo, nestes casos, uma aten\u00e7\u00e3o acrescida e cuidados redobrados.<\/p>\n<p>Quando se aborda a quest\u00e3o (em consulta ou outros cen\u00e1rios) aconselha-se que sejam utilizadas express\u00f5es como \u201csubmetida \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cao fanado\u201d, \u201ccortada\u201d, circuncidada\u201d; evitando a palavra \u201cmutilada\u201d. Vem em todos os manuais de forma\u00e7\u00e3o que eu li ao longos dos anos. Mas curiosamente, h\u00e1 mulheres mais novas (que provavelmente j\u00e1 recebem informa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dos <em>media<\/em>) que utilizam a express\u00e3o Mutila\u00e7\u00e3o Genital Feminina, ao falar sobre elas pr\u00f3prias ou sobre este tema em geral.<\/p>\n<h4><em>[&#8230;] a presen\u00e7a de uma disfun\u00e7\u00e3o sexual, numa mulher com MGF, deve ser orientada e tratada, contextualizando as altera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas e biol\u00f3gicas encontradas, o relacionamento afetivo e as representa\u00e7\u00f5es individuais e sociais em que a mulher est\u00e1 inserida. Ou seja, a presen\u00e7a de uma disfun\u00e7\u00e3o sexual numa mulher com MGF deve ser tratada e n\u00e3o meramente aceite como uma inevitabilidade<\/em><\/h4>\n<p><strong>O enquadramento legal<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 15 de Setembro de 2015, o enquadramento legal portugu\u00eas previa, atrav\u00e9s do Artigo 144\u00ba, o crime de ofensas corporais graves. Apesar de n\u00e3o estar mencionada expressamente na reda\u00e7\u00e3o da lei a MGF estava enquadrada como uma forma de \u201cprivar ou afetar a capacidade de frui\u00e7\u00e3o sexual de algu\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>Devido \u00e0 ratifica\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia de Istambul por Portugal, em Agosto de 2015, a MGF tornou-se um crime aut\u00f3nomo no C\u00f3digo Penal Portugu\u00eas, atrav\u00e9s da Lei n\u00ba 83\/2015. Atrav\u00e9s desta Lei, designadamente da nova reda\u00e7\u00e3o do Artigo 144\u00ba-A, as pr\u00e1ticas de MGF passaram a ser crime pun\u00edvel por lei com pena de pris\u00e3o de 2 a 10 anos. S\u00e3o tamb\u00e9m considerados crime todos os atos preparat\u00f3rios de MGF, nomeadamente, levar as mulheres ou crian\u00e7as a viajar para fora do pa\u00eds com o objetivo de serem submetidas a MGF.<\/p>\n<p><strong>A situa\u00e7\u00e3o em Portugal <\/strong><\/p>\n<p>Decorrente dos fluxos migrat\u00f3rios ao longo da hist\u00f3ria e na atualidade, cada pa\u00eds na Europa, recebe mulheres de diferentes pa\u00edses em que se pratica a MGF. Em Portugal, a maioria das mulheres que foram submetidas a esta pr\u00e1tica s\u00e3o oriundas da Guin\u00e9-Bissau, Guin\u00e9- Conacri e Senegal. S\u00e3o Pa\u00edses onde est\u00e1 descrita uma elevada preval\u00eancia da mutila\u00e7\u00e3o genital feminina (96% na Guin\u00e9 Conacri, 50% na Guin\u00e9-Bissau e 26% no Senegal). Existem registos de todos os tipos, incluindo o tipo III. Os mais frequentemente encontrados s\u00e3o o tipo II e I. A m\u00e9dia et\u00e1ria de realiza\u00e7\u00e3o da mutila\u00e7\u00e3o foi de 6 anos, o que est\u00e1 em concord\u00e2ncia com a literatura e os valores internacionais que apontam que a grande maioria \u00e9 praticada at\u00e9 aos 10 anos de idade. Estes dados s\u00e3o recolhidos na <a href=\"http:\/\/spms.min-saude.pt\/2013\/11\/pds-plataforma-de-dados-da-saude\/\">Plataforma de Dados em Sa\u00fade<\/a> (PDS), onde t\u00eam sido notificados os casos de mulheres identificadas no SNS (nos cuidados prim\u00e1rios e hospitalares). Estes dados foram publicados na <a href=\"https:\/\/www.dgs.pt\/directrizes-da-dgs\/informacoes\/informacao-n-0022016-de-18032016.aspx\">Informa\u00e7\u00e3o N\u00ba 002\/2016 da DGS de 18.3.2016<\/a> , que pode ser consultada para mais detalhes.<\/p>\n<p>Outra fonte importante para o conhecimento da realidade portuguesa \u00e9 o Relat\u00f3rio \u201c<a href=\"https:\/\/www.cig.gov.pt\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/Relat_Mut_Genital_Feminina_p.pdf\">Mutila\u00e7\u00e3o Genital Feminina: Preval\u00eancias, din\u00e2micas socioculturais e recomenda\u00e7\u00f5es para a sua elimina\u00e7\u00e3o<\/a>\u201d, estudo coordenado pelo Prof. Doutor Manuel Lisboa e desenvolvido pela equipa do CICS.NOVA e do Observat\u00f3rio Nacional de Viol\u00eancia e G\u00e9nero. Trata-se de um estudo financiado pela Funda\u00e7\u00e3o para a Ci\u00eancia e a Tecnologia, e realizado em parceria com a Comiss\u00e3o para a Cidadania e Igualdade de G\u00e9nero.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos t\u00eam sido traduzidos documentos e elaborados manuais que abordam a estrat\u00e9gia de interven\u00e7\u00e3o em consulta e em comunidades. Estes documentos est\u00e3o dispon\u00edveis e s\u00e3o de extrema utilidade para todos os que que t\u00eam de dar respostas a crian\u00e7as, mulheres, fam\u00edlias e comunidades em que a MGF \u00e9 uma realidade ou uma possibilidade.<\/p>\n<p>Acabo este texto repetindo o que escrevi inicialmente. <strong>A MGF existe e acontece a meninas e mulheres a viverem entre n\u00f3s. Todos podemos contribuir para a sua erradica\u00e7\u00e3o<\/strong>.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] Uma reflex\u00e3o de\u2026 Lisa Ferreira Vicente, ginecologista-obstetra no Centro Hospitalar Lisboa Central \u2013 Maternidade Dr. Alfredo da Costa, onde continua a observar e trabalhar com mulheres com MGF &nbsp; Percursos\u2026 Foi chefe da Divis\u00e3o de Sa\u00fade Reprodutiva da Dire\u00e7\u00e3o Geral de Sa\u00fade (2009-2011), Chefe de Divis\u00e3o de Sa\u00fade Sexual, Reprodutiva, Infantil e Juvenil [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":500,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[816,57,55,56],"tags":[442,437,438,439,440,441,427],"class_list":["post-7504","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-de-opiniao","category-cidadania-da-sexualidade","category-noticias-relacionadas","category-saude-sexual","tag-clitoridectomia","tag-mgf","tag-mgf-i","tag-mgf-ii","tag-mgf-iii","tag-mgf-iv","tag-mutilacao-genital-feminina"],"featured_image_src":{"landsacpe":false,"list":false,"medium":false,"full":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7504","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/500"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7504"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7504\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9234,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7504\/revisions\/9234"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7504"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7504"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7504"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}