{"id":7908,"date":"2018-03-26T17:29:12","date_gmt":"2018-03-26T17:29:12","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7908"},"modified":"2019-03-25T18:09:17","modified_gmt":"2019-03-25T18:09:17","slug":"no-consultorio-medico-vivemos-ainda-um-pacto-de-silencio-em-relacao-a-sexualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2018\/03\/26\/no-consultorio-medico-vivemos-ainda-um-pacto-de-silencio-em-relacao-a-sexualidade\/","title":{"rendered":"No consult\u00f3rio m\u00e9dico \u201cvivemos ainda um pacto de sil\u00eancio\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/2.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7915\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/2-203x300.png\" alt=\"\" width=\"203\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong>\u00c0 conversa com\u2026<\/strong><br \/>\nLet\u00edcia Abreu \u00e9 especialista em medicina geral e familiar, e sex\u00f3loga. Respons\u00e1vel pela <a href=\"https:\/\/www.sesaram.pt\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=4109:consulta-de-medicina-sexual-no-bom-jesus&amp;catid=167&amp;Itemid=519\">consulta de Medicina Sexual<\/a> do Centro de Sa\u00fade do Bom Jesus, no Funchal (Madeira).<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Percursos\u2026<br \/>\n<\/strong>Licenciada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra; Terapeuta sexual pela Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica (V Curso de P\u00f3s Gradua\u00e7\u00e3o em Sexologia Cl\u00ednica, com ano pr\u00e1tico no Hospital de S\u00e3o Jo\u00e3o no Porto, sob orienta\u00e7\u00e3o da Dra. M\u00e1rcia Mota); VI Curso de Medicina Sexual, da Sociedade Europeia de Medicina Sexual (ESSM), em Oxford, que permitiu acesso ao 1\u00ba Exame Europeu de Medicina Sexual (grau de Fellowship pelo European Committee of Sexual Medicine).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n26 de Mar\u00e7o de 2018<\/p>\n<div><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Entrevista<br \/>\n<\/strong>Isabel Freire<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]<strong>Let\u00edcia Abreu \u00e9 m\u00e9dica de fam\u00edlia e respons\u00e1vel de uma consulta de Medicina Sexual, no Funchal. Considera que para muitos\/as especialistas \u00e9 ainda complicada a abordagem da sexualidade com o doente, no consult\u00f3rio. &#8220;Porque se sentem pouco \u00e0 vontade. Porque o tempo da consulta \u00e9 limitado. Porque receiam \u2018abrir uma caixa de Pandora\u2019 e n\u00e3o saber o que fazer depois com ela&#8221;. Quanto medo temos ainda da sa\u00fade sexual, mesmo em contextos de sa\u00fade? E fora deles? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Let\u00edcia Abreu defende que precisamos investir na forma\u00e7\u00e3o junto de estudantes de medicina, e dar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 <\/strong><strong>preven\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade sexual. M\u00e9dicos de fam\u00edlia e m\u00e9dicos de sa\u00fade p\u00fablica precisam trabalhar em parceria, criando Programas de Forma\u00e7\u00e3o e de Atua\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel das institui\u00e7\u00f5es de ensino e de solidariedade social, dando forma\u00e7\u00e3o aos utentes e profissionais.<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica \u2013 O tema da sexualidade \u00e9 hoje uma narrativa f\u00e1cil ou dif\u00edcil no consult\u00f3rio? Para quem e em que medida?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Let\u00edcia Abreu \u2013 <\/strong>Esse foi o tema da minha investiga\u00e7\u00e3o no Curso de Sexologia Cl\u00ednica (da SPSC). <em>Os m\u00e9dicos de fam\u00edlia indagam os utentes (de ambos os sexos) sobre a sexualidade? Se n\u00e3o o fazem, quais s\u00e3o os motivos?