{"id":7724,"date":"2018-01-12T12:38:36","date_gmt":"2018-01-12T12:38:36","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7724"},"modified":"2019-03-25T18:24:09","modified_gmt":"2019-03-25T18:24:09","slug":"a-amizade-naturezas-relacionais-da-vida-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2018\/01\/12\/a-amizade-naturezas-relacionais-da-vida-contemporanea\/","title":{"rendered":"A Amizade: &#8216;Naturezas&#8217; relacionais da vida contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/Veronica-Policarpo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7754\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/Veronica-Policarpo-235x300.jpg\" alt=\"\" width=\"235\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma reflex\u00e3o de\u2026<\/strong><br \/>\n<a href=\"https:\/\/orcid.org\/0000-0002-9245-1057\">Ver\u00f3nica Policarpo<\/a> \u00e9 soci\u00f3loga na \u00e1rea da vida \u00edntima e pessoal. <a href=\"http:\/\/www.ics.ul.pt\/instituto\/?ln=p&amp;pid=147&amp;mm=5&amp;ctmid=2&amp;mnid=5&amp;doc=31809901190\">Investigadora de p\u00f3s-doutoramento<\/a> no Instituto de Ci\u00eancias Sociais da Universidade de Lisboa e no Morgan Centre da Universidade de Manchester, com o projeto <em>Friends will be friends?.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Percursos\u2026<\/strong><br \/>\nDoutorada em Sociologia pelo Instituto de Ci\u00eancias Sociais da Universidade de Lisboa (2011), com a <a href=\"http:\/\/repositorio.ul.pt\/handle\/10451\/4197\">tese <em>Indiv\u00edduo e Sexualidade: a constru\u00e7\u00e3o social da vida sexual<\/em><\/a>. Autora do cap\u00edtulo \u00abSexualidades em constru\u00e7\u00e3o: entre o p\u00fablico e o privado\u00bb e coautora do cap\u00edtulo \u00abMedia e Entretenimento\u00bb do 4\u00ba Volume da Hist\u00f3ria da Vida Privada em Portugal (2011).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n12 de Janeiro de 2018<\/p>\n<\/div>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]Na era da comunica\u00e7\u00e3o global, em que as redes sociais, em particular o Facebook, vulgarizaram a palavra \u201camigo\u201d, falar de \u201camizade\u201d pode parecer banal, irrelevante, com falta de subst\u00e2ncia ou profundidade. No entanto, a amizade constitui um la\u00e7o afetivo, n\u00e3o s\u00f3 dos mais antigos e celebrados desde sempre na literatura e na arte, como a que as pessoas atribuem muita import\u00e2ncia na contemporaneidade. N\u00e3o \u00e9 por acaso que aplica\u00e7\u00f5es como o Facebook se alavancaram nesse conceito e, por consequ\u00eancia, nas suas qualidades associadas.<\/p>\n<p>Conhecida por ser um la\u00e7o mais informal e menos institucionalizado do que, por exemplo, a fam\u00edlia, \u00e0 amizade s\u00e3o associadas ideias muito em conson\u00e2ncia com os ecos da modernidade tardia em que vivemos. \u00c9 suposto que os amigos sejam por n\u00f3s escolhidos, ao contr\u00e1rio da fam\u00edlia \u2013 e, portanto, que a rela\u00e7\u00e3o se baseie na liberdade, e n\u00e3o no constrangimento. Que a rela\u00e7\u00e3o seja constru\u00edda com base no prazer, divers\u00e3o e satisfa\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o na obriga\u00e7\u00e3o (como acontece frequentemente com as rela\u00e7\u00f5es familiares, ou outras que nos s\u00e3o impostas). E por isso, \u00e0 amizade est\u00e1 sempre associada uma ideia de convivialidade: socializar faz parte de ter amigos. Espera-se que seja baseada na afetividade, e n\u00e3o na imposi\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is institucionais. E esses afetos podem tomar uma forma mais ou menos \u00edntima, consoante os tipos de amizade. Entre amigos n\u00e3o \u00e9 suposto haver grandes diferen\u00e7as de estatuto, ou de poder, ou seja, na amizade espera-se igualdade. E isto repercute-se no que se espera do amigo: que ele, no m\u00ednimo, nos devolva o afeto que lhe destinamos, na mesma, ou semelhante, medida (reciprocidade). Acima de tudo, \u00e0 amizade est\u00e1 associada uma ideia forte de confian\u00e7a interpessoal: um amigo \u00e9 aquele com quem se pode contar em quaisquer circunst\u00e2ncias, que sabe corporificar a compaix\u00e3o \u2013 no sentido em que est\u00e1 presente e sofre connosco, sabe tomar como suas as nossas dores, assim como as nossas alegrias.