{"id":7733,"date":"2018-01-12T12:37:47","date_gmt":"2018-01-12T12:37:47","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7733"},"modified":"2019-03-25T18:26:34","modified_gmt":"2019-03-25T18:26:34","slug":"um-dicionario-sobre-um-dos-ultimos-tabus-do-mundo-ocidental-o-adulterio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2018\/01\/12\/um-dicionario-sobre-um-dos-ultimos-tabus-do-mundo-ocidental-o-adulterio\/","title":{"rendered":"Um dicion\u00e1rio sobre \u201cum dos \u00faltimos tabus do mundo ocidental\u201d, o adult\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/FM-2-\u00a9-Joa\u0303o-Francisco-Vilhena.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7764\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/FM-2-\u00a9-Joa\u0303o-Francisco-Vilhena-195x300.jpg\" alt=\"\" width=\"195\" height=\"300\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00c0 conversa com\u2026<\/strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.filipamelo.com\">Filipa Melo<\/a>, escritora, cr\u00edtica liter\u00e1ria e jornalista. Autora do Blog <a href=\"https:\/\/coracaoduplo.blogspot.pt\/\">Cora\u00e7\u00e3o Duplo<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div>\n<p><strong>Percursos\u2026<br \/>\n<\/strong>\u00c9 autora do romance\u00a0<em>Este \u00c9 o Meu Corpo<\/em>\u00a0(2001), traduzido em sete l\u00ednguas, do livro de reportagens\u00a0<em>Os \u00daltimos Marinheiros<\/em>\u00a0(2015) e do\u00a0<em>Dicion\u00e1rio Sentimental do Adult\u00e9rio<\/em>\u00a0(2017). Trabalha h\u00e1 mais de \u200bvinte anos na divulga\u00e7\u00e3o da literatura nacional e cl\u00e1ssica na imprensa e na televis\u00e3o, em comunidades de leitores, em eventos de divulga\u00e7\u00e3o e oficinas e tutoria \u200bde escrita criativa. Atualmente, assina cr\u00edtica liter\u00e1ria na revista <em>Ler\u00a0<\/em>e nos jornais <em>Sol <\/em>e <em>&#8220;i&#8221;<\/em>\u200b, coordena e ministra uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Escrita de Fic\u00e7\u00e3o, na Universidade Lus\u00f3fona, em Lisboa, e dirige e modera a Comunidade de Leitores Leya Connosco (Livraria Buchholz, Lisboa).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Foto<br \/>\n<\/strong>Jo\u00e3o Francisco Vilhena<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n12 de Janeiro de 2018<\/p>\n<div><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Entrevista<br \/>\n<\/strong>Isabel Freire<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]<strong>Filipa Melo publicou em 2016 um <em>Dicion\u00e1rio Sentimental do Adult\u00e9rio <\/em>(Editora Quetzal), \u201co mais criativo de todos os pecados\u201d<\/strong><strong>. O livro atravessa os tempos e os lugares. Invoca figuras e situa\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria e da literatura, revela cren\u00e7as e rituais prevalecentes pelo mundo, evidencia convic\u00e7\u00f5es do direito, da religi\u00e3o ou da ci\u00eancia, e conta epis\u00f3dios da vida comum, de todos os dias, numa abordagem pessoal, carregada de fina ironia. Para a escritora e jornalista, \u201ca verdadeira natureza humana\u201d n\u00e3o \u00e9 e nunca foi monog\u00e2mica. Filipa Melo acredita que no mundo ocidental do futuro o poliamor poder\u00e1 vir ser o paradigma mais comum das rela\u00e7\u00f5es amorosas.