<\/em> Estas eram as minhas interroga\u00e7\u00f5es. Conclu\u00ed que a maioria s\u00f3 indagava sobre o tema se os utentes o fizessem primeiro. E porqu\u00ea? Porque se sentem pouco \u00e0 vontade. Porque o tempo da consulta \u00e9 limitado. Porque receiam \u2018abrir uma caixa de Pandora\u2019 e n\u00e3o saber o que fazer depois com ela. Vivemos ainda um pacto de sil\u00eancio. O profissional espera que seja o utente a tomar iniciativa. O utente espera o mesmo do profissional. E isto \u00e9 extens\u00edvel \u00e0s diversas especialidades m\u00e9dicas que lidam com esta vertente da sa\u00fade. A normaliza\u00e7\u00e3o destes temas (n\u00e3o a sua banaliza\u00e7\u00e3o) tem ajudado colegas a estarem mais confort\u00e1veis na sua abordagem. Mas \u00e9 necess\u00e1rio promover o conhecimento da sexualidade, a montante, durante a forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria. No estudo que desenvolvi, a maioria dos colegas admitiu n\u00e3o ter tido qualquer forma\u00e7\u00e3o sobre sexualidade (ou apenas no\u00e7\u00f5es m\u00ednimas).<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Faz sentido o\/a m\u00e9dico\/a de fam\u00edlia perguntar numa consulta de rotina, como vai o apetite, o sono, a sexualidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LA \u2013 <\/strong>Obviamente! Num pa\u00eds onde a preval\u00eancia de problemas de sa\u00fade mental \u00e9 grande, essas s\u00e3o as tr\u00eas quest\u00f5es basilares para o seu despiste. A precariedade do estado social, o empobrecimento das massas, os baixos rendimentos da classe m\u00e9dia, causaram um aumento das situa\u00e7\u00f5es vulgo \u201csociais\u201d, dos transtornos de car\u00e1cter psicog\u00e9nico, dos comportamentos marginais. O papel do m\u00e9dico de fam\u00edlia \u00e9 de diagn\u00f3stico precoce, numa perspectiva sist\u00e9mica, compreendendo o indiv\u00edduo como estando integrado num contexto familiar e social. Deparo-me algumas vezes com situa\u00e7\u00f5es caricatas. Utentes medicados para um s\u00edndrome depressivo, sem an\u00e1lise do contexto familiar\/conjugal (terreno f\u00e9rtil para a disfun\u00e7\u00e3o sexual que surgiu depois). Utentes com disfun\u00e7\u00e3o sexual (com repercuss\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o do casal) que deprimem \u00e0 posteriori, sem que \u2013 por receio \u2013 se tenha explorado o que surgiu primeiro. Um receio bilateral (m\u00e9dico\/utente) de falar sobre o que \u00e9 sexual. Utentes oncol\u00f3gicos, uma popula\u00e7\u00e3o que vejo a crescer, e a quem \u2018esquecemos\u2019 (ou preferimos omitir) o que \u00e9 da esfera da sua sexualidade. \u00c9 imperativo mudar mentalidades. Entenda-se, mentalidades do doente e do profissional. Referindo-se a sobreviventes do Holocausto, Esther Perel diz: \u201cH\u00e1 aqueles que sobreviveram e aqueles que aprenderam a reviver\u201d. Temos o dever enquanto profissionais de ajudar doentes oncol\u00f3gicos a aprender a reviver.<\/p>\n<h4><em>Entendo que, da perspectiva do profissional, seja mais f\u00e1cil ignorar o que se esconde nos bastidores do problema e simplesmente prescrever uma terap\u00eautica. Simples, r\u00e1pido, mas pouco eficaz. H\u00e1 problemas puramente m\u00e9dicos ou m\u00e9dico-cir\u00fargicos, e deve ser sempre feito o despiste org\u00e2nico. Por\u00e9m, quando se observa o casal, e n\u00e3o apenas aquele que colocou o problema, \u00e9 surpreendente o que se descobre<\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC \u2013 Numa consulta de pediatria, a m\u00e9dica perguntou \u00e0 minha filha (ent\u00e3o com 5 anos), se j\u00e1 namorava, dizendo-lhe descontraidamente que as crian\u00e7as podiam namorar com crian\u00e7as, s\u00f3 n\u00e3o podiam \u2013 nunca \u2013 namorar com adultos. O que podem os especialistas em medicina geral e familiar fazer pela preven\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e direitos sexuais na inf\u00e2ncia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LA \u2013<\/strong> Faz todo o sentido a observa\u00e7\u00e3o da pediatra. As consultas de Sa\u00fade Infantil