<\/p>\n<p>Estas ideias expressam assim um ideal, ou normas sociais que acabam por se traduzir em expectativas, e assim orientar o modo como nos comportamos em rela\u00e7\u00e3o aos nossos amigos. Um estudo<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a> sobre o significado que os portugueses d\u00e3o \u00e0 express\u00e3o \u201cbom amigo\u201d e \u201camigo \u00edntimo\u201d mostrou que a no\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a \u00e9 central para definir a amizade. Um amigo \u00e9 sempre algu\u00e9m em quem se espera poder confiar incondicionalmente. Mas enquanto de um \u201cbom amigo\u201d se espera que esteja presente, para dar apoio, nos bons e maus momentos, a no\u00e7\u00e3o de intimidade na amizade surge principalmente associada \u00e0 possibilidade da confid\u00eancia, e tamb\u00e9m \u00e0 de fam\u00edlia. O estudo encontrou quatro tipos de representa\u00e7\u00f5es dominantes a respeito da no\u00e7\u00e3o de \u201camigo\u201d. Uma delas caracteriza-se por identificar a palavra \u201camigo\u201d com la\u00e7os familiares. Isto aponta para o que alguns investigadores chamam de padr\u00f5es de <em>suffusion <a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><strong>[ii]<\/strong><\/a><\/em> na paisagem das rela\u00e7\u00f5es pessoais contempor\u00e2neas \u2013 ou seja, um esbater de fronteiras entre tipos mais e menos formais de relacionamentos (por exemplo, um amigo que \u00e9 considerado um irm\u00e3o; ou um primo que \u00e9 considerado o melhor amigo). Quantos aos restantes tipos, um baseia-se principalmente na confian\u00e7a; um outro \u00e9 mais orientado para o desenvolvimento do <em>self<\/em> (valorizando aspectos como a confid\u00eancia e o apoio incondicional); e um quarto valoriza essencialmente a presen\u00e7a dos amigos, em maus e bons momentos.<\/p>\n<h4><em>\u201cDeixar cair\u201d uma amizade pode ser um processo muito doloroso, e com consequ\u00eancias para a pr\u00f3pria identidade, no sentido em que produz incerteza e inseguran\u00e7a a respeito do modo como nos vemos a n\u00f3s pr\u00f3prios, e ao mundo<\/em><\/h4>\n<p>Como se v\u00ea, a palavra \u201camigo\u201d, apesar das no\u00e7\u00f5es de informalidade e maior liberdade que a sustentam, traz consigo uma elevada exig\u00eancia moral, que constitui certamente um desafio para os relacionamentos concretos com que temos de lidar no nosso dia a dia. Por outras palavras, para l\u00e1 do ideal, h\u00e1 as pr\u00e1ticas que, com mais ou menos regularidade, constroem a amizade no confronto entre expectativas e realidade. E estas pr\u00e1ticas revelam as tens\u00f5es existentes na constru\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o destes la\u00e7os, que n\u00e3o s\u00e3o afinal sempre \u201cescolhidos\u201d, \u201clivres\u201d ou baseados apenas no prazer e satisfa\u00e7\u00e3o. Muitas vezes, os amigos s\u00e3o-nos impostos \u2013 ou por outros amigos, ou pelos c\u00f4njuges ou outros familiares, ou at\u00e9 pelo nosso pr\u00f3prio passado. H\u00e1 amigos que se tornam um \u201cpeso\u201d do qual n\u00e3o nos conseguimos libertar, por isso gerar em n\u00f3s sentimentos de culpa e ambival\u00eancia. \u201cDeixar cair\u201d uma amizade pode ser um processo muito doloroso, e com consequ\u00eancias para a pr\u00f3pria identidade, no sentido em que produz incerteza e inseguran\u00e7a a respeito do modo como nos vemos a n\u00f3s pr\u00f3prios, e ao mundo<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>. E as amizades dif\u00edceis tamb\u00e9m se traduzem em conflitos e decep\u00e7\u00f5es, o dinheiro surgindo frequentemente como um dos pontos sens\u00edveis em que a sua resist\u00eancia \u00e9 testada.