<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica \u2013 Como foi colecionar estas hist\u00f3rias (reais e ficcionais) do adult\u00e9rio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Filipa Melo \u2013<\/strong> Parti de v\u00e1rias vozes, recolhidas por escrito, numa bibliografia extensa sobre o tema, ou ao vivo, pelos testemunhos de pessoas mais ou menos pr\u00f3ximas. O que fui lendo e escutando comp\u00f4s uma esp\u00e9cie de <em>puzzle<\/em>, n\u00e3o s\u00f3 porque a estrutura do livro \u00e9 a de um dicion\u00e1rio ou de um almanaque, com m\u00faltiplas entradas, mas tamb\u00e9m porque o adult\u00e9rio se revelou uma mat\u00e9ria transversal, vasta e ainda muito pouco teorizada, o mais criativo de todos os pecados. O resultado foi uma abordagem pessoal, livre, com recurso \u00e0 ironia e centrada numa convic\u00e7\u00e3o fundamental, expressa pelo psicoterapeuta e ensa\u00edsta ingl\u00eas Adam Phillips: acreditar na monogamia n\u00e3o \u00e9 muito diferente de acreditar em Deus. Na verdade, a fidelidade conjugal \u00e9 um condicionamento evolutivo, destinado a garantir a transmiss\u00e3o gen\u00e9tica e assente na coibi\u00e7\u00e3o dos instintos e na obedi\u00eancia a normas sociais e morais. Trata-se de uma utopia transformada em imposi\u00e7\u00e3o prosaica. \u2018N\u00f3s n\u00e3o fomos feitos para sermos fi\u00e9is\u2019, \u00e9 isso o que, por fim, gritaram todas as vozes que escutei.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 O processo de pesquisa e reflex\u00e3o trouxe-lhe evid\u00eancias das intera\u00e7\u00f5es, dos afetos e das sexualidades das pessoas atrav\u00e9s dos tempos e dos lugares? <\/strong><\/p>\n<p><strong>FM \u2013<\/strong> A pesquisa cobriu desde o aparecimento da monogamia como constru\u00e7\u00e3o societal, no Neol\u00edtico, at\u00e9 ao estere\u00f3tipo do <em>womaniser <\/em>inveterado (a personagem Don Draper) na s\u00e9rie televisiva <em>Mad Men<\/em>. Desde a tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edgina dos zulus, ainda praticada pelo presidente da \u00c1frica do Sul, Jacob Zuma, at\u00e9 \u00e0 exist\u00eancia de uma empresa de <em>exterm\u00ednio de amantes <\/em>na China atual. A hist\u00f3ria do adult\u00e9rio acompanha a hist\u00f3ria da Humanidade e est\u00e1 muit\u00edssimo presente na hist\u00f3ria da literatura. Os enredos variam atrav\u00e9s dos tempos e dos lugares, mas \u00e9 constante a opress\u00e3o da sexualidade feminina, o dom\u00ednio do homem sobre o corpo da mulher, sobretudo ap\u00f3s a institui\u00e7\u00e3o do adult\u00e9rio como crime p\u00fablico, com as <em>Lex Julia<\/em> do tempo do imperador Augusto. A mulher casada foi desde sempre colocada no epicentro da transgress\u00e3o. Tal como afirmo no livro, debaixo do sol e \u00e0 luz das palavras dos deuses, o destinat\u00e1rio primordial dos avisos contra a cobi\u00e7a do c\u00f4njuge alheio pode ter sido o homem, mas o culpado parece ser sempre a mulher.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 E acerca da compreens\u00e3o das suas pr\u00f3prias representa\u00e7\u00f5es da sexualidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>FM \u2013<\/strong> Fiquei ainda mais convicta de que o amor rom\u00e2ntico tal como foi concebido no s\u00e9culo XIX \u00e9 uma insanidade. Viver com algu\u00e9m para sempre e ser-lhe eternamente fiel \u00e9 uma autoimposi\u00e7\u00e3o cada vez mais impratic\u00e1vel. A efabula\u00e7\u00e3o da fidelidade conjugal baseia-se na idealiza\u00e7\u00e3o de um para\u00edso perdido e, nesse sentido, assemelha-se \u00e0 efabula\u00e7\u00e3o do amor incondicional, imparcial e incontest\u00e1vel dos pais pelos filhos. O adult\u00e9rio \u00e9, desde sempre, a face oculta do casamento. \u00c9 o outro lado da lua e, muitas vezes, de n\u00f3s mesmos. Pode suscitar uma importante reordena\u00e7\u00e3o de si mesmo, um renascimento. Porque quando tra\u00edmos n\u00e3o \u00e9 necessariamente o outro que tra\u00edmos, mas, sim, aquilo em que nos torn\u00e1mos ao seu lado. N\u00e3o vamos \u00e0 procura de algu\u00e9m, vamos \u00e0 procura de um reajuste com n\u00f3s pr\u00f3prios. A pr\u00e1tica do adult\u00e9rio permanece a principal causa de div\u00f3rcio em todo o mundo e traduz o balan\u00e7o entre o instinto e a conven\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es amorosas.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Os casamentos \u201ccelebram-se\u201d. Os div\u00f3rcios nem tanto. E os adult\u00e9rios?