{"id":7871,"date":"2018-02-21T09:23:27","date_gmt":"2018-02-21T09:23:27","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7871"},"modified":"2019-03-25T18:13:16","modified_gmt":"2019-03-25T18:13:16","slug":"catolicas-e-catolicos-lgbt-um-duplo-estigma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2018\/02\/21\/catolicas-e-catolicos-lgbt-um-duplo-estigma\/","title":{"rendered":"Cat\u00f3licas e Cat\u00f3licos LGBT: Um Duplo Estigma!"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/IMG_20171231_232404.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-7872\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/IMG_20171231_232404-226x300.jpg\" alt=\"\" width=\"226\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Uma reflex\u00e3o de\u2026<\/strong><br \/>\nJos\u00e9 Leote, Fundador e Coordenador Nacional da <em>Rumos Novos &#8211; Cat\u00f3licas e Cat\u00f3licos LGBT<\/em> <em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Contactos: <\/strong><br \/>\nRumos Novos \u2013 Cat\u00f3licas e Cat\u00f3licos LGBT<br \/>\n<a href=\"http:\/\/rumosnovos-ghc.blogs.sapo.pt\">Blog<\/a> \/ <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/rumosnovos\/\">Facebook<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n21 de fevereiro de 2018<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]A <em>Rumos Novos \u2013 Cat\u00f3licas e Cat\u00f3licos<\/em> LGBT, fundada em 1 de maio de 2008, \u00e9 uma comunidade de fi\u00e9is cat\u00f3licos unidos pela sua f\u00e9, mas igualmente pela sua orienta\u00e7\u00e3o sexual. Acreditando que \u00abDeus\u2026 chama a igreja a ministrar a cada homem, mulher e crian\u00e7a, com a solicitude pastoral do nosso Senhor compassivo\u00bb<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> trabalha para que a pastoral com as pessoas LGBT possa ser uma realidade ao n\u00edvel das dioceses e par\u00f3quias portuguesas, pois as pessoas LGBT, como de resto todas as pessoas, n\u00e3o devem sofrer preconceito em rela\u00e7\u00e3o aos seus direitos humanos b\u00e1sicos, tendo direito ao respeito, amizade e justi\u00e7a e devendo desempenhar um papel ativo nas par\u00f3quias e na comunidade cat\u00f3lica em geral. \u00c0s pessoas LGBT cat\u00f3licas a <em>Rumos Novos<\/em> oferece uma palavra inclusiva que se estende igualmente aos pais e fam\u00edlias, convidando-os a aceitarem a gra\u00e7a de Deus presente nas suas vidas e a confiarem na miseric\u00f3rdia infal\u00edvel de Jesus nosso Senhor, pois todas e todos s\u00e3o chamados a se tornarem um corpo, um esp\u00edrito em Cristo.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a das pessoas LGBT no seio da Igreja Cat\u00f3lica ganhou uma visibilidade mais marcante e medi\u00e1tica ap\u00f3s as palavras do Papa Francisco: \u00abQuem sou eu para julgar!\u00bb e elas mesmas deram um novo alento e conforto a todo este conjunto de fi\u00e9is. Apesar delas ainda \u00e9 grande o estigma que este grupo de pessoas sofre.<\/p>\n<p>Falar de estigma \u00e9 falar de uma rejei\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica, n\u00e3o somente ao n\u00edvel da pessoa, mas outrossim de todas as pessoas pertencentes a um determinado grupo, neste caso, tendo por base a sua cren\u00e7a religiosa e a sua orienta\u00e7\u00e3o sexual, uma rejei\u00e7\u00e3o que lhes torna dif\u00edcil construir uma identidade pessoal e de autoestima bem alicer\u00e7adas. Na natureza heterog\u00e9nea da nossa sociedade a quest\u00e3o do estigma assume uma natureza ainda mais complexa, pois ser uma cat\u00f3lica ou um cat\u00f3lico LGBT sujeita a pessoa a um duplo estigma, no qual a pessoa pode sentir-se amea\u00e7ada na sua dupla condi\u00e7\u00e3o: a de cat\u00f3lico e a de pessoa LGBT. Tens\u00e3o esta que pode ser dif\u00edcil de suportar para muitas e muitos, em particular para os mais jovens<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<h4><em>Todos concordamos que um dos principais efeitos do estigma \u2013 seja