<\/p>\n<p>As amizades est\u00e3o tamb\u00e9m sujeitas \u00e0 prova do tempo e das fases da vida que os seus protagonistas v\u00e3o atravessando. Muito presentes na adolesc\u00eancia, com um papel importante na aprendizagem e partilha de experi\u00eancias emocionais e sexuais, tendem a reconfigurar-se \u00e0 medida que se atravessam outras fases da vida, como a entrada na vida adulta, no mercado de trabalho, na conjugalidade, o nascimento dos filhos, o div\u00f3rcio\/separa\u00e7\u00e3o, ou a viuvez. A dist\u00e2ncia e mobilidade geogr\u00e1fica tamb\u00e9m colocam desafios espec\u00edficos, como no caso dos amigos que foram deixando o pa\u00eds nos \u00faltimos anos, para trabalhar. Estas amizades vividas \u00e0 dist\u00e2ncia beneficiam muito das potencialidades que as novas tecnologias trouxeram \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o interpessoal. Aplica\u00e7\u00f5es como o Skype, Facebook, Whastapp, entre outras, permitem um contacto que, apesar de mediado tecnologicamente, p\u00f4de passar a ser mais frequente e s\u00edncrono. Ainda assim, parece haver todo um conjunto de \u201cregras t\u00e1citas\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao modo como se usam estas tecnologias: por exemplo, as ocasi\u00f5es especiais (como o dia de anivers\u00e1rio) ou cr\u00edticas (como uma doen\u00e7a, ou morte) pedem uma conversa com voz (com ou sem imagem). Por outro lado, a import\u00e2ncia do contacto face a face, e da copresen\u00e7a, continua a ser reconhecida: as f\u00e9rias, as visitas ao pa\u00eds de origem, as festas e outros momentos de sociabilidade, s\u00e3o momentos chave da manuten\u00e7\u00e3o de um la\u00e7o que se quer pr\u00f3ximo, para continuar a valer o seu nome<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>.<\/p>\n<h4><em>[&#8230;] sa\u00edmos com quem nos diverte e permite passar um \u201cbom bocado\u201d; \u00e9 o lado \u201calegre\u201d e \u201cdivertido\u201d da vida [&#8230;]. Os f<\/em>un friends <em>t\u00eam esta importante fun\u00e7\u00e3o de garantir a dimens\u00e3o l\u00fadica e da alegria, na amizade.<\/em><\/h4>\n<p>As pr\u00e1ticas que constroem a amizade, no quotidiano, sejam mais ou menos regulares, fazem-se de muitas coisas, como a convivialidade e sociabilidade: almo\u00e7os e jantares, sair para dan\u00e7ar ou ir a espet\u00e1culos, festas de anivers\u00e1rio ou comemora\u00e7\u00f5es de outro tipo. Aqui, o aspecto prazeroso da amizade est\u00e1 em destaque; sa\u00edmos com quem nos diverte e permite passar um \u201cbom bocado\u201d; \u00e9 o lado \u201calegre\u201d e \u201cdivertido\u201d da vida, celebrado nos an\u00fancios de bebidas alco\u00f3licas (que, com o seu efeito desinibidor, t\u00eam tamb\u00e9m um papel na produ\u00e7\u00e3o destes eventos). Os <em>fun friends<\/em><em><sup>ii<\/sup><\/em> t\u00eam esta importante fun\u00e7\u00e3o de garantir a dimens\u00e3o l\u00fadica e da alegria, na amizade. Mas as pr\u00e1ticas que fazem e consolidam as amizades revelam-se tamb\u00e9m nas pr\u00e1ticas de cuidar \u2013 do amigo, quando em necessidade; ou de o apoiar quando \u00e9 ele que \u00e9 cuidador de outrem (filhos, pais, companheiros). Alguns autores consideram que os amigos constituem principalmente uma base de apoio emocional, mas n\u00e3o tanto instrumental, principalmente no envelhecimento, quando os pr\u00f3prios amigos j\u00e1 precisam, eles tamb\u00e9m, de cuidados<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a>. Por outro lado, a fam\u00edlia continua a ser, em Portugal, a primeira fonte de cuidados informais na doen\u00e7a e na velhice<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a>. No entanto, em redes pessoais em que os pap\u00e9is de amigos e fam\u00edlia est\u00e3o cada vez mais fundidos, revela-se com maior clareza o apoio e interajuda providenciados pelos amigos<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a>. Isso acontece quer quando se tem de tratar de familiares doentes (caso em que amigos com compet\u00eancias espec\u00edficas, como ser m\u00e9dico ou enfermeiro, t\u00eam um papel preponderante na presta\u00e7\u00e3o de cuidados mais pr\u00e1ticos); quer quando se trata de ajudar os amigos a cuidarem de si pr\u00f3prios (por exemplo, pessoas que vivem sozinhas, ou que atravessam per\u00edodos cr\u00edticos de separa\u00e7\u00e3o\/div\u00f3rcio, ou doen\u00e7a aguda). <em>Ser cuidado <\/em>pelos amigos pode refor\u00e7ar a intimidade e confian\u00e7a, mas pode tamb\u00e9m p\u00f4r em causa o princ\u00edpio de igualdade e reciprocidade, que constituem pedras basilares deste la\u00e7o. Para alguns homens isto pode constituir uma