<\/strong><\/p>\n<p><strong>FM \u2013<\/strong> Haver\u00e1 quem os celebre, mas \u00e9 com certeza muito maior a percentagem daqueles que o lamentam. Por detr\u00e1s de todos os casos de adult\u00e9rio que investiguei, encontrei muita dor, n\u00e3o s\u00f3 por parte de quem \u00e9 tra\u00eddo, mas tamb\u00e9m de quem trai. A quebra do compromisso com o outro \u2014 que pressup\u00f4s tamb\u00e9m um compromisso consigo mesmo \u2014, pode provocar euforia e significar uma afirma\u00e7\u00e3o importante de desejo de mudan\u00e7a e liberdade. Mas a ressaca obriga, genericamente, a um processo de luto extremamente dif\u00edcil para ambas as partes. Por um lado, o adult\u00e9rio revelado (e \u00e9 preciso notar que s\u00f3 muito raramente um ad\u00faltero confessa s\u00ea-lo) abre uma ferida narc\u00edsica muito dolorosa em quem \u00e9 tra\u00eddo. Por outro, o pr\u00f3prio ad\u00faltero inicia, na generalidade dos casos, um processo de autoculpabiliza\u00e7\u00e3o que se tornar\u00e1 determinante para o sucesso ou insucesso das rela\u00e7\u00f5es amorosas futuras. Creio que n\u00e3o h\u00e1 adult\u00e9rios felizes, tal como n\u00e3o existem div\u00f3rcios felizes.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Numa das entradas do <em>Dicion\u00e1rio Sentimental do Adult\u00e9rio<\/em>, apresenta uma listagem breve de 26 situa\u00e7\u00f5es reais de adult\u00e9rio. Qual destas hist\u00f3rias vividas lhe parece mais extraordin\u00e1ria e porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>FM \u2013<\/strong> O caso mais hilariante \u00e9 o do padre, t\u00e3o devoto quanto precavido, que virava para a parede as faces de todos os santinhos dependurados, antes de receber a amante no seu quarto.<\/p>\n<p>Aquele que mais me impressionou foi o de uma mulher que, ap\u00f3s 22 anos de rela\u00e7\u00e3o com um homem casado, foi impedida pela esposa de o visitar no hospital (onde estava em estado de doen\u00e7a terminal) e at\u00e9 mesmo de assistir ao vel\u00f3rio e ao funeral. Encontrei-a em frente do cemit\u00e9rio, escondida atr\u00e1s de um carro, a chorar compulsivamente. O adult\u00e9rio implica, em maior ou menor grau, mas acredito que sempre, um desejo de vingan\u00e7a de alguma das partes do tri\u00e2ngulo. Os efeitos s\u00e3o devastadores.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/250x.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-7765 alignright\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/250x-192x300.jpg\" alt=\"\" width=\"192\" height=\"300\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Assistiu em adolescente \u00e0 <em>Festa dos cornos<\/em> (que acontecia algures no Faial e no Pico), como nos conta no livro. Chama-lhe a celebra\u00e7\u00e3o mais ins\u00f3lita do mundo. Neste cortejo uma coroa com um corno na ponta, depois de aben\u00e7oada, juntava numa esp\u00e9cie de irmandade de cornudos os homens casados das redondezas, que tivessem \u2018sofrido\u2019 o adult\u00e9rio. Este cortejo tinha mais de humilha\u00e7\u00e3o ou de partilha? E o que pensa de ambas a prop\u00f3sito do tema?<\/strong><\/p>\n<p><strong>FM \u2013<\/strong> Na altura, a minha rea\u00e7\u00e3o foi de estranheza perante a ins\u00f3lita exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica do estatuto de cornudo. O cortejo, que avan\u00e7ava entre gritos e toques de b\u00fazios e campainhas, celebrava uma humilha\u00e7\u00e3o, o que obviamente me pareceu um contrassenso. As <em>v\u00edtimas <\/em> colaboravam, \u00e9 certo, mas havia ali algo primitivo, a mesma afirma\u00e7\u00e3o de virilidade m\u00e1scula, potencialmente selv\u00e1tica, que eu pressentia na escola, quando os rapazes se juntavam para baterem em algum deles, ou, por vezes, no p\u00fablico masculino dos jogos de futebol e das touradas ou, de forma mais intimidat\u00f3ria, nas propostas de teor sexual (vulgo piropos) que desde muito cedo escutei na rua. Embora o ambiente parecesse de brincadeira e folia, era especialmente en\u00e9rgico o modo como os membros da irmandade corriam atr\u00e1s e arrastavam os homens que iam <em>ca\u00e7ando<\/em> e os obrigavam a beijar o corno e bastante humilhantes os dichotes lan\u00e7ados pelo povo que assistia. Por detr\u00e1s da festa, estava a censura evidente de um determinado comportamento ou condi\u00e7\u00e3o, o desprezo pelo chamado <em>corno manso<\/em>.