ele interpares\/social [&#8230;] ou religioso [&#8230;] \u2013 \u00e9 minar o sentimento de identidade da pr\u00f3pria pessoa, ent\u00e3o o cuidado pastoral dispensado \u00e0s pessoas cat\u00f3licas LGBT deve ir precisamente no sentido de o restaurar, bem como na reconcilia\u00e7\u00e3o destas pessoas com a mesma igreja, da qual se afastaram, tantas vezes, num profundo sentimento de dor e amargura<\/em><\/h4>\n<p><strong>O Primeiro Estigma<\/strong><\/p>\n<p>Provavelmente o local onde menos se pensaria existir um estigma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas cat\u00f3licas LGBT seria interpares, isto \u00e9, no seio da pr\u00f3pria comunidade LGBT. No entanto, \u00e9 precisamente aqui que se assiste ao primeiro estigma. Na sua esmagadora maioria constitu\u00edda por agn\u00f3sticos e ateus, ou mesmo por cat\u00f3licas e cat\u00f3licos profundamente marcados pela rejei\u00e7\u00e3o por parte da igreja, esta comunidade olha com particular desconfian\u00e7a para estas pessoas, n\u00e3o percebendo muitas vezes a sua persist\u00eancia na f\u00e9 e, mesmo, por mostrarem o seu desacordo em rela\u00e7\u00e3o a determinados comportamentos \u00abmais desinibidos\u00bb por parte de algumas pessoas LGBT. A este t\u00edtulo veja-se, por exemplo, que a presen\u00e7a de cat\u00f3licas e cat\u00f3licos LGBT nas marchas LGBT \u00e9 vista como algo de inusitado, quase como se aquelas pessoas n\u00e3o devessem estar ali. Lembremo-nos que h\u00e1 alguns anos constituiu um verdadeiro espanto a presen\u00e7a de um elemento da <em>Rumos Novos<\/em> que no seio das interven\u00e7\u00f5es no final da marcha, em Lisboa, subiu ao palanque para falar de Cristo; ou, mais recentemente, como s\u00e3o acolhidos com algumas vaias e assobios as interven\u00e7\u00f5es de elementos de grupos LGBT cat\u00f3licos em marchas um pouco por todo o lado. Embora possamos afirmar que muito j\u00e1 se fez em rela\u00e7\u00e3o a este estigma, ele ainda continua bem presente no seio da comunidade LGBT o que marginaliza ainda mais um grupo de pessoas j\u00e1 estigmatizadas.<\/p>\n<p><strong>O Segundo Estigma<\/strong><\/p>\n<p>As posi\u00e7\u00f5es assumidas em in\u00fameros documentos e pronunciamentos da Igreja Cat\u00f3licas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 homossexualidade e ao acolhimento das pessoas cat\u00f3licas LGBT t\u00eam contribu\u00eddo para prolongar no tempo a presen\u00e7a daquilo a que denominarei o segundo estigma, ou seja, a rejei\u00e7\u00e3o por parte de amplos setores da Igreja Cat\u00f3lica institucional<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> das pessoas cat\u00f3licas LGBT, ou a imposi\u00e7\u00e3o de determinados comportamentos que v\u00e3o contra a natureza destas pessoas. Esta rejei\u00e7\u00e3o contribui, ainda mais, para a estigmatiza\u00e7\u00e3o das pessoas cat\u00f3licas LGBT, j\u00e1 de si marcadas pelo preconceito social e que no local onde esperariam ser acolhidas \u2013 a igreja \u2013 encontram, antes, portas que se fecham e m\u00e3os que n\u00e3o acolhem.<\/p>\n<p>Este estigma torna grande e pesado o pecado da igreja em rela\u00e7\u00e3o a estes fi\u00e9is, pois tantas vezes as suas atitudes s\u00e3o precisamente a nega\u00e7\u00e3o da mensagem do pr\u00f3prio Jesus Cristo de que a Igreja cat\u00f3lica deve ser testemunha fiel. Tornam-se particularmente graves todas as atitudes discriminat\u00f3rias que t\u00eam conduzido a tantos suic\u00eddios, depress\u00f5es e mergulhos em estilos de vida que nunca teriam acontecido se, desde sempre, a atitude fosse de acolhimento e de inclus\u00e3o, pois estas pessoas necessitam na sua igreja de uma m\u00e3o aberta que as acolha e n\u00e3o de um punho cerrado que as derrube.