est\u00e3o estipuladas pela Dire\u00e7\u00e3o Geral de Sa\u00fade, de acordo com idades-chave. A abordagem (ainda que breve) pode e deve ser assertiva. Contudo, n\u00e3o \u00e9 suficiente. Entendo que o m\u00e9dico de fam\u00edlia tem um papel na comunidade. Deve colaborar com escolas, lares de acolhimento, for\u00e7as policiais e outras institui\u00e7\u00f5es de \u00e2mbito social, dando forma\u00e7\u00e3o aos utentes e profissionais. Temos de apostar na Preven\u00e7\u00e3o e Promo\u00e7\u00e3o da Sa\u00fade. O ideal seria uma parceria entre m\u00e9dicos de fam\u00edlia e m\u00e9dicos de sa\u00fade p\u00fablica, com a cria\u00e7\u00e3o de Programas de Forma\u00e7\u00e3o e de Atua\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel das institui\u00e7\u00f5es de ensino e de solidariedade social. \u00c9 importante sensibilizar professores e educadores para no\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas do desenvolvimento psicossexual das crian\u00e7as e jovens. Esta informa\u00e7\u00e3o ajuda os profissionais a distinguir comportamentos desviantes ou \u2018suspeitos\u2019 numa crian\u00e7a\/jovem v\u00edtima de abuso. A dar-lhes informa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a. Por exemplo, a import\u00e2ncia de saber distinguir a esfera publica da esfera privada. A import\u00e2ncia de identificar os toques \u201cOK\u201d dos toques \u201cN\u00e3o OK\u201d. A import\u00e2ncia de veicular a no\u00e7\u00e3o de que o corpo \u00e9 da crian\u00e7a, de trabalhar as emo\u00e7\u00f5es e o reconhecimento das mesmas nos outros, da no\u00e7\u00e3o dos limites de si e do outro. Se come\u00e7armos a sensibilizar todos os profissionais em forma\u00e7\u00e3o e se conseguirmos o mesmo na comunidade teremos j\u00e1 feito muito. Mas este deve ser um trabalho cont\u00ednuo.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 E na adolesc\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LA \u2013 <\/strong>Na adolesc\u00eancia fazem-se sentir as ondas de propaga\u00e7\u00e3o daquela (in)forma\u00e7\u00e3o que foi (ou n\u00e3o) transmitida na inf\u00e2ncia. Estamos sempre muito focados na preven\u00e7\u00e3o das IST e da gravidez na adolesc\u00eancia. Esquecemo-nos do resto. Ainda que a Educa\u00e7\u00e3o Sexual esteja legislada, o professor que lecciona \u00e9 nomeado sem se indagar da sua capacidade ou conhecimentos. O conte\u00fado program\u00e1tico (se houver tempo para o leccionar) resume-se muitas vezes \u00e0s fun\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas e reprodutivas da sexualidade. N\u00e3o podemos deixar de debater com os adolescentes, por exemplo, al\u00e9m da Informa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, a Informa\u00e7\u00e3o de Seguran\u00e7a. Por exemplo, se o abuso sexual implica o toque (ou n\u00e3o). Se h\u00e1 fronteiras que n\u00e3o devem ser ultrapassadas nas rela\u00e7\u00f5es de namoro. Se (e como) nos devemos preocupar com a seguran\u00e7a em encontros online (<em>chatrooms<\/em>). \u00c9 necess\u00e1rio refor\u00e7ar com os adolescentes o tema dos limites, do reconhecimento das emo\u00e7\u00f5es em si e no outro, educar para a diferen\u00e7a, para as emo\u00e7\u00f5es e os afectos. Esta lacuna a montante faz culminar a viol\u00eancia no namoro nesta faixa et\u00e1ria. A colabora\u00e7\u00e3o de um m\u00e9dico de fam\u00edlia \u2013 devidamente formado \u2013 \u00e9 valios\u00edssima. Pode ajudar a elaborar programas de forma\u00e7\u00e3o para os profissionais e utentes; protocolos de actua\u00e7\u00e3o e encaminhamento; divulga\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de atendimento ao jovem, etc.. Em suma, servir de elo de liga\u00e7\u00e3o entre o Sistema Nacional de Sa\u00fade e o exterior.