amea\u00e7a, sobretudo quando partilham concep\u00e7\u00f5es de masculinidade mais tradicionais. De facto, as pr\u00e1ticas do cuidar s\u00e3o muito atravessadas por desigualdades de g\u00e9nero, estando principalmente a cargo das mulheres. No caso da amizade, esse efeito de g\u00e9nero faz-se sentir principalmente em termos de apoio emocional, na associa\u00e7\u00e3o da figura da \u201camiga\u201d a \u201cconfidente\u201d, \u201cboa ouvinte\u201d, \u201cconselheira\u201d. Nestes casos, a amizade n\u00e3o contribui para desafiar as desigualdades de g\u00e9nero que atravessam as sociedades em que vivemos, incluindo as pr\u00e1ticas do cuidar.<\/p>\n<p>Os amigos t\u00eam tamb\u00e9m um papel importante na constru\u00e7\u00e3o da vida e da identidade sexuais. Para aqueles cuja vida pessoal desafia a heteronorma, os amigos constituem importantes fontes de suporte emocional e instrumental, de valida\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia e identidade, principalmente em contextos de discrimina\u00e7\u00e3o e segrega\u00e7\u00e3o acentuadas. \u00c0 medida que cresce a aceita\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o-heteronormativas, na sociedade e nas fam\u00edlias, as chamadas \u201cfam\u00edlias de escolha\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a> v\u00e3o sendo tamb\u00e9m constitu\u00eddas por um <em>mix<\/em> de familiares e amigos <sup>vii<\/sup><sup> <a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a><\/sup> (um retorno \u00e0 no\u00e7\u00e3o de <em>suffusion<\/em> que vimos atr\u00e1s). A rela\u00e7\u00e3o entre sexualidade e amizade tem ainda outras declina\u00e7\u00f5es, como as rela\u00e7\u00f5es que evoluem de amizade para rela\u00e7\u00f5es amorosas e sexuais, as assun\u00e7\u00f5es associadas \u00e0s amizades entre pessoas de sexo diferente, os amigos que t\u00eam um papel de \u201cconsolo sexual\u201d, ou a import\u00e2ncia da rela\u00e7\u00e3o com amigos na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia para a aprendizagem da sexualidade.<\/p>\n<h4><em>Os amigos t\u00eam tamb\u00e9m um papel importante na constru\u00e7\u00e3o da vida e da identidade sexuais. Para aqueles cuja vida pessoal desafia a heteronorma, os amigos constituem importantes fontes de suporte emocional e instrumental, de valida\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia e identidade, principalmente em contextos de discrimina\u00e7\u00e3o e segrega\u00e7\u00e3o acentuadas<\/em><\/h4>\n<p>As pr\u00e1ticas que unem os amigos s\u00e3o tamb\u00e9m, e talvez principalmente, afetivas. Elas constroem-se pela repeti\u00e7\u00e3o continuada de gestos portadores de significado, em que o corpo tem uma import\u00e2ncia fundamental (tocar, abra\u00e7ar, beijar\u2026). Mas tamb\u00e9m pela express\u00e3o inesperada e at\u00e9 explosiva das \u201cpaix\u00f5es\u201d, o lado incontrolado das emo\u00e7\u00f5es. Atrav\u00e9s destas pr\u00e1ticas, os amigos podem constituir uma comunidade afetiva que os ajuda a navegar ambientes sociais caracterizados pela incerteza, como \u00e9 o caso dos indiv\u00edduos em processos de mobilidade social acentuada.<\/p>\n<p>E finalmente como falar de amizade sem mencionar os la\u00e7os que constru\u00edmos com outras esp\u00e9cies n\u00e3o humanas? Os animais de companhia, em especial o c\u00e3o, s\u00e3o cada vez mais populares nos lares dos portugueses, e est\u00e3o a contribuir ativamente para redefinir as pr\u00f3prias fronteiras do que significa uma \u201cfam\u00edlia\u201d, e a distribui\u00e7\u00e3o dos afetos no seu seio. No mapa de rela\u00e7\u00f5es pessoais, o lugar que os humanos ocupam \u00e9, tamb\u00e9m ele, definido pelo lugar que os animais ocupam, o que salienta a natureza profundamente relacional da vida contempor\u00e2nea. Por outro lado, mais do que a popularizada express\u00e3o que nos diz que \u201co c\u00e3o \u00e9 o melhor amigo do homem\u201d, importa-nos sobretudo questionar at\u00e9 que ponto o homem tem sido um bom amigo dos outros animais \u2013 c\u00e3o ou n\u00e3o. Aqui a paleta de situa\u00e7\u00f5es \u00e9 variada, mas estrutura-se sempre num paradoxo fundamental: enquanto alguns animais s\u00e3o considerados \u201camigos\u201d, t\u00eam