<\/p>\n<p>A necessidade de ultrapassar este estigma encontra algum respaldo no atual Papa, n\u00e3o somente na cadeira de Pedro, mas igualmente na sua posi\u00e7\u00e3o anterior enquanto arcebispo de Buenos Aires e na sua disponibilidade de estender a m\u00e3o a todas e todos os que se encontram nas periferias da sociedade, com particular \u00eanfase para aquilo a que o Papa chama de \u00abperiferias existenciais\u00bb, que incluem os divorciados recasados e as pessoas LGBT.<\/p>\n<p>O modo como esta aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade das pessoas LGBT e consequentemente o in\u00edcio da \u00absuaviza\u00e7\u00e3o\u00bb deste segundo estigma ser\u00e1 colocado em pr\u00e1tica e compaginado com os ensinamentos tradicionais da Igreja \u00e9 algo que ainda merece um aceso debate no seio da Igreja Cat\u00f3lica. Para explorar a forma como este estigma de se ser LGBT e cat\u00f3lico pode ser abordado, parece-me necess\u00e1rio fazer tr\u00eas coisas: primeira, explorar as origens religiosas poss\u00edveis do estigma de que as pessoas cat\u00f3licas LGBT s\u00e3o objeto; segunda, examinar que abordagens pastorais prop\u00f5e a Igreja para estas pessoas; finalmente, que prop\u00f5em as pessoas cat\u00f3licas LGBT \u00e0 sua igreja.<\/p>\n<h4><em>O Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, no seu par\u00e1grafo 2358, afirma que \u00abum n\u00famero consider\u00e1vel de homens e de mulheres apresenta tend\u00eancias homossexuais profundamente radicadas\u2026 Devem ser acolhidos com respeito, compaix\u00e3o e delicadeza. Evitar-se-\u00e1, em rela\u00e7\u00e3o a eles, qualquer sinal de discrimina\u00e7\u00e3o injusta\u00bb<\/em><\/h4>\n<p><strong>Religi\u00e3o e Homossexualidade<\/strong><\/p>\n<p>Os textos judaico-crist\u00e3os cont\u00eam condena\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas do comportamento homossexual, particularmente o masculino, caldeadas por refer\u00eancias que alguns interpretam como er\u00f3ticas em rela\u00e7\u00e3o ao futuro rei David e J\u00f3natas e em rela\u00e7\u00e3o ao amor particular de Jesus por um dos seus disc\u00edpulos, tradicionalmente identificado por Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>O cerne da quest\u00e3o \u00e9 sabermos at\u00e9 que ponto \u2013 pelo menos, na linha da nossa tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 \u2013 \u00e9 que as condena\u00e7\u00f5es tradicionais referentes ao comportamento homossexual podem ser transpostas e aplicadas ao que podemos denominar como uma situa\u00e7\u00e3o completamente nova hoje vivida e que, certamente, n\u00e3o \u00e9 aquela abordada nos textos b\u00edblicos, ou mesmo aquela a que se referem os te\u00f3logos na linha mais tradicional da igreja cat\u00f3lica, se considerarmos que as pessoas n\u00e3o se comprometem em atos homossexuais, mas antes vivem toda a sua orienta\u00e7\u00e3o sexual direcionada para pessoas do seu pr\u00f3prio sexo. Por exemplo, James Alison, antigo sacerdote jesu\u00edta, defende que esta situa\u00e7\u00e3o completamente nova necessita, por parte da igreja, que se proceda a uma revis\u00e3o completa das atitudes da hierarquia cat\u00f3lica face \u00e0 homossexualidade, argumentando que se a Gra\u00e7a assenta na Natureza, ent\u00e3o a descoberta da orienta\u00e7\u00e3o homossexual \u00e9 um facto simples da Natureza e n\u00e3o um desvio do des\u00edgnio de Deus ou da lei natural. Contudo, posso sublinhar que, at\u00e9 h\u00e1 bem pouco tempo, os documentos oficiais do Vaticano sobre a homossexualidade escamotearam claramente a sua condi\u00e7\u00e3o permanente, certamente por receio de interpreta\u00e7\u00f5es mais abrangentes como a de James Alison. Em vez disso, esses documentos faziam a distin\u00e7\u00e3o clara entre aquilo que se considerava a homossexualidade enquanto condi\u00e7\u00e3o \u2013 descrita como objetivamente desordenada, mas n\u00e3o em si pecaminosa \u2013 e o comportamento homossexual, sempre descrito como pecado grave.