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Que sensibilidade vem encontrando \u2013 entre especialistas de medicina geral e familiar \u2013 relativamente ao peso das quest\u00f5es da sa\u00fade (e direitos) sexuais (e de g\u00e9nero), para o bem-estar e qualidade de vida das pessoas? <\/strong><\/p>\n<p><strong>LA \u2013<\/strong> Vejo-o em crescendo. \u00c9 minha convic\u00e7\u00e3o que o m\u00e9dico de fam\u00edlia est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o privilegiada para abordar estas quest\u00f5es. V\u00ea o utente no seu todo, sendo mais f\u00e1cil fazer diagn\u00f3sticos diferenciais e portanto afunilando hip\u00f3teses e solu\u00e7\u00f5es! Esta abrang\u00eancia \u00e9 muito subestimada e desvalorizada pelos utentes, pelos colegas e muitas vezes pelos pr\u00f3prios. Precisamos reconhecer e lidar com os nossos vieses e preconceitos. S\u00f3 depois estaremos mais \u201clivres\u201d para essa sensibilidade e para nos sentirmos confort\u00e1veis ao abordar a esfera sexual no outro.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 E ao n\u00edvel da gest\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica? H\u00e1 sensibilidade para a import\u00e2ncia das quest\u00f5es da sa\u00fade sexual, para al\u00e9m da dimens\u00e3o reprodutiva? <\/strong><\/p>\n<p><strong>LA \u2013 <\/strong>O Estado diminuiria a despesa se apostasse na preven\u00e7\u00e3o. Se a import\u00e2ncia dada \u00e0 sexualidade transbordasse a perspectiva meramente reprodutiva, os doentes oncol\u00f3gicos seriam mais acompanhados, os quadros de dor na mulher n\u00e3o seriam banalizados (nem subestimado o seu impacto), o casal inf\u00e9rtil seria abordado de forma hol\u00edstica, as Perturba\u00e7\u00f5es da Identidade de G\u00e9nero seriam asseguradas multidisciplinarmente, sem morosidade exasperante. Poderia dar outros in\u00fameros exemplos. Mas o caminho faz-se caminhando. Desde as primeiras dilig\u00eancias para instituir a consulta de sexologia, n\u00e3o foram poucas as vezes em que me vi confrontada com coment\u00e1rios sexistas, piadas com humor pouco refinado e alguma altivez, proveniente de pessoas do secretariado, aos servi\u00e7os inform\u00e1ticos, passando por profissionais de sa\u00fade e \u00f3rg\u00e3os de gest\u00e3o. Ainda ou\u00e7o quando fa\u00e7o apresenta\u00e7\u00f5es que me s\u00e3o solicitadas. Confunde-se muito a esfera profissional com pessoal e facilmente se d\u00e3o r\u00f3tulos \u00e0s pessoas. Especialmente em s\u00edtios pequenos, como \u00e9 o caso. Devo confessar que senti alguma relut\u00e2ncia em iniciar cl\u00ednica neste \u00e2mbito, n\u00e3o s\u00f3 pelo isolamento sentido, mas tamb\u00e9m pela pouca receptividade \u00e0 iniciativa. Tenta-se mudar mentalidades, posturas, pol\u00edticas. Por outro lado, as exig\u00eancias pr\u00f3prias de um exerc\u00edcio consciente, exigente e atualizado, t\u00eam sido suportadas individualmente (sem apoio institucional, em termos financeiros ou culturais). Apesar disso, tem sido uma experi\u00eancia apaixonante, repleta de desafios e projetos, em termos formativos e cl\u00ednicos.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 <\/strong><strong>Uma \u2018engenharia do sil\u00eancio\u2019 relativamente \u00e0 sexualidade marcou v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es que foram educadas durante o Estado Novo. Hoje n\u00e3o faltam discursos sobre sexualidade nas esferas medi\u00e1ticas e p\u00fablicas. Na sua pr\u00e1tica cl\u00ednica sente que as pessoas est\u00e3o informadas, conhecem o seu corpo, lidam abertamente com a sua sexualidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LA \u2013 <\/strong>\u00c9 verdade que havia o medo e da censura. Por outro lado parece-me que o erotismo era mais rico em detalhes. Hoje fala-se abertamente sobre sexualidade. Mas n\u00e3o estaremos a banalizar e empobrecer estes discursos, limitando-o \u00e0 corporalidade e \u00e0 genitalidade? As pessoas acham que existe um n\u00famero de rela\u00e7\u00f5es sexuais a ter por dia, por semana, por m\u00eas. Que a sexualidade s\u00f3 tem lugar para os jovens, os bonitos e os