grande visibilidade nas nossas vidas, e s\u00e3o por n\u00f3s protegidos e amados \u2013 os animais de companhia (c\u00e3es e gatos principalmente, mas n\u00e3o s\u00f3); outros s\u00e3o completamente tornados invis\u00edveis, e objetos explorados para consumo humano \u2013 para comer, vestir ou entretenimento. At\u00e9 que ponto ter um animal de companhia, e construir com ele la\u00e7os afetivos como a amizade, pode facilitar a forma\u00e7\u00e3o de empatia com os outros animais (que n\u00e3o s\u00e3o dom\u00e9sticos ou de companhia), e assim favorecer uma mudan\u00e7a \u00e9tica e de atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras esp\u00e9cies? Esta \u00e9 uma quest\u00e3o que certamente merecer\u00e1 ser explorada, num planeta amea\u00e7ado pelo uso abusivo que os humanos t\u00eam feito dos seus recursos naturais.<\/p>\n<p><strong>NOTAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> POLICARPO, Ver\u00f3nica (2015) &#8220;What is a friend? An Exploratory Typology of the Meanings of Friendship&#8221;, <em>Soc. Sci.<\/em> 2015, 4, 171\u2013191; doi:10.3390\/socsci4010171.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> SPENCER, L. &amp; Pahl, R (2006) <em>Rethinking friendship. Hidden solidarities today<\/em>. Princeton University Press.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> SMART, Carol; Davies, Katherine; Heaphy, Brian, and Mason, Jennifer. \u201cDifficult Friendships and Ontological Insecurity.\u201d <em>The Sociological Review<\/em> 60 (2012): 91\u2013109.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> POLICARPO, Ver\u00f3nica (2016) \u201c\u2018The Real Deal\u2019: Managing Intimacy Within Friendship at a Distance.\u201d <em>Qualitative Sociology Review <\/em>12(2):22-42. Retrieved January 2018 (http:\/\/www.qualitativesociologyreview.org\/ENG\/archive_eng.php).<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> ALLAN, G. A. (1986). Friendship and care for elderly people. <em>Ageing and Society, 6<\/em>(1), 1\u201312. doi:10.1017\/S0144686X00005468<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> ABOIM, S., Vasconcelos, P., &amp; Wall, K. (2013). Support, social networks and the family in Portugal: Two decades of research. <em>International Review of Sociology, 23<\/em>(1), 47\u201367. doi:10.1080\/03906701.2013.771050<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> POLICARPO, Ver\u00f3nica (2017) Friendship and care: gendered practices within personal communities in Portugal, <em>Journal of Gender Studies<\/em>, DOI: 10.1080\/09589236.2017.1394820.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> WEEKS, J, Heaphy, B and Donovan, C (2001) <em>Same Sex Intimacies: Families of Choice and Other Life <\/em><em>Experiments<\/em>. 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Investigadora de p\u00f3s-doutoramento no Instituto de Ci\u00eancias Sociais da Universidade de Lisboa e no Morgan Centre da Universidade de Manchester, com o projeto Friends will be friends?. &nbsp; Percursos\u2026 Doutorada em Sociologia pelo Instituto de Ci\u00eancias Sociais da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":500,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[816,55,1],"tags":[515,520,519,516,517,111,518],"class_list":["post-7724","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-de-opiniao","category-noticias-relacionadas","category-variadas","tag-amizade","tag-animais-de-companhia","tag-fun-friends","tag-heteronorma","tag-redes-sociais","tag-sexualidade","tag-suffusion"],"featured_image_src":{"landsacpe":false,"list":false,"medium":false,"full":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7724","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/500"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7724"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7724\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9218,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7724\/revisions\/9218"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7724"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7724"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7724"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}