<\/p>\n<p>Aqui chegados ser\u00e1 leg\u00edtimo que nos perguntemos: se esta \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o formal e oficial da igreja cat\u00f3lica, como podem as pessoas LGBT n\u00e3o sofrer com o sentimento de serem estigmatizadas pela sua pr\u00f3pria igreja? Contudo, podemos igualmente reter que muitos cat\u00f3licos e cat\u00f3licas \u2013 incluindo muitos membros da hierarquia \u2013 n\u00e3o pensam desta forma e creem ser poss\u00edvel conduzir a sua sexualidade de uma forma que esteja em conson\u00e2ncia com aquilo que \u00e9 proposto pelo Evangelho. Nesta situa\u00e7\u00e3o encontra-se a <em>Rumos Novos \u2013 Cat\u00f3licas e Cat\u00f3licos<\/em> LGBT.<\/p>\n<p>Consideremos ainda que este estigma \u2013 bem como aquele que considerei o n\u00famero um \u2013 tem ra\u00edzes num passado remoto e que n\u00e3o podemos associar exclusivamente, mas tamb\u00e9m, devido \u00e0 a\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria igreja. Desta forma, a pr\u00f3pria comunidade cat\u00f3lica LGBT deve ser chamada, ela pr\u00f3pria, a ser a principal agente de mudan\u00e7a das mentalidades encontrando a verdadeira identidade da cat\u00f3lica e do cat\u00f3lico LGBT modernos. O desafio para a igreja ser\u00e1 o de discernir se pode ajudar neste processo e se o pode fazer enquanto permanece fiel aos seus princ\u00edpios fundadores.<\/p>\n<p>Todos concordamos que um dos principais efeitos do estigma \u2013 seja ele interpares\/social, como no primeiro caso, ou religioso, como no segundo \u2013 \u00e9 minar o sentimento de identidade da pr\u00f3pria pessoa, ent\u00e3o o cuidado pastoral dispensado \u00e0s pessoas cat\u00f3licas LGBT deve ir precisamente no sentido de o restaurar, bem como na reconcilia\u00e7\u00e3o destas pessoas com a mesma igreja, da qual se afastaram, tantas vezes, num profundo sentimento de dor e amargura. As duas formas de alcan\u00e7ar este desiderato s\u00e3o atrav\u00e9s de grupos de apoio \u2013 formados pelas pr\u00f3prias pessoas cat\u00f3licas LGBT, como acontece com a <em>Rumos Novos<\/em> \u2013 e da dire\u00e7\u00e3o espiritual individualizada \u2013 criados pela pr\u00f3pria hierarquia cat\u00f3lica, como acontece j\u00e1 em alguns pa\u00edses europeus, no Brasil e nos Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>Que prop\u00f5e a Igreja \u00e0s pessoas cat\u00f3licas LGBT<\/strong><\/p>\n<p>A Igreja cat\u00f3lica afirma que existe um valor moral universal dos atos humanos, independente das circunst\u00e2ncias desses atos, pelo que considera os atos homossexuais \u00abobjetivos\u00bb como pecaminosos. Contudo, ela distingue a moralidade dos atos da responsabilidade das pessoas que os vivem. Nas situa\u00e7\u00f5es \u00abhomoafetivas\u00bb, a Igreja cat\u00f3lica n\u00e3o aprova a passagem ao ato sexual, reconhecendo embora que a avalia\u00e7\u00e3o da liberdade real e, portanto, da responsabilidade moral das pessoas \u00e9 sempre dif\u00edcil de fazer. Uma pessoa homossexual n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel pela sua orienta\u00e7\u00e3o psicoafetiva e n\u00e3o controla necessariamente a sua express\u00e3o. Na teologia contempor\u00e2nea, o argumento central assenta numa antropologia onde a diferen\u00e7a dos sexos, com o seu significado teol\u00f3gico \u2013 a uni\u00e3o entre homem e mulher \u00e0 imagem da rela\u00e7\u00e3o com Deus \u2013 seja um elemento essencial de identidade e do devir humano, na sua dimens\u00e3o sexual, conjugal e procriativa: a humanidade \u00e9 criada na complementaridade do homem e da mulher (Gn 2, 20-24), \u00ab\u00e0 imagem de Deus\u00bb (Gn 1, 27) e abertos \u00e0 procria\u00e7\u00e3o, pelo que os atos homossexuais s\u00e3o considerados objetivamente desordenados, pois \u00abo prazer sexual \u00e9 moralmente desordenado quando procurado por si mesmo, isolado das finalidades da procria\u00e7\u00e3o e da uni\u00e3o\u00bb<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>A resposta pastoral da Igreja \u00e0s pessoas LGBT deve envolver uma atitude de respeito e um acompanhamento da sua situa\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m da vida