<\/p>\n<p>Fora do mundo ocidental, a institucionaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia masculina ainda \u00e9 a realidade mais comum e a penaliza\u00e7\u00e3o por adult\u00e9rio continua a atingir de forma b\u00e1rbara sobretudo as mulheres, em especial nesse imenso vale de l\u00e1grimas que \u00e9 o mundo isl\u00e2mico (note-se que, em v\u00e1rios pa\u00edses, ainda \u00e9 comum que os violadores sejam libertados e as v\u00edtimas condenadas por terem tido sexo fora do matrim\u00f3nio). Na China, as ad\u00falteras s\u00e3o comummente espancadas em p\u00fablico. Em Israel, os filhos de uma rela\u00e7\u00e3o ad\u00faltera s\u00e3o considerados bastardos e \u00e9-lhes interdito (a eles e \u00e0 sua descend\u00eancia) o casamento judeu (o \u00fanico reconhecido pelo Estado). No Ocidente, o adult\u00e9rio feminino ainda \u00e9 muit\u00edssimo mais censurado publicamente do que o masculino; por outro lado, \u00e9 mais secreto e, di-lo Jos\u00e9 Santos, o detective privado que consultei, bem mais eficaz. Persiste o segredo e a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero (inclusive a ideia de que um homossexual que trai com um parceiro homossexual, n\u00e3o trai verdadeiramente). Persiste a ideia de que os homens traem mais do que as mulheres. Mas, pergunto-me, traem-nas com quem?<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 H\u00e1 uns anos, numa sala de espera de um terminal rodovi\u00e1rio, uma desconhecida de 60 anos contou-me que descobrira na v\u00e9spera do casamento (quando tinha 20), que o noivo tinha uma amante com 180 quilos, que mal saia da cama por causa do peso. A revela\u00e7\u00e3o foi traum\u00e1tica, mas casaram-se \u00e0 mesma. Quando me contou a hist\u00f3ria, o problema parecia ser, n\u00e3o o facto de o noivo ter outra mulher, mas a obesidade dela. O\/a amante do\/da companheiro\/a \u00e9 fonte de enaltecimento ou de deprecia\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 tra\u00eddo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>FM \u2013<\/strong> N\u00e3o encontrei dados sobre a avalia\u00e7\u00e3o qualitativa do(a) amante por parte do c\u00f4njuge tra\u00eddo. Creio que ela \u00e9 largamente superada, primeiro, pela curiosidade, depois por um instinto de rejei\u00e7\u00e3o e, eventualmente, de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Cita um excerto do livro <em>Uma Campanha Alegre<\/em> de E\u00e7a de Queir\u00f3s, em que ele diz que para a mulher, viver um caso de adult\u00e9rio \u00e9 essencialmente ter a \u201cdoce ocasi\u00e3o\u201d de \u201cpequeninos afazeres\u201d transgressivos, sigilosos (escrever cartas, \u201ctremer e ter susto\u201d, \u201cfazer toilette com inten\u00e7\u00e3o\u201d). Esta dimens\u00e3o do risco e do segredo \u00e9 essencial? Um adult\u00e9rio desmascarado perde a gra\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p><strong>FM \u2013<\/strong> Um adult\u00e9rio desmascarado deixa de o ser. O adult\u00e9rio alimenta-se da mentira, que se alimenta da fantasia. Fantasiar com o adult\u00e9rio \u00e9 tamb\u00e9m fantasiar com o risco e a transgress\u00e3o. Todos nos imaginamos alguma vez como traidores ou tra\u00eddos. O adult\u00e9rio \u00e9 um dos \u00faltimos tabus no mundo ocidental, sobre o qual nem sequer \u00e9 poss\u00edvel elaborar estat\u00edsticas cred\u00edveis. A sua ess\u00eancia \u00e9 a excita\u00e7\u00e3o provocada pelo segredo e pelo desconhecido ou, t\u00e3o s\u00f3, a verdadeira natureza humana, que nunca foi monog\u00e2mica. Tal como afirmo no livro: num adult\u00e9rio, mentir \u00e9 descobrir op\u00e7\u00f5es, e encontrar liberdades inimagin\u00e1veis. O segredo faz o resto. No adult\u00e9rio, as varia\u00e7\u00f5es de n\u00f3s mesmos s\u00e3o infinitas.