saud\u00e1veis. Que existe um modelo corporal normativo, sem lugar para a diferen\u00e7a, incentivado pela ind\u00fastria pornogr\u00e1fica e infelizmente aproveitado pela \u00e1rea da cosm\u00e9tica com fins lucrativos pouco l\u00edcitos. O que me parece tamb\u00e9m preocupante \u00e9 a falta de toler\u00e2ncia \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o desde tenra idade, que se reflete mais tarde, nesta incapacidade de \u201ctrabalhar\u201d a descoberta do outro. E que requer tempo, paci\u00eancia, perseveran\u00e7a. O erotismo vai-se perdendo e aumentam-se os problemas relacionais. Estamos a perder as no\u00e7\u00f5es do humanismo. Pass\u00e1mos duma \u201cengenharia do sil\u00eancio\u201d como diz, para uma em que tudo se fala, mas em que se escondem muitos \u201cn\u00e3o ditos\u201d.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 \u00c9 respons\u00e1vel pela <em>Consulta de Medicina Sexual <\/em>no Centro de Sa\u00fade do Bom Jesus, no Funchal. Trata-se de uma consulta interdisciplinar. Trabalha em parceria com uma psic\u00f3loga. O que lhe ensinou a experi\u00eancia cerca desta intera\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LA \u2013<\/strong> Trabalho em estreita rela\u00e7\u00e3o com a Dra. Carla C\u00e2mara (Consulta de Sexologia, Hospital Marmeleiros) que tem sido uma parceira inestim\u00e1vel neste projeto conjunto. Ambas partilhamos a mesma paix\u00e3o e entusiasmo por esta \u201cdisciplina\u201d human\u00edstica que \u00e9 a sexualidade humana e ainda um mesmo sentimento de isolamento, quer pelas idiossincrasias inerentes \u00e0 viv\u00eancia numa ilha, quer pela aus\u00eancia de respostas adequadas do Servi\u00e7o Regional de Sa\u00fade. Tentamos, sempre que poss\u00edvel, reunirmo-nos e discutirmos os casos em comum.<\/p>\n<h4><em>Desde as primeiras dilig\u00eancias para instituir a consulta de sexologia, n\u00e3o foram poucas as vezes em que me vi confrontada com coment\u00e1rios sexistas, piadas com humor pouco refinado e alguma altivez, proveniente de pessoas do secretariado, aos servi\u00e7os inform\u00e1ticos, passando por profissionais de sa\u00fade e \u00f3rg\u00e3os de gest\u00e3o. Ainda ou\u00e7o quando fa\u00e7o apresenta\u00e7\u00f5es que me s\u00e3o solicitadas<\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC \u2013 Pela sua experi\u00eancia cl\u00ednica, a sexualidade \u00e9 vista como \u2018parte de um todo\u2019, na rela\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LA \u2013<\/strong> Quando me referenciam casos de dificuldades sexuais, costumo salientar que se est\u00e1 a observar apenas a ponta do iceberg, subestimando o que se encontra submerso. H\u00e1 uma tend\u00eancia para isolar uma disfun\u00e7\u00e3o sexual de todo o contexto duma rela\u00e7\u00e3o. E \u00e9 muito frequente que isto aconte\u00e7a. Entendo que, da perspectiva do profissional, seja mais f\u00e1cil ignorar o que se esconde nos bastidores do problema e simplesmente prescrever uma terap\u00eautica. Simples, r\u00e1pido, mas pouco eficaz. H\u00e1 problemas puramente m\u00e9dicos ou m\u00e9dico-cir\u00fargicos, e deve ser sempre feito o despiste org\u00e2nico. Por\u00e9m, quando se observa o casal, e n\u00e3o apenas aquele que colocou o problema, \u00e9 surpreendente o que se descobre. Descortinar o contexto relacional \u00e9, no meu ver, condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua non <\/em>para a adequada resolu\u00e7\u00e3o do problema. Do ponto de vista dos doentes, se alguns est\u00e3o dispostos a trabalhar para resolver o problema relacional subjacente e entendem a sua g\u00e9nese, outros preferem que tudo seja solucionado com um simples comprimido azul. Esta medicaliza\u00e7\u00e3o dos problemas relacionais (disfar\u00e7adamente sexuais) \u00e9 validada pelos <em>media<\/em> que difundem a ideia de que a medicina \u00e9 panaceia para qualquer problema.