sacramental, ora\u00e7\u00e3o, aconselhamento e acompanhamento individual, de modo a que toda a comunidade crist\u00e3 possa reconhecer o seu chamamento \u00e0 ajuda destes seus irm\u00e3os e irm\u00e3s, sem os marginalizar ou for\u00e7ar ao isolamento. As pessoas LGBT s\u00e3o, assim, \u00abchamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e\u2026 a unir ao sacrif\u00edcio da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o\u00bb<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, sendo convidadas \u00ab\u00e0 castidade\u00bb<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<h4><em>[&#8230;] como nos lembra o Vaticano II, \u00abAs alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos homens do mundo atual, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, s\u00e3o tamb\u00e9m as alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos disc\u00edpulos de Cristo e n\u00e3o h\u00e1 nada de verdadeiramente humano que n\u00e3o encontre eco no seu cora\u00e7\u00e3o\u00bb<\/em><\/h4>\n<p><strong>Que propomos \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica<\/strong><\/p>\n<p>O Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, no seu par\u00e1grafo 2358, afirma que \u00abum n\u00famero consider\u00e1vel de homens e de mulheres apresenta tend\u00eancias homossexuais profundamente radicadas\u2026 Devem ser acolhidos com respeito, compaix\u00e3o e delicadeza. Evitar-se-\u00e1, em rela\u00e7\u00e3o a eles, qualquer sinal de discrimina\u00e7\u00e3o injusta\u00bb.<\/p>\n<p>Alicer\u00e7ados nestes pressupostos, nas palavras do pr\u00f3prio Papa Francisco e num n\u00famero cada vez maior de leigos comprometidos, sacerdotes e membros da hierarquia \u00e9 poss\u00edvel considerar que o acolhimento com respeito, compaix\u00e3o e delicadeza, de ambas as partes \u2013 pessoas cat\u00f3licas LGBT e igreja institucional \u2013 ser\u00e1 a chave para fraternalmente ser poss\u00edvel todas e todos continuarmos sendo igreja.<\/p>\n<p>Atualmente a Igreja est\u00e1 confrontada, tal como o conjunto da sociedade, com um dado novo: um conjunto de fi\u00e9is que sendo homossexuais n\u00e3o se reveem nos ensinamentos tradicionais da igreja sobre a sexualidade humana, mas pretendem seguir as suas vidas como cat\u00f3licas e cat\u00f3licos, no seio de rela\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis, est\u00e1veis e perenes. Esta identidade \u00abhomossexual\u00bb \u00e9 algo de novo, n\u00e3o existia nos s\u00e9culos passados, nem nunca existiu, pois, como t\u00e3o bem o sublinhou Michel Foucault, no passado somente conhecemos as \u00abpr\u00e1ticas homoer\u00f3ticas\u00bb. A abordagem psicom\u00e9dica das sexualidades e da homossexualidade desenvolvida no s\u00e9culo XIX, colocou progressivamente em destaque a sexualidade e a orienta\u00e7\u00e3o sexual, como \u00abverdade\u00bb do sujeito. Na sua realidade e na sua express\u00e3o, a orienta\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 considerada atualmente como a marca da autenticidade da pessoa e das suas aspira\u00e7\u00f5es mais profundas.<\/p>\n<p>A Igreja deve ouvir essas expectativas e a quest\u00e3o fundamental diz respeito ao realismo e ao acompanhamento. Na diversidade das situa\u00e7\u00f5es de facto (vida em casal ou sozinho) e dos tipos de sexualidades, eventualmente em contradi\u00e7\u00e3o com as suas prescri\u00e7\u00f5es, a Igreja deve, no entanto, refletir sobre a maneira de acompanhar as pessoas homossexuais, como o faz com os heterossexuais, em dire\u00e7\u00e3o a uma maior fidelidade, respeito e amor ao pr\u00f3ximo, numa caminhada humana e espiritual e n\u00e3o a viv\u00eancia de um amor sem atos sexuais, mesmo quando os c\u00f4njuges vivem sob o mesmo teto. \u00c9 precisamente a constru\u00e7\u00e3o de uma ponte de escuta, compreens\u00e3o e caminhada m\u00fatuos aquilo que as pessoas cat\u00f3licas LGBT, atrav\u00e9s da <em>Rumos Novos<\/em>, prop\u00f5em \u00e0 sua igreja e \u00e0 sociedade, como forma