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 \u201cTr\u00eas \u00e9 o n\u00famero de lados do tri\u00e2ngulo que, nestas coisas de adult\u00e9rio, parece ser sempre is\u00f3sceles, ou seja, ter um lado diminu\u00eddo\u201d. O lado diminu\u00eddo \u00e9 sempre evidente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>FM \u2013<\/strong> De todo. O adult\u00e9rio \u00e9 uma competi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, um di\u00e1logo surdo-mudo entre tr\u00eas pessoas, uma soma sempre errada (2+2=3), em que ningu\u00e9m ganha e todos perdem. N\u00e3o se trata de uma afirma\u00e7\u00e3o moral da minha parte, nada disso, trata-se de uma constata\u00e7\u00e3o. Acredito que uma pe\u00e7a-chave do jogo \u00e9 o desejo de afirma\u00e7\u00e3o individual. Outra, \u00e9 a capacidade de autoestima. E ainda outra, a puls\u00e3o sexual. A conjuga\u00e7\u00e3o entre os tr\u00eas fatores, inconsciente na maioria dos casos, define cada um dos contendores.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Diz no seu <em>Dicion\u00e1rio<\/em> que a monogamia pode ser coroada \u201ccomo o maior desmancha-prazeres de sempre, anti-er\u00f3tico e a-rom\u00e2ntico\u201d. E que a fidelidade conjugal n\u00e3o \u00e9 a nossa \u201cinclina\u00e7\u00e3o natural\u201d. O que acha do poliamor?<\/strong><\/p>\n<p><strong>FM \u2013<\/strong> Num futuro ainda distante, talvez o poliamor venha a ser a realidade mais comum no mundo ocidental, afirmando-se como novo paradigma das rela\u00e7\u00f5es amorosas. Para tal, seria necess\u00e1ria uma reformula\u00e7\u00e3o t\u00e3o profunda quanto a influ\u00eancia inabal\u00e1vel do casamento como cimento social o foi at\u00e9 agora.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] &nbsp; \u00c0 conversa com\u2026 Filipa Melo, escritora, cr\u00edtica liter\u00e1ria e jornalista. Autora do Blog Cora\u00e7\u00e3o Duplo. &nbsp; Percursos\u2026 \u00c9 autora do romance\u00a0Este \u00c9 o Meu Corpo\u00a0(2001), traduzido em sete l\u00ednguas, do livro de reportagens\u00a0Os \u00daltimos Marinheiros\u00a0(2015) e do\u00a0Dicion\u00e1rio Sentimental do Adult\u00e9rio\u00a0(2017). Trabalha h\u00e1 mais de \u200bvinte anos na divulga\u00e7\u00e3o da literatura nacional e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":500,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[815,55,1],"tags":[497,490,521,477,247,183,525,524,522,523],"class_list":["post-7733","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","category-noticias-relacionadas","category-variadas","tag-adulterio","tag-casamento","tag-dicionario-sentimental-do-adulterio","tag-infidelidade","tag-monogamia","tag-poliamor","tag-poliandria","tag-poligamia","tag-relacoes-extraconjugais","tag-traicao"],"featured_image_src":{"landsacpe":false,"list":false,"medium":false,"full":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7733","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/500"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7733"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7733\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9220,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7733\/revisions\/9220"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7733"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7733"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7733"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}