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Como se posiciona relativamente \u00e0 possibilidade de vermos o g\u00e9nero para al\u00e9m de um esquema bin\u00e1rio, de forma diversa, transversa, despatologizada?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LA \u2013<\/strong> Invocando o exemplo de Alfred Kinsey, costumo dizer que se o mundo fosse a preto e branco seria nauseante. Todos somos um espectro entre aquelas duas cores, variando em tonalidades de cinzento. N\u00e3o podemos colocar as pessoas em caixinhas, categorizando-as sob uma chave dicot\u00f3mica. A diversidade na natureza humana sempre existiu e existir\u00e1. A quest\u00e3o est\u00e1 em como cada um de n\u00f3s lida com esse facto. &#8216;Patologizar&#8217; apenas serve para marginalizar, discriminar e perpetuar o sofrimento de quem se sente s\u00f3 entre os demais. \u00c9 cruel. H\u00e1 que respeitar o outro enquanto ser humano integral, dotado de livre arb\u00edtrio e de uma consci\u00eancia moral.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Se pudesse \u2013 por magia \u2013 fazer desaparecer tr\u00eas preconceitos nocivos da sexualidade, que preconceitos (ideias, constru\u00e7\u00f5es sociais) escolhia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LA \u2013 <\/strong>Atualmente ainda se observa um certo consentimento e permiss\u00e3o da viol\u00eancia de um g\u00e9nero sobre outro, designadamente o masculino sobre o feminino (j\u00e1 o contr\u00e1rio \u00e9 tabu pela vergonha do estatuto masculino). Constato ainda um pacto de sil\u00eancio por parte de profissionais e da popula\u00e7\u00e3o. Finge-se que n\u00e3o se v\u00ea. Portanto, escolhia o reconhecimento social de que existe viol\u00eancia de g\u00e9nero. Outra ideia que fazia desaparecer era a primazia dada \u00e0 sexualidade masculina em prol da sexualidade feminina. Pessoalmente, sinto-me indignada por este tratamento preferencial que \u00e9 dado aos problemas sexuais do homem. Veja-se o exemplo da investiga\u00e7\u00e3o em disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9ctil, para a qual de se investe rios de dinheiro, enquanto pouco se investe na \u00e1rea do desejo sexual feminino. Mas h\u00e1 outros exemplos. Relativamente aos s\u00edndromes dolorosos p\u00e9lvicos, prevalece a mentalidade que uma mulher tem de sofrer calada, anos a fio, pois tem de \u201ccumprir o seu dever\u201d marital. E n\u00e3o podia deixar de comentar a pouca relev\u00e2ncia dada ao impacto da doen\u00e7a oncol\u00f3gica (designadamente da mama) na sa\u00fade sexual da mulher, enquanto se apregoa tanto o impacto da doen\u00e7a prost\u00e1tica no desempenho sexual do homem. Finalmente, o pouco cr\u00e9dito dado \u00e0s crian\u00e7as e jovens, enquanto v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual. Persiste n\u00e3o s\u00f3 o descr\u00e9dito como a culpabiliza\u00e7\u00e3o. Estas pessoas s\u00e3o massacradas muitas vezes com interrogat\u00f3rios em catadupa. Poucas s\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es com forma\u00e7\u00e3o adequada para uma abordagem sistematizada (<em>child friendly<\/em>) que apure os factos sem se apontar dedos ou criar bodes expiat\u00f3rios.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Como surgiu o seu interesse pela sexologia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>LA \u2013<\/strong> O contacto constante com mulheres provenientes de v\u00e1rias regi\u00f5es da ilha e com variado estatuto socioecon\u00f3mico, permitiu-me conhecer diferentes realidades e quest\u00f5es do foro sexual muitas vezes n\u00e3o verbalizadas (ou camufladas sob expectativas sociais da mulher).<\/p>\n<p>*A pedido de Let\u00edcia Abreu, o texto desta entrevista n\u00e3o respeita o novo Acordo Ortogr\u00e1fico.[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] \u00c0 conversa com\u2026 Let\u00edcia Abreu \u00e9 especialista em medicina geral e familiar, e sex\u00f3loga. 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