de ultrapassar esta dupla estigmatiza\u00e7\u00e3o. Por isso a <em>Rumos Novos<\/em> organiza-se de modo a unir as cat\u00f3licas e os cat\u00f3licos LGBT, bem como as suas fam\u00edlias, amigos e pessoas queridas de modo a que todas e todos nos capacitemos para ser um instrumento atrav\u00e9s do qual possamos ser\u00a0ouvidos pela Igreja e promover nela as necess\u00e1rias reformas, que permitam desenvolver uma teologia sobre toda a sexualidade que conduza \u00e0 reforma dos ensinamentos atuais da igreja respeitantes \u00e0 sexualidade humana, bem como para a aceita\u00e7\u00e3o das cat\u00f3licas e dos cat\u00f3licos LGBT como membros completos e iguais do \u00fanico Cristo Salvador, pois, como nos lembra o Vaticano II, \u00abAs alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos homens do mundo atual, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, s\u00e3o tamb\u00e9m as alegrias e as esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias dos disc\u00edpulos de Cristo e n\u00e3o h\u00e1 nada de verdadeiramente humano que n\u00e3o encontre eco no seu cora\u00e7\u00e3o\u00bb<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Vaticano, Carta da CDF \u00abSobre o Cuidado Pastoral das Pessoas Homossexuais\u00bb outubro de 1986.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Estudos internacionais v\u00e1rios permitem demonstrar que, por exemplo, a taxa de adolescentes LGBT com um historial de, pelo menos, uma tentativa de suic\u00eddio no ano anterior \u00e9 de cerca de 29% contra 6% dos adolescentes heterossexuais (Kann L, Olsen EO, McManus T, et al. Sexual Identity, Sex of Sexual Contacts, and Health-Related Behaviors Among Students in Grades 9-12 \u2013 United States and Selected Sites, 2015. MMWR Surveill Summ 2016; 65(9): 1-202)<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Express\u00e3o utilizada como facilidade de linguagem e referindo-se aos setores que, no seio da Igreja cat\u00f3lica, t\u00eam o poder de decis\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, p. 2351.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Ibidem, p. 2358.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ibidem, p. 2359.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Constitui\u00e7\u00e3o <em>Gaudium et spes<\/em>, sobre a Igreja no mundo atual, n.\u00ba 1.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] Uma reflex\u00e3o de\u2026 Jos\u00e9 Leote, Fundador e Coordenador Nacional da Rumos Novos &#8211; Cat\u00f3licas e Cat\u00f3licos LGBT &nbsp; Contactos: Rumos Novos \u2013 Cat\u00f3licas e Cat\u00f3licos LGBT Blog \/ Facebook &nbsp; Data 21 de fevereiro de 2018 [\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]A Rumos Novos \u2013 Cat\u00f3licas e Cat\u00f3licos LGBT, fundada em 1 de maio de 2008, \u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":500,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[816,36,55,56],"tags":[562,559,558,564,561,71,563,182,560],"class_list":["post-7871","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-de-opiniao","category-noticias","category-noticias-relacionadas","category-saude-sexual","tag-catolicismo","tag-catolicos","tag-cristaos","tag-gays","tag-homossexuais-catolicos","tag-homossexualidade","tag-lesbicas","tag-lgbt","tag-novos-rumos"],"featured_image_src":{"landsacpe":false,"list":false,"medium":false,"full":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7871","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/500"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7871"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7871\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9214,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7871\/revisions\/9214"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7871"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7871"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7871"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}